Daudt no Facebook: Sobre a nossa idiotice


Postei uma anedota que diz que o segredo da felicidade está em não discutir com idiotas. Cabe um reparo:

O simplorismo da anedota desconsidera que a inteligência se distribui pela população seguindo a curva de Gauss. Há, portanto, idiotas e IDIOTAS. Sem mencionar que, durante a vida, nós passamos por fases mais idiotas, ou menos idiotas. Até mesmo durante um dia: há quem acorde idiota, e vá melhorando ao longo do dia.

Eu costumo dizer que antes do primeiro casamento eu não era solteiro, era imbecil…


Natureza Humana: Força da Justiça

A força da justiça


Como psicanalista, sou um advogado de defesa do cliente que me contrata. Ele chega pagando pena, prisioneiro por décadas de uma culpa que não está clara – sua neurose –, e pior, achando-se mais culpado ainda por tê-la. Quero ver os autos desse processo que o condenou, mas eles não estão on-line, infelizmente. A coisa é tão injusta que se faz necessário um trabalho detetivesco de arqueólogo para decifrá-lo. Sim, porque ele está codificado em sintomas e sonhos, ele está inconsciente.

A beleza da coisa reside em que, à medida que vamos jogando luz na história, ela se revela injusta com o neurótico: foi resultado de incompetências – nunca encontrei história de má intenção – de sua criação carregadas pela vida afora, o famoso Complexo de Édipo. Exposta a injustiça, entra então a força da justiça: a indignação e o inconformismo, a vontade de corrigir o erro.

Indignação com injustiça é um software inato que trazemos, com um resultado primeiro: raiva. Qualquer raiva é revolta contra o que nos parece injusto (mesmo que não seja). Por isso digo que a raiva é a mãe da justiça. É ela que motiva a busca de se corrigir o erro, ainda que muitas vezes tome caminhos que só fazem agravá-lo.

Um jovem cliente me perguntou: “Qual é sua motivação na vida? A minha é a vingança”. Respondi que a minha era amar e ser amado. Disse ele: “É, essa também é boa… mas vingança é melhor!”

Ele era prisioneiro de um canal incompetente da justiça, deixara de viver sua vida para se tornar um vingador. Ele se ressentia da incompetência de seus pais, e era rebelde na vida como forma de vingança. Ou seja, seus pais continuavam mandando nele. O máximo desse tiro no pé é o suicídio de vingança, para deixar os pais culpados. É o único suicídio que me revolta, os outros costumam ser eutanásias.

Mas, veja só, o fato de se perceber prisioneiro do ressentimento, e a injustiça contida nisso, fez com que ele começasse a mudar o rumo de sua vida, a tomá-la para si em vez de dedicá-la a “homenagear” os pais.

Outro canal incompetente da raiva é a inveja: “Ele é mais bonito, rico e inteligente que eu, isso não é justo”. O curioso é que a inveja não almeja a igualdade, e sim a inversão da desigualdade: “Quero me dar bem, e que ele se ferre”. Isso ajuda a entender muitas ideologias políticas…

O ciúme, por sua vez, ora é injusto, ora é justo: quando nasce um irmãozinho e toda a atenção que o mais velho recebia lhe é retirada, o ciúme que ele tem é mais do que justo, precisa ser considerado e respeitado.

A justiça está ligada ao nosso programa de altruísmo recíproco: mesmo na amizade, se estamos dando muito mais que recebendo, um incômodo/raiva começa a surgir.

Repare em você como a avaliação de justiça/injustiça funciona quase que o tempo todo, aplicada a inúmeras situações.

A psicanálise conta com essa premissa: o Complexo de Édipo é injusto, vamos corrigi-lo. A esperança de cura, em psicanálise, reside na força da justiça. A esperança de cura das doenças institucionais do Brasil reside na força da justiça.

Me encanta ver isso acontecendo.


Natureza Humana: Corpo e Alma?


“Quereis saber o que é a alma? Olhai um corpo sem alma”. As palavras do sermão do padre Antônio Vieira, ditas por meu pai, me impressionaram desde a infância. Eu não sabia, mas estava se formando ali, na cabeça do pequeno obsessivo, uma crença dualista: existem as coisas do espírito e existem as coisas físicas (“res cogitans; res extensa”, Descartes, séc. XVI). O Iluminismo, a idade Moderna, suas classificações e o império da razão, são o paraíso do obsessivo, e não estou falando mal da obsessividade, não: ela é preciosa, desde que não se apodere da gente (neurose obsessiva).

Mas, de fato, seu instrumento de organizar as coisas em ítens atrapalha um pouco na compreensão da realidade, pois ela não tem fronteiras tão marcadas: o ser humano não é assim tão diferente dos outros bichos, por exemplo.

A questão dualista, a separação de corpo e alma, sofreria um questionamento interessante para mim, à medida que os anos se passaram.

Tudo começou com o abandono da fé: se eu não era mais crente, então não havia mais alma. Mas isso deixava uma pergunta: o que sou eu, aquele que pensa, logo existe? É só corpo?

A informática veio para abrir um caminho de resposta: hardware e software, a máquina e o programa, um não vive sem o outro. Transportei isso para mim e fui ficando encantado: sou, desde minha primeira célula – o ovo fecundado – um hardware rodando um software. As informações genéticas (software) daquele ovo começaram por construir uma máquina cada vez mais complexa, apta a rodar programas mais e mais complexos. A coisa não parou, ao ponto que minha indissolúvel máquina/programa está escrevendo este artigo agora.

Ah, agora fazia sentido a afirmação de Freud de que nosso Eu é principalmente corporal: olho meus dedos digitando, e me reconheço tanto quanto ao me olhar no espelho. Exulto ao perder peso, pois me pareço mais comigo mesmo. É uma concretude que equivale ao abstrato: quando sou amoroso, pareço-me comigo, me sinto bonito (nova fronteira que cai: a ética e a estética se confundem).

Mas nada equivale às fronteiras que vêm caindo, justamente entre as formas de amor que os gregos classificaram: Eros (o amor/excitação sensual); Ágape (a camaradagem) e Filia (a amizade), sentimentos que meu superego separava com rigor, começam a ser olhados de forma diferente. Será mesmo que Eros só existe quando eu tenho uma ereção? Um abraço gostoso, um cafuné despretensioso, não são eles uma excitação dos sentidos? Nossa cultura, tão chameguenta que é, não nos ensina que Eros pode estar presente no amor que temos por filhos e por amigos? Quando eu penso em quantos melhores amigos se separaram por medo de estarem gostando “demais” um do outro. Que sofrimento inútil, típico de obsessivos exigentes de “pureza”.

