Natureza Humana: Espírito de Corpo

“Meu filho, seu pai – na maior parte do tempo – era um babaca”, disse a mãe do meu genro escocês durante o funeral do pai dele. “Nenhum outro consolo foi maior do que este, naquele dia”, disse-me o genro. Pois dava conta do sentimento proibido de alívio que estava sentindo. “Como assim? Alívio pela morte do pai? Pela perda daquele a quem ele devia a vida? Que horror!”, gritou o senso-comum.

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Natureza Humana: As Regras da Casa

Traduzida de sua origem grega, a ECONOMIA fica assim muito mais fácil de entender. Ecologia é o estudo da casa, do ambiente. E anomia é um estado de caos, quando não há regras e vale tudo.

Economistas que passaram por meu consultório entendiam muito de ativos e passivos, custos fixos e variáveis, investimentos (com bons e maus retornos, arriscados ou seguros) e gastos, e de outros pertences dessa curiosa feijoada.  Leia Mais


Natureza Humana: Paliativos

Sofro (ou deveria dizer “desfruto”) de associações musicais. Do nada, me vi cantando “Nature boy”, de Éden Ahbez (“a maior coisa que você pode aprender é amar e ser amado de volta”). Em seguida apareceu “quem eu quero não me quer, quem me quer mandei embora”, de Jorge Silva. Nessas horas me pergunto o que me contam as associações.

No caso, não foi difícil interpretá-las. É evidente que o maior sonho de todos nós é amar alguém, e por esse alguém ser amado. Ou, de forma precisa, ser a prioridade erótico-afetiva de alguém que é nossa prioridade erótico-afetiva. Leia Mais


Natureza Humana: Condenados à Vida

“Ele tem dezesseis anos, um câncer de boca horroroso, aberto, fedendo, mal anda por causa das metástases, mas o médico disse que faz a remoção da mandíbula e uma abertura no estômago para ele se alimentar. Eu queria que ele morresse logo, não tenho dinheiro, mas… e a culpa?”

Meu choque com a história é que se trata de um cão mais que centenário, sofrendo, alugando e atormentando a vida da minha paciente.  Leia Mais


Natureza Humana: Estado Laico?

As religiões se parecem com aquelas alças em que os passageiros de ônibus se dependuram por segurança. Uma canção religiosa diz isso mesmo, “segura na mão de deus e vai”. De fato, ter fé é um dom reconfortante para quem o recebe, e dispensa a cabeça de muita gente de grandes esforços de questionamento, de planejamento, e mesmo de pensamento. A “Força Maior” cuidará e proverá.  Leia Mais


Natureza Humana: Coitadismo

“Pai, ferida na perna leva tanto tempo assim para curar?”. “Não, o mendigo precisa reabri-la todos os dias, senão ela fecha. Ele precisa da ferida, já que vive dela.” 

Seu aspecto repugnante o transformava em alguém digno de pena, merecedor de esmola. Era um coitadinho dos anos 50.

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Natureza Humana: O que nos leva a crer

O filósofo John Searle perguntou certa vez a Michel Foucault por que seus escritos eram tão obscuros, se ele era tão compreensível na conversa. Foulcault respondeu que 25% de um texto precisavam ser de um nonsense incompreensível para que fossem levados a sério por filósofos franceses (de artigo publicado na e-skeptical).  Leia Mais


Natureza Humana: Acima de Mim

Superego, conceito de Freud, é tradução latina do alemão corrente (das überich; le surmoi) e tem uma história evolutiva fascinante. Qualquer mamífero, em graus variados de complexidade, tem um programa mental para detectar perigo e oportunidades. Nasce com eles, nasce conosco, faz parte dos programas herdados nos genes. Somos capazes de entrar em contato com suas origens primitivas se encontramos uma cobra no caminho. “Algo”, mais forte do que nós, aciona um pânico imediato. Leia Mais


Natureza Humana: Algo em Mim

“Nós somos como um cavaleiro montado: pensamos ter as rédeas nas mãos, mas às vezes o cavalo tem ideias próprias e nos leva a lugares surpreendentes”, disse Freud para mostrar a influência do Id (das es; le ça; o isso) sobre nós. É mais uma tradução latina do alemão corrente, e mesmo estudantes de psicologia não fazem ideia do que significa. Traduzi-lo para o inglês é fácil, pois corresponde ao pronome neutro da terceira pessoa do singular “it”, como usado em “it made me do it”. Em português ficaria aproximadamente assim: “não sei o que deu em mim, mas algo em mim fez com que eu fizesse essa besteira”.

Realmente, se trata de algo misterioso em nós “que sinto que é mais forte do que eu”, como habitualmente, em nossa linguagem do dia-a-dia reconhecemos esse motor poderoso e desconhecido dentro de nossas mentes, que nos faz querer muitas coisas, mas não nos deixa escolher o que querer. Um típico exemplo é nosso desejo sexual: não somos nós que decidimos a quem vamos desejar, é “algo em nós”.

Freud, quando fez um desenho representando nossa mente, deu ao “algo” um espaço gigantesco, várias vezes mais amplo do que o “eu” (uma pequena interface entre o “algo” e o mundo externo), e disse que lá morava o nosso inconsciente, aquilo que sabíamos existir, mas não fazíamos ideia do que continha.

Hoje temos uma ideia do que contém nosso inconsciente. A psicologia cognitiva e a evolucionista deduzem que moram lá programas (softwares) que vêm na genética, como medos ancestrais, a janela gramatical (entre os dois e onze anos permite que absorvamos a construção de frases “de ouvido”), os que nos direcionam ao prazer (carboidratos, gordura, beleza, sexo etc.), tendência para vícios, entre outros.

Moram também as fundações dos nossos aprendizados, para o bem (nossa língua de origem, que nunca mais saberemos como foi aprendida, p. ex.) e para o mal (as crenças infantis que atrapalham nossas vidas, desejos antigos que foram apagados – reprimidos – da memória por serem vistos como horríveis).

Para o bem, esse inconsciente se faz notar em cada coisa que fazemos com gosto, ou sem que nos perturbe.

Para o mal, o inconsciente reprimido se manifesta (sem que a gente o compreenda) em sonhos, atos falhos, lembranças remotas que parecem triviais, “bobagens” que nos encrencam “à toa” com pessoas ou lugares, e finalmente os sintomas de doenças psíquicas.

Mora também a modelagem sofisticada que nossos instintos animais e primitivos sofreram, porque somos capazes de aprender (somos animais culturais), resultando no chamado Desejo (com “D” maiúsculo), o grande motor singular das nossas vontades e ações.

Talvez você tenha passado pela intriga por não saber responder à pergunta feita com a canção “À flor da pele”, de Chico Buarque (O que será que me dá, Que me bole por dentro, Que brota à flor da pele, E que me sobe às faces e me faz corar, E que me salta aos olhos a me atraiçoar, Que dá dentro da gente e que não devia…).

Pois agora já sabe: é o Desejo, esse “algo dentro de você”.


Construção do Eu (2)

“Carlos, eu não sou três, nem trinta e três, sou trezentos e trinta e três”, escrevia Oswald de Andrade para seu amigo, o poeta Drummond (“Lições de amigo”, 1982). Ele se dava conta de como é difícil (e inútil) responder à pergunta “Quem sou eu?”. Tal unidade não existe. São meus desejos acionados a cada momento que tirarão um rosto desse poliedro multifacetadíssimo, que é como roda o programa Eu em nossa mente.

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