Natureza Humana: Por que muitos homens desprezam as mulheres

Misoginia é magoa, é ressentimento, é inveja, é dor de cotovelo que homem tem de mulher. A palavra de origem grega significa “ódio, aversão, desprezo por mulheres”. Só se aplica a homens. Não tem correspondente feminino: misantropia é aversão a gente, não a homens. Como entender que héteros sejam os maiores misóginos, se são os que mais as desejam? Para isso precisamos entrar no imaginário do misógino, que exagera traços reais do sexo oposto e a esse exagero se agarra, criando um estereótipo preconceituoso que o consola de suas dificuldades com elas.

Atenção/“disclaimer”: tudo o que vem a seguir faz parte do pensamento misógino – é essencial para compreendê-lo:

“As mulheres têm uma commodity que interessa muitíssimo aos homens, e sobre ela têm controle: elas não precisam de ereção para fazer sexo, basta-lhes querer (a inveja começa aí, a ‘inveja da vulva’); além disso, as moças não gostam tanto de sexo quanto eles, é só ver que, quando decidem, elas lhes ‘concedem seus favores sexuais’, na melhor das hipóteses elas “dão”. Ora, se gostassem também, elas não concederiam, nem seria um favor, nem dariam, elas o desfrutariam igualmente. Pior, elas escolhem a quem vão concedê-lo (o ressentimento começa aí, e se mostra extremado no estupro, o ‘roubo da commodity’). Resulta que os homens necessitam demais de algo que elas possuem e controlam. Portanto, eles se tornam compradores desesperados que, por definição, compram mal e pagam caro. Tudo se resume então a uma questão econômica”.

Para o misógino, como se vê, todas as mulheres são prostitutas, só variando de preço: quanto mais honestas, mais caras, só compráveis com casamento e provimento. “Não é à toa que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, ela nasceu com a mulher”, dizem eles. Se não bastasse o desencontro de interesses (eles querem sexo; elas querem casamento), quando “aceitam pagar caro”, casam-se e têm filhos com elas, eles vivem ameaçados com a ideia de que os filhos podem não ser seus – enquanto elas têm certeza de que são as mães (e tome de inveja) – e estariam fazendo papel de otários, criando os filhos do Ricardão. Daí vem o ciúme sexual dos homens (o ciúme delas é de prestígio, de em quem ele investe: amigos, futebol etc.), que pode enlouquecer o misógino ao ponto do assassinato. “Ah, mas ela já estava separada quando começou a namorar o outro”. Sim, vai dizer isso para o misógino: ele imagina que ela já o traía antes.

A encrenca é que todas essas crenças, aqui apresentadas em forma de caricatura, moram de algum jeito na cabeça de todos os homens: o ser humano é composto das mesmas substâncias, o que varia é a quantidade relativa delas que cada um carrega. Há conflito de interesses entre os sexos: o sexo é mais importante para eles; o casamento é mais importante para elas; elas escolhem com quem se deitam; eles, com quem se casam. É daí que vem a desconfiança.

Cada um de nós vai ter que lidar com a própria misoginia, e a misoginia de nossos filhos. O melhor jeito que conheço é a pessoalidade dos relacionamentos: ver a pessoa, para além dos rótulos.

Natureza Humana: Projeto Gente Grande

O pai gaúcho, camponês meio xucro, disse ao filho:

 

“Meu filho, na vida tu primeiro traça uma ‘meretriz’, depois tu segue essa ‘meretriz’ até o fim de teus dias, tchê!”

 

É certo que a vida sem diretrizes fica muito imediatista, muito da mão para a boca, é mais assim quando somos crianças.

 

Mas… ninguém está ficando mais moço, há algo nos esperando na esquina da vida, algo além da morte, e que pode chegar muitas décadas antes dela: a vida adulta.

 

Nessa tal de vida adulta, perdem-se umas coisas, ganham-se outras. Perdem-se ilusões: vida sem fim; amparo  total; dinheiro que cai do céu; casa, comida, roupa lavada, passada e posta no armário; banheiro limpo, quarto arrumado, luz, gás, telefone, tudo isso sem pensar como acontece; médico, dentista e hospital “de graça”; a própria ilusão de que existe alguma coisa de graça… Enfim, a lista é interminável. Mas talvez a maior perda seja a ilusão de que tudo aquilo era uma espécie de direito adquirido, e a sensação de que estão fazendo alguma maldade conosco, ao tirá-lo.

