Natureza Humana: Banalidade do mal

Verão de 1918, meu pai tinha 13 anos e a gripe espanhola assolava o mundo. Pense no Holocausto, multiplique por seis, adicione dois milhões e terá o número de mortos causados por ela: 50 milhões no planeta.

Ele via as carroças da prefeitura transportando os cadáveres empilhados, e ouvia histórias de famílias que imploravam para levarem seus mortos, já há cinco dias na sala, fedendo de podres. Os carroceiros negavam, estavam lotados. As famílias então suplicavam por uma troca: um defunto recente pelo que tinham em casa. Assim, o corpo de um completo desconhecido era instalado no meio da sala para que o corpo do pai apodrecido pudesse ser levado pela carroça.

Meu pai contava que as iniciais PDF (Prefeitura do Distrito Federal) das carroças eram, por isso, interpretadas como “Prefeitura do Defunto Fresco”.

Era a banalidade do mal. Eles estavam acostumados.

Quando a microcefalia causada pelo vírus Zika começou a se alastrar no Brasil, dei-me conta de como estamos acostumados com o mal, de como os horrores não nos afetam mais. Centenas de milhares de filhos incapacitados pelo resto da vida, e incapacitando seus familiares que teriam que mantê-los vivos, como brócolis demandantes, vidas sem nenhum propósito aprisionando adultos a elas, numa servidão sem sentido… O horror! O horror!

Pensar que, para alguns, o horror do aborto pode ser maior que o horror de criar um feto microcéfalo, e condenar milhares (esperemos que não sejam milhões) de mulheres e homens a servir de sustento a vegetais humanos, dá a dimensão do que nossos dirigentes têm como prioridade: a hipocrisia acima do bem do povo.

A reação do governo foi fraca, para dizer o mínimo, sobretudo em comparação com a OMS: eles decretaram emergência MUNDIAL. O primeiro caso de microcefalia nos EUA produziu um pronunciamento do presidente Obama que dava dimensão à gravidade de como eles percebiam a coisa.

Isso tudo me mostrou que o que causa reação é o contraste: se você vive na merda, o que é mais uma ferida para um pobre leproso? Ele nem nota.

Meu cunhado disse que a cirurgia plástica é pior que a lepra, pois a lepra deforma aos poucos, e a plástica deforma no dia seguinte.

Esta é a base da teoria da tolerância zero: nela, qualquer transgressão provocará contraste, será notada imediatamente, caso contrário, você se acostuma.

Nós vivemos dentro de uma enxurrada de denúncias, dentro de uma avalanche de lama. Tendemos à insensibilidade ao horror. Ainda que a Lava Jato seja nosso melhor reality show, podemos ficar insensíveis às monstruosidades que ela trás à tona. Podemos ficar acostumados, diferentemente dos americanos.

Por isso: não aceite uma janela quebrada, pois senão, você terá dúzias delas. Não aceite uma pichação, pois amanhã a cidade estará imunda. Não aceite de seu filho uma única transgressão sem puni-lo, pois senão amanhã ele se tornará um mimadinho sem volta.

Claro, escrevi isso inspirado em Hanna Arendt e sua observação dos males do nazismo: Eichmann não era nenhum monstro, ele era acostumado com o mal ambiente. Assim como nós podemos nos tornar.

As manifestações de rua estão menores por causa disso: estamos nos acostumando ao mal.


Natureza Humana: Virtude premiada

Minha frase predileta de Freud é: “Enquanto a virtude não for recompensada aqui na Terra, a ética pregará em vão” (“O mal-estar na cultura”). Isso mostra o conhecimento profundo que ele tinha da natureza humana, e de sua característica mais preciosa: o altruísmo recíproco. Sei bem que fomos ensinados que “o bom comportamento se paga em si”, que o altruísta verdadeiro nada deve esperar senão o sentimento do dever cumprido. Várias modalidades de ética pregam esse ideal sublime e desinteressado, começando pela cristã e passando pelo imperativo categórico de Kant. Mas, ainda assim, se examinarmos o “ama o próximo como a ti mesmo”, já entendemos que esse altruísmo tem como base o interesse que temos por nós mesmos. Se tomarmos a oração de São Francisco de Assis, o ícone máximo do altruísmo cristão, veremos que ele nos diz que “é dando que se recebe”, “é perdoando que se é perdoado”. Ou seja, faz o bem esperando retorno, reciprocidade. Significa que o santo também intuía como a natureza humana funciona: existe em nossas mentes um contador, que, se vê falta constante de retorno, manda sinais de ressentimento.

