Diversos: Novo livro “A Natureza Humana Existe”


Natureza Humana: Pais

“Quem são os pais verdadeiros dele?” Se a pergunta se aplica a seu cão, a resposta vem sem hesitar: “Somos nós!” 

Mas nossa espécie tem a possibilidade de investimento parental genético (ou seja, a possibilidade de que os geradores do filhote invistam em sua criação, coisa que mal acontece com os cães). Ao mesmo tempo, para humanos, é vital a criação por longo tempo, já que somos os animais que nascem mais despreparados para enfrentar a vida com autonomia.

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Natureza Humana: Momento Perigoso

 ”Hell hath no fury like a woman scorned” (“O inferno não contém fúria igual à de uma mulher rejeitada”), a citação de William Congreve, erradamente atribuída a Shakespeare, fala de um dos momentos mais perigosos da convivência humana: a separação, o desprezo sofrido pelos apaixonados, abandonados pelo objeto de sua devoção.  Leia Mais


Natureza Humana: Um ET na TV

Fernando Lobo, pai do Edu, comandava um talk-show na falecida TV Continental do Rio, na década de 1960, quando um convidado lhe declarou, “Bem, Fernando, não sei se posso responder sua pergunta aqui na TV”. Resposta de Lobo: “Pode sim, ninguém vê esse programa, mesmo!” Leia Mais


Natureza Humana: Fidalguia

Lord Mountbatten foi, certa vez, eleito como o homem mais elegante do mundo. Perguntado o que achava, respondeu que ele não devia ser tão elegante assim, já que o haviam notado.

Pode-se alegar que a fidalguia é qualidade da nobreza e da aristocracia, e eu concordo, apenas com um reparo: que a nobreza (a qualidade de ser nobre) e a aristocracia (o comando dos melhores) não são privilégio daqueles que o senso comum reconhece, com pompas e circunstâncias. Fidalgo, em sua origem, significa “filho de algo”. De fato, é um prêmio que a loteria genética nos dá, ela que produz tanta vilania nos concede aqui e ali um refresco, a nos lembrar que ética e estética são uma coisa só, e que é belo ser do bem. Leia Mais


Natureza Humana: Angústias

Angústia é medo. A origem grega da palavra significa “aperto”, coisa que nos acontece no peito (e em outras partes) quando o medo bate. Em alemão a coisa é mais simples: “angst” significa medo, e mais nada.  Leia Mais


Entrevistas: Entrevista: “A Cura Gay”

Entrevista para a revista mensal ‘Psique – Ciência e vida’ de agosto de 2013

O deputado João Campos (PSDB-GO), autor do projeto de decreto legislativo, chamado de “cura gay”, afirmou que a finalidade da iniciativa era “regatar a premissa inicial do artigo 5º da Constituição, de que todos são iguais perante a lei. E a resolução nº 1 do Conselho Federal de Psicologia ofende esse princípio, na medida em que discrimina o homossexual e não dá o mesmo tratamento ao heterossexual”. Como você avalia essa interpretação?

Não faço a mais pálida idéia de questões jurídico-constitucionais, pois não são assuntos da minha alçada. Mas é da minha competência dizer o que significa ‘cura gay’. Quando se fala na cura do câncer, se pensa na maneira de extirpar uma doença. Pois é nesta acepção do verbo curar que ele é usado na expressão ‘cura gay’: extirpar de uma pessoa a “doença” de ter o desejo sexual orientado para o mesmo sexo. Isso agride o conhecimento científico, que rege a Psicologia e a Medicina, desde que se convencionou internacionalmente (e  a Organização Mundial de Saúde assim o reconhece) que a orientação homossexual não constitui uma doença. Processos semelhantes já ocorreram ao longo do tempo. O mais recente e notório foi quando se passou a aceitar que 10% da população nascem canhotos, nascem e nascerão, como manifestação da genética,sem que isso seja mais considerado um vício comportamental a ser extirpado mediante castigos ou a imobilização da mão esquerda.

Ao mesmo tempo, se a orientação homossexual for vista por religiões como uma forma de possessão demoníaca, e seus devotos quiserem se submeter a exorcismos por essas religiões oferecidos, já não é problema nosso. É uma questão de fé, e as questões de fé fogem completamente ao debate científico. Nelas a Ciência não se mete, e não deve se meter. Portanto, não será procedimento feito por quem se comprometeu com as referências científicas que balizam a prática médica ou psicológica. Não será feito num consultório, por um psicólogo ou por um médico, e, sim, por um religioso, onde ele achar melhor praticá-lo.

