Natureza Humana: O voo e o ninho

O destino de um pássaro é voar, está em seus genes. Mas, para voar ele precisa do ninho. O ninho o protege, aquece e alimenta enquanto suas penas não crescem, suas habilidades de vôo não se desenvolvem. Se o ninho o expulsa precocemente, ele se estatela no chão e morre. Mas se o ninho o prende além da conta, ele não aprende a voar, ele fica restrito àquele casulo, ele não cumpre seu destino.

 

O bom destino de um pássaro, portanto, depende de um delicado equilíbrio entre o voo e o ninho: excesso de ninho aleija o pássaro; falta de ninho o mata.
Conosco não é diferente: precisamos de colo, de amparo, de proteção para seguir nosso destino – se concordarmos que nosso bom destino é a independência e a autonomia do indivíduo que se formou.

 

Mas o equilíbrio necessário para essa formação, a conversa entre ninho e voo, entre colo e independência, é infinitamente mais complexa e delicada que a dos pássaros. Eles afinal estão programados pelo instinto, que a eles se impõe como força maior.

 

Nós, não. Nossa espécie tem um programa de aprendizado tão extraordinário, e um tempo de aprendizado tão enorme, que o instinto com que nascemos vai se colorindo de experiências e de memórias tão singulares que o produto resultante se distingue do instinto, e ganha assim um nome novo: desejo.

 

Desejo: esse programa oceânico e descomunal que nos rege mantém com o instinto relações de raiz. Sim, continuamos a querer reprodução como os pássaros querem, mas de forma bem mais complicada, para dizer o mínimo.

 

De tal forma que, sim, nós botaremos filhos no mundo. Agora, daí a ter habilidade e competência para levar bem o equilíbrio entre ninho e voo, ah, isso é outra conversa.
A menina de oito anos levou um bilhete escrito por ela para sua mãe: “Não suporto mais esse cárcere maldito! Libertem-me dos grilhões que me aprisionam”. A mãe leu o bilhete e disse: “Ai, que lindo! Vou grudar na geladeira”.

 

Para quem acha que a psicanálise tem mania de culpar os pais, devo dizer que não é bem isso. O que ela faz é rastrear a história das incompetências da criação de cada um. Você acha que a mãe daquela menina é culpada de algo? Não, ela foi apenas incompetente, incapaz de perceber que a filha se expressava assustadoramente bem, com um diagnóstico preciso do que se passava. Incapaz de corrigir-se e de corrigi-lo. Culpa implica má intenção, e é muito raro ver pais mal-intencionados em relação aos filhos.

 

Criar filhos é a profissão mais difícil que existe. Como ela é universalmente adotada, seja com talento e vocação, seja sem – o que é mais freqüente –, o que acontece é que somos resultado de um show de incompetências. Uns pássaros, ora aleijados, ora estropiados, de voo capenga, passando as incompetências de geração em geração.

 

A essas incompetências de criação que carregamos como um fardo pela vida afora, Freud deu o nome de Complexo de Édipo. Édipo, o pobre grego quase assassinado pelos pais biológicos, que teve sua origem escondida pelos pais adotivos, e como fruto dessa trapalhada acabou se casando com a própria mãe. E se culpou por isso!

 

Pobre diabo foi ele. Pobres diabos somos nós.

Natureza Humana: Nossa espécie está condenada a uma dança de trapaças e desencontros