E o que dizer do contrário, da defesa que faço do amor companheiro entre casais, o que mais é senão a defesa da amizade – Filia – para quem tem uma relação predominantemente erótica?

As coisas melhoraram muito com essas fronteiras fluidas. E hoje posso dizer, ao olhar um “corpo sem alma”: não é um nem o outro, são apenas restos mortais.


Daudt no Facebook: Petrópolis – Anos 50


As férias escolares de verão duravam três inacreditáveis meses, e começavam com a família embarcando no Chevrolet 1953 branco, estofamento de casimira azul marinho, em direção à rodovia Washington Luiz. As janelas iam abertas, naquela era pré ar-condicionado, ventoinhas viradas para dentro, o assento inteiriço dianteiro tinha seu espaço do meio ambicionado pelos filhos como o lugar de mais prestígio no carro. Sim, era também o lugar mais perigoso de se viajar, mas naqueles tempos em que ninguém pensava em perigos automobilísticos, nem se sabia o que eram cintos de segurança, ver o panorama pelo vidro da frente e estar entre os pais era o que importava.

Túnel Rebouças e Santa Bárbara? Nem sonhávamos com eles, alcançava-se a Av. Francisco Bicalho pelo túnel da Rua Alice, o mais antigo da cidade. Passando, já no canal do Mangue, sob o lindo viaduto ferroviário, nosso pai engenheiro explicava que seu construtor havia temido tanto que ele desabasse que tinha se suicidado no dia da sua inauguração, sem ter visto que ele passara no teste, e que continuava resistindo cinqüenta anos depois.

Mas aí começava a paleta de odores – nem todos agradáveis – que marcava a viagem: o primeiro era de café torrado, acre, do café Palheta, bem no início da Avenida do Mangue. Depois, passando pelas barcaças de carvão de pedra inglês que abastecia a companhia de gás, e que era tirado delas por grandes guindastes, nem tínhamos chance de sentir seu cheiro, pois o curtume Carioca nos derrubava com o horror de sua catinga. Os altos silos da fábrica de biscoitos Marilu nos deixavam frustrados: seria um agradável contraste sentir o cheirinho de seus assados. Mas não havia tempo, logo o fedor de sebo da fábrica de sabão Português (da União Fabril Exportadora – UFE) já se apresentava. Para ser logo substituído pelo da refinaria de Manguinhos, também ruim: mercaptanas, segundo nosso professor de química.

Daí para frente era só encantamento, magia mesmo: a serra era um passeio pela floresta frondosa e florida, a estrada cercada por tapetes de marias-sem-vergonha, a mata salpicada de quaresmeiras roxas, de fedegosos amarelos e de embaúbas prateadas. Ao longe, nosso pai nos apontava, ficava o monte Dente de Cão (acho que ele era o “inventor” do nome, tirado da aparência do morro de granito). Passávamos pelo Bar das Onças, onde se dizia haver uma jaula com o bicho (mas nunca paramos para conferir), pelos vendedores de banana-ouro e banana-nanica, cachos e cachos amarelos sob tendas de lona à beira da estrada. Agora sim, o cheiro de mato, de capim-melado, de flores nos inebriava (nos anos 50 havia coisas que inebriavam!).

A passagem sinistra sob o teto de pedra escavada anunciava que estávamos quase no alto. Era a hora de lembrar o acidente com o carro do Getulio Vargas: uma pedra desabara ali, justo quando o carro passava, esmagando o ajudante de ordens que se sentava à frente do Getulio, que escapou incólume.

A viagem a Petrópolis, para mim que sempre adorei carros, era a ocasião de descobrir os novos lançamentos dos automóveis americanos. Sim, era dezembro, mas os modelos do ano seguinte já estavam nas ruas. Nos anos 50, eles mudavam radicalmente de desenho de um ano para o outro. Nunca vou me esquecer do deslumbramento que foi ver o primeiro Chevrolet Belair 1957, quatro portas sem coluna, azul piscina de teto creme. Ele é lindo até hoje, tornou-se um clássico de design.

A majestade do hotel Quitandinha anunciava que havíamos chegado a Petrópolis. Não fazia muito que D. Santinha havia provocado a ruína de seu proprietário, o mesmo Rolas que seria sinônimo de smoking alugado, ao induzir seu marido, o presidente Eurico Gaspar Dutra (“How do you do, Dutra?”, “Rau tu iu tu Trumman?”) a proibir os cassinos. Agora era a Coronel Veiga com suas casinhas charmosas, cujo acesso se fazia por pontezinhas sobre o Piabanha. O conceito de ter casas dando a frente para o rio vinha do planejador de Petrópolis, o alemão Julio Koeler, que não queria o rio servindo de fundos (e de recolhedor de dejetos) para as casas. Anos mais tarde ficamos sabendo que ele era conterrâneo dos Daudt (Mainz, Alemanha) e que tinha vindo para o Brasil dois anos depois que nosso trisavô, em 1828.

Em seguida, quase na Av. Quinze (de novembro, homenageando a proclamação da República, que hoje se chama “do Imperador”, homenageando o Império), a Fábrica de Tecidos São Pedro de Alcântara, a Revolução Industrial inglesa transportada para a serra, seus leões a derramar pela boca água colorida de seus tingimentos, o que deixava o Piabanha ora azul, ora verde, ora vermelho (e nós achávamos essa poluição muito divertida).

Sim, hoje eu sei que eram os rios Quitandinha e Palatino, os do centro de Petrópolis, e que eles fazem confluência no obelisco horroroso que lá puseram nos anos 60. Mas nos anos 50, chamávamos todos os rios de Petrópolis de Piabanha.

Logo, pela Avenida Quinze, com um vislumbre da Casa D’Ângelo, do restaurante Falconi (parecia cenário do “Poderoso Chefão”), da Duriez e seus amanteigados, da Itararé (um armazém onde havia tudo), das casas de armas, das que vendiam toda a espécie de bichos e passarinhos, da Casa Galo de fantasias de carnaval onde comprávamos o lança-perfume Rodouro metálico sem nenhuma restrição, passávamos pela estação ferroviária, pelo internato do Colégio Sion, e chegávamos à Rua Buenos Aires, 231, casa de veraneio modesta que pertencera a nosso avô Edmundo da Veiga, que, apesar de haver sido Secretário da Presidência (equivalente hoje a Ministro-Chefe da Casa Civil) de Afonso Pena e de Arthur Bernardes, não havia enriquecido: os tempos eram outros.

