Natureza Humana: O Eu e o Acima-de-mim


O marquês de Sade se masturbava em seu quarto, olhos postos no crucifixo acima dele, na parede, a dizer-lhe desafiadoramente: “Me mata, me mata agora, se você existe!” Chegado o orgasmo, gritava em meio a gargalhadas: “Aha! Você não existe!”

Essa cena poderia ser uma síntese de sua produção literária, talvez de sua vida: ele sempre foi um inimigo fiel e devoto do seu Acima-de-mim. Eternamente dedicado a renegá-lo, a imaginar que insulto poderia ser pior para escarnecê-lo, que ultraje conseguiria seduzir mais seus leitores para o culto de amor e ódio a essa Nêmesis que consumiu sua existência.

O Acima-de-mim é uma tradução possível para o alemão “das Über-ich”, termo alemão criado por Freud para uma das três instâncias da mente, que conhecemos como Superego (as outras são “das Ich” e “das Es” – o Eu e o Algo-em-mim, conhecidas como o Ego e o Id).

Volto a tratar do assunto porque sua presença em nossas vidas é muito mais poderosa – e subestimada – do que se percebe, mesmo porque ele, o Acima-de-mim, é em parte insconsciente.

A parte notada nós a conhecemos desde a infância, quando nossos pais diziam: “Meu filho, ouça a voz da consciência”. De fato, lá estava ela a nos dizer o que era certo, e como nós andávamos errados. Ela funciona como uma constituição e um tribunal portáteis, paradigma da perfeição a nos criticar e a nos exigir a que sigamos seu exemplo, que nos comportemos como se fossemos ela. E volta e meia nós fazemos isso, ficamos acima-dos-outros, basta ver a atividade mais comum no facebook, o puxão de orelha – para dizer o mínimo – público, com os consequentes rancores e retaliações que essas espinafrações causam.

Vivemos um momento histórico em que há uma competição acirrada – o tal “nós contra eles” – para ver quem é o mais crítico, mais dono da verdade, mais perfeito e mais acima-dos-outros. Estamos constantemente  afiando nosso juiz interno, emitindo sentenças de morte contra nossos inimigos, acirrando nossos ódios. Tal é o legado do populismo, de dividir o país para conquistar o poder em nome de bons propósitos, que se tornam desmascarados ao mostrar sua face gananciosa.

Mas o discurso populista o é porque atinge o povo com simplorismo, e essa perda de complexidade mora dentro de nós: ela é a fala habitual do Superego. De sua posição Acima-de-mim, ele pode me ser útil, mas também pode ter se tornado um julgador cruel, um sucessor de quem me criou mal, um déspota tão odiento quanto o era para o marquês de Sade, dizendo que só há branco e preto, que se eu não sou imaculado, então eu não presto. Ou seja, um magistrado idiota a quem só me resta odiar/temer/reverenciar, tudo isso junto, numa confusão dos diabos que me emburrece pelo tumulto mental que causa. Como é mais fácil odiar do lado de fora, não há populismo sem inimigo público. Esse é seu truque mais comum. Esse é o estado a que chegamos.

Mas por que eu estou falando de política, se quero ser conceitual? Porque é de política que se trata: da política que se passa dentro de nossas cabeças. A briga principal é entre o Eu e o Acima-de-mim.


Natureza Humana: Infantil


“Alô, aqui fala Sinfrônio Epaminondas, acabei de ler seu artigo sobre alcoolismo, é muito bom! Você sabe quem sou eu?”

“Bem, eu conheço a fama de um cirurgião infantil com esse nome”.

Depois de um breve silêncio, ele me corrigiu: “Pediátrico”.

Tive que segurar um ataque de riso ao imaginar um cirurgião tendo um faniquito no centro cirúrgico porque a enfermeira lhe dera um instrumento errado: era o cirurgião “infantil”…

Mais tarde me dei conta de que “infantil” tem mesmo um duplo sentido, e que, se é muito desejável a preservação da criança que existe dentro de nós – afinal, a neotenia (apego à forma infantil de uma espécie) e sua consequente capacidade de invenção, criatividade e brincadeira, é das características mais preciosas do sapiens –, a infantilidade é outra coisa… e atrapalha.

Ela é um resultado pouco conhecido das doenças psíquicas, vale dizer, do complexo de Édipo. Este é o nome que Freud deu ao legado triste de nossa infância, um assunto complicado de quem nos criou em que ficamos enredados sem querer, e que arrastamos como um peso morto pela vida afora. As doenças psíquicas nos aprisionam à infantilidade, especialmente no gerenciamento de dois temas cruciais para lidar com o mundo: a raiva e o amor.