“Ela apontou a pistola para ele, e disse: ‘Você vai tirar a roupa e me comer agora!’ Sem alternativas, ele obedeceu: deitou-se de costas enquanto ela o cavalgava, encaixando-se em sua ereção”.
Não é preciso entender de natureza humana para saber que a peça de ficção acima é totalmente inverossímil. Enquanto que, para os homens, o estupro é uma estratégia reprodutiva de negociação mínima, o contrário não se aplica: um homem intimidado não ficará ereto. E os temores nem precisam vir da ponta de uma arma. Conta-se que Antônio Maria foi confundido com o escritor Carlos Heitor Cony por uma estonteante loura, que se declarou sua fã. Ele confirmou. Afinal num motel, a moça chamou-o para a cama. Neste ponto, Cony, que ouvia a história, perguntou-lhe ansioso: “E aí, Maria, e aí?” “Aí, Cony, VOCÊ brochou!”
David Buss, psicólogo evolucionista, escreveu um livro chamado “Por que as mulheres fazem sexo”. Tem duzentas páginas. Elas podem se dar ao luxo de terem tantas e diferentes razões, pois não precisam de muito aparato biológico para o congresso carnal. Se o livro tratasse de homens, só teria uma linha: “Porque tiverem desejo e conseguiram uma ereção”. Ah, e teriam que escapar da ejaculação precoce, outra manifestação do desconforto psíquico frente ao sexo.
Ou seja, quer função? Não intimide, não coaja, não cobre, não culpe: nós homens somos muito frágeis nesse setor, precisamos nos sentir “por cima da situação” para funcionar.
Já que são as mulheres que escolhem quem terá acesso a elas – e toda misoginia vem do inconformismo com esse poder –, há dois softwares básicos de fazer a corte que rodam na cabeça masculina: o “papai” e o “cafajeste”.
Se pudéssemos traduzi-los, o “papai” diria: “Aceite-me, pois eu sou um bom rapaz, atencioso, respeitador, acho você o máximo, vou te ligar amanhã, quero me casar com você, cuidar de nossos filhos, nuca te abandonarei”.
E o “cafajeste”: “Humm, você é gostosa e eu vou te levar à loucura, vou soltar essa puta que existe em você e que ninguém mais vê além de mim, vamos acabar com essa babaquice de ser santa, você não nasceu pra isso, você nasceu para ser feliz no sexo, a hora é esta, sem amanhã”. Curioso é que o equivalente do programa “santa”, das mulheres de autoestima elevada, não seja o “papai”: ele roda nos homens que não se acham os maiorais. Nestes últimos roda o “cafajeste”.
Como a mãe natureza privilegia a quantidade de filhos, mas também cuida da qualidade de criação, ambos os programas têm seu apelo: uma mulher pode amar seu marido fiel e ficar transtornada com o cafajeste que lhe mostre desejo.
Finalmente, um homem tendendo a papai pode bem tentar simular um cafajeste para melhorar suas chances.
E vice-versa: na ópera “Don Giovanni”, de Mozart, o proverbial cafajeste que deu origem ao termo Don Juan canta Zerlina, noiva de um camponês, prometendo-lhe casamento nobre na ária “La ti darem la mano” (“Você não foi feita para ser camponesa”).
Não adianta: para continuar a existir, nossa espécie está condenada a uma dança cheia de trapaças e desencontros, ainda que cheia de desejo de encontro e de sinceridade.

Daudt no Facebook: Responsabilidade fiscal no dia-a-dia

Entre as vantagens da purgação pela qual o país está passando – intensamente, e como nunca, participada pela sociedade -, a noção de responsabilidade fiscal como sinônimo de “não gastar mais do que se ganha” está sendo absorvida como um valor do dia-a-dia. Ouço no consultório frequentemente (“estou acertando minhas contas, e este mês vou fechar no azul. É a responsabilidade fiscal,né?”), e ontem ouvi do barbeiro coisa semelhante.

Para a meta que tenho para mim, para meus filhos e para meus clientes (independência e autonomia para mandar na própria vida), não dever nada a ninguém é básico. A psicanálise pode ser definida em duas palavras: “Deveu? Fodeu!”


Natureza Humana: Homens e mulheres 2

“Minha filha de quatro anos se comporta como uma mocinha dengosa quando tem um homem adulto por perto, e é tudo voltado para ele: dá risadinhas, provoca, faz charme; quando ele se aproxima, ela foge rindo, mas depois volta; não dá atenção a mais ninguém, é um assombro, pura sedução. Não acontece com meninos, nem com gente de casa. O que é isso?”

É um software chamado Mulher, fruto da seleção natural, funcionando na cabeça dela: ela está treinando para se fazer desejada pelos homens. Se você reparar, sua dança de acasalamento é diferente da dos homens: ela não parte agressivamente para a conquista mostrando o seu desejo. Não, sua estratégia é fazer-se atraente, despertar o desejo no outro, e ele que vá atrás depois. O software está buscando algo que um dia será vital para os filhos da mulher: investimento parental. O homem seduzido valoriza a mulher ao ponto de não abandoná-la com o fruto do sexo, e de criar com ela os filhos que terá. Ao investir nas crias, ele também está obedecendo a uma fração do software Homem, mas é um programa que só se liga diante de uma mulher muito valorizada.