Em suas análises sobre o tema, você cita a classificação das orientações sexuais criada por Alfred Kinsey, com tipos bem definidos: heterossexual exclusivo; hétero ocasionalmente homossexual; hétero frequentemente homo; igualmente hétero e homo (bissexual); homo frequentemente hétero; homo ocasionalmente hétero e homossexual exclusivo. Em sua experiência profissional, concorda com essa escala?

Vamos convencionar que a lista descreve tipos de zero a seis de orientações sexuais. Mais adiante, quando citar o exclusivamente homossexual, falarei do tipo 6, assim como o exclusivamente heterossexual será chamado de tipo zero, e assim por diante.

Mas, respondendo: se aplicada a homens, sim, concordo, e o próprio Kinsey afirmava que, com as mulheres, os tipos mais nítidos eram apenas o exclusivamente hétero (tipo zero) e o exclusivamente homo (tipo 6). Que elas não se fixavam em nenhum dos tipos intermediários, que eram capazes de passear por vários. Na minha experiência, seja clínica, seja social, nunca encontrei um homem bissexual perfeito, o tipo 3 de Kinsey. Vale dizer, um homem cujos olhos se atraiam com tesão indiferentemente para ambos os sexos, já que, entre homens, essa é a melhor maneira de se identificar a orientação sexual.

O despertar do desejo erótico funciona de forma diferente nos homens e nas mulheres. Um homem olha seu objeto de desejo com excitação sexual. É por isso que eles são os principais fregueses da pornografia, sejam gays, sejam héteros. Uma mulher olhará para um homem e o achará “interessante”. Se o homem interessante olhar para ela com tesão, e ela se sentir desejada por ele, aí então a excitação sexual nela se desperta. Apenas 10% das mulheres têm esse tesão visual que os homens têm (e serão apreciadoras de pornografia, portanto), pois são o grupo de maior nível sanguíneo de testosterona.

Certa vez, numa palestra com mais de cem mulheres, enunciei essa tese. Algumas reclamaram, que elas também tinham tesão visual. Propus um teste: “Imaginem duas fotos, a primeira com um jovem bem apessoado completamente nu sobre fundo infinito. A segunda com um homem na casa dos 40, têmporas grisalhas, terno Armani, saindo do banco de trás de uma Mercedes com motorista. Quem prefere o Armani levante a mão (exatas 90% levantaram). O jovem nu? (10%).

Na compreensão freudiana, a sexualidade é uma força cujo impulso se estrutura para além ou a despeito de classificações convencionais, como a distinção entre hétero, homoe bissexualidade. O que acha?

De fato, a beleza conceitual freudiana é que ele descreve Eros como o impulso de vida, de construção, o motor de qualquer de nossos atos, mesmo quando mesclado ao impulso de morte. Freud, que se horrorizara com a 1ª Guerra Mundial, vendo ali a expressão maior do impulso de morte, sempre soube que a motivação das guerras era a conquista, o poder, e como decorrência, o sexo. Sabia que Eros precisava romper barreiras, destruir, mesmo que fosse a singela unidade familiar (quando um estranho veio “seduzir” minha filha para se casar com ela, acabou destruindo o retrato da familinha feliz, para construir a deles), para se fazer valer.

Freud concebeu a enorme complexidade de nosso desejo, a ponto de preferir o termo “impulso” (em alemão, trieb, primo do drive inglês) para que ficasse diferente de “instinto”, apenas para frisar que o impulso era só o começo de um processo, que, ao longo da vida ganharia colorações próprias e únicas vindas da cultura até formar essa imensidade oceânica que abrange consciência e inconsciente, o desejo.

Se ele se manifestava de forma hétero ou homo, saudável ou patológica (pois, seja hétero, seja homo, a manifestação do desejo pode ser saudável ou patológica), bem, isso era outro assunto a ser tratado em outros capítulos, na verdade em outros livros.

O projeto causou muita polêmica na opinião pública, pois cura pressupõe que haja doença. Você acha que a orientação sexual do indivíduo, seja ela qual for, pode ser considerada uma doença? É possível traçar um paralelo entre o projeto e a escala Kinsey, citada anteriormente?