 

Ganham-se: independência e autonomia, o direito de mandar na própria vida.

 

Mas o cliente estranhou que eu chamasse a transição para a vida adulta de Projeto Gente Grande: “Não é meio infantil?” Claro que é, e com quem você pensa que eu estou falando, senão com a infantilidade que existe em cada um de nós? Veja, eu não disse “criança”, pois quero uma criança dentro da gente até o fim, criativa, curiosa, brincando pela vida afora. Mas para isso ela precisa de deixar a infantilidade para trás: fada do dente; papai  Noel; coelhinho da Páscoa; governo forte que tem dinheiro interminável para nos sustentar, nos proteger e nos dizer o que pensar… Essas coisas, sabe?

 

Está certo que nascemos completamente imediatistas, esse negócio de planejamento de médio e longo prazo só vem – se é que vem – mais tarde. Mas a tal da geração Y, essa está ferrada! Eles foram criados com a ideia de que o mundo lhes deve, de que TODOS são especiais (êpa, isso é contradição entre termos), de que só farão coisas grandiosas, e sem esforço. Nos EUA, para eles não se usa mais “mimados” (spoiled), e sim os que “estão no direito de” (entitled).

 

Conversei com um deles, meu cliente: “Que tal você ter uma multa, pagar à sua mãe por cada quarto bagunçado, cada roupa pelo chão?” “Ah, não adianta, multa não me dói, quando a mesada acaba eu posso pegar dinheiro no gavetão dela”. Ou seja, para ter um orçamento mensal, para desenvolver responsabilidade fiscal, ele precisa abrir mão do gavetão. “Você vai me achar um crianção”, falou. “E eu estou aqui pra te julgar? Olha, o Projeto Gente Grande não é meu, é seu! Eu não sou puxador de orelha, mas posso ser teu assessor, no projeto”.

 

Defendo que as escolas ensinem o Projeto Gente Grande, e que os alunos TOMEM POSSE dele. Orçamento, planejamento, poupança… Lá devia haver um ensaio de cidadania: a escola não teria partido, mas ensinaria democracia (os alunos poderiam formar partidos), e assim por diante.

 

Enfim, não faltarão diretrizes para implementar o Projeto Gente Grande. Um verdadeiro harém de “meretrizes”!

Psicanálise do mau-humor


-“Tô puto!”
-“Olha aqui a solução!”
-“Eu não quero solução, quero ficar puto!”

Assim é o mau-humor: ele contém uma mensagem em si. Mau-humor supõe plateia. Mal-humorado sozinho em casa? Nem pensar!

Ele anuncia ao mundo uma acusação vaga, deseja que a audiência se sinta culpada por seu estado, e pior, nem saiba bem de quem lhe acusam: “O que houve?” “Nada!” Puro Kafka… O mau-humor é uma punição.
Aqui, duas questões se abrem: existe malícia, má intenção no mau-humor? A segunda questão é: existem outros tipos de mau-humor além do punitivo?

Má intenção implica deliberação e escolha, mas mau-humor supõe algum sofrimento. O mal-humorado escolheria sofrer, mesmo que tenha o gosto de fazer sofrer os outros? Ah, eis a questão sadomasoquista: mesmo explicitamente sádico, o agente do sofrimento também sofre, é também masoquista, portanto. Mas então o mau-humor pode ser sintoma de uma encrenca psíquica, derivada do mau gerenciamento da raiva (a origem do sadomasoquismo é esta): não sabendo como expressar seu desconforto, sua indignação, a pessoa é levada a seus canais incompetentes de expressão, as manifestações doentias de algo que seria seu instrumento de buscar justiça: a raiva.