Os aromas de Petrópolis, durante o verão, eram deliciosos: a varanda da casa era coberta por um jasmineiro de flores delicadas: uma nuvem de pontos brancos perfumados que tinham o bônus, para nós crianças, de trazer um néctar doce em seu caule. Assim, visão, olfato e paladar eram premiados.

Depois vinham as árvores de magnólias: altas, de copas largas, suas flores cor de damasco eram o perfume do verão, a marca registrada de Petrópolis. Como se não bastasse, seus frutos em forma de cacho de uvas verdes eram ótimos petardos para atiradeira. As hortênsias forravam as calçadas ao ponto de Petrópolis ser conhecida como “cidade das hortênsias”, mas não tinham perfume, eram “só” lindas…

Na cozinha, a gorda Celina, cozinheira de minha avó, produzia uma constante sinfonia de aromas deliciosos: refogados, sopas, empadinhas, pasteis, quitutes de forno; doces (ambrosia – também chamada de leite crespo – e fatias douradas, pudins e bolos, tarecos e mentirinhas, compota de figo verde, colhido na figueira em frente – mas ele precisava ficar protegido dos passarinhos com pequenos sacos de pano –, e a de maçã), tudo isso envolto pelo perfume do fogão de lenha. No guarda-comida repousavam os potes brancos de coalhada, o leite gordo era posto de noite, e de manhã estavam prontas para o café. Também ficava a goiabada de tacho, que a Mila trazia da fazenda, e que comíamos com toneladas de creme fresco, sem pensar em colesterol.

No batente da janela da cozinha morava o pilão de socar alho (um cacófato que só viemos a entender mais tarde, e que repetíamos com um sorriso sacana para ver se era percebido). Celina o socava com sal, e o tempero pronto nos tentava a dar uma roubadinha furtiva com o dedo, para depois lambê-lo. A janela era… uma janela, não uma basculante. De madeira com venezianas, ela se abria inteira para o jardim de rosas da tia Carmen, e aquele céu de azul esmaltado iluminava o ladrilho hidráulico. Na copa, separada da cozinha por uma porta, morava a geladeira que meu avô havia comprado nos anos 20. Era uma General Eletric de compressor e serpentina montados numa grande bola em cima dela, a porta pesada com maçaneta de botequim e isolamento de madeira. Durou uma eternidade, e é capaz de estar funcionando até hoje, pois seu fabricante dava “life-long guaranty” (na época, vendia-se o conceito de ter em casa uma máquina de fazer gelo, em vez de comprá-lo nos caminhões de entrega). Na copa também morava o grande filtro Salus, de barro, e sua água deliciosa.

Ao longe, a estação de trens enviava sua mensagem de apitos e cheiro de carvão de pedra (vindo de Manchester) sendo queimado pelas locomotivas. E havia o ruço, assim se chamava o nevoeiro de Petrópolis: era o momento de inverno em pleno verão. Ele descia pela ladeira da Rua Buenos Aires, em pouco tempo as luminárias de ágata frisada, margaridas de lata verde iluminadas, dos postes de iluminação pública se tornavam imprecisas. O jasmineiro da varanda onde eu passava parte do verão lendo se tornava uma nuvem verde ponteada de branco. Acredite: o ruço de Petrópolis tinha cheiro próprio, e era bom, um cheiro úmido de friagem e de sereno… misturado ao do jasmim. Cada florzinha dele tinha uma atração especial: chupávamos sua haste para beber o docinho do néctar ali contido, antes que algum beija-flor o fizesse.

Os temporais de fim de tarde assustavam pela força, os trovões ribombando, as crianças rezando para Santa Bárbara e São Jerônimo, pedindo para a chuva passar, e em último caso apelando para o ritual de queimar uma palha do Domingo de Ramos, guardada atrás da peanha do santo, na parede. Os santos eram ingênuos, realistas, de gesso colorido. Peanha é algo que ninguém mais conhece: uma pequena base barroca de madeira que lhes servia de pedestal pendurada à parede. Muitas vezes fazia-lhes companhia a folhinha do Coração de Jesus, que ia emagrecendo ao longo do ano, pois cada dia era uma folha, cheia de informações úteis, como as fases da lua e a hora do nascente e do poente, meio de se acertar relógios nas fazendas, antes da Rádio-Relógio Federal.

Quando o dia raiava, um friozinho molhado da chuva de véspera, o cheiro do pão de minuto se evolava da cozinha, mas ainda não era hora do café, e sim da vaca leiteira: um pequeno caminhão carregando um tonel de aço cheio de leite que passava entregando seu produto nas casas. Celina ia com as panelas abastecer a casa. Eu ficava fascinado com o medidor de litro, sua válvula que, torcida para cima, enchia o vidro do medidor, e torcida para baixo, esvaziava o litro nas panelas. O leite era extremamente perecível, precisava ser fervido, sua nata separada para fazer manteiga, era gordo e forte: não se tomava antes da fervura sem se ter uma pequena diarréia.

Nesse departamento não havia o conforto dos dias de hoje: o único banheiro da casa tinha uma descarga de caixa alta, acionada por uma correntinha que se prendia à válvula. A louça era inglesa, Twifords, e a pia era decorada com desenhos em vermelho com motivos florais, sustentada por mãos-francesas de ferro fundido, a torneira de latão com um topo de porcelana branca, onde estava escrito “fria”. Suítes? Nem pensar. Quando, já nos anos 1970, meu pai fez uma grande reforma na casa, perguntou às tias se queriam um banheiro para elas. Beatriz, nascida em 1903, recusou: “dá cheiro no quarto” (!). Sim, elas também usavam urinóis de ágata branca debaixo da cama! Pensando bem, até fazia sentido não ter que atravessar a casa no meio da noite, no frio da madrugada…

Foi um alívio quando meu pai inaugurou, em 1955, uma edícula construída para nós junto à casa: totalmente anos 50, ela era decorada com móveis de pau-marfim de pés de palito e luminárias cônicas de metal colorido furadinho. E tinha um outro banheiro completo, só para nós…

Três anos depois comemoramos com uma procissão o centenário da primeira aparição de Nossa Senhora de Lourdes (11.02.1858), para entronizar numa pequena gruta de seixos rolados construída por meu irmão debaixo da edícula a imagem da Imaculada Conceição. Mais anos 50 do que isso, não conheço.

