Natureza Humana: Uma proposta radical de psicanálise


“Radical” significa “de raiz”. “Psicanálise” significa “pesquisa para conhecer o funcionamento da mente”. De modo que o título acima pode ser traduzido como “Uma proposta que leva em conta as condições de raiz do funcionamento da mente, para seu conhecimento”. Não há nada mais de raiz em nossa existência que o impulso de reprodução que trazemos em nosso DNA. De fato, reprodução é o único sentido biológico da vida, e tudo decorre dele, inclusive nosso instinto de autopreservação (precisamos estar vivos para reproduzir). Em nossa espécie, a reprodução é sexuada e implica negociação entre as partes. Se imaginarmos uma negociação vantajosa para ambas as partes numa escala de zero a dez, ela irá de zero no estupro troglodita do homem das cavernas, e caminhará para dez quanto mais consensual e civilizado o sexo for.

Nossa espécie é também capaz de consciência, e tem margem crescente de liberdade de arbítrio quanto mais autônomo independente for o indivíduo.

Disso resulta que o arbítrio, a escolha, se dará sobre que tipo de sexo se almeja: estupro ou consensual? Não é uma questão de ou oito ou oitocentos, é uma questão de tendência: teremos mais ou menos consideração pelos interesses e desejos do outro? Usaremos de chantagem, ou de sedução? De força, ou de convencimento? Intimidaremos, ou encantaremos? Não há escapatória: todos nós estaremos diante desse dilema.

Mas o dilema se apresenta apenas no sexo? É evidente que não, ele está diante de nós em toda e qualquer troca humana, em toda conversa, em todo trabalho, em toda criação de filhos. Até em textos que escrevermos estaremos escolhendo: imposição ou convencimento?

A mesma questão se apresenta quando o assunto é política, quando o dilema tem a seguinte tradução: tirania ou democracia? Sim, a metáfora é: a tirania é o estupro; a democracia é o sexo consensual. O que vamos querer? Quanto a isso não há neutralidade nas relações humanas: a escolha se impõe, mesmo se não a explicitarmos. Mesmo se inconsciente, tomaremos um dos dois caminhos, seremos principalmente a favor, ou de um, ou de outro.

O que nos leva à psicanálise. Sim, ela é um método de investigação, um estudo do funcionamento da mente. Mas ela também é uma intervenção terapêutica no indivíduo, o que implica um desejo de interferir nos rumos de sua vida: ela categoriza algo que se passa nele como problema, como doença, e se propõe a ajudá-lo a sair dessa condição. Se concordamos com essa premissa, a psicanálise não pode se pretender “neutra”: ela terá que fazer face ao dilema imposição x convencimento; tirania x democracia.

Freud descreveu a mente com três instâncias, ou, já que estamos falando de política – e há uma política na mente –, “três poderes” que interagem em harmonia ou em conflito: o Id, com suas exigências ligadas à reprodução, seus desejos dela derivados; o Superego, representante do mundo externo, suas leis e suas ameaças; e o Ego, aquilo em que nos reconhecemos como identidade, em permanente conversa com os outros poderes, frequentemente esmagado por eles.

Na política da mente pode também haver tendência à tirania ou à democracia, à imposição ou à boa negociação. Cabe a nós almejar uma delas e lutar por ela.

Mas meu assunto aqui é o que cabe à psicanálise. Como vimos, o que não cabe de jeito nenhum é a neutralidade, pois a doença psíquica bem pode ser definida como a tirania reinando na política mental: ora o Ego (leia-se “nós”) é um joguete nas mãos do Id; ora é um servidor submisso do Superego; ora é como o marisco, espremido na guerra entre o mar e o rochedo.

Eis minha proposta radical de psicanálise: ela precisa se posicionar a favor da democracia e contra a tirania. Vale dizer, a favor do convencimento e contra a imposição; a favor do melhor entendimento entre os poderes psíquicos, para que o Ego possa existir em paz.

A favor do sexo consensual, e contra o estupro.

Você me perguntará como isso se implementa. Pois pretendo responder a essa pergunta de maneira extensa num livro com o mesmo título deste artigo. Este é o meu projeto para o ano de 2018.


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