As doenças psíquicas, mesmo quando a genética pesa mais, têm sempre uma vasta contribuição da forma que a pessoa é recebida e criada pelo mundo (pais, biológicos ou não, orfanatos, escolas, governos, ambientes, o conjunto daquilo que chamamos “cultura”, o meio em que a criança é cultivada). É só pensar na escola e na maneira cruel como as pequenas diferenças são tratadas (o bullying sempre tem como alvo o diferente), e lembrar dos apelidos que recebem (Quatro-olhos, Rolha de poço, Baleia, Cabeção, Pelé, CDF, Tampinha, e finalmente Mariquinhas ou “Mulerzinha”) para entender que o menino efeminado terá um mundo hostil pela frente. Que costuma começar em casa, quando o pai, decepcionado por não ter um filho viril, muscular, esportista, lutador, passa a discriminar e a comparar com os irmãos aquele diferente. Pediram-me para traçar um perfil de um personagem de novela que é a “bicha má” estereotipada, que se ressente de o pai preferir sempre a irmã, por mais que ele se esforce por agradá-lo. E eu pude imaginar que essa discriminação vinha da infância.

Tudo isso para dizer que, quem pensa que ser gay é uma “opção”, desconsidera a vida dura que a imensa maioria deles tem. Que se lhes houvesse sido dada a escolha, certamente não seria essa vida que levariam. Que o mundo lhes é hostil desde pequenos, e que essa hostilidade não sumirá com a idade. Resulta que, como as doenças psíquicas são mecanismos de defesa exagerados, qualquer um que se viu na contingência de ter muito que se defender do mundo, tenderá a ter mais doenças psíquicas.

Mas não significa que sua condição de base seja em si uma doença. Negros, no sul dos Estados Unidos. Judeus, na Alemanha nazista. Soldados em guerra (preocupam os índices de suicídio entre soldados norte-americanos atualmente no exterior). Todos são e foram grupos nos quais a depressão e a submissão (ambos são mecanismos de defesa) fizeram a festa.

No entanto, nem nos passa pela cabeça que ser negro, ser judeu ou ser soldado possa ser considerado como doença psíquica.

Mas sua pergunta contém uma complexidade a ser contemplada: os tipos intermediários (do tipo 1 ao tipo 5) podem ter uma margem de “conversão”. Se um tipo 1 decide, durante um período de sua vida, ter experiências homossexuais, pode bem resolver que já deu por visto esta fase, e que não quer mais encrencas com a sociedade, deixando o eventual desejo homo na prateleira. Assim também um tipo 4 pode passar a vida casado e cuidando da família, mas depois da crise da meia-idade (quando se contempla que você passou metade da sua vida fazendo o que esperavam que fizesse, e resolve dizer, “de agora em diante o resto é meu”) querer se dedicar ao desejo complicado que esperava sua vez.

Imaginar que um tipo zero ou um tipo 6 possam passar por essa “conversão”, quando o desejo oposto ao deles não lhes é nem um assunto, é contrariar Schopenhauer, que dizia que um homem pode fazer o que quiser, mas não pode escolher o que vai desejar. De fato, nosso “livre arbítrio” não é livre ao ponto de que eu acorde amanhã e diga, “hoje vou me apaixonar por um rinoceronte”.

Em função dessa análise, você sepulta definitivamente a antiga afirmação de que a homossexualidade é uma opção?

Pergunto aqui: quem escolheria uma vida de deboches e perseguições, sofrimentos e desilusões? Quem, por gosto, se confinaria em guetos, com uma mobilidade social reduzida? Se não fosse empurrado e coagido a tal por uma força maior do que ela, pessoal alguma faria tal idiotice. É como “a bolsa ou a vida” dos assaltantes, que, assim como qualquer coação, não oferece propriamente uma escolha. É como a hipocrisia de chamar os pagadores de impostos de “contribuintes”. Ora, contribuição é um ato de vontade, e eu pago muito imposto, e muito contra a vontade, pelo mau uso que fazem do nosso dinheiro.

Considero a história da “cura gay” como um sintoma de doença política que acontece quando as correlações de poderes dentro da sociedade (significado de “política”) se pervertem numa relação de domínio-submissão, que é uma das faces do sadomasoquismo.

Em termos psicológicos, como funcionam a cabeça das pessoas que classificam a homossexualidade como doença? É possível dizer que esse conceito é apenas conseqüência das influências religiosas, ou há outros elementos que podem ser considerados?