Não havia armários embutidos, e sim grandes e espelhados armários de madeira trabalhada. Uma excêntrica conhecida nossa, D. Lucília, era muito prática e não fazia malas para o veraneio. Simplesmente mandava embarcar seu armário num caminhão de mudanças e enviava-o para Petrópolis.

Mas a manhã petropolitana estava apenas começando. Depois da vaca leiteira, era hora de ver o marido de D. Noêmia sair de carro, da casa em frente: seu bizarro Ford 1939, preto de duas portas e teto caído atrás fazia um ruído de motor peculiar, seco e metralhado, enquanto ele o tirava da garagem e descia a Buenos Aires, parece que o ouço ainda agora.

Agora sim, era a hora do café. O pão de forma de Petrópolis, louro e envernizado de marrom na parte de cima, era cortado em grossas fatias, postas para torrar na velha torradeira de tampas de metal que se fechavam como mãos postas, e que exigia que se virassem as torradas, para expor ambos os lados. Depois elas seriam rebocadas de manteiga e de geléia de morango. Havia quem acrescentasse creme de leite à bomba calórica, quem se preocupava com isso, então? E não havia gente gorda nos anos 50! O café com leite, o pão de minuto com manteiga se derretendo nele, era abrir, passar e olhar. O queijo de Minas fresco, o Catupiry, a goiabada de tacho. Não havia frutas, não havia chocolate. Nosso primo Luiz Paulo gostava de comer melado de cana (de um pequeno pote de barro de gargalo estreito) com farinha de mandioca, ele era mais velho, tinha direito a essas regalias.

Saíamos de casa sem avisar, pequenos e desacompanhados, andando até a estação para subir na passagem Paulo Barbosa e ver os trens que transitavam por baixo dela, levando baforadas de vapor e fumaça no rosto, e adorando tudo! As locomotivas eram clássicas marias-fumaça feitas em Glasgow, saídas da Revolução Industrial. Havia um momento em que o trânsito era interrompido para que cruzassem a rua: cancelas baixavam ao som de sinetas ritmadas, den-den-den-den, e lá ia o trem em direção a Belo Horizonte, enveredando-se pela fenda estreita dos prédios, e por um túnel que só descobrimos depois que a via férrea virou rua de automóveis: maravilhosa arquitetura ferroviária do século XIX.

Descendo do lado da estação, íamos até o cinema. O cine Esperanto homenageava a utópica língua universal com uma pretensão comovedora: era um galpão coberto de folhas de zinco que faziam uma barulheira infernal quando chovia, mal conseguíamos ouvir o filme. Nas laterais da tela, poemas pintados na parede cantavam loas à paz e ao entendimento mundial que o esperanto traria, santa ingenuidade!

Ele foi o cinema mais barato que já fui: Cr$ 2,00 (dois cruzeiros, a moeda inaugurada por Getulio no pós-guerra, repare no cê, érre, cifrão) a meia-entrada, o equivalente a duas passagens de bonde. Com tudo isso, nós nos deliciávamos com os filmes lá projetados: “Sete noivas para sete irmãos”; “Cantando na chuva”; “Gigi”, e tantos outros musicais maravilhosos dos anos 50… Era um tempo em que, se alguém fazia manha ou fingia um drama, dizia-se que estava “fazendo fita”, encenando como se atuasse num filme, numa fita de cinema.

No fim da rua da estação ficava a Casa Itararé, esquina de Avenida 15 (homenageava o 15 de novembro, proclamação da República, só depois de décadas, quando o governo se sentiu seguro com o novo regime, voltou a ser chamada de Avenida do Imperador). Ela era um armazém chique, precursora das delicatessem, tinha de tudo do bom e do melhor.

Do outro lado do rio, a casa Galo cheia de fantasias de carnaval, máscaras de demônios negros de boca vermelha, colares de havaiana, e muitas, muitas latas cilíndricas douradas do lança-perfume Rodouro Metálico (a Rhodia francesa, presente no Brasil desde 1919, era a fabricante) metálico. Aplicar-lhe a válvula não era operação simples, perdia-se muito cloreto de etila perfumado até que a borrachinha vermelha no fim da haste cromada vedasse o furo. O encanto do lança-perfume estava na rápida vaporização do cloreto de etila, que dava um geladinho na pele de quem o recebia. Estávamos longe de saber seus efeitos entorpecentes, a criançada não o cheirava em lenços então, só jogava nas costas nuas das meninas (ou anestesiava formigões vermelhos, cor de Coca-Cola, típicos de Petrópolis). Mais tarde, proibidos os lança-perfumes, os cheiradores recorriam ao Kelene, cloreto de etila de uso medicinal em ampolas de vidro, para combate da larva migrans (Ancilostoma canis), doença de pele que coçava horrores, pega em terra contaminada por fezes de cães, muito comum nos anos 50 e que nunca mais vi ninguém ter (entre as doenças que sumiram, os furúnculos, as apendicites, as operações de amígdalas e os joelhos ralados das crianças estavam incluídos). A aplicação de Kelene fazia surgir cristais de gelo na pele, o verme era morto por congelamento.

Mais adiante ficava um estabelecimento mágico: a barbearia Salão Paris. Se você puser no Google “Salão Paris Petrópolis século XIX” vai ver a aparência original desse lugar suntuoso, construído para atender os nobres veranistas da época, decorado em estilo mourisco, mas já com as cadeiras de barbeiro americanas (feitas na Filadélfia) estofadas de couro. Claro, nos anos 50 a decoração mourisca já havia mudado, mas o salão continuava esplêndido. Não que eu o freqüentasse, ele era para os muito ricos, mas o visitei com um amigo e fiquei de queixo caído: os amplos espelhos, a iluminação elegante amarelada, e o que mais me impressionou, o aquecedor-umidificador de toalhas cromado (sim, havia fregueses com o rosto coberto e a cadeira reclinada, amaciando a barba que iria ser feita com navalhas Solingen), com um topo em cúpula que se parecia com aquelas coberturas de prato em restaurante chique. Remetia a uma era de glamour que era a cara dos anos 50: coisas bem feitas, capricho nos acabamentos, esmero no serviço, barbeiros grisalhos com aventais imaculados.