Portanto defendo que haja lucro na prática das virtudes. Não temos a cultura da doação benemerente,  como existe nos Estados Unidos, mas sempre achei justíssimo que o milionário doador de um pavilhão de hospital, de um prédio de Universidade, de uma galeria de museu, tivesse seu nome ali registrado: por bom exemplo, sem dúvida, mas também por boa fama e prestígio, que são e devem ser a primeira paga da prática do bem.

Sim, mas isso é a ética estimulando a virtude. Sua outra face é prevenindo o crime e o vício. Claro, se a virtude se mostra recompensadora ela compete com o vício e o previne. A tradução mais divertida disso é a frase de Jorge Benjor: “se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”. Mas para funcionar, a ética precisa de que nossos atos tenham conseqüências, e que nossos delitos tenham punição: a impunidade corrói a ética.

Por fim, penso em como ser ético depois do delito cometido. E sou remetido à lógica do perdão dos pecados, aprendida no Santo Inácio com os jesuítas: era preciso arrepender-se e penitenciar-se no confessionário. É certo que o arrependimento não nos livrava apenas da culpa, mas também, ou principalmente, do medo do inferno. Era, portanto, um arrependimento interessado, com retorno, como o altruísmo recíproco.

Partilho aqui as reflexões que me foram despertadas pela questão da ética das delações premiadas: elas seguem a lógica do arrependimento. A pessoa está diante do dilema: seu crime não é solitário; para que seja reparado, ela precisa deixar de ser cúmplice; ou torna-se fiel à sociedade, ou segue fiel aos outros criminosos, não há terceira hipótese. Madame disse que não respeita delatores, mas então quem ela respeitaria? Os mafiosos que se mantivessem fiéis à omertà (código de honra da Máfia)?

Se o criminoso resolve ser fiel à sociedade, ainda que seja por medo, essa sua tardia adesão à ética precisa se tornar um caso de virtude premiada.


Daudt no Facebook: Pertinência e impertinência

“Mas que menino impertinente”, ouvíamos às vezes na infância. Décadas se passaram até que eu entendesse que “impertinência” significa transitar em, opinar, dizer algo que não nos pertence, que não é da nossa conta, como perguntar para alguém: “Quanto você ganha?”, ou “quantas vezes por mês você faz sexo com sua mulher?”.

Distinguir o que nos pertence, o que nos é pertinente, do que nos é impertinente, faz parte do cultivo da sabedoria, e da defesa de nossa liberdade. Um governo que se arroga à posição de saber o que é melhor para nós, de ser nossa babá, está sendo impertinente.


Natureza Humana: Velhice

Comemorando os 400 anos da morte de Shakespeare: “Não devias ter ficado velho antes de ficares sábio”, disse o Bobo ao Rei Lear, quando ele se lamentou dos erros que cometera.

Velhice e sabedoria, de fato, não se confundem, mas se a gente cultivar com afinco a segunda, pode bem diminuir as agruras da primeira.

Um amigo de 91 anos me respondeu, quando lhe perguntei como ia de saúde: “Olha, Daudt, tu sabes que eu estou morrendo de câncer, mas enquanto eu me sentir bem como me sinto, eu sou eterno”. Pensei que ele dissera o mesmo que Vinicius: “Que eu possa dizer do amor – da vida – que tive: que não seja eterno, posto que é chama, mas que seja infinito enquanto dure”.

Uma cliente jovem veio me dizer que aprendeu que a impermanência lhe dá conforto porque traz desapego, e portanto, menor medo de perder. Ai, meu Deus, onde foi que ela aprendeu isso? “Ó menina, que desapego? Então você vai passar pela vida, só porque ela não é permanente, desapegada das coisas e das pessoas que te importam? Só por medo de perdê-las? Perder dói, sim, mas quando a perda chegar”. Minha mãe dizia, quando eu perguntava se ela tinha medo de morrer: “A morte é um momento, e da minha vida não há de roubar mais do que isso: o seu momento”.

Isso tudo para dizer que, assim como os monges trapistas, que se sepultam em vida para combater o medo da morte, há pessoas que cultivam a velhice, e se tornam velhas (e não sábias) antes que a idade chegue.

Meu pai foi responsável para que eu entendesse que a velhice é um estado de espírito. Ele ficou velho duas vezes na vida: a primeira, aos 95, quando foi obrigado a aposentar seu querido motorista só porque havia ficado cego. Tratado da depressão, ele voltou a ser o jovem de sempre. A segunda, quando resolveu morrer, aos 102, e dessa não voltou.

