Natureza Humana: Um dilema de consciência


“O Waze  disse para ir pela direita! Ele sabe melhor que você, ele tem inteligência e informação!”
“Certo, mas eu tenho inteligência e consciência, e prefiro ir pelo caminho de sempre. Não estou tão interessado em ganhar uns minutos, quero mais ver minhas paisagens… externas e internas, ok?”

As pessoas estão abrindo mão de sua autonomia e delegando cada vez mais suas decisões à inteligência artificial, aos algoritmos “sábios”. Que futuro nos aguarda? De carros autônomos e pessoas dependentes, agindo/reagindo no automático?

Segundo Yuval Harari (em “Homo Deus”), eis o dilema que o futuro nos apresenta: vamos nos entregar ao comando e à tutela cada vez mais eficiente da Inteligência Artificial, ou vamos privilegiar e cultivar a única inteligência que é exclusivamente nossa, a inteligência com consciência?

Primeiro, o que é consciência; o dicionário nos dá dois significados: o do saber-se existindo e percebendo o que se passa por dentro e por fora de si, aquilo que Descartes concluiu (“Ei, eu sei que existo, eu sei que estou pensando!” Ok, ele não disse com essas palavras, mas era esse o espírito da coisa) no século XVII; e a capacidade moral de distinguir o certo do errado.

Este segundo significado historicamente atrapalhou a minha relação com a consciência. Lembro-me de ouvir na infância “Põe a mão na consciência!”, quando nossas mães suspeitavam de alguma malfeitoria de nossa parte, e havia até piadinhas sobre a localização anatômica da tal consciência. Mais tarde aprendi que, em algumas línguas, “má consciência” significa sentimento de culpa.

Mas isso não impediu meu crescente caso de amor, minha atração fatal pela agudeza de consciência, em seu primeiro sentido. Queria muito – e continuo querendo – ter clareza cristalina do que se passa em meu pensamento, em mim, e ao meu redor. Quando aprendi com Edgar Morin sobre o pensamento complexo, foi um deslumbramento: entender que cada ato nosso, cada impulso é resultado de inúmeros fatores, muitos deles contraditórios; que era esse jogo de forças, semelhante à análise vetorial (quem disse que a física do 1° ano científico foi inútil?) desembocava numa resultante, que poderia mudar, assim que o jogo de forças mudasse também; que “ambivalência” significava forças opostas na mente que não se excluíam, mas ambas valiam!; que o ato falho poderia me tornar consciente da força ambivalente mais reprimida, tudo isso me fascinava/fascina.

Foi por causa do desejo de consciência que me apaixonei pela psicanálise. Ela nada mais é que um processo de expansão da consciência voltada para o “debugging”: imagine nossa mente como softwares, e que alguns deles têm uma contaminação atrapalhadora de seu funcionamento (os bugs). O único jeito de tirá-los (debugging) é entrar no sistema e rastreá-los, entendê-los e desmontá-los. Isso só se faz levando a consciência a lugares onde ela não podia ir antes; tornando o inconsciente… consciente.

Para mim, o resultado desse processo de expansão interminável da consciência – que se dá mesmo enquanto escrevo aqui – foi um amor à sabedoria que ele produz: é a face filosófica da psicanálise, um legado dela que enriquece lindamente a vida para quem adentra sua prática. Essa sabedoria só pode ser amada por uma inteligência consciente. Oba! Essa é só nossa!

Pelo menos por enquanto é só nossa, não creio que haja barreiras impossíveis que impeçam a criação de uma inteligência artificial com consciência de si. Mas como demandaria um investimento imenso aliado a um benefício mais que duvidoso, acredito que as chances de isso acontecer sejam mínimas.

A expansão da consciência significa escolhas melhores – por conhecimento de nossos próprios desejos –, e a expressão “voto consciente” não pretende outra coisa que escolhas melhores. Não creio que tão cedo alguém delegue a um Waze eleitoral o seu voto para escolher o presidente. Seria o passo anterior para temos um algoritmo de I.A. na presidência da república. “Oh, mas isso é tentador!” Sim, se você acredita em déspotas esclarecidos. A tentação de delegar escolhas e decisões que nossa espécie tem, seguramente é o maior atrapalhador da expansão de nossa consciência. É o “segura na mão de Deus, e vai”. Ou o “deixa a vida me levar, vida leva eu”.

Mora dentro de nós um Homer Simpson que só quer saber de cerveja, de “curtidas” nas redes sociais, e comida processada, vegetando em um sofá deformado por sua obesidade.

Mas também pode morar um ser consciente que aprecie entender a si mesmo o bastante para traçar seus caminhos na direção que mais se sintonize com seus desejos; que a partir dessa compreensão de si, seja capaz de querer compreender o outro, ter por ele empatia (colocar-se em seu lugar), ter por ele simpatia (afinidade de afetos), ter por ele compaixão (partilhar de seus sofrimentos). Tudo isso porque investiu no cultivo de sua consciência.

É uma decisão diária de cada um de nós, e será um dia uma decisão da humanidade: autônomos ou autômatos?


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