Não íamos a restaurantes em Petrópolis, e mesmo no Rio só me lembro do nosso programa de domingo de filme no Cineac Trianon e lanche na leiteria Mineira, na Galeria Cruzeiro do Hotel Avenida, mas não sei como acabei jantando uma vez no restaurante Falconi, na Avenida 15. Tomei uma sopa minestroni, o que mais? A memória é fascinante: uma decoração meio soturna com iluminação âmbar fraca, garçons com a tradicional combinação de paletó branco e gravata borboleta preta se movendo em silêncio. Nos anos 50 não se falava alto em público e crianças não gritavam ou choravam nos restaurantes, os imbecis, nas palavras imortais de Nelson Rodrigues, ainda não haviam perdido a modéstia. Se você viu “O Poderoso Chefão”, na cena em que Michael Corleone mata Solozzo e o chefe de policia McCluskey, então você tem bem a ideia de como era o Falconi. Sempre que a revejo sou remetido ao restaurante petropolitano.

Pela Av. 15 ainda víamos a Casa Duriez, com seus potes de creme fresco, os biscoitos amanteigados e decoração em tons de creme (hoje “off-white”) e azul; a loja de ferragens “Ao Regador” (ainda está lá), que era o sonho de qualquer menino; a papelaria onde se vendiam livros – não havia livrarias – e onde comprei os primeiros livros de Monteiro Lobato, “Reinações de Narizinho” foi o inaugural, e depois nunca mais parei; havia os cinemas chiques, Petrópolis e Capitólio, onde reinavam as chanchadas da Atlântida. O D. Pedro era considerado “poeira”, não sei porquê, já que nunca chamamos o Esperanto de poeira e ele era muito mais modesto…

O magazine Casa Gelli era uma loja impressionante para uma criança: tinha “de um tudo” (expressão bem da época), de móveis a geladeiras, além de ter uma entrada imponente, de alto pé direito, com grande lustre de madeira.

Nas Lojas Americanas havia brinquedos, sim, mas o grande sucesso era sua lanchonete ao estilo… bem, ao estilo americano, com banquinhos no balcão e sundae de morango, além do primeiro Milk-Shake de chocolate que tomei. A “vaca preta” era uma mistura espumante de sorvete de creme com Coca-Cola, nós adorávamos…

Ao lado ficava o Colégio Werneck, grande e vazio, pois estava no meio das férias, como nós.

Saindo da Avenida 15 a atração principal era a Praça D. Afonso (era o primogênito de D Pedro II que morreu precocemente), hoje “da Liberdade”. Nela, passeávamos de carro de bodinho, fascinados pela “obra” dos bodes (como obravam!) em formato de caroços de azeitona. Lá também um amigo de minha irmã tirou uma foto mágica, com uma máquina que revelava na hora, a primeira Polaroid, super novidade, só precisava passar sobre a foto uma barra de fixador cor de rosa depois de “revelada”.

Nada superava, no entanto, o Rinque Marowil: um modesto cimentado em frente à casa de Othon Bezerra de Mello que nos parecia imenso, onde nossos patins de rodas de aço (o meu, da marca Estrela) riscavam o chão com um barulho que nos parecia completamente natural. Quem não trazia patins podia alugá-los: havia centenas deles empilhados na estante, de numerações variadas. Ficávamos horas a dar voltas e voltas, às vezes de mãos dadas em fileira, o último da fila voava na velocidade angular, a invejar aqueles que sabiam andar de costas.

Em 1958 fui passar meu primeiro inverno petropolitano fora do bairro da Estação, na casa do primo Paulo, no Valparaíso. Fazia um frio do capeta, mas a casa tinha lareira e relógio cuco. Ficava espreitando as horas certas para ver o passarinho aparecer, e intrigado, imaginando como seria a vida dele dentro da casinha. Passeamos Petrópolis inteira de bicicleta, eu com dez anos, ele com catorze, uma atividade temerária que não permitiria jamais a meus filhos, mas… ninguém pensava nisso, na época. Foi assim que conheci Petrópolis para além do meu bairro. Da casa dele ia-se a pé por uma escadaria até a Rua Coronel Veiga, onde, atrás de um posto Gulf de gasolina (antes de virar Ipiranga) havia um paredão com escadarias íngrimes para escorrer águas pluviais. Nós, claro, nos metemos a escalá-las e, quando eu estava quase no topo, olhei para baixo e tive uma das visões mais aterrorizantes de minha vida: Paulo se desequilibrou e caiu solto no ar, uma queda de dez metros que me pareceu em câmara lenta. Estava certo de que ia encontrá-lo morto lá em baixo… Escapou ileso, vai entender!

Fomos ao cinema ver “As treze cadeiras”, filme da Atlântida com Oscarito e Zé Trindade, no Capitólio. Mas fui barrado, era “impróprio até 14 anos”. Fui obrigado a ver uma porcaria chamada “Osso, amor e papagaios”, no D. Pedro. Lá também vi, mas no ano seguinte, “Imitação da vida”, com a Lana Turner, um dramalhão tão triste, mas tão triste, que chegava a dar vontade de rir…

Num daqueles bairros de nome alemão, a Mosela (Mosel; Bingen; Ingelheim, que era para se pronunciar “Inguelráim”, mas ninguém chamava assim), descobrimos um navio atracado no meio do rio que a margeava a rua. Ele era feito de concreto! Soubemos mais tarde que era o resto de uma antiga casa noturna desativada.

No Valparaíso, passávamos por uma casa com história sinistra: Stefan Zweig, o escritor, havia se suicidado ali com sua mulher. Nós achávamos que era uma casa enorme com terreno ajardinado de ciprestes na descida para as duas pontes, e pensávamos que ela era adequadamente assustadora. Só recentemente fui saber que era a casa errada: a de Zweig era uma modesta, quase na beira do rio.

De volta à Rua Buenos Aires, recolhi-me à cadeira de balanço da varanda, lendo Seleções de Reader’s Digest dos anos 40 enquanto a noite caía, as cigarras paravam de cantar, e já tinha o apetite despertado pelo aroma das empadinhas da Celina (as de camarão tinham uma bolotinha de massa em cima, as de galinha não) e da sopa de tomate, que anunciava a chegada da quarta entre as cinco refeições que se faziam em Petrópolis dos anos 50: café; almoço; lanche; jantar e ceia.

