Natureza Humana: Verdade


“A realidade pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente”, disse Woody Allen, resumindo a relação conflituosa que nossa espécie tem com a verdade. Precisamos dela, mas frequentemente a rejeitamos.

Tudo começou com a morte. Tão logo brotou no sapiens a percepção de que todos vão morrer – inclusive o próprio –, ele arranjou um jeito de dizer “não é bem assim, existe vida após a morte”. E deixou o primeiro sinal de consciência registrado pela espécie, há cem mil anos: os ritos fúnebres.

Fato é que os dois instintos que nos movem – a sobrevivência pessoal e a da espécie –, fazem com que lidemos com a realidade, ora buscando a verdade, ora fugindo dela. Vejamos o sexo: um provérbio português dos anos 1600 dizia que “juras de foder não são para crer”. Esse negócio de “eu vou casar com você amanhã” deve ser bem verificado pela moça, pois as chances de o rapaz estar em franco desapreço pela verdade são muito grandes.

No caso da sobrevivência pessoal, o processo de delação premiada é exemplar quanto ao jogo entre a verdade e o risco de mentir: o delator tem tudo a perder se estiver mentindo. Vai em cana, não ganha seu prêmio. Já o delatado tem tudo a ganhar, se sua mentira emplaca. É a velha questão do “cui prodest” (quem se beneficia?) latino, que serve de boa pista para se descobrir o culpado do crime. Ele se aplica à divisão política que o país vive: há um monte de gente com a postura de que “se os fatos contrariam as minhas crenças – ou meus interesses corporativos –, bem, danem-se os fatos”.

Outro exemplo é o “me engana que eu gosto”. Ninguém quer ser trapaceado; já docemente enganado, até contratualmente, nós todos adoramos: quando vamos ver um filme, aplicamos o “suspension of disbelief”, um acordo de suspensão da desconfiança para poder embarcar na ficção. De modo que, se aparecer um centurião romano de relógio, vamos ficar muito aborrecidos com esse chamado da realidade.

E há o pensamento mágico: nossa sobrevivência pede um certo grau de controle (ou de ilusão de controle) sobre o mundo externo. É bom saber se vai chover na minha horta, e se eu puder controlar a chuva através de uma dança ritual (ou do cacique cobra-coral), eu a farei. Assisto passivo ao jogo de futebol, mas se pegar uma cerveja na geladeira pode ajudar o meu time a fazer gol (afinal, foi o que aconteceu no jogo passado), lá irei pegá-la.

Milênios se passaram até que alguém humildemente admitiu sua ignorância: “Não sei porque isso acontece. Mas quero saber”. Foi o embrião da ciência. Não é um assombro pensar que tal postura – como tendência mundial – tem apenas seiscentos anos?

O que dizer das convicções dos filósofos realistas e idealistas frente a uma árvore que cai no meio do deserto sem testemunhas? Os realistas creem que a árvore faz barulho ao cair. Os idealistas, como julgam que a realidade só existe no mundo das ideias, creem que não, que ela cai em completo silêncio. Preciso dizer que sou realista?

Neste tempo de pós-verdade, de relativismo, de “verdade de cada um”, deixo claro aqui que nunca entrarei num avião construído por um engenheiro pós-moderno.


(Em breve): A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud [parte 3 - Leandro Konder e Paulo Francis]


 

LEANDRO KONDER ME DISSE, SOBRE MEU LIVRO “A CRIAÇÃO ORIGINAL”:  ”Francisco, você escreveu ‘A democracia como valor universal’ (o celebrado livro de Carlos Nelson Coutinho, aqui na foto, com Leandro e comigo, 1998). Não podia ter recebido reconhecimento melhor!

PAULO FRANCIS, SOBRE “A CRIAÇÃO SEGUNDO FREUD”  (a condensação do “A Criação Original”, que será lançado em breve (Novembro de 1993). E foi assim que eu recebi um dos seis elogios que Francis emitiu na vida.


Natureza Humana: O que quer a psicanálise


 

“Que diabos esse meu analista pretende?”, me perguntei em 1969, quando pela primeira vez entrei em contato com a psicanálise. Estava no 4° ano do ensino médico, com metas claras para minha profissão: eu queria curar meus pacientes, queria a saúde, não queria a doença.