Então, mesmo intencionado, o mau-humor não representa uma escolha livre: a pessoa viveu mergulhado numa cultura em que o direito de indignação e de protesto não existem, ela não está acostumada a se consultar e a saber onde foi atropelada. Ela sofre de uma encrenca.
“Ah, então a gente deve entender e tolerar?” Nada disso! Entender não é gostar. Eu posso entender as causas sociais do crime, mas quero o criminoso punido, ele é responsável por seus atos. Se ele entender que tem um problema, irá talvez buscar uma solução. A solução coitadista é inaceitável (como qualquer coitadismo o é). Há canais competentes para a raiva, a civilização os oferece (eles não são tão gostosos quanto a vingança, mas… é o que temos para hoje).

A segunda questão, outros tipos, começa pela TPM. “Ah, você não é mulher, não sabe o que é sentir TPM”. Não, eu sou médico, eu sei o que é TPM: estado de irritabilidade causado por edema cerebral derivado da flutuação de hormônios. É uma doença a ser tratada com recaptadores da serotonina e/ou anti-inflamatórios não hormonais. Aceitá-la como “afirmação de gênero” é um insulto: uma mulher não pode se definir por suas doenças. Nem pode usá-las como licença para matar, muito menos como bandeira coitadista, do tipo “mulher sofre”.

“Mas, e o Rubem Braga e o Mario Covas?” Sim, há gente que transformou seu mau-humor numa forma de arte, que é folclórica e engraçada por conta dele. A coisa se torna tão teatral que dá vontade de puxar uma cadeira e assistir.

Mas isso tem um desdobramento ruim: há quem, por isso, ache bonito ser mal-humorado. Ache-se superior. “Tá rindo de quê, idiota? Você é cego, não vê a realidade?” Voltamos ao sadomasoquismo. Isso não é aceitável. Precisa ser punido, ou corrigido. Ou tomando distância, ou como fiz com meus filhos: aqui em casa, mau-humor sempre foi justa causa para bronca: “Para de desfilar essa tromba e fala logo o que é, droga!” E eles falavam.


Natureza Humana: Não sabemos o que queremos

Linus, o amigo de Charlie Brown e Snoopy nos quadrinhos de Charles Schultz, olhava encantado para a coleguinha no recreio. Foi se aproximando dela, como hipnotizado. Quando chegou bem pertinho, romanticamente… deu-lhe um soco no nariz.

Ele não sabia o que fazer com seu desejo despertado. Sabia a linguagem do soco como expressão de uma intensidade emocional, era isso de que dispunha, e foi isso que usou.

A comicidade vem de que não somos tão diferentes dele. O que sabemos de nosso desejo? Como sabemos expressá-lo? De que dispomos para isso? Infelizmente, a resposta é que sabemos pouco, e o que dispomos é dos meios oferecidos pelo senso comum.

Vou me explicar usando uma dessas maravilhas politicamente incorretas que ouço no consultório: “Cheguei à conclusão de que esse negócio de f**** é pra operário. Há tantas coisas boas para se fazer na cama, e neguinho só pensa naquilo?”

Sim, habitualmente nosso desejo é monopolizado pelas linhas de montagem impostas pelo senso comum. “Você se formou? Já tem trabalho? Está na hora de entrar para o rol dos homens sérios!” E lá vai o infeliz se casar com 25 anos… “A moça ta dando mole! Vai lá, otário, vai lá!” E lá vai o cara, sem ao menos se consultar se a moça é ou não objeto de seu desejo. Depois vem apavorado me dizer que “falhou”. Pois eu lhe digo, ouça o que “ele”, lá em baixo, tem a te dizer, pois pelo visto ele entende mais do seu desejo que você. Você achou que devia gostar; ele não.

Isso abre dois temas: impotência e autoconsulta. Muitas impotências vêm da falta de autoconsulta, e da obrigação de performance: o rapaz está desconfortável ali, fazendo o que o senso comum lhe diz para fazer, e não o que ele quer. E não adianta: ninguém manda no de baixo. Bem que tentam, com Viagras e assemelhados, mas ele lá continua rebelde. O rapaz sabe o que quer? “Eu queria, a princípio, fazer carinho e beijar, e ir vendo o que rolava depois, mas eu estava preocupado com o que a moça ia pensar de mim”. Bom, esse até sabia o que queria, só faltava combinar com a moça.