O sereno caía, e o sino do colégio Sion tocava a hora cheia…


Natureza Humana: Masturbação


“É fazer amor com a pessoa que você mais ama”, nas palavras de Woody Allen. Já Stanislaw Ponte Preta dizia que a vantagem dela era “não ter que levar em casa depois”.

O que parece anedota contém dois princípios que fazem da masturbação o que ela é: segurança e independência. Sua história individual se inaugura quando um bebê descobre que sugar o dedo acalma e satisfaz enquanto “a coisa real” não acontece. É assim que ele tolera a vida real: recolhendo-se ao autoerotismo.

Nossa vida inteira será assim, um zigue-zague permanente entre o investimento no mundo externo e o recolhimento ao nosso refúgio interno. Para se ter ideia da importância desse recolhimento, uma boa maneira de se torturar alguém é privá-lo do sono. Se nós não pudermos nos refugiar a um colo autoerótico, independente e seguro – o sono –, não toleraremos viver.

Chegada a noite, nós desligamos o mundo externo: luz, temperatura e silêncio, buscamos uma posição confortável e nos entregamos a um devaneio gostoso que nos embale como um regaço acolhedor. É nessa situação que recarregamos nossas baterias para poder reinvestir no mundo. O sono poderia ser chamado de vício solitário pelo tempo que dedicamos a ele – um terço da vida – se a definição de vício não incluísse o prejuízo de nossos principais interesses. Mas não, o sono é a maior demonstração de que o autoerotismo é essencial para se viver.

Voltando à masturbação genital, ela desempenha um papel fundamental nessa situação desgraçada em que a mãe natureza nos meteu: nós somos animais sexuados, ou seja, nós precisamos negociar com o mundo externo para a reprodução acontecer (as bactérias não sofrem disso). Essa negociação trabalhosa só terá sucesso se nós conhecermos minimamente o nosso desejo. Sem isso, não haverá nem motivação, nem ereção. É aonde entra o autoerotismo: só o devaneio (ou o filme pornô) certo acende o tesão, é desse jeito que vamos aprendendo sobre nós.

Dito assim, pareceria que a masturbação é só para homens, mas o que vejo na clínica é que as mulheres muitas vezes só descobrem o orgasmo através dela. Basta pensar que, como praticamente não há homem que nunca tenha se masturbado (Gore Vidal dizia que, se frequência é critério de normalidade, então a masturbação é a vida sexual normal dos homens), não há homem que não conheça o orgasmo, que é um circuito cerebral aprendido com o autoerotismo.

Por fim, a masturbação vicia? Qualquer coisa que nos interesse tem o potencial de nos viciar: internet, WhatsApp, celular, comida etc. Mas em quarenta anos de clínica só encontrei um único cliente viciado nela. Ela prejudicava seus principais interesses: ele perdia trabalho, tinha largado o mundo de lado. Usava a masturbação como remédio para aliviar sua depressão (o álcool continua sendo o “remédio natural” mais usado).

Não é de espantar que quem queira controlar as pessoas queira controlar a masturbação: fazê-la contra a lei, censurar a internet, torná-la pecado mortal, dizer que ela adoece ou faz crescer pelos nas mãos. Ela é uma grande professora de independência e autonomia. Muito subversiva, portanto.


Natureza Humana: O conceito de cura em psicanálise

Ao ver que não as alcançava, a raposa deu de falar mal das uvas. A mesma coisa aconteceu com a psicanálise, em relação à cura das doenças psíquicas: grande parte dos psicanalistas atuais desdenham da cura, como se ela fosse uma coisa menor e desprezível. Um lacaniano conceituado com formação na França me contou que ouviu uma de suas colegas de linha teórica afirmar num congresso: “A finalidade terapêutica corrompe a psicanálise”.

Que inversão de valores chocante!

Consideremos as origens da psicanálise: ela foi inventada por Freud, um neurologista que estava firmemente determinado a achar um meio de curar aquelas misteriosas manifestações doentias da mente.

Vamos pensar no conceito de cura: curar é eliminar o mal, mas também é cuidar, é atenuar o sofrimento, é conduzir para o bem. O curador de menores faz isso, ele cuida e orienta, não extirpa doença. Curar é, portanto, tratar, é a finalidade terapêutica, a tal que estava amaldiçoada pela psicanalista lacaniana.

Agora, um psicanalista não pode buscar uma cura parecida com a que o cirurgião faz quando retira um apêndice inflamado. Não, nós lidamos com tecido nobre: a memória e o desejo. O risco de se jogar fora o bebê junto com a água do banho é grande. O último que tentou isso foi o Dr. Egas Moniz, o português (!) inventor da lobotomia.

A cura psicanalítica consiste em desentranhar a memória e o desejo do cliente das invasões bárbaras que sua vida sofreu como resultado de uma criação incompetente, aquilo a que Freud deu o nome de Complexo de Édipo. Um cuidadoso e árduo trabalho – que parece arqueologia – vai tornando consciente para ele o que é seu, o que lhe pertence, e o que é problema de quem o criou, e que ele até então carregava como seu, de modo a que ele se torne dono de sua vida e de seu destino. Na medida do possível, claro. Que o psicanalista possa ser o parteiro do que cada um tem de melhor.

A cura também inclui transferência de tecnologia, de modo a que ele se torne analista de si mesmo pelo resto da vida, que saia do ninho do consultório para alçar voo solo. Esta era a análise interminável desejada por Freud, e não aquela de que Woody Allen falou: “Já faço análise há quatorze anos. Vou dar mais um ano ao analista. Se ele não me curar, vou a Lourdes…”

Perguntei àquele lacaniano: “Se não buscam a cura, o que buscam então?” Ele me disse que é a experiência do inefável (seja lá isso o que for), junto com a ideia de que o cliente deve inventar um sentido para sua vida e se responsabilizar por ele.

Ah, aí fizeram sentido várias coisas que me assombravam: se eles não se importam com cura, então não se importam com diagnóstico, nem com conceito de doença psíquica. Não espantam então sessões de quinze minutos ou menos. Nem que falem um dialeto incompreensível que se parece vagamente com o português (confundir é boa base para enrolar). Que deixem o cliente perplexo com declarações misteriosas ao fechar a sessão, e que despachem o cliente com o bordão: “Pense nisso!”

Seria o caso de buscar outra fábula e dizer: “Ei, psicanálise! O rei está nu!