As influências que me norteavam eram neoiluministas, modernas, ordenadas, racionais e objetivas: Santo Inácio e os jesuítas; a lógica de São Tomás de Aquino; George Orwell e seu magnífico antimodelo de tudo o que eu não queria (“1984” e a tirania); valores democráticos de igualdade de direitos e deveres (estávamos em plena ditadura). Não era à toa que aquele ser misterioso atras do divã me incomodava com seu silêncio superior. Nem minhas perguntas ele respondia.

Naquele tempo a neurose e a imaturidade faziam de mim um imbecil, de modo que fiquei quieto e me “submeti” ao tratamento – com o endosso mudo do analista – sem saber que repetia minha doença em pleno consultório.

Muito tempo se passou até que eu decifrasse o que ele, e o que várias correntes psicanalíticas, afinal queriam. Os kleinianos, que as pessoas se submetessem ao superego, aceitassem os valores da cultura, não discutissem suas criações ou seus pais, entrassem na linha. Os contraculturais queriam lutar contra o superego e transgredi-lo (sendo assim comandados por ele às avessas). Os lacanianos se dividiam entre os que buscavam o inefável (seja lá isso o que for) e os que estimulavam o cliente a descobrir um sentido para sua vida e a se responsabilizar por ele (sem considerar que a neurose impede essa descoberta, mas como eles não buscam a cura…).

E havia Freud. Dez anos ensinando teoria freudiana me mostraram que o norte estava lá. Havia um conceito claro de doença: o Complexo de Édipo e a prisão que ele representa em nossa vida, alugando-nos com as incompetências de quem nos criou. Por decorrência, havia um conceito claro de saúde: entenda o que te aconteceu e deixe finalmente isso para trás, como o acidente de percurso que é. Não se aprisione, nem na obediência ao que lhe ensinaram, nem na vingança contra quem lhe fez mal. Seja independente para ter autonomia. Conheça seu desejo, limpando-o da interferência dessas invasões bárbaras da tua história.

Dito assim parece simples, mas dá um trabalho enorme: é preciso conhecer o embate interno entre o superego e os desejos reprimidos, e como esse programa foi instalado em nós. É preciso conhecer o inconsciente que nos comanda (Freud: “Onde esteve o Id, que esteja o Ego”).

Mas, ficava claro para mim, também era preciso conhecer o superego (Sun Tzu: “Conhecer o inimigo”). Nós mantemos uma relação sadomasoquista com ele desde cedo na vida, do tipo fodão-merda: ele a nos pôr para baixo; nós alugados, ora a acreditar nele (e temer que os outros nos descubram), ora a odiá-lo em transgressões. E vivendo essa guerra do lado de fora: as pessoas posam de superiores (nós inclusive) e se tornam nossos inimigos. Era entender para se libertar.

Tenho claro o que quero, então: ampliar Freud e dizer, “Onde esteve o Id – e o superego –, que esteja o Ego”.


(Em breve): A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud [parte 2]


Lançamento (em breve):
A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud
Novo livro de Francisco Daudt

“Este foi o primeiro livro que escrevi, há trinta anos, quando decidi não mais dar cursos de teoria freudiana e deixar por escrito o resumo do que achava que os alunos precisavam saber. Como não consegui publicá-lo na ocasião, fiz uma condensação dele: A criação segundo Freud – o que queremos para nossos filhos, lançado em 1992.

Seu primeiro revisor e incentivador foi Leandro Konder, que me disse na época: ‘Francisco, você escreveu A democracia como valor universal (a reverenciada obra de Carlos Nelson Coutinho) da psicanálise’.

Só fui entender a magnitude de seu elogio muitos anos depois: a psicanálise tem duas faces, a científica e a filosófica, o conhecimento da mente e a sabedoria de vida que dele se depreende. Konder se referia justamente à parte filosófica: ‘Seu livro deixa claro que a doença mental vem da tirania que a cultura impõe – via superego – sobre a pessoa, e que, portanto, é na convivência democrática entre os ‘três poderes mentais’ (Ego, Id e Superego) que a saúde prospera e a criança se desenvolve em direção à independência e à autonomia.’

E acrescentou: ‘Seu compromisso com a clareza, quando você diz que, se houver algo não compreensível no seu livro foi porque você não explicou direito, está em sintonia com sua proposta democrática: a psicanálise não pode se impor tiranicamente sobre o aprendiz com uma linguagem obscura apenas para iniciados’.