Como funcionava a cabeça dos que pensavam que os negros eram sub-humanos, castigados por Javé por serem descendentes do filho de Noé, que debochou do pai quando o viu bêbado? E dos que criam na tese de que nascer canhoto era como nascer doente (é engraçada a sinonímia de canhoto, que abrange “o demônio” e o sinistro, entre outras pérolas)?

Se você considerar que o senso comum é a mais poderosa das religiões informais, eu diria que si, que é conseqüência de influências religiosas, mas que é o eterno costume humano de enquadrar a diferença em alguma coisa que se possa colocar num escaninho maligno, e não pensar mais nela.

No entanto, além dos religiosos, muitos psicanalistas e psicoterapeutas, até os anos 1990, ofereciam reversão para o tratamento da homossexualidade e eram convencidos de que o desejo homoerótico era uma derivação do narcisismo, uma incapacidade de aceitar a diferença, por mais paradoxal que pareça. Eles não aceitavam que a homossexualidade pudesse, simplesmente, ser da natureza das pessoas. Um exemplo é que, somente em 1973, a American Psychiatric Association deixou de considerar a homossexualidade como doença. O que acha disso?

Eu deploro essa verdade que você citou dentro da pergunta. Considero-a como um sintoma do corporativismo arrogante da Psicanálise, de se julgar uma modalidade de conhecimento superior a outras e, por isso, imune a suas críticas (o epistemólogo Karl Popper – por quem tenho grande admiração – trabalhou com Adler, discípulo de Freud, e ficava horrorizado com a leviandade que ele tinha ao enunciar as “verdades” psicanalíticas como irrefutáveis). Ora, justamente uma pré-condição popperiana para se avaliar um postulado pelo método científico, era de que ele fosse vulnerável às refutações que poderiam surgir ao longo do tempo. Ao ponto que, em ciência se diz que a verdade é a tese que ainda não foi refutada.

Certa vez uma amiga me disse que a dança contemporânea era um jogo incestuoso, que só interessava aos bailarinos e suas famílias, que acabavam por ser sua única platéia. E ela era bailarina. Acredito que a mesma observação pode se aplicar às corporações psicanalíticas. Infelizmente, esse mal veio do próprio gênio que descreveu a Psicanálise como método de investigação da mente, pois se apressou a criar uma instituição que “protegesse” suas idéias de possíveis desvirtuamentos, e o fez com mão de ferro.

Para se ter idéia de quão isolada e prepotente se tornou a psicanálise nos primeiros 80 anos do século XX, basta dizer que nos anos 70 o psicanalista Jurandir Freire Costa “ousou” escrever uma tese, em que defendia que, quando a psicanálise fosse aplicada a pessoas de classe média baixa e pobres, o psicanalista deveria adaptar sua linguagem para que o paciente compreendesse. Ora, isso supõe que, da classe média para cima, o paciente estava tão “aculturado” pela psicanálise que o psicanalista não precisava se dar ao trabalho de se fazer entender. O paciente que se achasse burro mesmo, que se esforçasse para se adaptar àquele ser misterioso e superior, que, entre silêncios intermináveis, emitia frases enigmáticas (minha encrenca maior com Lacan passa por aí) com supostos significados profundos.

Qualquer antropólogo que tomasse conhecimento de tal tese, correria o risco de morrer de rir. Porque eles sempre se esforçaram por se adaptar à linguagem das culturas estudadas. Também, se não o fizessem, corriam outro risco: o de levar com uma borduna no meio do crânio.

Este risco os psicanalistas só foram sentir nos anos 1990, quando seus consultórios se esvaziaram em favor dos consultórios psiquiátricos. Mas eles, conservando a ignorância arrogante (a pior forma de ignorância), diziam que a psicanálise não visava à cura e sim a uma elevada compreensão da psique, e que eles não acreditavam nessas “pílulas da felicidade” (a era iniciada com o Prozac).

Eu mesmo, já médico clínico havia cinco anos, quando me interessei em migrar para a psicanálise, encontrei derivados da instituição criada por Freud (que havia se transformado na International Psychoanalytic Association, com sede em Londres), que impunham ao candidato uma análise com um “didata” com poder de veto sobre as pretensões profissionais dos candidatos seu pacientes.

Ora, isso me parecia um insulto à psicanálise: pedir que o paciente se expressasse sem censura, tendo a espada de Dâmocles da expulsão pendente sobre sua cabeça. Isso daria um tal medo ao candidato, que ele só poderia se comportar de maneira “boazinha” para com seu analista didata e sua instituição. Refutação zero igual a ciência zero, para o popperiano que eu já era.