Natureza Humana: O Horror

Ela pegou a barata morta pela antena e mostrou para a sobrinha adolescente: “Ela está morta, não pode te fazer nenhum mal, não tenha medo!” A menina apavorada recuava lentamente em direção à janela. Só quando percebeu que a jovem preferiria se jogar a ter contato com a barata é que a tia desistiu.

Esse episódio sempre me intrigou: de onde viria aquele horror tão poderoso, e por que ele poderia se aplicar a uma barata morta? A psicanálise podia até me explicar o mecanismo das fobias, as ameaças do mundo transferidas a situações inofensivas do cotidiano, o poder de fogo do superego transportado ao cenário externo, mas certamente não me elucidava quanto ao tamanho do horror que elas continham.

Quando descobri a psicologia evolucionista, fiquei impressionado do quanto ela preenchia os vazios de conhecimento sobre o funcionamento da mente deixados pela psicanálise. O medo de escuro, por exemplo: se pensarmos em nossos ancestrais na savana africana entendemos porque ele é universal, pois quem não teve lá esse medo foi devorado por predadores e não deixou descendentes. Somos herdeiros, portanto, de quem teve medo do escuro. Certo, isso pode nos fazer compreensivos com os filhos que querem uma luzinha acesa no quarto, ou batem à nossa porta de noite.

E não é o único medo herdado: nascemos com um programa de autopreservação que teme répteis, altura, confinamento, grandes insetos voadores, felinos de porte, abandono/desamparo. Ele se preserva ao longo da vida, e gente que nunca viu uma cobra é capaz de pular ao se deparar com uma ao vivo. Medos mais racionais, como de entrar num automóvel (o lugar mais perigoso que frequentamos sem medo nenhum) não são absorvidos: você não conhece ninguém que tenha morrido picado de cobra; já de acidente de carro…

Foi quando me dei conta de que as fobias mais comuns são exatamente de insetos (baratas), escuro, confinamento (elevador, avião, multidão), répteis inofensivos (lagartixas), os tais medos que herdamos no software genético. Isso fecharia a lacuna da psicanálise: nós importamos o horror ancestral para dentro dessa instância mental crítica chamada superego.

Mas isso dava numa hipótese ainda mais fascinante: o próprio superego como um software inato, originalmente destinado a ser um mecanismo de sobrevivência, e mais tarde alimentado pela cultura com novos significados assustadores, crenças que nos aterrorizam pelo poder que a elas atribuímos.

Isso é algo muito grande: nunca ouvi falar de uma hipótese unindo conceitos da psicanálise aos da psicologia evolucionista, e espero que algum leitor venha a me refutar, pois sou um seguidor da epistemologia de Karl Popper.

Restava um enigma: os adolescentes japoneses que se suicidam por vergonha de haverem falhado em exames escolares. De onde lhes viria esse horror pior do que a morte? E o que dizer do medo do ridículo, que atormenta tanta gente?

Sim! Do horror do abandono/desamparo! Do pesadelo cultural que é o degredo, desterro, exílio, opróbrio, infâmia, a solitária, a solidão.
Foi assim que um psicanalista se curvou, humilde, mais uma vez, frente à natureza humana.


Natureza Humana: Capitalismo com ditadura?

A morte de Fidel me fez perguntar o que tem significado o socialismo em nossas vidas. Ele toca fundo o coração dos jovens com uma mensagem comovedora: “Vocês são como os pobres do mundo, oprimidos pelos ‘adultos poderosos’; o socialismo virá para corrigir essa injustiça”.

Para tanto, o socialismo nega a ideia de uma natureza humana capaz do mal. Nega a ganância, a inveja, o desejo de proeminência social, o altruísmo que espera algum retorno, o desejo de ser indivíduo (todos serão células do corpo socialista). Nega a ambição de autogoverno, de ter iniciativa (toda iniciativa deve vir do Estado), a vontade de dar um futuro melhor para os filhos (o Estado cuidará deles, não você), logo, nega a poupança e a herança.

O socialismo é uma ideia nascida da inveja (dos “adultos poderosos”) para acabar com a inveja.

Enfim, ele é a coisa mais contrá- ria à natureza humana que jamais se inventou. Mas isso não é problema, pois ele nega a existência de uma natureza humana herdada pela genética, pois crê que nascemos como uma página em branco —tá- bula rasa— onde a cultura (i.e. o Estado) escreverá os “bons princí- pios que criarão o novo homem”, pleno de virtudes.

Isso não será fácil. Afinal, o bom selvagem está muito corrompido, coitado, e precisa de uma mão forte para colocá-lo na senda do bem. Por isso é necessária —temporariamente, é claro— a “ditadura do proletariado” que, com seus déspotas esclarecidos, conduzirá a humanidade para “o dia que há de vir” quando o novo homem dispensará até os governos, tão virtuoso e sem vícios será, e tudo funcionará sem dor: o comunismo, finalmente.

Com cem anos de socialismo real, nota-se que “o novo homem” ainda não apareceu, que chato, é necessário mais um tempinho da mão forte do Estado, sabe? “Ah, é que o socialismo real não é O Socialismo”. Ahn, bom…

Outro probleminha foi só terem produzido miséria. E isso em todos os lugares do mundo onde o socialismo operou/opera.
Foi aí que a China resolveu inventar o capitalismo com ditadura. “Mas por que o capitalismo, se ele é o oposto do que Marx pregou?” Porque o capitalismo sabe da existência da natureza humana e seus defeitos, aqueles do início. E a usa como no judô: uma força para produzir riqueza. Foi com ele que, a partir da Revolução Industrial, a população mundial saltou dos eternos 500 milhões para os atuais 7,5 bilhões —em 300 anos!

Na China, querem o bônus —a prosperidade—, mas não querem o ônus, essa coisa chata de democracia representativa que faz o capitalismo evoluir, civilizando sua natural selvageria. Capitalismo sim, mas com os velhos ditadores —que ainda têm a cara de pau de se dizer comunistas. Para a sobrevivência do socialismo (?), eles inventaram o capitalismo com ditadura.

Esperam que a massa (que o capitalismo costuma transformar em indivíduos) se submeterá ao totalitarismo, que tolerará taxação sem representação.

Isso não deu certo na América do Norte de 1776.

Era o caso de lhes fazer a pergunta do Garrincha: “Os senhores já combinaram isso com os russos?”