O pequeno troglodita que somos quando pequenos reage à raiva com o tacape, mas logo vem a civilização lhe ensinar que “isso é feio, não pode”. Certo, mas… o que pode, então? Não ter raiva é impossível, precisaríamos de canais competentes para que ela corrigisse as injustiças que a causaram. É muito raro que isso seja ensinado, só nos ensinam a reprimi-la. Como resultado mais comum surge a criança boazinha: uma pobre coitada que mendiga amor suprimindo a raiva, e com isso sofrerá toda a sorte de abusos durante sua vida, começando com o bullying na escola. A “bondade masoquista” é, portanto, uma infantilidade.

Mas seu oposto também o é. A criança rebelde, explosiva e violenta, prisioneira da vingança reativa, é tão infantil e despreparada para a vida de gente grande quanto a primeira.

E há o despreparo para o gerenciamento do amor – sim, completamente ligado ao primeiro, para saber amar é preciso saber gerenciar a raiva (ou alguém acha que não vai sentir raiva do ser amado?). Imagine aquele bonzinho amando! Vai se ferrar… Imagine o explosivo, então!

Quando o item “sexo” se apresenta, mais infantilidades aparecem: ter vergonha do próprio desejo leva a negá-lo, a acusar o outro de sem-vergonhice. A necessidade de afirmar o próprio desejo – ou de combater suas inseguranças – leva ao don-juanismo, à conquista compulsiva que se satisfaz em si, às perversões (quando se é prisioneiro da transgressão, do desafio às leis da cultura).

Essa face infantil das doenças neuróticas e perversas me fez ver a necessidade de o psicanalista agir numa direção insuspeitada: ele precisa exercer uma função de pai tardia para seus clientes, apresentar-lhes ferramentas úteis para o gerenciamento da raiva e do amor.

Não basta deslindar o Édipo, entender o que nos prende à infância, é também preciso deixar a infantilidade para trás.


Natureza Humana: Afeto e contabilidade


Dentro de nossas cabeças mora um contador. Um não, vários. Todos eles zelam pela troca que achamos justa, e troca justa é um dos assuntos mais importantes da nossa vida, qualquer coisa fora dela nos causa raiva: toda raiva provém do sentimento de injustiça, e é a raiva o motor que será usado para buscar corrigi-la. A raiva é, pois, mãe da justiça.

Quanto aos contadores: os há cruéis e explícitos, que vigiam se o preço cobrado está extorsivo ou não; há os politizados, que querem derrubar autoridades que não foram fiéis aos nossos votos…

E há os gentis. Esses lidam com a contabilidade mais delicada de nossas vidas: a que envolve afeto. Quando os bons sentimentos entram em pauta, a espécie humana é capaz de mostrar sua face mais bela: a altruísta. Queremos o bem de quem amamos. Essa gente nos desperta uma generosidade insuspeitada, uma vontade de agradar, de presentear, de fazer sorrir, que a nada se compara. Damos-lhe prazer e atenção; queremos saber de suas histórias e de suas dores; ficamos até felizes com sua felicidade (habitualmente a felicidade alheia nos causa inveja, que é fruto de um sentimento de injustiça distorcido: “Por que eles, e não eu?”).

Mas não se iluda: o contador está alerta. Quietinho, disfarçado, gentil… mas alerta. Não existe em nossa espécie altruísmo que não espere nada em troca. Até mesmo São Francisco de Assis, o ícone da generosidade, dizia que “é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado”. Ou seja, o santo esperava troco! Aquela pessoa mais amada, que no entanto só olha para o próprio umbigo, só quer ser ouvida e nunca ouve, só fala de si mesma até se (e nos) cansar, que não se engane: sua batata está assando. Em fogo brando, mas está.

É que no caso das relações afetivas a linha de crédito é mais elástica: nossa capacidade de tolerância é muito grande. Só existe um caso que se aproxima do amor incondicional, o que temos pelos filhos. Tirando esse – que vai ficando parecido com o amor pelos amigos à medida que eles crescem –, o dia do acento de contas chega, e ele dificilmente será bem sucedido.

Por causa do problema da cobrança: quem cobra sexo, quem cobra amor, recebe no máximo favor, e esta não é a moeda de troca que queremos.

