Natureza Humana: Palavra e Pensamento

Meio da madrugada. Minha filha, bebê, choraminga pela babá-eletrônica. Acordou com fome. Meu ritual de todas as noites, pego a mamadeira e vou com ela até a porta de seu quarto. No que giro a maçaneta, ela para de choramingar. Fiquei pasmo, pois ali havia se dado nossa primeira comunicação por símbolos. Seu choro era um chamado, o ruído da maçaneta, uma resposta. Ela não precisava continuar chamando, por isto parou. Símbolo é algo que serve de referência para outras coisas ou idéias.  Leia Mais


Natureza Humana: Tiro os outros por mim

 “Você vai deixar os arrozinhos e feijõezinhos aí no prato, separados dos irmãos deles que já estão na sua barriga?”, disse a minha babá. Chantageado pela culpa, raspei o prato. Naquela época os adultos faziam seu prato e você era obrigado a limpá-lo. Será que isto tem alguma relação com meu combate à obesidade pelo resto da vida? O que sei é que nenhuma dúvida tive sobre a antropomorfização da comida. (Sinto pelo nome, mas significa atribuir humanidade a coisas e animais). Eu tirava o arroz e feijão por mim. Se fosse separado de meus seis irmãos, ficaria muito triste, logo…

Achamos perfeitamente natural que os personagens da Disney ajam como humanos. Nunca nos ocorre que Mickey é um rato, Pateta um cachorro, Clarabela uma vaca, Horácio um jumento, Donald um pato (vocês já viram o Donald nu? Ele só usa um colete, mas quando o tira para o banho, cobre com as “mãos” as partes baixas por pudor!). O próprio Pluto, apesar de ser o mais bicho de todos, exibe uma bela dentadura humana, sem um único “canino”).  Leia Mais


Natureza Humana: A Aldeia

O ex-presidente Janio Quadros foi abordado pela repórter:

“— E aí, Janio, o que há de novo?”

“— Esta nossa intimidade. Intimidade, minha jovem, só traz aborrecimentos e filhos, e eu não quero nenhum dos dois com a senhorita”.

Ele zelava por um bem precioso que a moça tentava lhe tomar. A intimidade nos é algo tão caro que nem dada deve ser. No máximo emprestada, com direito a devolução. Tomada de nós, jamais!

Olhe-a, portanto, como sua poupança, sua casa. Valiosa, pode ser bem aplicada, mas corre riscos. Ela passou a existir com o surgimento do indivíduo. Não me fiz claro: não é a partir do nosso nascimento, mas da criação do indivíduo.  Leia Mais


Natureza Humana: Culpa e o PIB

Dentre as cinco resistências ao tratamento analítico descritas por Freud, a mais curiosa é a reação terapêutica negativa. Ele ficava pasmo de ver que, quando alguns pacientes tinham uma expressiva melhora em suas neuroses, como decorrência da análise, algo de muito errado lhes acontecia. Ora adoeciam, tinham acidentes, tomavam decisões catastróficas, mas, sobretudo, abandonavam o tratamento. “Pioram porque melhoram?” era a questão que intrigava o Professor.  Depois de muita pesquisa, ele concluiu que algo neles se ressentia com seu novo bem-estar. Tinham culpa de se sentir bem.  Leia Mais


Natureza Humana: Não Sei

Será que a origem e o desenvolvimento do indivíduo (ontogênese) repetem a origem e o desenvolvimento de sua espécie (filogênese)? Sei que esta teoria já foi desacreditada há tempos, mas às vezes ela faz sentido. Todos nós, quando crianças, precisávamos nos agarrar a fatores externos que nos dessem segurança. Real ou inventada, acreditávamos na proteção dos pais, das preces, de nossas crenças, das superstições, dos rituais, das explicações que arranjávamos para tapar os buracos de nossos conhecimentos, e desprezo total para escapar do que não nos era alcançável, como uma língua estrangeira, por exemplo. Mesmo aí, lembro-me de inventar uma algaravia de sons parecidos para poder cantar músicas em inglês.

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Natureza Humana: É Natural…

O pensamento do filósofo Baruch (abençoado, em hebraico = Benedito = Bento) Spinoza sobre a liberdade poderia ser definido assim: “ela consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam”. Repare que ele não reconhecia a liberdade como coisa de existência verdadeira, mas poderíamos ampliá-la um pouco se aliviássemos, ao conhecê-los, os puxões dos cordéis. Outro grande, Schopenhauer (bem lembrado por um leitor), disse que podemos até ter vontades, mas não podemos escolher nossos desejos. Tenho escrito sobre a natureza humana para que saibamos como somos manipulados. Leia Mais


Natureza Humana: Livre Arbítrio

Sabe aquele ouro que o Brasil perdeu para a Rússia no vôlei? Fui eu o culpado. Explico: nunca assisto a esportes, mas meu filho queria ver o jogo, e eu lhe fiz companhia. Logo comecei a torcer, e tudo saía ao contrário das minhas mandingas. Resultado foi o que se viu. Nunca mais. Não quero o peso do fracasso brasileiro. Leia Mais


Natureza Humana: Sentimento de Culpa

Que nós nascemos com a capacidade de sentir culpa, é certo. Até cães vêm com este programa. É velha a expressão “cara de cachorro que quebrou a panela”. De fato, depois de um óbvio “malfeito”, lá vem ele com a cabeça baixa e as orelhas murchas a tentar nos lamber, a nos pedir perdão. O sentimento de culpa mistura vergonha com arrependimento, e supõe uma certa integridade moral de quem o tem. É sabido que os psicopatas passam-lhe ao largo, apesar de a ele não serem indiferentes. Ao contrário, desafiam-no. Leia Mais


Natureza Humana: O Complexo de Édipo

“Mãe, eu não quero ir à escola. Os alunos são chatos, os professores são chatos, tudo é chato”. “Meu filho, você já tem cinquenta e três anos, é diretor dessa escola, você TEM QUE IR À ESCOLA!”

De fato, quando se pensa em complexo de Édipo, logo se imagina uma cena como esta, ou pior, filhos erotizados com as mães, ou filhas com os pais (que essa história de complexo de Electra foi o Jung que inventou, e Freud se irritava, pois achava que não havia porque separá-los, já que tinham o mesmo princípio), vendo o pai (ou a mãe) como rival, possessivos com seus amados.  Leia Mais


Natureza Humana: Instintos de Vida e Morte

Freud falou que todos nós carregamos instintos opostos: um de vida (que ele chamou de Eros), e um de morte (que ele não chamou de Tanatos). Este conceito é dos mais mal compreendidos em psicanálise, geralmente ligado a um monstro que aqui e ali surge no ser humano fazendo que ele se torne genocida, causador de guerras, assassino serial, político predador e coisas do gênero, pois enquanto o instinto de vida é bem acolhido como parte da nossa “boa natureza estragada pela cultura” (vide o bom selvagem de Russeau), o de morte é olhado como um inimigo oculto dentro de nós, esperando sua oportunidade para cravar suas garras. Deste mal entendido vêm crendices como a de que pessoas são capazes de “fazer” um câncer, já que são tão amargas. O que é uma crueldade adicional para os cancerosos, pois além da doença eles carregam a culpa de tê-la. Sem mencionar otimistas incuráveis que também desenvolvem câncer. Leia Mais

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