Mulher valorizada: não por acaso, o modo Mulher em operação ali ganha o nome de “Santa” (existe outro modo oposto, chamado “Puta”, que se liga em outras horas). A “Santa” é provocadora, mas não é fácil: sugere, mas não entrega. Isso aciona uma lei de mercado inscrita em nossas cabeças: estaremos dispostos a pagar alto preço por algo muito desejado, muito atraente. Você já entendeu porque o negócio de tornar uma mulher atraente movimenta bilhões? Ele é todo voltado para realçar – ou imitar – condições naturais de atração sexual nas mulheres: juventude, beleza, saúde e fertilidade. Pense nas plásticas, nas tinturas de cabelo, nas maquiagens, nos silicones, nas academias, nas lingeries, no vestuário, nas revistas femininas.

Maquiagens: de vez em quando alguém tenta um batom/esmalte-cor-de-doença (branco, verde, azul). A moda nunca pega. Os que imitam saúde e desejo (os vários tons de vermelho) nunca saem de moda. E depois dizem que “tudo é cultural, nada é instinto”…

Competir pelo investimento parental é ser mais atraente do que as outras. Como decorrência, as mulheres são levadas pelo programa a se comparar o tempo todo umas com as outras, eis porque as revistas femininas não trazem uma foto de homem sequer: não interessa, elas querem se medir entre elas.

O “Santa” precisa de autoestima elevada para ser ligado, por isso uma mulher linda e de classe alta será a mais “inatingível”, selecionando os homens de mais alto cacife para conceder-lhes um mínimo acesso. O filme “Uma linda mulher” é um ótimo exemplo desses programas em operação: Julia Roberts, apesar de linda, tinha autoestima baixa e isso fazia o programa “Puta” funcionar. Depois que o Richard Gere lhe dá um banho de loja e a leva à ópera, sua autoestima sobe e ela passa a operar o “Santa”: se ofende, chora, se vitimiza (“você me trata como puta”). Tudo intuitivo, nada estudado, tudo natural.

E os programas nos homens? Ficam para a próxima.


Natureza Humana: Homens e mulheres

“Chassez la nature: elle reviendra au galop” (“expulse a natureza: ela voltará a galope”), dizem sabiamente os franceses. Mas quando se trata do ser humano as forças da natureza são habitualmente desprezadas: todas as ciências humanas crêem que nós somos exclusivos frutos da cultura, que a genética passa ao largo de nossos comportamentos.
Espinoza nos ensina que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam. Os da natureza são poderosos, portanto quero olhar como ela atua no assunto mais importante de nossas vidas: o sexo.
Sexo é um método de reprodução estranho que implica várias estranhezas, a primeira dela em dois seres da mesma espécie que nem se parecem da mesma espécie, pois vivem se estranhando: macho e fêmea.
É tão mais simples entre as bactérias… Elas se multiplicam sozinhas sem ter que negociar com ninguém, e são os seres mais antigos e bem sucedidos do planeta.
Nós não. Entre todas as espécies sexuadas que negociam para se reproduzir (os peixes não precisam), a nossa é a de negociação mais complexa, de procriação mais frágil e complicada, de sobrevivência das crias mais exigente de cuidados que há. Em resumo, a biologia nos ferrou.
Ela vem moldando o comportamento diferenciado de machos e fêmeas há milênios, e deixando esse comportamento gravado em nosso DNA. Vamos ver o que dizem os psicólogos evolucionistas, que estudam a influência da genética e da biologia em nosso comportamento, começando por alguns fatos básicos que separam os gêneros (sim, homens e mulheres são diferentes).
Mulheres engravidam; homens não. Homens podem fugir depois de procriar; mulheres não. Bebês humanos são os mais carentes de assistência, e por mais tempo, entre todo o reino animal. O trabalho de criá-los é tão grande que nenhuma pessoa sozinha dá conta, por isso nossa espécie é das raras em que o macho investe na criação de seus filhos, mas isso é uma decisão dele, não é um imperativo biológico. A fertilidade das fêmeas é limitada na quantidade e no tempo; a dos machos, nem na quantidade, nem no tempo.
Decorrências da biologia é que homens e mulheres têm interesses conflitantes: eles querem sexo com mulheres férteis e saudáveis, o que implica que elas sejam jovens e bonitas; elas querem homens capazes e saudáveis que as possam ajudar na criação dos filhos, e que estejam desejosos delas ao ponto de serem pais investidores. Resultado chocante: mulheres escolhem com quem se deitam; homens escolhem com quem se casam. O tesão do homem é visual e imediato; o da mulher passa pelas demonstrações de interesse que o homem dá: ela acha um homem “interessante”; se esse homem demonstrar desejo por ela, aí sim, o desejo dela se despertará.
Já se viu que o assunto é longo e controverso, prossigo na próxima. Mas fica a resposta que os evolucionistas deram à célebre pergunta de Freud, “o que querem as mulheres?” Dizem eles: “casamento, garantias e prestígio”.
Para não sermos marionetes da natureza, para poder implementar desejos éticos que dela divirjam, é melhor ouvi-la.