Por isso, e me valendo da autoridade que possuía, contruí minha formação da mesma forma que Freud fez a dele: de forma autônoma. Queria, como continuo querendo, que a psicanálise conversasse, longe de seu pedestal de barro, com a neurociência, com a psicologia evolucionista (da qual sou fã – viva Steven Pinker e os neodarwinistas), com a psicologia cognitiva (que me parece afinada com a freudiana, numa linguagem mais simples). Sobretudo queria que a psicanálise, mesmo não podendo ser uma ciência, já que seus achados não podem ser testados em laboratório, apreciasse o espírito científico que teve Freud, e que gostasse de epistemologia, para trilhar o caminho sem fim de busca da verdade.

Ouço que as grandes Sociedades andam mais humildes hoje em dia, mais por pressão mercadológica, na hora em que começaram a ver seus “crentes” esvaziarem os consultórios. E que pararam com a besteira de que o desejo homossexual era “apenas uma manifestação do narcisismo, daqueles que não conseguem lidar com a ausência de pênis numa mulher”, não por convicção, mas por pressão externa, como a da American Psychiatric Association.

O fato de o projeto ter sido aprovado na comissão de direitos humanos da Camara, presidida pelo deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP), pode influenciar a opinião pública a seguir um discurso conservador?

O fato de a Comissão de Direitos Humanos ser presidida por quem é mostra um sintoma de total descaso com a opinião pública, um escárnio de quem tem certeza de ter o povo no cabresto (ou tinha, como as recentes manifestações mostraram). No momento em que escrevo, o Congresso, pressionado pelas ruas (ó, belo Impulso de morte!) resolveu engavetar o projeto da “cura gay” com a mesma presteza que derrubou a PEC_37 que tolhia o Ministério Público em seu poder de investigação.

Então, eu diria que sim, que o escárnio do poder central pelos valores do povo influenciou,  psicologicamente, a opinião pública a seguir pelas ruas com seu discurso conservador (que conserva, que preserva) do princípio de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, como reza o primeiro parágrafo da nossa Constituição.

Você já declarou em artigos que “ter algo de gay, tudo indica que venha de berço, hereditário ou da gestação”. Poderia explicar essas versões para o fato de uma pessoa ter uma orientação sexual diferente da convencional?

Preferiria dizer “diferente da majoritária”, já que estamos falando de uma minoria. E uma minoria histórica, já que os tipos 6 masculinos são entre 5 e 6% da população, e os tipos 6 femininos a metade disso (entre 2,5 e 3%). Esse número, estável pelos tempos e pelas culturas,é um dos indicadores (assim como os 10% de canhotos) de que estamos diante de uma origem genética. Outra coisa gritante é que meninos de dois anos, mesmo quando não criados entre tias e irmãs, se comportem como meninas na escolha de brinquedos (pode encher o quarto da criança de guerreiros e bolas de futebol, não adianta), nas brincadeiras de casinha, na pouca muscularidade, na prolixidade, no comportamento sedutor junto a homens adultos. Ninguém os ensinou a ser assim. Encha o quarto de um menino nascido hétero de babados e bonecas, criado por tias, e ele inventará um jeito de subir numa árvore, de correr atrás de uma bola.

Gêmeos idênticos têm um índice de orientação homossexual idêntica de mais de 60%, enquanto gêmeos fraternos (com DNA diferente) partilham a orientação homossexual em menos de 10%. Há quem veja nisso um argumento para contradizer a genética, pois crêem que identidade de genoma é identidade em tudo. Basta ver gêmeos idênticos para se perceber que eles não são tão idênticos assim. É incompreendido o fato de que o DNA de uma pessoa não é o mesmo que o projeto de uma linha de montagem, que produzirá peças sempre idênticas. É mais como uma receita de bolo: incidentes de preparação podem produzir, a partir da mesma receita, bolos diferentes.

É possível um homossexual se convencer que sua condição é uma doença e desejar ser “curado”?