Resulta que muitos relacionamentos adoecem por encrencas contábeis: não havendo troca justa, e não se podendo acertar as contas (muitas vezes é por falta de capacidade do outro: como esperar amor e atenção da parte de um narcisista, ou como provar seu amor a um ciumento paranoico?), a melhor opção seria o afastamento. Mas pode ser tarde demais, se a amargura da injustiça das trocas já se transformou em sadomasoquismo, mesmo que sutil, o amor vira vício: um se assumindo vítima do outro (é a parte masoquista), enquanto deixa claro aos demais o monstro que o parceiro é (a parte sádica).

Portanto é melhor ter em mente como funcionamos: esse negócio de dar e não esperar nada em troca é puro autoengano. Mesmo as pessoas de baixa autoestima devotas a quem amam se ressentem do menosprezo que recebem.

Cajueiro não dá banana: é melhor avaliar bem antes de investir muito.


Natureza Humana: Identidade masculina


“A liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam”, disse Espinoza, e não há cordel mais poderoso que o da natureza humana. Seria cômico se não fosse trágico que a própria natureza humana nos iluda para menosprezá-la: nós acreditamos que ela não nos afeta, que somos apenas frutos da cultura.

A questão é que nossa identidade masculina deriva do instinto de preservação da espécie, da mesma maneira que as plumas do pavão servem ao dele: um chamariz para fazer sexo, uma propaganda de quão bom fornecedor de genes reprodutivos nós somos. Ela anuncia qualidades atraentes ao sexo oposto: “sou forte, poderoso, destemido, ativo, protetor, pegador, meio cafajeste, você estará segura a meu lado, será invejada e terá muitos filhos com os meus genes, o que significa que nossa prole gerará mais e mais descendentes”.

Exatamente a propaganda animalesca que as belas penas do pavão anunciam, e que falam diretamente ao inconsciente das fêmeas (apenas o consciente pode ser feminista), mexendo com elas, que costumam também ignorar os cordéis que as manipulam.

Fascinante é acompanhar a interação natureza/cultura que forja a identidade masculina. É claro que começa em casa, mas a família ainda é muito civilizada quando comparada com os pequenos trogloditas, os coleguinhas que encontraremos na escolaridade. É lá que a patrulha começa: o menino é apresentado ao antimodelo da “mulherzinha”. Ele aprende que ser macho é ser foda (brigão, bully, esportivo, bruto, atlético, de poucas palavras e muitos palavrões, malandro, hiperativo etc.), e que ser “mulherzinha” é ser merda (passivo, pacífico, estudioso, introspectivo, conversador, sensível, bullyed etc.).

Pois é: o primeiro movimento da identidade masculina é misógino – não é homofóbico –, é um movimento de desprezo pelas meninas que tem muita chance de durar a vida inteira. E infelizmente, o primeiro jogo fodão-merda (F/M. Em inglês, “winner-loser”, sendo “loser” o pior palavrão da língua) em que um menino se envolve é justamente o da identidade masculina (os outros serão sucessores deste).

Daí em diante o menino será frequentemente provocado a provar sua macheza. O “chiken-chiken” americano (“prove que você tem coragem”) sempre conseguia manipular o Marty McFly, em “De volta ao futuro”.

É a partir desse quadro que o medo de ser mulherzinha (do qual o medo de parecer veado é sucessor) equivalerá à castração freudiana: a perda das penas do pavão, do cacife para conquistar fêmeas.

Não é à toa que o jogo F/M se torna uma praga tão comum em todos os ambientes: o homem tem suas inseguranças, ele sabe que não é tão F quanto parece, e em seu pensamento imbecil binário (o tipo de pensamento mais comum da espécie), se ele não é F, então é M, e tem que esconder isso ao máximo. Um dos jeitos é ser bully e fazer outro se sentir M, ou veado, ou loser, ou inferior: isso dá um momento de alívio em que ele se sente F.

A alternativa a essa praga é se sentir seguro de si, “na sua”, coisa difícil de construir. Mas é a mais bem sucedida das penas de pavão: não há nada tão atraente quanto uma autoestima elevada.


Entrevistas: (Folha de S. Paulo) “Freud veio para esclarecer, não nos deixar perplexos”, diz Francisco Daudt


MANUEL DA COSTA PINTO – COLUNISTA DA FOLHA

“A Criação Original”, novo livro do colunista da Folha e psicanalista Francisco Daudt, traz uma declaração de princípios: “A clareza é o ponto fundamental neste livro”. Seu desafio é apresentar de maneira ao mesmo tempo didática e consistente o conjunto dos conceitos e da prática psicanalítica, numa reação ao caráter frequentemente hermético que marca os textos dos seguidores de Freud.