“Ah”, disse eu, “então a gente pode decidir se é velho ou não?!” Foi quando escolhi a idade de 25 anos para viver. Invisto nela, e ela está se tornando cada vez melhor. Comparada com a cronológica, então… Aos 25, eu era um imbecil. Não me achava bonito (a modéstia me impede de dizer o que acho de mim hoje). Não tinha autonomia, nem dinheiro, nem a liberdade que essas coisas trazem. Não tinha investido em sabedoria.

Então eu estou negando os perrengues que a idade traz? Claro que não. Só não quero levar, além da queda, o coice. Calvície? Nomes que demoram a ser lembrados? Algumas dores articulares? Diminuição do tempo de sono? Ok, paciência, mas achar que disso decorre uma retirada do erotismo e da curiosidade, do achar graça em viver? Ah, não! Para usar uma linda invenção de minha filha para expressar discordância carinhosa, “CÁSSUABOCA!”

Voltando à sabedoria de minha mãe, ela me disse um dia: “Ah, meu filho, a velhice é penosa… mas, considerando a alternativa, eu a aceito”.

E “melhor idade” é o cacete! Quem inventou essa idiotice? A velhice foi responsável pelo primeiro palavrão que ouvi na TV, ainda nos anos 80. Roberto D’Ávila entrevistava o editor José Olympio e perguntou-lhe que tal era ser velho.

J. O. lhe respondeu: “É uma merda”.


Natureza Humana: A nostalgia como esporte

Não adianta o doutor me incentivar, eu odeio exercício físico. (Claro, com exceção daqueles que me dão prazer).

Mas sou praticante de um esporte delicioso: a nostalgia. Exercitar a memória em busca de beleza é mais importante para as coronárias que qualquer aeróbica. E não só para as coronárias, para o cérebro, para mim e para a sociedade. Quando eu compartilho beleza e valores éticos que pareciam perdidos no passado, eu estou trazendo quem me lê para o que importa na vida, e para a resistência ao horror que desce em cascata como a lama de Mariana dessa gente repugnante, éca, de quem eu não quero falar hoje. Eles que vão lamber sabão…

Vamos viajar!

Há quem confunda nostalgia com saudosismo. Besteira: saudosismo é querer viver no passado, é lamentoso, “ah, não se fazem mais ovos como antigamente”. Nostalgia é contemplar beleza que mora dentro de nossas mentes, é aproveitar o patrimônio de nosso HD, beleza que nós possuímos! Meu amigo Carlos Süssekind dizia diante dessa onda de autoajuda: “Não entendo esse negócio de viver o presente. Eu vivo no passado e no futuro, e é dele que meu presente é feito”. De fato, quem vive só no presente é quem tem Alzheimer. E os lesados de maconha, claro.
Eu estou encharcado de nostalgia: estive, neste fim de ano, no Porto (museu dos anos 50), em Berlim e em Munique (prenhes de história), e para piorar estou lendo “A noite do meu bem”, do Ruy Castro (e, como carioca da época, conheci todo mundo!).

Você pode imaginar o encantamento que foi ver que poesia não precisava de rima? “Duas contas”, a música de Garoto, é assim: “Seus olhos / são duas contas pequeninas / qual duas pedras preciosas / que brilham mais que o luar”.

Eu não estou nem aí para a pessoa política do Chico Buarque, ele escreveu: “A sua lembrança me dói tanto / eu canto pra ver / se espanto esse mal”. E mais: “saiba que os poetas como os cegos podem ver na escuridão”. Obrigado, Chico, por uma das trezentas pessoas que você é, aquela que eu amo (a despeito de umas outras). Minha relação mental com Chico é meu ícone de ambivalência, afinal o Scott Fitzgerald disse que inteligente é aquele capaz de abrigar duas ideias opostas na cabeça.

Minha primeira lição de hipocrisia foi aos seis anos: Getulio havia se suicidado de manhã, e as aulas foram canceladas. Eu exultei. Minha prima veio me dizer que devíamos rezar por sua alma. “Por quê? A gente não gostava dele…” “Mas quando a pessoa morre a gente deve ter pena!” Ah, bom.

E o MPB-4 que só cantava em uníssono? Eu me perguntava, mas por que precisam ser quatro, então? Mas aí eles cantaram “Canto triste” (Edu Lobo e Vinícius) à capela, com arranjo do Oscar Castro Neves, e eu os abençoei para sempre: “Porque foste a primavera em minha vida…” Precisa mais? Obrigado, Vinícius. E por que você tinha que escrever que “fez-se do amigo próximo o distante, fez-se da vida uma aventura errante”? Quer me matar, desgraçado?

É, em matéria de Memória, quem tinha razão era o Drummond: “As coisas tangíveis tornam-se insensíveis à palma da mão, mas as coisas findas, muito mais que lindas… essas ficarão”.