Era isso! Eu já me revoltava com médicos falando difícil para seus pacientes, e agora como psicanalista não iria tolerar essa repetição, nem para mim, nem para meus alunos. E mais, se a fala não é transparente, ela não se torna vulnerável a críticas. Este princípio científico de Karl Popper me é muito caro: a principal peneira que separa o verdadeiro do falso em qualquer aprendizado é a possibilidade de ele ser denunciado e criticado como tendo erros.Portanto, aí está o livro: ele contém a proposta científica de Freud sobre o funcionamento da mente, e sua decorrente proposta filosófica: como aproveitar esse saber para viver e criar os filhos na saúde mental, como construir-se e como construir indivíduos independentes e autônomos, que mandem na própria vida sem causar danos aos outros.”

FRANCISCO DAUDT, nascido no Rio de Janeiro em 1948, é médico e psicanalista. Publicou A criação segundo Freud – o que queremos para nossos filhos? (1992); O aprendiz do desejo (1997); O aprendiz de liberdade (2000); O autor mente muito (romance em coautoria com Carlos Sussekind, 2002); O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento (2004) e Onde foi que eu acertei (2010).

Informacões sobre lançamento em breve: http//:www.franciscodaudt.com.br


Natureza Humana: Crenças injustas


 

Meu filho só entrou em contato com os dez mandamentos aos nove anos, quando entrou num colégio católico. Diante do que mandava honrar pai e mãe, me perguntou candidamente: “Por que não tem um mandando honrar filho e filha?”

O cliente tinha doze anos, e se masturbava alegremente desde os nove, quando seu irmão mais velho veio lhe informar que aquilo era pecado mortal, e que ele podia ir para o inferno se não se confessasse. Claro que ele não parou, mas passou a sentir uma culpa enorme por fazer aquela coisa tão boa.

Um leitor me escreveu dizendo que considerava a homossexualidade uma aberração, pois o normal era homem desejar mulher, pela sobrevivência da espécie. Respondi-lhe que a natureza não produz apenas coisas funcionais, que pelo seu raciocínio o apêndice não deveria existir – só existe para causar apendicite? – e que os 10% de canhotos que sempre houve também seriam aberrações. Escreveu-me de volta dizendo que entendia meu ponto, mas que para ele já estava muito tarde para mudar, pois tinha 75 anos.

Essas histórias mostram como podemos absorver crenças injustas – e erradas – numa época em que ainda não temos como discuti-las, nem como rejeitá-las. Meu filho teve a sorte de conhecer uma delas quando já podia fazer a pergunta óbvia que expunha sua injustiça, mas a história do leitor gay me doeu no coração: uma vida inteira se considerando aberrante!

Elas não se derivam só da religião formal, ao contrário, sua maioria vem da principal religião informal que existe: o senso comum. Ele vem derramando crenças injustas e erradas em nossos ouvidos desde que nascemos, e elas se entranham num software poderoso em nosso cérebro: o superego.

Nós nos movemos por dois motores biológicos principais: o da própria sobrevivência, e o da sobrevivência da espécie. O superego cuida da primeira, dando medos inatos que salvam nossas vidas (confinamento; altura; escuro; abandono; ameaça física; répteis e grandes insetos voadores, p.ex.).

Mas depois ele vai se emprenhando pelo ouvido de crenças erradas que parecem fundamentais para sobrevivência, não só de si, mas que envolvem o segundo motor, o sexo.

Entre as piores está a que divide a humanidade em superiores e inferiores, vencedores e fracassados (“winners e losers”, em inglês), fodões e merdas (em português claro).

Oriunda da nossa necessidade de ostentar troféus que nos tornem atraentes para o sexo oposto, ela é o motor das guerras, das brigas de torcida, da busca desesperada de proeminência social (nada de errado com proeminência social em si), da ganância, do jogo sujo, da corrupção.

Exemplo incrível: Vladimir Putin, sabedor que Angela Merkel tem medo de cães, chamou seu imenso labrador para se deitar aos pés dela, em sua visita ao Kremlin. Perguntada depois, Frau Merkel disse: “Só pessoas muito inseguras se utilizam de um expediente assim. O que não faz mais que deixar à mostra suas fragilidades”.

A chanceler ganhou o meu respeito, não apenas por seu diagnóstico preciso, como por mostrar que há meio melhor de se obter proeminência social do que o injusto winner-loser: a sabedoria.