“Sua escrita era tão clara e acessível, tão bem escrita, que a única honraria que lhe coube em vida foi o ‘Nobel alemão’ de literatura, o prêmio Goethe [1930]. Quis fazer jus à intenção do mestre: ele veio para esclarecer, não para deixar ninguém perplexo, muito menos reverente diante de sua obra”, afirma Daudt em entrevista à “Ilustrada”.

Há, nessa defesa da clareza, um sentido ético e uma crítica explícita à estratégia de poder embutida no serpentário retórico de muitos teóricos de psicanálise, sobretudo Lacan e seus epígonos: “Ainda somos prisioneiros do mito francês de que uma fala obscura traduz erudição e sapiência. Sou adepto de Karl Popper, o epistemólogo que afirma que uma hipótese deve ser vulnerável a críticas e à refutação, caso contrário não se terá como aferir sua condição de verdadeira ou falsa. Em outras palavras, eu não posso te enrolar se estiver escrevendo em português claro. Isto vale para a
psicanálise, a política e a economia”.

O livro não segue a evolução cronológica do pensamento de Freud. Isso significa, por exemplo, que a “teoria dos impulsos”, que o pensador vienense modificou até seus últimos escritos (com a introdução tardia da ideia de “impulso de morte”), é apresentada ao leitor nos capítulos iniciais de “A Criação Original” e já em sua forma final.

“Se alguém se dispuser a enfrentar os 24 volumes da obra completa de maneira cronológica (que é como eles se dispõem), vai demorar horrores para entender a teoria freudiana. Vai virar um contemporâneo de Freud, que era obrigado a ir ‘acompanhando a novela’. Nós estamos na posição de pegar o conjunto da obra e rastreá-la no sentido de sua maior compreensão”.

Mas, ao contrário de leituras “fundamentalistas”, que consideram intocável a letra freudiana, Daudt considera a psicanálise uma “ciência embrionária”, sujeita a correções (e o próprio autor corrige, ao longo texto, afirmaçõesque fizera em livros ou artigos anteriores): “Freud foi um cientista, um médico, e a ciência é humilde na busca da verdade. Imitei o espírito científico de Freud: ele próprio se corrigiu quando disse que afinal não era a neurose que causava angústia, mas o contrário, a angústia causava a neurose. Abordar o texto freudiano como se fosse uma bíblia, ‘a Palavra’ que requer exegese, é um insulto ao velho professor”.

Aqui mais uma vez, há um sentido ético na recusa de colocar a psicanálise num altar: “Se a psicanálise for colocada sobre um pedestal, elevada à categoria de religião, com acólitos se submetendo a instituições, o psicanalista tenderá a fazer o mesmo com seus pacientes: tenderá a subjugá-los”.

Em nome da clareza, Daudt também critica o uso de termos como “Ego” e “pulsão”, em lugar de simplesmente “Eu” ou “impulso”, que seriam traduções óbvias do estilo vernacular de Freud. “Essa praga começou com Ernest Jones, primeiro tradutor de Freud para o inglês, que resolveu envolver sua escrita numa vestimenta pomposa –e corporativa– de termos médicos em latim e grego. Começou aí a doença institucional da psicanálise: o psicanalista servindo a instituição, em vez de servir a seus pacientes. Ficou um saber envolto em mistério, somente para iniciados, intimidando o leigo (vale dizer, o paciente), dando impressão de grande saber, mas só impressão. E vai contra o propósito básico da psicanálise, que é corrigir a submissão da criança à cultura e construir um indivíduo independente e autônomo.”.

Nesse sentido, “A Criação Original” desafia o tabu psicanalítico de que o leitor não pode e não deve ousar ler Freud com o intuito de se autonalisar: “Esse é um ponto em que divirjo completamente de meus ‘díspares’ (há muito tempo entendi que não tenho pares): quando Freud falou em análise interminável, estava falando da transferência de tecnologia que deve se dar num processo psicanalítico, de tal modo a que o paciente prossiga em um processo de autoanálise vida afora. A internet qualificou os pacientes para fazerem perguntas sobre suas doenças aos médicos, e isso os obriga a ficar mais espertos e atualizados. Quero o mesmo para os pacientes de psicanálise! Quero defender o direito do consumidor desse serviço! Quero que entendam ou tenham boas intuições sobre suas doenças, seus complexos de Édipo, que exijam entender o que o psicanalista lhe diz”.