Natureza Humana: Corrupção da autoridade

Entre as doenças morais de que o Brasil sofre, a corrupção do conceito de autoridade é das mais tristes. Nos dias atuais, quando se fala de corrupção só se pensa em roubo, mas o sentido original da palavra é deterioração, apodrecimento, estrago.

Pense na criação de filhos: a autoridade sumiu, nossas crianças estão mimadas, não se sentem protegidas pela força moral de quem deveria lhes servir de referência, inspirar respeito e lhes ensinar valores elevados para que conduzam bem suas vidas.

Pense em políticos e governantes que não admiramos nem respeitamos, pois não reconhecemos neles a autoridade, ou a moral, para que ocupem os lugares de comando em que estão.

O que aconteceu com o conceito de autoridade, para que tenha se corrompido desse jeito, para ter sumido de nosso horizonte de valores prezados?

Houve uma triste coincidência histórica: uma ditadura militar em nosso país e uma reviravolta de costumes mundial. A primeira fez com que autoridade e autoritarismo se parecessem sinônimos. Ora, o autoritarismo é a doença da autoridade, é quando quem manda não se preocupa com o respeito do comandado, quando acha que a intimidação e o medo que desperta são suficientes. Vinte e um anos de autoritarismo foram suficientes para que o senso comum absorvesse a ideia de que qualquer exercício de autoridade é abusivo em si. Resulta que temos, em posição de comando, pessoas que ora são fracas e insuficientes, ora são escandalosas, gritam, humilham, fazem seus subordinados chorar, verdadeiras caricaturas de autoridade. Ambas não exercem sua função com eficiência.

A reviravolta nos costumes teve como ícone o maio de 1968 e seu “é proibido proibir”, o advento da pós-modernidade e seu clima de negação de valores, de aversão a qualquer coisa que parecesse hierarquia… e autoridade.

Autoridade é poder de mando, e é sempre exercida pela força: força de intimidação e força de saber. Quando se diz que “fulano é uma autoridade em física”, se está reconhecendo seu saber e a força que ele contém. Suas palavras serão levadas em conta, pois convencem (vencem junto), não intimidam.

Quando um filho nasce, a disparidade de poder que temos com ele é tamanha que nossa melhor autoridade será exercida como a de um déspota esclarecido: decidimos o que ele come, como se veste etc. Mas ele cresce e desenvolve assustadora capacidade de compreensão. É hora de introduzirmos a autoridade de saber junto a ele: se subiu na janela, em vez de dizermos “Desce já daí”, podemos dizer: “Perigo, dodói grande!” O segundo comando convence, pois ele sabe o que é perigo, o que dodói e o que é grande. Ele foi respeitado em sua capacidade de compreensão, ele adere ao comando como algo benéfico a ele: isso é autoridade.

Foi um comando respeitoso, sim, mas também sem cheiro de empulhação, de obra de marqueteiro, sem insulto à inteligência. A autoridade de saber é a mais eficaz das autoridades.

Mas… saber ou intimidação, autoridade é sempre uso de alguma força; a democracia tem que ser democrática, mas não pode ser fraca. Quando, a despeito de nossos melhores esforços, o comandado debocha do comando, a força da intimidação não pode ser deixada de lado.

É como disse um paciente meu: “Quando Freud não explica, Lampião entra em ação”.


Daudt no Facebook: A história acontecendo na nossa frente

Dilma? Cunha? Que nada! O que nunca vi antes, e não tenho notícia de que já tenha acontecido no Brasil é o movimento independente de parte do Ministério Público e do Judiciário de por na cadeia gente que sempre se sentiu acima de nós, o “resto”.

Isso é fundamento da democracia: igualdade perante às leis!

E a festa está apenas no começo!

Não perca o artigo do Elio Gaspari de hoje no Globo, “ASSUSTADA, A OLIGARQUIA PRECISA DA CRISE”.


Daudt no Facebook: Detox

Um dos dissabores da longevidade é assistir a volta dos que não foram: bizarrices antigas que pareciam ter sumido junto com as toalhinhas higiênicas – precursoras do Sempre Livre que davam razão à expressão “ficar incomodada” – voltam a nos assombrar.

Não são apenas as pirâmides financeiras, os esquemas de gerar prosperidade fácil, os contos do vigário que voltam. Agora vejo a moda do DETOX, a ideia de que a pessoa se livra dos venenos através de medidas extremas que vão além de… parar de ingeri-los. A coisa mais antiga de que me lembro eram os conselhos de Molière em seu “Le malade imaginaire”: “Prima purgare; clisterum donare; postia sangrare” (primeiro purgar; fazer uma lavagem intestinal; depois sangrar). Na mesma linha, à época vitoriana se instituiu a prática do purgante semanal “para a limpeza dos intestinos”, desencadeando a epidemia de prisão de ventre nas mulheres que dura até hoje. Claro, aliado ao pudor de não ir ao banheiro fora de casa.