Perfeitamente possível. A fé é a adesão e entrega amorosa ao absurdo e ao ilógico, venha ela de religiões formais, venha ela da mais forte das religiões informais e invisíveis, que é o senso comum. Entre os católicos, há o convencimento da transmutação de farinha de trigo assada e de suco de uva fermentado, por meio das palavras do sacerdote, em carne e sangue verdadeiros de Jesus Cristo. Entre os adeptos do senso comum (que nem se sabem assim), há a convicção de que as mães são sagradas, que seu amor pelos filhos é perfeito, e que qualquer pensamento contrário a isso é uma blasfêmia a ser punida. Seja pela religião formal, seja pelo senso comum, uma pessoa pode estar plenamente convencida de que os diferentes são doentes a serem curados. Ora, na falecida União Soviética, a dissidência política não era vista como motivo de internação em instituições psiquiátricas? Durante a história mundial, não foi discutida a qualidade de ser humano de indígenas, de negros e de judeus? Não se subestime a força de convencimento do senso comum, ela é enorme. Assim como é enorme a tendência humana de delegar a alguém, ou a algo mais a tarefa de pensar e de agir e, depois, segui-lo com fanatismo, como Hitler, como a Bíblia, como o Corão.

Muitas vezes, na ânsia de defender a liberdade de orientação sexual, alguns acabaram exaltando a homossexualidade, afirmando que o melhor é ser diferente. Na sua avaliação, essa interpretação é correta, ou o fato de assumir a homossexualidade é perturbador e sofrido para a maioria das pessoas?

Para se entender esse fenômeno é necessário conhecer o conceito de formação reativa: é um sentimento, ou uma postura, que se forma nas pessoas por horror ao sentimento ou à postura oposta. Por isto, filhos de tabagistas e alcoólatras podem se tornar militantes antivícios (tabagistas e alcoólatras que procuram se manter em abstinência costumam fazer o mesmo, tornando-se intolerantes e patrulheiros ao simples cheiro de cigarro, que dirá a alguém fumando em suas presenças). Filhos de caretas tornam-se hippies, filhos de hippies tornam-se caretas.

Homens perturbados com a possibilidade de portarem algo de gay tornam-se pitboys homofóbicos, militantes perseguidores, espancadores, assassinos de gays, ou propositores de “cura gay”, de tanto horror que têm dessa tentação que lhes mora no íntimo.

Imagina se um tipo zero será militante antigay, homofóbico, de um assunto que nem lhe passa pela cabeça. Todos olhamos com desconfiança o falso moralista que bate no peito a dizer, “Sou honesto!”, e pensamos que ele oculta uma vida de bandalheira.

É a formação reativa que leva alguém a afirmar que “Black is beaultiful”, quando todos sabemos que há brancos e negros horrorosos ou belos. É da formação reativa que vem o “orgulho gay”. Ele tende a ser filho direto da vergonha de ser gay. Como não há vergonha de ser hétero, não há passeatas de orgulho hétero. Os adeptos do orgulho gay seguem, sem saber, um preceito de Lênin, que dizia que uma árvore nascida com grave inclinação, para ser posta a prumo, deveria ser amarrada por um longo período na direção oposta, e só depois desamarrada.

“Sair do armário” sempre encontra percalços. Talvez menores para os tipos 6, que não têm alternativa (e todos já sabiam, mesmo). Mas o “politicamente correto”, essa praga da vigilância e patrulhamento que reinventou o pecado de pensamento muito depois de a Igreja aposentá-lo, coage a tipos entre 2 e 5 a “sair do armário”, como se eles, em dívida para com seus “pares”, devessem operar um reducionismo a suas complexidades e afirmar de peito aberto, “Sou gay!”, e passar a combater suas “recaídas” hétero.

É uma tendência religiosa de imposição dos dogmas das esquerdas, em sua eterna tentativa de busca de poder através de instalar o pensamento homogêneo, por querê-lo hegemônico.

Você já declarou que “todos os casos de ‘cura’ psicanalítica do desejo gay que conheci, e não foram poucos, ‘recairam’ tempos depois”. Pode explicar quais foram esses casos e como se deram essas chamadas ‘recaidas’?

Os pobres coitados dos pacientes de tipos Kinsey intermediários só saiam de suas analises depois que “convenciam” o doutor de que ele havia operado o milagre, e que agora eles, livres da moléstia, eram hétero desde criancinhas. Saída a pistola de suas têmporas, em breve começavam a lidar com o desejo proibido e as ‘recaídas’ (de início, por pecado de pensamento, seguido de masturbações com devaneios ‘doentes’ e, logo, vias de fato clandestinas) aconteciam. Alguns desistiam de vez da psicanálise, outros achavam por bem “reforçarem-se” com novos, caríssimos – cinco sessões semanais para combater o mal recidivante – em intermináveis processos, verdadeiros castigos de Sísifo, a cada vez que a pedra rolava ladeira abaixo.

