Natureza Humana: Lei de Pedro Aleixo

O programa inato mais espetacular com que a natureza nos dotou é o de aprendizado. Não há nada igual em complexidade e beleza.

É ele que forma aquilo que somos, o que chamamos nosso “Eu”. Através da Identificação. Ela começa com a simples imitação, foi assim que aprendemos a falar. Mas imitar alguém que admiramos, alguém que nos toca pela integridade, pela ética, pela postura, pela sabedoria, pelas virtudes cultivadas, nos leva a um processo de incorporação autoral: aquilo que absorvemos, e que se sintoniza com o que temos de melhor, deixa de ser do outro, torna-se fragmento, não de uma colcha de retalhos, mas da trama inconsútil que nos constitui. Disse Paulo Freire: quem aprende bem algo com alguém, desse algo, ou desse alguém, torna-se coautor. Leia Mais


Natureza Humana: Medo

Estresse é algo mal compreendido. Significa angústia prolongada. Angústia é um aperto no peito que o medo dá. Portanto, estresse é a condição de medo prolongado.

Temos medo de várias coisas: da ameaça física (violência humana, ataque animal etc.); do que nos leva a conter a raiva; da sifudência imaginada (ir à falência, ficar velho pobre e desamparado etc.); do que nos provoca culpa; e da ameaça de perda do amor de pessoas queridas. Leia Mais


Natureza Humana: O Quarto Poder

“Jornalismo é oposição. O resto é armazém de secos e molhados”, dizia Millôr. 

A imprensa costuma ser chamada de Quarto Poder pelo papel que tem na série de desconfianças que impedem a tirania. Para isso, a propaganda oficial não pode pesar muito em seu orçamento, senão ela vira balcão de vendas chapa-branca. Leia Mais


Natureza Humana: Desconfiança

Devemos nossa consciência de existir a ela, dizem os psicólogos evolucionistas. Houve uma vantagem evolutiva para nossos antepassados capazes de olhar para o outro com quem lidavam, e pensar: “Esse cara está com aquele jeito que eu faço quando quero passar a perna em alguém, devo desconfiar dele”. Essa atitude reflexiva era o embrião de consciência de si mesmo brotando. Foi assim que o homo sapiens (homem que sabe – e que desconfia) prosperou. Foi daí que nós viemos.

As cidades-estado já existiam por 8.000 anos quando, em Atenas, alguns se cansaram da forma de governo única até então, a Tirania, e disseram, “se somos nós que sustentamos o governante, com nossos impostos, por que temos que aceitar seu poder absoluto? O poder que ele tem vem de nós, o povo, logo, nós passaremos a aceitá-lo, ou rejeitá-lo se ele não se comportar bem”.

Assim nasceu a primeira experiência de democracia (o poder do povo), há 2.500 anos. Seu poder maior era expresso quando alguns desconfiavam que um governante estava querendo se tornar um tirano. Nesta hora, a assembléia de cidadãos se reunia e punha a desconfiança em votação. Se a maioria endossasse essa desconfiança, através de registrá-la dentro de uma ostra (a cédula de votação), o governante era expulso de Atenas, mandado para o “ostracismo”.

A democracia é, portanto, a forma de governo em que o pagador de imposto tem o direito de desconfiar do governante. Desconfiança é, de fato, nosso principal direito, pois a tentação de tirania é constante no ser humano. Se não for bem vigiada, ela toma conta.

Suponha que um cidadão ateniense fosse falar para todos em praça pública algo como: “Se Péricles continuar no comando do governo, nossa economia vai pro brejo!”. Suponha também que Péricles, ofendidíssimo, resolvesse perseguir aquele cidadão. Imediatamente surgiria a desconfiança de que Péricles estava com jeito de tirano, e a assembléia seria convocada para votar sua desconfiança nele. Mas Péricles não se metia a besta, pois sabia correr o risco de ostracismo. E se comandasse a economia ateniense de forma desastrosa, também corria risco de ostracismo por má gestão.

A desconfiança de tirania está presente nas democracias modernas, que buscam aperfeiçoamentos. Um deles foi a divisão dos poderes em três casas distintas: uma gerencia (Executivo), a segunda faz leis (Legislativo) e a terceira zela para que as leis não sejam abusivas (Judiciário).

Mas a principal função dos poderes separados sempre foi que um desconfiasse permanentemente do outro, por saber da tentação de tirania que todos temos. “Ei, o Executivo está subornando o Legislativo para tê-lo no bolso e dar vazão a seu desejo de tirania!” O judiciário é acionado para cortar as asinhas dos candidatos a tirano. O papel da desconfiança se cumpre.

Na Grécia só havia o voto de “recall”, recolher o dirigente que caíra em desconfiança. Nós não o temos, apesar de haver projetos dessa lei, mas (por que será?) não avançam.

Só podemos exercer o voto de desconfiança a cada quatro anos.

É agora, em outubro.