A propósito, agora as moças importaram a preocupação com desempenho, outrora exclusiva deles, e começam a não ter orgasmo por excesso de medo de crítica da plateia. Sim, elas vão para cama com plateia: todas as mulheres com que o rapaz já esteve lá estão, presentes na cabeça dela. E ela se comparando: “Tenho que arrasar!” Ah, meu deus, que triste… ela não está lá para brincar, mas para arrasar, e isso inclui não ter celulite! Como se entregar ao orgasmo, com tanta gente observando?

É claro que o tema sexual é uma metáfora e as impotências são mais amplas. Não aprendemos a nos consultar para as coisas mais simples, de escolhas profissionais a compra de roupa. E assim não conhecemos nosso desejo. Há na psicanálise um aspecto pouco compreendido: ela é como a análise clínica. Não adianta só saber que sua glicose está alta, é preciso, a partir disso, tomar providências, dietas, exercícios. Se você aprendeu algo sobre seu desejo, o que vai fazer para implementá-lo? Consultar-se, ouvir-se, e treinar seu desejo. O treino é bom em si, não precisa “chegar lá”.


Natureza Humana: A raiva é a mãe da justiça

“Eu sou o ar que ela respira? Isso é triste, porque ninguém dá bola para o ar, a menos que ele falte”.

A mesma coisa estranha acontece com a justiça e a saúde: se elas estão presentes, a gente nem nota. Se você não estava notando seu pé, é sinal de que ele está com saúde, caso contrário ele chamaria a sua atenção.

Temos notado a justiça, pois neste momento o país atravessa um desses transes históricos em que sua falta precisa ser aguda e amplamente corrigida. E está sendo, num “reality show” melhor que qualquer novela.
O que é justiça? Hans Kelsen que me perdoe, mas quero um sentido mais primitivo, mais da natureza humana, pois ele está presente desde nosso nascimento, num software genético voltado para a falta de justiça: o sentimento de que alguma coisa está errada, e que precisa ser corrigida. Esse sentimento pode ter o nome genérico de “irritação”, uma perda da paz, que ganhará mais tarde o nome de raiva.

Um bebê molhado ou com fome perde a paz, se irrita e chora, pois é tudo o que consegue em sua impotência. O choro dele nos irrita, e corremos para devolver sua paz, de modo a recuperar a nossa.

Uma irritação mais sofisticada: ciúme. A criança agora tem três anos e ganhou um irmãozinho. Toda a atenção da família, que era exclusiva dela, se volta para a nova cria. A criança prejudicada tem raiva; já não chora, pois tem mais potência: ela só quer matar o intruso. Dizem-lhe que isso é feio, que ela deve amar o irmão. A raiva não passa, a paz não vem, a justiça não foi feita. Ela não seria feita matando o caçula, mas também não foi feita calando a criança. Uma solução mais sofisticada se fazia necessária. A coisa está ficando mais complexa mesmo, e vai piorar.

“Eu não quero vingança, quero é justiça”. Quantas vezes ouvimos isso em entrevistas na cena do crime? Bem traduzido, daria em: “O que eu quero mesmo é vingança, mas na falta de melhor, fico com essa droga de justiça”.

A pena de Talião era mais próxima do nosso desejo (“olho por olho; dente por dente”), daí a palavra “retaliação”, mas o mundo foi se tornando cada vez mais civilizado, fomos obrigados a abrir mão da violência em favor do Estado (sim, ele tem o monopólio da força bruta, e precisa usá-la de vez em quando) para poder conviver com estranhos.

Já não podemos fazer “justiça com as próprias mãos”, mas continuamos querendo. É isso que Freud chamou de “mal-estar na civilização”.

Ora, “mal-estar” é um eufemismo para raiva. Precisamos fazer alguma coisa para diminuí-la. Precisamos aperfeiçoar a justiça, este é o único caminho para a civilização triunfar sobre a barbárie, pois ela mora dentro de nós desde pequenos, lembra?

“A justiça tarda, mas não falha”? Errado: a justiça que tarda é falha. A prisão por condenação em segunda instância é um dos meios de aliviar nossa raiva de ver uma justiça que nunca alcança poderosos endinheirados.