Natureza Humana: A Catedral

Um frade fez a mesma pergunta a dois pedreiros que trabalhavam na obra da Notre Dame de Paris: “O que vocês estão fazendo?” O primeiro nem parou sua tarefa e respondeu: “Estou assentando uma fileira de tijolos”.

O outro se pôs de pé, ergueu a cabeça, os olhos perdidos no horizonte, e disse: “Eu estou construindo uma catedral”.

A catedral é uma beleza grandiosa e complexa, muito além de suas simplórias fileiras de tijolos. Complexidades e simplorismos competem por nossa adesão, as primeiras mais exigentes de nós do que os segundos.

Por isso, lembro do ditado – “Quem não foi comunista quando jovem, não tinha coração; quem não deixou de sê-lo quando adulto, não tinha cérebro” – e me condôo com o que vejo entre os colegas de meus filhos: TODOS se declaram de esquerda, anticapitalistas, certos de que só o socialismo pode promover justiça social, e que esta consiste em distribuir os bens dos ricos, com meios variados de desapropriação, para os pobres. “Toda riqueza vem da exploração do homem pelo homem, toda propriedade é, portanto, um roubo”, é a crença básica que eles têm.

Simples, não? Não. Apenas simplório, mas extremamente atraente para jovens que querem respostas imediatas e se nauseiam com o árduo caminho de aprendizado que têm pela frente. Quanto mais quando se trata da dor de olhar a desigualdade em torno, e de se sentir impotente para intervir nela.

Plano Real, inflação sob controle, responsabilidade fiscal, ambiente econômico seguro para trabalho e investimento, empreendedorismo que cria empregos, educação de qualidade que cria independência, tudo isso parece lento e complexo, menos sedutor que o populista dinheiro distribuído.

É certo que eles passaram por anos de doutrinação socialista nas aulas de história e geografia de seus colégios – é conhecida a orientação que o PCB fez há décadas de que seus quadros ocupassem todos os cargos de professores dessas matérias –, e quem já deu uma olhada nos livros didáticos de seus filhos constatou o conteúdo eminentemente marxista que eles trazem. É certo que eles foram induzidos ao sentimento de culpa por estar em colégios particulares e por serem da classe média quando há tantos favelados estudando (ou não) nessas horríveis escolas públicas (sem nenhuma menção à degradação do ensino público na “Pátria educadora”).

Foi daí que tiraram aquela certeza simplória: capitalismo não cria riqueza, tira-a dos pobres. É preciso combatê-lo através do socialismo para que eles recebam sua riqueza de volta, isso seria a “justiça social”.

Outra crença simplória é sobre uma entidade chamada “Governo”. Ele é riquíssimo, seu dinheiro (é do “Governo”, e não dos pagadores de impostos) só não vai para os pobres por maldade neoliberal dos ricos que o dominam.

Disso tudo emerge uma ética simplória: “na luta contra a desigualdade, vale tudo!” Fazer o diabo para chegar ao poder e nele se manter, inclusive.

A democracia – com igualdade de oportunidades, e diante da lei – é uma catedral complexa, mas nunca houve, em nosso país, um momento mais propício para se pensar sobre sua construção.


Natureza Humana: Uberpolítica

“Ah, essa Lava-Jato vai parar o país!”

Para mim que sou médico essa afirmação faz tanto sentido quanto dizer: “Ah, o cirurgião vai parar a vida do paciente só porque ele está com apendicite aguda”.

Sim, em ambos os casos a alternativa é a morte: no segundo, a morte física; no primeiro, a morte moral, a desistência de lutar por um país ético, pela decência, pela integridade de valores prezados.

A metáfora médica se justifica, pois nossa democracia está doente de cinismo, de escárnio, de hipocrisia, de mentira, de distorções do pensamento lógico, doente de falácias que não visam convencer, visam vencer, derrotar e se impor pelo autoritarismo como vemos num doente muito mais grave do que nós: a “democracia” bolivariana da Venezuela.