(Em breve): A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud


 

 

 

LANÇAMENTO (EM BREVE):

A CRIAÇÃO ORIGINAL
A teoria da mente segundo Freud

Novo livro de Francisco Daudt

“Aqui está um livro para quem sempre quis conhecer a teoria de Freud sobre o funcionamento da mente, mas ainda não teve fôlego ou apetite para transitar pelos vinte e quatro volumes de sua obra. Mesmo porque eles requerem roteiro, não dá para seguir simplesmente a ordem em que foram escritos.

Este livro foi construído no sentido inverso do que a psicanálise costuma percorrer. A investigação psicanalítica toma um adulto com um problema psíquico e procura suas origens até a mais remota infância e as circunstâncias culturais lá presentes. Como isto já foi feito muitas vezes, agora eu pude inventar um personagem que a gente fosse acompanhando desde antes de seu nascimento até sua adultez para ver como sua alma se forma, passo a passo, segundo a teoria freudiana do aparelho psíquico.”

(Em breve informações sobre o lançamento)

Capa: Tita Berredo - http://titaberredo.com/

http://franciscodaudt.com.br/


Natureza Humana: Os destinos do obsessivo


A psicanálise tem duas faces: a científica e a filosófica. A primeira busca entender da melhor maneira possível como a mente funciona. A filosófica quer, tomando a científica como instrumento, propor um caminho melhor para todos nós. Portanto, a psicanálise tem desejo próprio: ela é contra o sofrimento, a crueldade, a doença; e é a favor da construção do indivíduo, sua independência e autonomia, pois sabe que são sobre esses fundamentos que a saúde mental prospera. O barato da parte científica é que quando a gente entende o mau funcionamento da mente, põe-se logo a caminho de consertá-lo… o que é o caminho filosófico.

A obsessividade é um modo de funcionamento da mente que chama particular atenção. Ele se monta a partir do nascimento sobre duas premissas genéticas: inteligência (não há obsessivos burros) e herança (pode procurar nos familiares). Uma criança assim logo entra em conflito com os comandos que lhe parecem incompententes, seja pela forma, seja pelo conteúdo. A crise do uso do banheiro é um bom exemplo. Como podem lhe impor algo que ela própria já é capaz de gerenciar? Fazer cocô porque foi mandada? Nem pensar!

A partir daí ela seguirá dois possíveis destinos típicos: o hipercultural e o contracultural. No primeiro, é como se ela quisesse mostrar que não precisa ser mandada, pois já sabe cumprir as leis da cultura, e sabe-as muito melhor do que todos. É a criança certinha que não dá trabalho.

No contracultural, ela é rebelde, se vinga das imposições da cultura. Começa por não fazer no penico, e sim no tapete da sala. Em sua campanha negativista de protesto, será bagunceira, impontual, procrastinadora, respondona, desmazelada com suas roupas e com a higiene, tenderá a aderir à tribos bizarras. Enfim, o completo oposto do hipercultural. É pouco compreendido que o ser contracultural, prisioneiro da vingança, é um obsessivo de carteirinha.

Essa divisão é didática, na vida real os obsessivos acabam tendo uma mistura dos dois destinos, com um deles preponderando. Assim, um contracultural que adere a uma tribo bizarra tenderá a ser o líder e o mais bizarro de todos. Hipercultural, portanto, mas daquela cultura.

Pode-se pensar que a obsessividade é um problema. Conversa fiada, ela é uma benção… desde que seja um instrumento de seu portador. É com ela que entregamos o artigo a tempo, que ele sai bem feito, a necessidade de revisão é mínima, essas coisas. Mas quando a gente passa a ser escravo dela, aí sim, temos uma doença.

Outro dia, vendo o centro do Rio num documentário dos anos 40, me dei conta de que os destinos do obsessivo são também sociológicos: todos, sim, todos, se vestiam com apuro; as calçadas de pedras portuguesas estavam um primor; não havia NINGUÉM gordo. Eram tempos hiperculturais.

Depois da ditadura, a rebeldia imperou. Autoridade, modéstia, pudor, discrição, esmero, higiene, bons modos, bom acabamento, boa manutenção, excelência, capricho, ruas limpas, muros sem pichação, viver dentro do orçamento passaram a ser vistos como coisas caretas e de direita.

São tempos contraculturais a clamar por equilíbrio.