Seja no âmbito familiar, seja no público, não há caminho para a redução de nossa raiva que não passe pelo aperfeiçoamento da justiça.

Dentro do horror, essa é a beleza do momento que vivemos: a busca de uma justiça honrada igual para todos.


Natureza Humana: Burrice

“Antes do meu primeiro casamento eu não era solteiro, era imbecil: tinha vergonha do meu desejo, pensava que apresentá-lo a uma moça seria um insulto, que elas deveriam ser tratadas como deusas em pedestais”. O relato de consultório, feito por pessoa inteligente, diz: a pessoa pode emburrecer ao longo da vida; essa burrice pode ser revertida.

Conceituando inteligência como a capacidade de se ligar dois ou mais arquivos de memória (que Richard Dawkins chamou de “memes”) para formar terceiros, e de burrice a incapacidade de fazer tal coisa, constatamos que: a) a humanidade tem um predomínio de imbecis; b) erudição não é sinônimo de inteligência (há eruditos cuja cabeça se parece um museu de aves empalhadas: são belos exemplares, mas eles não se cruzam nem procriam).

Mas se a imbecilidade é variável, o que nos torna imbecis? E o que facilita a inteligência? Há crianças que se destacam pelo brilho, mas dificilmente se vê uma criança imbecil. Elas têm um despudor e uma leviandade de pensamento – e de palavra – que fazem sua inteligência brilhar. Isso lhes dá maleabilidade, agilidade e plasticidade de processamento de ideias, parte fundamental da inteligência.

Mas isso vai se perder: rapidamente a criança é apresentada ao que é próprio e ao impróprio, ao pensável e ao impensável. Começam a ser construídas cercas eletrificadas em seu cérebro: se ela ousa ultrapassar, toma choque. Na minha infância católica havia o pecado mortal de pensamento: eu iria para o inferno só por pensar, por exemplo, em sacanagem.

Começa aí a patrulha do pensamento, a “crimideia” orwelliana que vai nos emburrecer. Claro, o politicamente correto ainda vem…Para piorar, na adolescência passamos a ter que lidar com assuntos de complexidade enorme, sem o menor preparo para isso: a sexualidade e as preliminares do mundo adulto. É quando começamos a sucumbir ao senso comum, não o dos pais (eles agora são o inimigo), mas o da tribo a que aderimos, no auge de nossa insuficiência: temos que nos homogeneizar, eliminar qualquer traço de diferença deles. Por reação às nossas inseguranças, adquirimos certezas absolutas: não existe melhor contribuição para a burrice.

Se não fosse suficiente, o adolescente ainda corre o risco da maconha, das drogas estupefacientes (fazedoras de estúpidos), além de se levar a sério. Levar-se a sério é pior que maconha, para emburrecer. Mas crescemos. Aí mora nossa chance: se caminharmos para a independência, poderemos tomar o caminho de recuperar a inteligência.

Claro, ainda há ciladas pela frente: crenças absolutistas, políticas ou religiosas; novas tribos para aplacar inseguranças; neuroses (que nos aprisionam ao passado); depressão; a atração pelo dramático, que impede a reflexão.Fico feliz por trabalhar como um “recuperador de HD”: num ambiente seguro, o pensamento redescobre o despudor e a leviandade necessários para rever sua história e livrá-la do lastro de burrice que corrompeu seu processador. Uma vez separados o pensar e o agir, o primeiro escolherá em liberdade uma ação mais inteligente.