Voltando à medicina, um princípio que data de Galeno diz: “Ubi pus, ibi dreno” (“Onde estiver o pus, aí se drene”). Um processo infeccioso é contido pelo organismo em um local isolado. Aí combatem os soldados da defesa, os glóbulos brancos, contra as bactérias invasoras. Os soldados mortos fazem o pus com seus cadáveres, esse pus se mistura às bactérias e formam uma mistura altamente venenosa, fechada naquele tumor. Mas as defesas do organismo não vão segurá-la isolada indefinidamente. Haverá o momento em que a barragem de Mariana se romperá e o veneno se espalhará pelo sangue de maneira fatal. Como impedir que isso aconteça? Drenando obsessivamente o pus do corpo onde quer que ele se acumule.

Essa é a doença de nossa democracia; esse é o brilhante papel que o judiciário está desempenhando, o de drenar o pus que ameaça matar a democracia representativa.

“Ah, mas aí não vai sobrar nenhum político que nos represente, vão surgir messiânicos salvadores da pátria, vão surgir bolsonaros, aventureiros como o Collor”.

É um risco que se corre, realmente. Mas, estive pensando, se a nossa democracia é representativa, se o poder é para ser exercido por alguém que nos represente, quem me representa hoje? Olhei em volta e vi um deserto de homens e de ideias. A própria oposição em quem um dia depositei alguma esperança, hoje me parece tíbia e hesitante, quando não francamente idiota, como quando o candidato apareceu com a roupa coberta de adesivos de estatais, para negar sua intenção privatizante em vez de defendê-la.

Que política emergirá da necessária remoção do pus? A antipolítica perigosa? Talvez.

Mas pode surgir a Uberpolítica: lembrei que os motoristas de taxi começaram a se portar bem, a ser educados e atenciosos quando o Uber entrou na competição. Pois então: num clima de honradez, de constante vigilância da população, de repudio à canalhice, iniciativas populares como a Ficha Limpa e as Dez Medidas contra a Corrupção em funcionamento, é possível que gente de bem e honrada comece a se interessar em ingressar na política partidária. É possível que os velhos políticos, mestres em sobrevivência, comecem a se comportar melhor, representando o povo mais que seus interesses.

Hoje, você conhece alguém que te represente por afinidade de valores interessado em ingressar na política?


Natureza Humana: Construtores e predadores

“A humanidade se divide entre os que escovam os dentes com a outra mão apoiada na pia, e aqueles da mão na cintura”.

Esse jogo simplório de reduzir as características humanas a uma coisa ou outra é um instrumento de raciocínio útil: pensamos coisas complexas reduzindo-as a simplórias, de início, para depois partir para os acréscimos necessários que as aproximem da realidade.

Assim, construtores seriam os que plantam, colhem, propõem, trabalham, realizam, refletem, explicam, ensinam, entregam, resolvem, cuidam, e assim por diante. Predadores seriam os que dos primeiros se aproveitam, parasitas, sanguessugas, encostados, os que só derrubam, só criticam sem propor, e os atualíssimos partícipes das redes sociais que têm orgasmos ao se sentir ofendidos.

Só que, como dito antes, a vida real é mais complexa: se queremos nos olhar no espelho dela, não podemos dividir a humanidade assim.

O que vemos nesse espelho? Antes de mais nada: espelho serve para a gente se olhar, de modo que eu não me isento dessa prática, não sou psicanalista de ficar estudando os outros de cima de uma torre de marfim, me excluindo do processo: olho-me primeiro, e exponho o que vejo ao cliente/leitor para ver se ele enxerga um símile em si.

Pois vejo que há construtores e predadores em mim. Sou capaz de construções generosas e de predações mesquinhas. Fernando Pessoa me deu a lição final de humildade ao dizer que só conheceu príncipes na vida, “todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo (…) e eu tantas vezes irrespondivelmente parasita”, em seu “Poema em linha reta”.

Eu também, poeta, eu também…

Claro que prefiro ser construtor, é mais bonito, e estou convencido de que meu melhor caminho para a ética (o acordo de boa convivência social) é a estética.

Há lucro em ser predador – e as manifestações do último domingo tiveram o desmascaramento desse lucro como alvo –, mas, para corações ainda sensíveis, é feio e produz um triste sentimento de decadência.

Então, como fazer para que o construtor predomine sobre o predador? Primeiramente, há que se encarar o fato de que é muito mais fácil predar que construir: as Torres Gêmeas de NY levaram décadas sendo construídas e em operação, produzindo e abrigando trabalho; no entanto, foram postas abaixo numa manhã. Pense na Petrobras e no tempo que levou para se tornar o gigante produtivo de excelência que foi. Preciso explicar o resto?