A face cômica me apareceu com uma moça muito atraente que usava uma camiseta com os dizeres: “NÃO CONTENHO GLÚTEN”.


Daudt no Facebook: Telegramas e telefonemas

Venho observando em mim algo estanho: não gosto mais de falar ao telefone. Sou de uma geração que adorava passar horas namorando, ou simplesmente papeando, pelo telefone. Aguardávamos o toque da campainha com ansiedade, se imaginávamos que poderia ser da pessoa amada. Minha irmã deve ter batido algum recorde, pois começou um telefonema às nove da noite com o namorado, e só o interrompeu porque meu pai foi ver quem estava falando em casa… às quatro da madrugada!

Hoje, depois do e-mail e do Facebook, acho infinitamente mais confortável ver se chegaram mensagens, para respondê-las no momento em que achar melhor. Parece o tempo pré-telefone, quando as pessoas se comunicavam por bilhetes entregues em casa. O fato é que o toque do telefone passou a me soar invasivo, imperativo, autoritário, dominador. Prefiro mesmo escrever.

Sei, sei, já sou jurássico, pois o WhatsApp acabou com esse tempo lento e reinventou a invasão, mas, jurássico que sou, não tenho celular…


Natureza Humana: Escárnio e honra

Do dicionário Houaiss:

Escárnio: atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo
Ex.: ele olhou com escárnio para os eleitores que o vaiavam

Honra: princípio ético que leva alguém a ter uma conduta virtuosa, corajosa, e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade
Ex.: a honra às vezes está acima das leis

Temos dois diferentes processos de construção de nossa identidade, daquilo que somos, e nem sempre eles são conscientes: identificação por imposição e identificação por gosto.

A primeira pode se dar de maneira direta, como no caso do príncipe herdeiro de uma casa real, que se submete desde o berço a um destino; ou então, “minha família é de banqueiros há quatro gerações, por isso fui ser banqueiro”.
Também pode ser de maneira indireta: a maioria dos abusadores/espancadores de crianças foi abusada/espancada por seus pais, quando pequenos.

Outro jeito é por reação ao que os pais foram, e que os filhos abominaram (filhos de pais caretas viram hippies; filhos de hippies viram caretas). Há um tipo dessa identificação que é particularmente cruel: a do vingador. Você já deve ter visto um filme de faroeste em que a criança assiste a sua família ser massacrada por bandoleiros, e jura vingança: “Dedicarei minha vida a perseguir, achar e acabar com esses bandidos”. Resulta que o menino se torna alguém cujo destino foi imposto indiretamente pelos assassinos de sua família.

As identificações por gosto são mais fáceis de compreender, e são sempre conscientes: você descobre alguém, ou alguma coisa, que você admira muito, e almeja ser ou fazer igual. É o processo de identificação mais bonito que há. Vivi isso na pele: aos catorze anos, descobri meu modelo de pai num livro (“To kill a mockingbird”/“O sol é para todos”, Harper Lee, 1960) e desde então Atticus Finch foi meu farol-guia para a paternidade. Ele era justo e honrado.

As identificações por imposição nunca funcionam muito bem. Elas se parecem com um transplante meio rejeitado, aquele tecido se inflama, dá problema de saúde, não cai bem em quem o recebe. A pessoa vai pela vida carregando um fardo.

As identificações por gosto funcionam de maneira completamente diferente: o tecido transplantado é completamente absorvido pelo organismo, se torna parte de nossa estrutura, nos faz mais fortes. Com elas, somos um tecido inconsútil, nunca uma colcha de retalhos.

Grande parte do trabalho da psicanálise é tornar conscientes os modelos de identificação que prejudicam nossas vidas, e rejeitá-los a partir daí. Isso é parte fundamental da cura.

Nosso Brasil está doente, de doença moral. Quando olhamos para cima, a podridão abunda. E ela desce em cascata como a lama de Mariana, contaminando o Estado com um governo que escarnece de seus governados. Há um tecido degenerado se impondo a nós, em franco processo de rejeição: é preciso eliminá-lo antes que cause falência de múltiplos órgãos públicos.

A ministra Carmen Lúcia agiu como médica e fez um diagnóstico preciso dessa doença: cinismo e escárnio.
Quando vemos tal postura, olhamos para cima com gosto e nos identificamos. O nome disso é Honra.

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