Natureza Humana: As razões do coração

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”. A primeira vez que ouvi essa frase foi num samba de Marino Pinto e Zé da Zilda (“Aos pés da santa cruz”), mas ela havia sido dita trezentos anos antes pelo filósofo e matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), antevendo as dimensões do inconsciente muito antes de Freud nascer. Duas coisas me encantam na frase de Pascal: o apreço pela razão, bem típica de seu tempo (Iluminismo e Idade Moderna), com a vontade de que a razão viesse a dar conta de tudo. A outra: o fato de eu trabalhar com a invenção de Freud, e de me esforçar para, com a psicanálise, entender as razões do coração.
Não sei qual das duas me encanta mais. Claro, eu adoro descobrir por que razão esquisita uma pessoa morre de medo de avião, mas anda tranquilamente de carro (o lugar mais arriscado em que entramos). Ou que diabos levam àquela outra se apaixonar por alguém que é claramente uma roubada. Descobrir a trama que conecta a história de uma pessoa a suas decisões aparentemente irracionais é como ser um detetive neo-iluminista em busca das razões cifradas do desejo inconsciente, as razões do coração. E até as há sociológico/psicanalíticas: por que gays buscam o amor de um hétero, quando seria razoável que o buscassem entre seus pares? Porque foram rejeitados por seus pais héteros, e agora querem corrigir a história (a encrenca é que a história tende a se repetir, tão parecido com o pai é o objeto de seu desejo). Outra: por que às vezes, no amor, a distância aproxima e a proximidade afasta? Porque a distância favorece a idealização, e a proximidade traz o real. É difícil, preferimos o ideal.
Mas certamente o apreço pela razão tem sido um farol-guia em minha vida. Tenho por ela carinho, respeito e admiração. Como a humanidade fez para sobreviver, vivo a procurar o sentido das coisas, dos fenômenos, da ação humana. A ela sou grato pela minha saúde mental; em sua defesa eu saio amiúde, mormente nesses tempos em que ela vive sendo escorraçada das conversas, quando não vilipendiada nos pronunciamentos políticos. Basta ver o quanto nos enlouquece a distorção do sentido, o como a razão é torturada pelas intenções espúrias da novilíngua de quem está querendo nos enrolar.
Tudo o que se publica (este artigo, p.ex.) visa influenciar o senso comum. O termo “formadores de opinião” é pretensioso, mas vem daí. Em alguns casos, como na crescente aversão ao cigarro, o senso comum é afinado com a razão. Em muitos outros, como na equação simplória do “pobre é coitado e bom; rico é cruel e mau”, e o coitadismo que daí resulta, é mais afinado com o “ter razão”, por irracional que seja.
A propósito, mesmo irracional, há no processo uma homenagem à razão: todos querem “ter razão”, a despeito do de seus desprezos pela lógica. Como Polonius disse ao rei, “Senhor, existe método nessa loucura”: ela serve a um objetivo de dominação. E vá você discutir com um louco: ele usará qualquer truque, desprezará o racional para continuar “tendo razão”.
Afinal, como disse Chesterton, “o louco é aquele que perdeu tudo, exceto a razão”. São as razões do coração.

Natureza Humana: Por que pisamos em ovos com nossos filhos

Vejo crianças fazendo manha, gritando em restaurantes, se jogando no chão, esperneando no shopping quando contrariadas, desrespeitando professores, sendo insuportáveis…

Por que essas coisas se tornaram cada vez mais comuns, e por que eram tão raras quando eu fui criança? Lembro-me de minha mãe dizendo para meu irmão, que a olhava furibundo depois de um merecido – e literal – puxão de orelha: “Você pensa que me mete medo com esses olhos?” E não metia mesmo. Ao contrário de muitos pais da atualidade, ela não tinha medo de criança, ela não sofria de pedofobia.

Essas palavras que terminam em fobia passaram a ser entendidas mais recentemente como “ter-se ódio a”, como em “homofobia”, mas o sentido original é “medo de”. No entanto, o medo e o ódio não andam distantes quando o assunto é a homofobia, ou a pedofobia.

Supostamente, somos mais fortes que uma criança, sempre o fomos. O que as tornou tão poderosas ao ponto de temê-las, de nos sentirmos impotentes para o exercício da autoridade tão necessária para prepará-las para a vida?

Há vários fenômenos confluentes para esse resultado, mas ele resulta de duas mudanças básicas: a maneira como vemos as crianças e a maneira como vemos a autoridade.
A concepção do que é uma criança mudou drasticamente nos últimos trezentos anos: de objeto da propriedade dos pais, podendo ser vendida ou morta sem consequências legais, até virar um bibelô, coitadista, frágil, traumatizável, tutelada por leis e estatutos protecionistas, que deve ser alvo de um amor incondicional beirando a subserviência, para quem os pais devem dar “tempo de qualidade”, já que não devotam todas as horas de sua vida (“como deveriam”), e diante de quem é dever moral de quaisquer pais minimamente educados se sentir culpadíssimos por tudo o que erram em sua criação (e eles “erram muito”, espere até seu filho crescer e ir a um psicanalista para você ver a desgraça que fez nele).