Entrevistas: Revista da Cultura: Formação do mal-educado

Entrevista concedida a Bruna Galvão para a Revista da Cultura em julho de 2014. Leia Mais


Natureza Humana: O Professor e a Madame

A negação é mecanismo de defesa essencial para que não enlouqueçamos (a morte só deve ser lembrada às vezes). Porém, como qualquer remédio, seu excesso é um veneno capaz de levar-nos ao desastre, ou à morte (quando se negam sintomas de uma doença e as providências não são tomadas). Leia Mais


Natureza Humana: Inveja da Vulva

Esse nome estranho é do equivalente feminino ao pênis: a genitália externa visível das mulheres, sobretudo na moda depilada. E invisível tanto no quadro “A origem do mundo” de Courbet, quanto na Claudia Ohana.  Leia Mais


Natureza Humana: Gol de Quem?

Ele está usando a mesma cueca desde que o seu time venceu, no primeiro jogo. O amigo é enviado várias vezes à cozinha para pegar uma cerveja na geladeira, pois o gol decisivo aconteceu justamente numa ocasião dessas. Promessas são feitas, pensamento positivo, todos juntos, vamos, de repente é aquela corrente pra frente, parece que todo o Brasil deu a mão… e o gol se fez. Leia Mais


Entrevistas: Entrevista para a Revista Regional em abril de 2014

O senhor, como poucos, sabe interpretar a alma da sociedade atual. Ela é tão diferente das outras de décadas atrás ou o conceito é o mesmo da busca incessante pela felicidade?

D- As pressões que nossa genética – que a natureza, portanto – exerce sobre nosso comportamento sempre incluíram, e sempre incluirão, a busca por prazer, que é a base do impulso de reprodução – sexual, portanto – . A cada circunstância cultural nova, essa busca pode ganhar aspectos periféricos diferentes. Vivemos uma era de abundância calórica – epidemia de obesidade – e estímulo ao prazer imediato. Tudo o que nossa natureza faz é tomar carona nas oportunidades. Na savana africana não havia essa moleza, mas havia também o imediatismo voltado à sobrevivência. Leia Mais


Natureza Humana: O Bicho Humano

Malleefowl é uma galinha australiana espantosa. Ela nasce de uma chocadeira cavada na areia pelo macho, que fica por perto tomando conta. Quando o pintinho aparece, nem o macho nem a fêmea tomam conhecimento dele, nem vice-versa. Em uma hora suas penas estão secas, ele dá uma corridinha e sai voando para nunca mais voltar. Esse animal notável nasceu com TODOS os softwares e conhecimentos que precisa para viver. Comer, fugir, se acasalar e fazer nova chocadeira. Ele nunca precisou de adultos que lhe ensinassem qualquer coisa. Nem de pai, nem de mãe.

O bicho humano é seu completo oposto. Nenhum mamífero nasce tão dependente de adultos como nós. Nascemos tão prematuros que precisamos de transporte ao seio para mamar, enquanto os outros se mexem até lá. Essa prematuridade faz com que, não apenas nosso convívio e aprendizado com os adultos seja longo (“Filho meu, eu só crio até os 48 anos, depois é com ele”, dizia Tom Jobim), mas também marcado pelo prolongamento das funções de mãe (uma continuação do ventre, dando calor, alimento e proteção), e uma função de pai (atender suas crescentes capacidades, partejar o filho de sua mãe-chocadeira em direção à autonomia).

No melhor dos mundos, as funções de mãe, o atendimento de suas necessidades, iriam diminuindo à medida que capacidades fossem aumentando, apoiadas pela função de pai (se o filho sabe andar, não precisa ser levado no colo; se sabe mastigar, não precisa de mamadeira etc.). O humano em criação (criança) em breve seria capaz de se prover de calor, alimento e proteção, e sair do ninho voando para o mundo.

Na prática as coisas não se passam assim. Imagine-se a complexidade de atender bem esse conjunto de necessidades e capacidades que variam a todo tempo pelo resto da vida, se é que os adultos responsáveis pela criação têm a habilidade de entender uma criatura que, de início, só se comunica pelo choro, ou interesse/paciência para mergulhar no investimento brutal que essa criação demanda. Resultado: gente grande muito, muito atrapalhada. Ora incapaz de autonomia, ora pedindo colo pelo resto da vida (as drogas são colos químicos). Adultos que voam tranqüilos e autônomos? Hum… A regra é a turbulência. Isso quando decolam.

Mas, se nos faltam softwares de Mallefowl, os nossos de APRENDIZADO são assombrosos. O mais precoce deles passa despercebido, mas será tão importante pelo resto da vida que a espécie deveria, em vez se chamar SAPIENS (“que sabe”), ter o nome de HOMO MERCATOR (“que negocia”).

Nossa primeira moeda de troca: o bebê sorri para o adulto que lhe agrada, e o adulto se derrete. Donde, ele aprende a agradar para ser atendido.

Todas as negociações ao longo da vida estão resumidas na primeira. Passamos o tempo todo negociando o que nos interessa em troca do que interessa ao outro, através do altruísmo recíproco, nosso melhor programa: eu faço bem em troca de receber bem.

Nossa espécie pode seguir criança em seu melhor sentido, apegada a brincar, ter curiosidade, e a aprender pelo resto da vida. Gosto disso.

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