Natureza Humana: Por que muitos homens desprezam as mulheres

Misoginia é magoa, é ressentimento, é inveja, é dor de cotovelo que homem tem de mulher. A palavra de origem grega significa “ódio, aversão, desprezo por mulheres”. Só se aplica a homens. Não tem correspondente feminino: misantropia é aversão a gente, não a homens. Como entender que héteros sejam os maiores misóginos, se são os que mais as desejam? Para isso precisamos entrar no imaginário do misógino, que exagera traços reais do sexo oposto e a esse exagero se agarra, criando um estereótipo preconceituoso que o consola de suas dificuldades com elas.

Atenção/“disclaimer”: tudo o que vem a seguir faz parte do pensamento misógino – é essencial para compreendê-lo:

“As mulheres têm uma commodity que interessa muitíssimo aos homens, e sobre ela têm controle: elas não precisam de ereção para fazer sexo, basta-lhes querer (a inveja começa aí, a ‘inveja da vulva’); além disso, as moças não gostam tanto de sexo quanto eles, é só ver que, quando decidem, elas lhes ‘concedem seus favores sexuais’, na melhor das hipóteses elas “dão”. Ora, se gostassem também, elas não concederiam, nem seria um favor, nem dariam, elas o desfrutariam igualmente. Pior, elas escolhem a quem vão concedê-lo (o ressentimento começa aí, e se mostra extremado no estupro, o ‘roubo da commodity’). Resulta que os homens necessitam demais de algo que elas possuem e controlam. Portanto, eles se tornam compradores desesperados que, por definição, compram mal e pagam caro. Tudo se resume então a uma questão econômica”.

Para o misógino, como se vê, todas as mulheres são prostitutas, só variando de preço: quanto mais honestas, mais caras, só compráveis com casamento e provimento. “Não é à toa que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, ela nasceu com a mulher”, dizem eles. Se não bastasse o desencontro de interesses (eles querem sexo; elas querem casamento), quando “aceitam pagar caro”, casam-se e têm filhos com elas, eles vivem ameaçados com a ideia de que os filhos podem não ser seus – enquanto elas têm certeza de que são as mães (e tome de inveja) – e estariam fazendo papel de otários, criando os filhos do Ricardão. Daí vem o ciúme sexual dos homens (o ciúme delas é de prestígio, de em quem ele investe: amigos, futebol etc.), que pode enlouquecer o misógino ao ponto do assassinato. “Ah, mas ela já estava separada quando começou a namorar o outro”. Sim, vai dizer isso para o misógino: ele imagina que ela já o traía antes.

A encrenca é que todas essas crenças, aqui apresentadas em forma de caricatura, moram de algum jeito na cabeça de todos os homens: o ser humano é composto das mesmas substâncias, o que varia é a quantidade relativa delas que cada um carrega. Há conflito de interesses entre os sexos: o sexo é mais importante para eles; o casamento é mais importante para elas; elas escolhem com quem se deitam; eles, com quem se casam. É daí que vem a desconfiança.

Cada um de nós vai ter que lidar com a própria misoginia, e a misoginia de nossos filhos. O melhor jeito que conheço é a pessoalidade dos relacionamentos: ver a pessoa, para além dos rótulos.

Natureza Humana: Projeto Gente Grande

O pai gaúcho, camponês meio xucro, disse ao filho:

 

“Meu filho, na vida tu primeiro traça uma ‘meretriz’, depois tu segue essa ‘meretriz’ até o fim de teus dias, tchê!”

 

É certo que a vida sem diretrizes fica muito imediatista, muito da mão para a boca, é mais assim quando somos crianças.

 

Mas… ninguém está ficando mais moço, há algo nos esperando na esquina da vida, algo além da morte, e que pode chegar muitas décadas antes dela: a vida adulta.

 

Nessa tal de vida adulta, perdem-se umas coisas, ganham-se outras. Perdem-se ilusões: vida sem fim; amparo  total; dinheiro que cai do céu; casa, comida, roupa lavada, passada e posta no armário; banheiro limpo, quarto arrumado, luz, gás, telefone, tudo isso sem pensar como acontece; médico, dentista e hospital “de graça”; a própria ilusão de que existe alguma coisa de graça… Enfim, a lista é interminável. Mas talvez a maior perda seja a ilusão de que tudo aquilo era uma espécie de direito adquirido, e a sensação de que estão fazendo alguma maldade conosco, ao tirá-lo.

 

Ganham-se: independência e autonomia, o direito de mandar na própria vida.

 

Mas o cliente estranhou que eu chamasse a transição para a vida adulta de Projeto Gente Grande: “Não é meio infantil?” Claro que é, e com quem você pensa que eu estou falando, senão com a infantilidade que existe em cada um de nós? Veja, eu não disse “criança”, pois quero uma criança dentro da gente até o fim, criativa, curiosa, brincando pela vida afora. Mas para isso ela precisa de deixar a infantilidade para trás: fada do dente; papai  Noel; coelhinho da Páscoa; governo forte que tem dinheiro interminável para nos sustentar, nos proteger e nos dizer o que pensar… Essas coisas, sabe?

 

Está certo que nascemos completamente imediatistas, esse negócio de planejamento de médio e longo prazo só vem – se é que vem – mais tarde. Mas a tal da geração Y, essa está ferrada! Eles foram criados com a ideia de que o mundo lhes deve, de que TODOS são especiais (êpa, isso é contradição entre termos), de que só farão coisas grandiosas, e sem esforço. Nos EUA, para eles não se usa mais “mimados” (spoiled), e sim os que “estão no direito de” (entitled).

 

Conversei com um deles, meu cliente: “Que tal você ter uma multa, pagar à sua mãe por cada quarto bagunçado, cada roupa pelo chão?” “Ah, não adianta, multa não me dói, quando a mesada acaba eu posso pegar dinheiro no gavetão dela”. Ou seja, para ter um orçamento mensal, para desenvolver responsabilidade fiscal, ele precisa abrir mão do gavetão. “Você vai me achar um crianção”, falou. “E eu estou aqui pra te julgar? Olha, o Projeto Gente Grande não é meu, é seu! Eu não sou puxador de orelha, mas posso ser teu assessor, no projeto”.

 

Defendo que as escolas ensinem o Projeto Gente Grande, e que os alunos TOMEM POSSE dele. Orçamento, planejamento, poupança… Lá devia haver um ensaio de cidadania: a escola não teria partido, mas ensinaria democracia (os alunos poderiam formar partidos), e assim por diante.

 

Enfim, não faltarão diretrizes para implementar o Projeto Gente Grande. Um verdadeiro harém de “meretrizes”!
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