Ou seja, as crianças passaram de moscas mortas a monstros poderosos diante de quem os pais morrem de medo.

Nenhuma surpresa, pois o movimento mais comum da humanidade é o pêndulo da formação reativa: ficamos com horror das barbáries cometidas contra as crianças no passado, e por isso exageramos para o lado oposto, passamos a mimá-las como se fossem quebrar com um espirro. Antes eram invisíveis; agora damos-lhes toneladas de atenção, até a brincar com elas nos impomos! Antes éramos tiranos; agora as tiranas são elas, nós lhes passamos o bastão.

É quando o medo desperta o ódio: os filhos gritam e a gente fica de saco cheio. Mas odiá-los é tabu impensável, pior que incesto, por isso nós o reprimimos, e em seu lugar surge a bondade reativa: “Meu amor, mamãe vai te explicar que gritar não é bonito”. Mais gritos; mais “bondade”. Pais bonzinhos podem ferrar a vida de seus filhos por falta de autoridade.
Autoridade: depois de anos de ditadura, passamos a confundir autoridade (a condução de quem sabe mais) com autoritarismo (imposição pela força), e com isso, perdoem a metáfora, jogamos o bebê fora junto com a água do banho.

Natureza Humana: O que acontece quando o casamento se torna uma prisão

A paixão tem prazo de validade (cerca de três/quatro anos) e três destinos possíveis: a indiferença mútua, quando então há uma separação sem rancor; o amor companheiro, seu melhor resultado, quando a amizade erótica entre pessoas que se conhecem e se admiram toma o lugar das ilusões; e o sadomasoquismo, quando o amor é substituído pelo rancor surdo, num processo de vingança interminável, de ambas as partes.

O triste é perceber que o sadomasoquismo leva a mais bodas de ouro do que o amor: olhe em volta, nos restaurantes, os casais de meia idade em silêncio, desfilando seu desprezo recíproco para a platéia.

Sempre me intrigou o porquê desse fenômeno. Afinal, se eles se odeiam, por que não se separam?

Quarenta anos de clínica me levaram a entender: porque não podem; eles se encontram numa prisão, e um é carcereiro do outro.

Numa prisão você perde a liberdade: por definição, é um lugar de que você não pode sair quando quiser. Perder a liberdade não é ruim em si, vive-se perdendo a liberdade por vontade, em troca de um projeto bacana, com ter filhos, por exemplo. Há mesmo aqueles que têm horror à liberdade, arranjam alguém (um deus; um partido; um líder populista) para obedecer, e acham que estão com a vida resolvida, pois fazer escolhas os assusta.

Ora, até aí, nada; é escolha deles, que sejam felizes; é como na anedota: “O que você acha dos padres se casarem?” “Bem, se eles se amam, por que não?”

Mas a prisão não é uma escolha, ela traz revolta e ressentimento, ela produz ódio. O problema é que esse ódio não se dirige ao “sistema”, e os guardas estão bem defendidos. Sobra o companheiro de cárcere. Se Jesus disse “ama o próximo”, porque é complicado amar o distante, também se acaba por odiar o próximo… porque ele está ao nosso alcance.

Essa é a tristeza do casamento-prisão: odeia-se o cônjuge- carcereiro. Lá se está a contragosto – e mostrando isso –, forçado, aturando, por falta de grana, porque se entrou por paixão efêmera, por linha de montagem social, para não parecer esquisitão, solteirona, gay, porque todo mundo se casa, estava na hora de entrar para o rol dos homens sérios, para sair da prisão que era a casa dos pais, ter uma festa de arromba, descansar do medo de levar fora, arranjar alguém que o sustente, para sair bem na foto.