Natureza Humana: Atração fatal


Há vinte anos o diretor de teatro Luís Antônio Martinez Corrêa, irmão do Zé Celso, foi assassinado por um amante hétero. O autor Aguinaldo Silva perguntou-se por que ele tinha que ir atrás de um hétero e se pôr em risco assim, por que não buscou outro gay?

A resposta é simples e complexa: o objeto de seu desejo teria que ser hétero, nenhum gay acenderia a mesma chama.

Aqui termina a parte simples da resposta, e ela passa a ser genérica. É quase um clichê dizer que os gays são cismados com os héteros, tanto quanto que eles são grudados em suas mães. Mas creio ser uma história ótima para ilustrar como o complexo de Édipo marca nosso desejo para sempre.

Mateus Solano como Felix, e Antônio Fagundes como seu pai César, na novela “Amor à vida”, retrataram muito bem essa trajetória clichê de quem nasce gay (sim, nasce gay; jamais “opta” por ser gay): um pai carinhoso com seu filho até o momento em que nota nele os primeiros sinais de efeminamento. A partir daí, rejeita-o para sempre, como a querer deletar a vergonha de ter um filho gay. O menino vai passar o resto da vida procurando sucessores do pai que o acolham e lhe corrijam a história. A tristeza da coisa é que ele será levado por seu desejo inconsciente a procurar réplicas tão perfeitas do pai, que esses novos héteros fatalmente reproduzirão o acontecido: um primeiro tempo próximo, e até mesmo carinhoso, seguido de uma “descoberta” do desejo homo que os aproximou, o que levará à rejeição. Que, na melhor das hipóteses, se dará por afastamento, mas que no extremo – se o hétero tiver uma crise de identidade sexual, como parece ter sido o caso descrito – pode resultar em assassinato. De fato, o homicídio mais comum praticado por michês acontece quando eles são acusados de não estarem se prostituindo só por dinheiro, mas porque também gostam…

O complexo de Édipo, como se vê, consiste em se estar aprisionado a um assunto que originalmente não era nosso, e sim de quem nos criou: o gay dá murro em ponta de faca, querendo ser amado por um hétero, porque seu pai era homofóbico e o rejeitou.

É triste, mas é verdade, que a psicanálise considerou há até bem pouco tempo a homossexualidade como doença, fazendo uma confusão maligna com outro fato pouco mencionado: nascer gay deixa uma criança vulnerável a encrencas tremendas de criação, que podem deixá-la doente mais tarde.

Não é exclusividade dela, outras condições também fazem isso: nascer inteligente numa família de imbecis invejosos é altamente arriscado para uma criança, que sempre se sentirá devedora, por se perceber melhor que eles.

O curioso é que, mesmo quando se livram da doença neurótica e deixam de se apaixonar por réplicas do pai, o objeto do desejo desses homens continua a ser héteros. Apenas agora sem a paixão neurótica, o que lhes permite ser mais realistas e escolher parceiros que, mesmo preferindo mulheres, também são capazes de acolher o amor de outro homem.

Ou seja, o drama de nossa infância se foi, mas nosso desejo foi marcado por ele para sempre.

Isso não é mal, afinal, o desejo é a combinação de nossos instintos com nossa história.


Frases Daudt: Homofobia


Homofobia

Frases Francisco Daudt - Homofobia


Daudt no Facebook: Homofobia e a síndrome do fodão-merda


Em meu livro “O Aprendiz do Desejo” (Companhia das Letras, 1997), descrevi a síndrome fodão-merda (winner-loser sindrome) como uma variante do sadomasoquismo em que, para diminuir suas inseguranças, alguém necessita se afirmar como melhor, superior, fazendo alguém se sentir pior, inferior. Em português claro, para não se sentir um merda, para tirar onda de fodão, humilha o outro, fazendo-o se sentir um merda.

Recentemente me dei conta de que nós homens aprendemos desde cedo que ser macho é ser foda, e que ser mulherzinha é ser merda (sim, ainda existe misoginia, desprezo pelas mulheres, implicada). Por extensão, ser viado é ser o máximo de merda.

Daí, qualquer insegurança que um homem tenha a respeito de sua masculinidade, é possível que o leve a terceirizar o merda que momentaneamente se sentiu, apontando e humilhando alguém mais como gay, assim dizendo “O merda é ele!”

É por isso que não existem homofóbicos entre os héteros absolutos: eles não estão nem aí…

1234567891011121314151617181920