Faz-se, pois, necessário coibir os predadores, com leis e punições exemplares a quem as violem. Transparência de processos e vigilância constante que os inibam.

Do outro lado, há que se estimular e premiar os construtores. Nesse quesito, a cultura brasileira é um desastre: contaminada pelo princípio marxista-anarquista de que o lucro é crime e a propriedade é um roubo, não serve propriamente de estímulo a construtores. É um senso comum difícil de desmontar, tantos anos de catequese marxista pelo Partidão (e seus sucessores) que aparelharam todos os postos possíveis de ensino de história e geografia.

É triste, pois a natureza fornece o melhor estímulo aos construtores: a ambição de melhorar de vida.


Natureza Humana: Igualdade

“O que você pretende com seus artigos?”, me perguntaram. Pretendo construir um espelho onde eu e o leitor possamos examinar com cuidado aspectos menos óbvios de nossa natureza, seguindo a ideia de Espinoza de que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam.

Nesse espelho, olho para a igualdade. Ela não existe. Gêmeos idênticos são diferentes. Homens são diferentes de mulheres (é inacreditável que isso precise ser afirmado). Características como inteligência, beleza, talento, garra, força física, musicalidade, caráter etc. são distribuídos de maneira desigual na humanidade. Aliás, que coisa que nos atinge igualmente além da morte (mesmo os impostos são desiguais)? Não há.

Essas características se distribuem segundo a curva do sino. Tome a inteligência, por exemplo: há um pequeno número de completos retardados; uma crescente quantidade de pessoas com imbecilidade mediana; uma decrescente população mais e mais inteligente; uns 3% de realmente especiais, e uma rabeira minúscula de gênios.

Claro, existem condições genéricas, como necessidade de comida e de água, mas mesmo essas são distribuídas de maneira singular: a regra da natureza é, portanto, a singularidade.

Mas se é assim, por que o anseio de igualdade está sempre presente em nossas mentes, sobretudo desde a Revolução Francesa? Ele tem motores inesperados: a inveja, a culpa e a compaixão.

É curioso pensar que a inveja não tem a igualdade como meta, ela quer apenas que a desigualdade se inverta: eu, que sou pobre, quero ficar rico, e que os ricos de hoje se ferrem, que sejam os pobres de amanhã. Mas imagine se ela se confessa assim? Claro que não, ela se traveste de motivações nobres. É notável: a riqueza incomoda a maioria muito mais do que a pobreza, mostrando que a inveja é muito mais poderosa que a compaixão.

A compaixão é sentir o sofrimento do outro (cum = junto; passio = sofrimento), e é seguramente o melhor motor do anseio de igualdade. Mas ninguém a traduziu melhor que John Stuart Mill em sua ética utilitarista: quero que sejam felizes todos os que me rodeiam, pois suas infelicidades atrapalham a minha felicidade.

A culpa é o motor mais comum: desde que Marx disse que os pobres assim o são por culpa dos ricos, que são seus predadores – e essa porcaria de conceito é base para todo o “nós contra eles”, senso comum esquerdista que domina o Brasil –, as pessoas anseiam a igualdade chantageadas pela culpa. É uma tristeza, pois isso gera reações, ora fanáticas, ora transgressoras: gente dizendo que você é o demônio insensível, e que eles são os pais dos pobres; gente mandando os pobres – e seus “defensores” – se ferrar.

Então, por que igualdade ansiamos? É simples, pela alcançável: a proposta da democracia representativa é que todos sejam iguais perante a lei – Curitiba está no bom caminho –, e que haja igualdade de OPORTUNIDADES para todos. Esta última significa que haja EDUCAÇÃO PÚBLICA DE QUALIDADE.

Nesse setor, o slogan “Pátria educadora” é apenas mais um escárnio de quem precisa de uma legião de iletrados para se manter no poder.


Daudt no Facebook: Querida Fernandinha Torres

Você escreveu um artigo ótimo criticando o coitadismo feminista, e caíram de pau em cima de você.

Fiquei profundamente triste ao te ver se dobrando ao mea culpa, se desculpando por ter falado desde a tua experiência pessoal. Minha querida, a beleza da democracia é isso: compartilhar as individualidades, amar a diversidade. O contrário disso, aquilo que o lulopetismo almeja, é a homogeneidade do totalitarismo, o pensamento único oficial em que tudo diferente dele é crime, ou, como Orwell dizia, “crimidéia”.

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