Aliás, o capítulo sobre o complexo de Édipo (um dos pilares da criação freudiana) também traz uma contribuição teórica de Daudt, fruto das experiências clínicas relatadas pelo psicanalista carioca:

“Há no livro uma novidade: o conceito de que o complexo de Édipo não é uma fatalidade absoluta, e sim um dano de tamanho variável na vida dos filhos, causado pela incompetência dos pais em criá-los. Quanto menos incompetentes, menor o dano. Incompetentes todos seremos, pois não existe trabalho mais difícil do que atender na justa medida as capacidades e necessidades dos filhos à medida que crescem”.

Sob o intencional didatismo de “A Criação Original”, portanto, há também uma leitura não canonizadora de Freud. Ao expor a formação do aparelho psíquico desde sua fase rudimentar até suas etapas mais complexas, Francisco Daudt mostra como pode ser dinâmico, mutável, o enfrentamento de nosso aparelho psíquico com as vivências subjetivas e com o mundo exterior.

“A Criação Original – A Teoria da Mente Segundo Freud”
Francisco Daudt
Editora 7Letras
336 págs.

“A criação original – A teoria da mente segundo Freud” já está a venda. Para comprar, CLIQUE AQUI.

Natureza Humana: Claro e obscuro

“Afinal, o que você quer com seus artigos?” A resposta mais de raiz que posso dar é que quero sobreviver e ser amado. Mas essa é uma razão genérica para qualquer coisa que fizermos, já que os instintos de sobrevivência pessoal e da espécie são os dois motores de nossos atos.

Até que eles se manifestem na linguagem, um longo caminho é percorrido. Os instintos, em nossa espécie, foram chamados por Freud de “impulsos” (“trieb”, em alemão; “drive”, em inglês) por serem moldáveis pela cultura: todas as suas experiências de satisfação marcam nossa memória, e vão construindo um sucessor supercomplexo chamado “desejo inconsciente”. Este se expressa em nossas ações conscientes: vontades; repulsas; tesões; gostos e desgostos; silêncio intencional; palavra falada e escrita.

Essas duas últimas são como nós traduzimos o “mentalês”, o nome que Steven Pinker deu para a linguagem da mente. Ele não é fácil de traduzir, você certamente já ouviu alguém dizer “não tenho palavras para explicar o que sinto”.

E pensar que tudo começou com o prazer que sentíamos na boca, quando bebês… Ligado, claro, ao impulso sexual (ele segue a trilha do prazer, e não a vontade de perpetuar a espécie: se a espécie dependesse da vontade de ter filhos, já estaria extinta há muito tempo). De prazer em prazer, a oralidade vai se distanciando do sexo em si, mas não do prazer: uma das experiências prazerosas que construíram a minha escrita é ter lido na infância um anúncio de rua que dizia: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”. O leitor voraz aqui adorou, pois queria bem falar, bem ouvir, bem ver… e bem escrever, como consequência.

Foi a linguagem médica que despertou em mim a obsessão por clareza: quando descobri que tínhamos três palavras para esconder nossa ignorância (doença idiopática, essencial ou criptogenética, significa uma coisa só: de causa desconhecida), achei desonesto com os pacientes. Entendi que o jargão pode ser útil para comunicação entre profissionais, mas é abusivo se usado fora da tribo.

Aí veio a psicanálise, e a coisa piorou. Mas eu já estava vacinado: entrei nela sendo médico clínico, e você não imagina o quanto um médico clínico “se acha”. De modo que tive um prazer especial de dizer a meus professores, quando vinham com “Ah, porque o obsessivo quer o falo, enquanto o histérico é o falo”, que não tinha entendido, se eles poderiam se explicar em língua de gente. Quando não conseguiam, sugeriam que o burro era eu (não com essa clareza, óbvio).

McLuhan disse que o meio é a mensagem, então presto a atenção em como uma pessoa fala: se é obscura, provavelmente está querendo me enrolar. Se é lógica e transparente, a pessoa me respeita. Em ambos os casos, a mensagem é expressão de seus desejos: predador ou cooperativo.

A linguagem clara é fundamental para nossa saúde mental: pense no alívio que é a novidade de ver criminosos, por mais poderosos que sejam, indo para a cadeia em consequência de seus atos, pois esses foram postos às claras. Pense em como vimos sendo enrolados por suas “narrativas” falaciosas, e em como isso nos deixa doentes de raiva impotente.


Release: A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud

Livro apresenta a obra de Sigmund Freud de forma didática, sem abrir mão dos detalhes de toda a teoria do mestre da Psicanálise.