É por isso que, no consultório, faço essa pergunta: o que te prende a esse casamento? Muitas vezes uma pergunta parece uma ordem disfarçada (“Sai logo dessa droga!”). Não é o caso: quero conhecer mesmo os grilhões daquela prisão.

Isso faz da separação uma possibilidade séria: “É, de fato, eu não morreria se me separasse, mas… não quero! Há muitas coisas boas no meu casamento, além dos filhos. Bem, se eu posso me separar e não quero, por que eu fico me queixando do outro? Por que eu sou um ressentido crônico contra alguém que considero meu carcereiro?”

Nessa hora, a pessoa retorna de algum modo ao início de seu relacionamento, quando estava nele porque queria, e não aprisionado. Nessa hora a pessoa pode escolher se casar: só pode se casar quem pode se separar.

É quando o casamento não é mais uma prisão.

Natureza Humana: Homofobia

É uma palavra engraçada, sua tradução do grego é “medo de iguais”. Ora, toda a natureza humana está voltada para ter medo dos diferentes: quem não é da tribo deve ser inimigo, pensavam nossos ancestrais africanos (só eles?), de modo que a melhor palavra grega para nós seria “heterofobia” (medo de diferentes).

Mas a acepção que ficou é de “ódio aos gays”. Se você reparar, é um sentimento quase que exclusivo de homens em relação a outros homens. O que leva a isso? Que encrenca têm os homens com o homoerotismo?

É coisa complexa, começa com a formação da identidade masculina e o horror aos diferentes. Quando um menino é pequeno, ele começa a perceber que as meninas são de fato diferentes dele: só 10% delas são “Tom boys”, sobem em árvores, jogam futebol, correm, lutam e são companheiras dele como um amigo. As outras 90% fazem coisas incompreensíveis para ele, como brincar de boneca e de casinha. São diferentes.

Ai, meu deus, já ouço os culturalistas a dizer que isso é “porque eles são ensinados assim”. Não é! Crie um menino dos 90% (os outros 10% equivalem ao Tom boy das meninas) entre tias, babados e bonecas, dentro de um quarto cor de rosa, e ele vai querer correr e transformar as bonecas em super-heróis.

Os meninos fazem uma liga entre si, e, como dizia o clube do Bolinha, “menina não entra”. É aí que começa a misoginia (aversão às mulheres), que vai ganhar adereços novos ao longo da vida dos meninos. Essa liga é fonte de identidade e de patrulha: quem se comportar “diferente” vai ser chamado de “mulerzinha”, “mariquinha”. Veja bem: não é de “viadinho”. Não, o errado é parecer menina.

Aí também começa uma característica masculina diferenciada: a amizade entre homens. Na caça e na guerra nossos ancestrais depositaram sua sobrevivência nas mãos dos amigos, e isso nos selecionou para amar o amigo e confiar nele. Em termos de fidelidade, ou mesmo de intensidade, amor de amigo é único, forte e silencioso. Exceto quando de pileque: aí seus afetos tornam-se explícitos e sentimentais. Não há correspondente entre mulheres, é coisa de homem mesmo.
Mas só no pileque essa explicitude é perdoada; no resto do tempo, os amigos vivem se patrulhando, e/ou brincando, das possíveis viadagens de seus comportamentos.

Para piorar, ágape, filia e Eros (camaradagem, amizade e amor sensual) não têm fronteiras rígidas. E pior ainda: entre um gay absoluto e um hétero absoluto existem cinqüenta tons de cinza (ou os seis graus da escala Kinsey). De modo que não é incomum um hétero entrar em crise com sua identidade masculina por ter vislumbrado em si um desejo, um olhar, uma atração “incorreta”.

Essa é a hora da ameaça, véspera do ódio. Como um islâmico inseguro de sua fé, que precisa matar os infiéis por isso, o “abalado” sai à caça do seu novo inimigo: está inaugurado o homofóbico perigoso. Ele quer matar fora algo que mora dentro de si: a suspeita de amor “errado”, capaz de destruí-lo como o “homem” que ele se concebeu ser.

É quando homofobia retorna ao seu sentido original: medo de iguais. Pois não existem homofóbicos entre héteros absolutos. Eles não estão nem aí…

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