O papel da psicanálise é importante para ajudar homossexuais com dificuldades de aceitação de sua própria orientação sexual e, também, com problemas psicológicos, como depressão, derivado do preconceito e das pressões sociais?

Se a psicanálise contemplar o que Kinsey descreveu e ajudar o paciente a avaliar o peso que o desejo homoerótico tem em sua vida; se a psicanálise souber distinguir as perturbações edípicas e as neuroses ou/e perversões delas decorrentes (e não decorrentes da orientação sexual em si), e tratarem do paciente sem querer enquadrá-lo num ideal absurdo de “normalidade psíquica”; se contemplar suas inserções únicas na cultura, aí, sim, ela terá sido de imensa ajuda à inteireza do indivíduo que a procurou.

Você acredita que se deve promover uma reflexão teórica e psicológica sobre a homossexualidade no registro da análise intelectual e não ficar nas habituais discussões polêmicas, que são, às vezes, colocadas de maneira irracional?

Tanto acredito que me dediquei (e não foi pouco) a responder a esta entrevista, que não é outra coisa senão o que sua pergunta propõe. E, de resto, discussões “para vencer”, com atritos que geram mais calor do que luz, me desgostam sobremaneira. Se estou num meio em que as argumentações usam da lógica e da razão para fins de convencer (que é vencer junto, sem querer humilhar ninguém), acho que tenho uma contribuição a fazer. Nos outros casos, simplesmente me levanto e vou embora cuidar da minha vida, e estar com interlocutores, em vez de locutores surdos e fanáticos.

 


Natureza Humana: Crises da Vida

O parto, em nossa espécie, apesar de parecer apenas o momento do nascimento, acontece sem parar ao longo de nossas vidas. É preciso entender que ele significa “apartar” a criança do ventre materno, apresentá-la ao mundo externo onde vai passar a viver pelo resto de seus dias. Pode ser que, para a galinha australiana maleefowl, (vale um Google), que já nasce pronta numa chocadeira de areia, não toma conhecimento da mãe, dá uma corridinha e sai voando, enfrentar o mundo externo seja fácil.  Leia Mais


Natureza Humana: A maior das religiões

Ter uma religião é acreditar profundamente em Verdades indiscutíveis e pautar seu comportamento e seu pensamento por essas Verdades. Algumas religiões formais, como o cristianismo, por exemplo, enunciam essas verdades, esses dogmas, de maneira clara, como o da ressurreição ao terceiro dia, ou a presença real do corpo e sangue de Cristo no pão e no vinho consagrados. Os dogmas podem ser contrários à razão, mas questioná-los resulta numa punição grave chamada de excomunhão (expulsão da comunidade).

A maior de todas as religiões, no entanto, não fala abertamente de seus dogmas, mesmo assim seus devotos acreditam neles de maneira muito mais profunda e inquestionável que o maior dos cristãos crê nos seus.

Essa religião é chamada de “senso-comum”.

É fascinante como a catequese do senso-comum é realizada, como é eficiente e como passa despercebida. Não há templos, não há papas, não há hierarquia institucionalizada, no entanto seus cardeais, bispos e sacerdotes existem sem que assim se denominem, e a autoridade de suas palavras será aceita porque é… do senso-comum. Seus catequistas são todos os que repetem sem cessar suas “verdades”, ou seja, todos nós. É a religião menos formalizada, a mais boca-a-boca de todas, a menos notável e a mais poderosa, de longe.

Somos treinados nela desde a mais tenra infância. Nossa ingenuidade infantil aceita seus dogmas grosseiros, e quando eles caducam, são substituídos por outros mais aceitáveis, mas sempre precedidos de um “todo mundo sabe que” oculto: “Tem que limpar o prato”. “Comer verdura faz ficar forte”. “Abrir guarda-chuva dentro de casa – ou sapatos sobre a cama etc.- a mãe morre”.