 

Este é um livro para quem sempre quis conhecer a teoria de Freud sobre o funcionamento da mente, mas ainda não teve fôlego ou apetite para transitar pelos vinte e quatro volumes de sua obra. Em “A criação original”, Francisco Daudt inventa um personagem que o leitor pode acompanhar desde antes de seu nascimento até sua vida adulta para ver como sua alma se forma, passo a passo, segundo a teoria freudiana do aparelho psíquico.

“Este foi o primeiro livro que escrevi, há trinta anos, quando decidi não mais dar cursos de teoria freudiana e deixar por escrito o resumo do que achava que os alunos precisavam saber. Como não consegui publicá-lo na ocasião, fiz uma condensação dele: A criação segundo Freud – o que queremos para nossos filhos, lançado em 1992.

Seu primeiro revisor e incentivador foi Leandro Konder, que me disse na época: ‘Francisco, você escreveu A democracia como valor universal (a reverenciada obra de Carlos Nelson Coutinho) da psicanálise’.

Só fui entender a magnitude de seu elogio muitos anos depois: a psicanálise tem duas faces, a científica e a filosófica, o conhecimento da mente e a sabedoria de vida que dele se depreende. Konder se referia justamente à parte filosófica: ‘Seu livro deixa claro que a doença mental vem da tirania que a cultura impõe – via superego – sobre a pessoa, e que, portanto, é na convivência democrática entre os ‘três poderes mentais’ (Ego, Id e Superego) que a saúde prospera e a criança se desenvolve em direção à independência e à autonomia.’

E acrescentou: ‘Seu compromisso com a clareza, quando você diz que, se houver algo não compreensível no seu livro foi porque você não explicou direito, está em sintonia com sua proposta democrática: a psicanálise não pode se impor tiranicamente sobre o aprendiz com uma linguagem obscura apenas para iniciados’.

Era isso! Eu já me revoltava com médicos falando difícil para seus pacientes, e agora como psicanalista não iria tolerar essa repetição, nem para mim, nem para meus alunos. E mais, se a fala não é transparente, ela não se torna vulnerável a críticas. Este princípio científico de Karl Popper me é muito caro: a principal peneira que separa o verdadeiro do falso em qualquer aprendizado é a possibilidade de ele ser denunciado e criticado como tendo erros.Portanto, aí está o livro: ele contém a proposta científica de Freud sobre o funcionamento da mente, e sua decorrente proposta filosófica: como aproveitar esse saber para viver e criar os filhos na saúde mental, como construir-se e como construir indivíduos independentes e autônomos, que mandem na própria vida sem causar danos aos outros.”

“Leandro Konder me manda um bilhete divertido apresentando Francisco Daudt da Veiga, um psicanalista que escreve limpo e quer democratizar Freud. […] A explicação dele de ‘O complexo de Édipo’ não poderia ser mais clara e satisfatória, a meu ver. O livro é obrigatório para quem quer conhecer o assunto”

PAULO FRANCIS

A criação original – A teoria da mente segundo Freud

Autor: Francisco Daudt

Sbn: 9788542105650

Idioma: Português

Encadernação: Brochura

Formato: 15,5 x 22,8

Páginas: 336

Ano de edição: 2017

Ano copyright: 2017

Edição: 1ª

Editora: 7 Letras

Sobre o autor

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas, que está sendo lançado agora pela 7 Letras, intitulado “A Criação original – A teoria da mente segundo Freud” .

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei” (Casa da Palavra, 2010), “O amor companheiro” (Sextante, 2004), “ O aprendiz da liberdade” (Companhia das Letras, 2000), “O aprendiz do desejo” (7 Letras, 1997) e “A criação segundo Freud” (7 Letras, 1992).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programaEncontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.

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CONTATO

Francisco Daudt

Tel: +55 21 98482-6978

fdaudt2@gmail.com


Natureza Humana: Vício e virtude


Corrupção não é apenas roubo, suborno, propina, trapaça, compra e venda de autoridades, enfim, todo esse desfile de horrores a que temos assistido ultimamente. Corrupção também significa apodrecimento, deterioração, decadência, desagregação, aquilo que acontece com os cadáveres e com as casas que não recebem manutenção. Há um interessante documentário, “O mundo sem ninguém” (Life after people), que mostra o que aconteceria ao planeta se os humanos desaparecessem de uma hora para outra: em poucas décadas as construções e outros vestígios de nossa passagem estariam corrompidos pela água e pelas plantas, seguindo a lei física da entropia que tudo conduz à geleia geral.

Da mesma maneira que acontece com a corrupção, o principal significado de vício não é a adição a substâncias psicoativas, mas sim a tendência a praticar atos nocivos ou indecorosos. A tendência a corromper, a danificar, a destruir. A tendência ao mal. Em termos estéticos, o ato vicioso é deforme, decadente, feio, repugnante.

Por contraposição, a virtude é a conformidade com o bem, com a excelência moral ou de conduta, é dignidade, é construção, pois o ato virtuoso é edificante, estruturante. Em termos estéticos, o ato virtuoso é belo, admirável, inspirador.

Agora vem a pior parte: o vício é fácil e a virtude é difícil. A inércia é viciosa; a virtude é trabalhosa. Largados, enfeiamos, engordamos, amolecemos, deterioramos. E todos sabemos o investimento que significa estar em forma, cuidar-se. Destruir é infinitamente mais fácil que construir. Qualquer idiota quebra os vitrais de uma catedral e a deixa emporcalhada com pichações em dois minutos, enquanto ela levou séculos de trabalho árduo, de inteligência e de arte aplicadas para ser erguida.

Não há dor maior do que a perda de um filho jovem por acidente ou crime: em um segundo esvanecem-se anos de dedicação, noites insones, amor, zelo, carinho, milhares de pequenos atos virtuosos que investimos naquele ser.

Ou seja, o vício sempre sai em vantagem sobre a virtude, pois ele conta com a tendência natural ao menor esforço, ao enriquecimento rápido, à euforia instantânea, ao imediatismo, ao princípio do prazer barato e raso.

É como se a virtude fosse sempre resultado de uma decisão consciente e de um empenho esforçado, enquanto o vício precisa de muito pouco para prosperar. Ele é como a gravidade no castigo de Sísifo: está sempre à espreita, esperando o momento em que paramos de empurrar a pedra ladeira acima para entrar em ação.

E a virtude? Conta-se que um frade perguntou o que faziam a dois pedreiros durante a construção da Notre Dame de Paris. O primeiro disse que assentava uma fileira de tijolos. O segundo olhou em êxtase para o céu e respondeu: “Construo uma catedral!”

Para que a virtude prospere precisamos ser os dois pedreiros ao mesmo tempo: persistentes em nossos pequenos atos virtuosos de cada dia, assentando tijolo por tijolo, dente escovado e banho tomado, sabendo que amanhã tudo recomeça. E precisamos ter em mente a beleza de nossa catedral, a felicidade de nossos filhos, a integridade de nosso país.

 


Lançamento (dia 08/06/17 às 19h no Rio de Janeiro): A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud


 

LANÇAMENTO: A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud

Novo livro de Francisco Daudt

Dia 08 DE JUNHO DE 2017 no PRÓ-SABER, a partir das 19 horas. 
Largo dos Leões 70, Humaitá – Rio de Janeiro

Se você possui perfil no Facebook e deseja ser lembrado sobre o lançamento por lá, clique AQUI e marque a opção “comparecerei” ou “tenho interesse”.

“Este foi o primeiro livro que escrevi, há trinta anos, quando decidi não mais dar cursos de teoria freudiana e deixar por escrito o resumo do que achava que os alunos precisavam saber. Como não consegui publicá-lo na ocasião, fiz uma condensação dele: A criação segundo Freud – o que queremos para nossos filhos, lançado em 1992.

Seu primeiro revisor e incentivador foi Leandro Konder, que me disse na época: ‘Francisco, você escreveu A democracia como valor universal (a reverenciada obra de Carlos Nelson Coutinho) da psicanálise’.

Só fui entender a magnitude de seu elogio muitos anos depois: a psicanálise tem duas faces, a científica e a filosófica, o conhecimento da mente e a sabedoria de vida que dele se depreende. Konder se referia justamente à parte filosófica: ‘Seu livro deixa claro que a doença mental vem da tirania que a cultura impõe – via superego – sobre a pessoa, e que, portanto, é na convivência democrática entre os ‘três poderes mentais’ (Ego, Id e Superego) que a saúde prospera e a criança se desenvolve em direção à independência e à autonomia.’

E acrescentou: ‘Seu compromisso com a clareza, quando você diz que, se houver algo não compreensível no seu livro foi porque você não explicou direito, está em sintonia com sua proposta democrática: a psicanálise não pode se impor tiranicamente sobre o aprendiz com uma linguagem obscura apenas para iniciados’.