Tudo acontecia por culpa de alguém. Meu pai sempre era capaz de dizer quem lhe tinha passado o resfriado, mas meu exemplo mais notável era do pai de uma amiga que corria a casa gritando, “Quem queimou esta lâmpada?” Não havia perguntas sem respostas, tudo era explicável de um jeito ou de outro. Nunca ouvi um “Não sei, mas vou procurar saber”. Os trovões e a chuva eram dia de faxina no céu, com São Pedro arrastando os móveis. Os espelhos e os ferros de engomar atraíam os raios, falar certas palavras dava azar (desculpe, má sorte) porque atraía. Cultivava-se assim, ao jeito do senso-comum, a crença no dogma que “nada acontece por acaso, e que a culpa é, provavelmente, sua”. O menino que levantou a mão contra os pais, a mão secou, ficou preta e caiu (a vingança divina contra a blasfêmia de desafiar a sacralidade dos pais).

Meu dogma predileto do senso-comum é “mãe é mãe”. Fantástico, diz tudo, não carece de explicação, tudo é subentendido, uma pequena ponta de iceberg indicando uma gigantesca massa de crendices submersas, que você “lhe deve a vida”, que ela “desdobrou fibra por fibra o coração”, que ela “abdicou de ter uma vida própria para que você tivesse a sua”, que com ela você tem uma “dívida eterna”, sua “santa mãezinha”, imaculada, assexuada, nunca fez aquelas sem-vergonhices com ninguém, muito menos seu pai, “a psicanálise é que quer por toda a culpa nas mães, e tornar os filhos em egoístas”.

Pelo senso comum, não importa que megera seja a mãe, é obrigatório amá-la porque… mãe é mãe.

Não à toa mulheres caem em depressão ao parir o primeiro filho: elas deixaram de ser a menina-mulher que eram e viraram um monstro mitológico que elas sabem não estar à altura: MÃE.

 

São mais que axiomas, dogmas que não se discutem e que são reforçados por alusões (quando mais eficientes) ou tijucanamente explícitos, quando podem ser discutidos.

Um cliente desenhava aos seis anos, quando seu pai tijucano passou e lhe disse: “Para de desenhar, menino, que isso é coisa de viado!”

Se a mesma cena se passasse no Leblon, o pai passaria, olharia, suspiraria e balançaria a cabeça em silêncio. É a alusão, muito mais poderosa que a palavra, pois abre infinitas interpretações. A criança sabe que está fazendo algo de errado, mas não sabe bem o que é. A mensagem mais importante, no entanto, foi passada: ela deve sentir culpa, pois, diz o senso comum, só os de mau-caráter não sentem culpa.

O senso comum é diferente do bom-senso, apesar de os filósofos porem os dois no mesmo pacote. Bom-senso é o programa de lógica primitivo que vem embutido nos programas de base com que nascemos, usando-o, bebês de 6 meses sabem contar, como mostra a experiência feita pelos psicólogos cognitivos. Num ambiente escuro, à frente do bebê abre-se a cortina de um pequeno palco onde há dois bonecos do Mickey. De fora do palco surge uma mão que retira um dos bonecos, e a cortina fecha. Em segundos, ela se reabre e… lá estão dois bonecos do Mickey. O bebê fixa os olhos por mais de quatro segundos (recorde, para um bebê, indício de que algo o intrigou, não deveria haver só um?).

Por causa do bom-senso, aos 14 anos eu já era agnóstico (mais correto seria dizer que eu era um “católico à brasileira”) quando os jesuítas do Santo Inácio (Pe. João Ruffier s.j.) me apresentaram à primeira lógica formal a que tive contato: a apologética de São Tomás de Aquino. Fiquei tão deslumbrado que me tornei católico, não mais o infantil dos mitos toscos, mas à vera.

Outras lógicas me levaram de vez ao agnosticismo (a incapacidade de afirmar o conhecimento de Deus), mas o mesmo aconteceu com a psicanálise: por ser médico, não me submeti a nenhuma igreja ou confissão psicanalítica (na minha época, havia a kleiniana e começava a lacaniana), o bom-senso e a lógica com que Freud apresentava seus argumentos (e eu entendia tudo quando lia!) me atraíram, mais tarde bom-senso e lógica me fizeram acrescentar ao conhecimento freudiano a neurociência, a psicologia cognitiva e o estudo da natureza humana pelos neodarwinistas e a psicologia evolucionista.

Eis me aqui, propagador dos direitos do senso incomum.


Natureza Humana: Eichmann e os patetas

Li uma coluna do psicanalista Contardo Calligaris sobre o desejo humano de abdicar de sua capacidade de pensamento, delegando-a para alguém/algo mais elevado. O texto me alcança justamente quando estou enfronhado na leitura do livro “Eichmann em Jerusalém”, de Hannah Arendt. Leia Mais

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