Era isso! Eu já me revoltava com médicos falando difícil para seus pacientes, e agora como psicanalista não iria tolerar essa repetição, nem para mim, nem para meus alunos. E mais, se a fala não é transparente, ela não se torna vulnerável a críticas. Este princípio científico de Karl Popper me é muito caro: a principal peneira que separa o verdadeiro do falso em qualquer aprendizado é a possibilidade de ele ser denunciado e criticado como tendo erros.Portanto, aí está o livro: ele contém a proposta científica de Freud sobre o funcionamento da mente, e sua decorrente proposta filosófica: como aproveitar esse saber para viver e criar os filhos na saúde mental, como construir-se e como construir indivíduos independentes e autônomos, que mandem na própria vida sem causar danos aos outros.”

FRANCISCO DAUDT, nascido no Rio de Janeiro em 1948, é médico e psicanalista. Publicou A criação segundo Freud – o que queremos para nossos filhos? (1992); O aprendiz do desejo (1997); O aprendiz de liberdade (2000); O autor mente muito (romance em coautoria com Carlos Sussekind, 2002); O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento (2004) e Onde foi que eu acertei (2010).

 

 


Natureza Humana: O complexo do Édipo


Pobre Édipo, passou à história como alguém que matou o pai e se deitou com a mãe. E pior, se sentiu culpado disso tudo. Mas… a verdade é essa mesma?

Vejamos: quando ele ainda estava na barriga de Jocasta, rainha de Tebas, Laio, o rei seu pai, foi procurar o Oráculo de Delfos para saber da pitonisa o futuro de seu filho. Não é que a vidente disse que ele quando crescesse iria matar o pai e se casar com a mãe? Laio então decidiu matar o bebê antes! Deu-o a um escravo para que fizesse o trabalho sujo, mas este se apiedou do menino e o abandonou na floresta. Foi assim que o príncipe de Tebas, recolhido por um pastor, parou nas mãos dos reis de Corinto, que o adotaram como filho natural (escondendo sua condição de adotado: atenção, que isso é importante). Já crescido, alguém resolve lhe fazer mal e revela sua adoção. Ele, chocado, vai aonde? Procurar a pitonisa de Delfos para saber de sua vida! Você já imagina o que ela lhe disse: a mesma coisa que disse para Laio. Tentando fugir desse destino (de matar o rei de Corinto, que ele julgava ser seu pai), foge para… Tebas! Na estrada, é atacado pelos batedores do rei de Tebas e acaba matando – em legítima defesa – Laio, seu pai biológico (que tentava assassiná-lo pela segunda vez).

Antes de entrar em Tebas, enfrenta a esfinge (uma fera mitológica que devorava viajantes), decifra seu enigma e a mata, tornando-se herói. Como prêmio, é forçado a se casar com a rainha viúva… Jocasta!

No fim da peça de Sófocles ele descobre tudo e fica arrasado de tanta culpa, ao ponto de se cegar.

Agora eu te pergunto: Édipo merece essa fama maldita? A meu ver, ele foi colocado numa arapuca inescapável, metido num problema que não era dele, era dos pais. Não deixaram Édipo viver sua própria vida. Ele foi atrelado à vida dos pais, aos assuntos dos pais. E mesmo os reis de Corinto, seus pais de adoção, deixaram uma armadilha esperando por ele, ao sonegar-lhe sua verdadeira história.

Freud considerou que, assim como Édipo, nós não poderíamos fugir ao nosso destino: ficaríamos de algum jeito marcados pelos assuntos/problemas de nossos pais. Concordo. A nossa espécie é muito dependente de ter adultos que criem os filhos por longo tempo, nascemos muito frágeis, e é esse tempo de exposição que faz com que a criança se enrole na incompetência de quem a criou.

Mas não precisa ser tão grave como foi para Édipo! Esta é a tese central do livro que lanço este mês (“A Criação Original – a teoria da mente segundo Freud”): o Complexo de Édipo diminui de tamanho se os pais forem competentes, e a criança terá menos problemas em cuidar de sua vida, pois estará desalugada dos assuntos dos pais. Por exemplo: uma única consideração do rei de Corinto, a de contar para Édipo sua verdadeira origem, desarmaria toda a encrenca em que Édipo se meteu (ou foi metido). Uma simples postura, a de que os filhos não nos pertencem, que eles terão suas próprias vidas e que nossa função é ajudá-los para vivê-las, é suficiente para que seus complexos de Édipo sejam enormemente diminuídos.

Resumindo: o complexo de Édipo dos filhos está nas mãos dos pais.

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