Natureza Humana: Poder

O pai da Capitu (“Dom Casmurro”, Machado de Assis) é um exemplo do gênio do escritor. Personagem mais que secundário na trama, Machado fez dele, em poucas linhas, um exemplo daquilo que o mais reles dos poderes pode fazer com nossas cabeças. Funcionário público trabalhando numa repartição, foi alçado à chefia por um tempo. Seu superior se licenciou. O quanto bastou para passar o resto da vida se esquecendo do principal objetivo de seu trabalho (de servir ao público, de viver em função do público, é o significado perdido do termo “funcionário público”), e se deliciando com a memória de sua fugaz, imerecida e ridícula importância: não perdia ocasião de dizer, “Porque na minha interinidade…”, e lá vinha um pavoneamento. “Um pobre ator que se agita e se pavoneia no palco em sua hora, e então, nunca mais é ouvido” (“Macbeth”, Shakespeare). Leia Mais


Natureza Humana: Politicamente Correto

Chamar urubu de “meu louro” é uma espécie de selo da loucura, ficamos tontos, não entendemos mais nada, perdemos o chão e as referências.

Mas quando as distorções das palavras fazem parte da “novilíngua”, devemos nos lembrar do conselho que Polônio deu ao rei Claudio, padrasto de Hamlet: “Majestade, essa loucura tem um método”. Leia Mais


Natureza Humana: Vigiar e Punir

Não é sobre Foucault, mas sobre um fato simples de nossa economia psíquica: nós nos comportamos bem em parte por convicção, e em parte pelos possíveis custos de nossos “malfeitos”.

Primeiro, um esclarecimento sobre economia psíquica. Tem me surpreendido que pessoas muito entendidas em finanças, economistas mesmo, chegam a mim desconhecendo que há uma economia própria de nossas mentes. São capazes de enormes ganhos pecuniários impondo-se enormes custos psíquicos. Vivem uma vida deplorável a despeito dos milhões que fazem. Investiram suas inteligências num jogo vicioso de ganância, pois não puderam (ou não souberam) investi-las na busca de uma vida bela (significa virtuosa, pois ética e estética fazem conjunto). Leia Mais


Natureza Humana: Um comunista gentil

Só não era um aristocrata porque não pretendia comandar nada (aristocracia significa o comando dos melhores), nem carro dirigia, mas foi um dos melhores seres humanos que tive a ventura de conhecer. Há coisas muito boas que vêm com o casamento, meus dois filhos encabeçam a lista, claro, mas esse amigo da mãe deles seguramente não está longe. Entre 1986 e 1989 foi nossa rotina passar a noite de sábado imersos na atmosfera inteligente e acolhedora de sua casa, aberta aos amigos comunistas, entre jornalistas e professores, todos a debater com a costumeira ferocidade, enquanto ele aguardava uma brecha para intervir com uma palavra sábia de lucidez desapaixonada. Era interrompido, claro, e se calava, esperando uma nova chance de ser ouvido. Eu ali, um estranho no ninho, democrata liberal que desistiu de se meter na conversa depois que ousei dizer que o PRI (Partido Republicano Institucional do México, que já se mantinha no poder havia sessenta anos) era uma ditadura disfarçada, só para ser rechaçado por um jornalista que me calou para sempre com um “Não é!” furibundo. Tornado espectador, aprendi muito sobre dialética, da rasa e da complexa. Leia Mais


Burguês e Conservador

“Mas ele te chamou de nigger lover” (algo como “pessoa que gosta de crioulo”, um insulto brutal para um branco no sul dos Estados Unidos, sobretudo na década de 1930, quando se passa a cena), disse Scout a seu pai, Atticus Finch (o pai mais sábio que encontrei na literatura, personagem de “To kill a mockingbird” – “O sol é para todos” – de Harper Lee, 1960).

“Minha filha, você não deve se insultar quando o que te dizem não contém mal algum. Claro que seu pai gosta de negros, assim como de brancos ou de qualquer outra pessoa que mereça ser gostada”. Leia Mais


Natureza Humana: Psicanálise e política

A leitora reclama que ultimamente só tenho escrito sobre política, que ela gosta muito dos meus escritos sobre psicanálise, que recomenda meu livro sobre educação de filhos (“Onde foi que eu acertei”, Casa da palavra), e que, por favor, retome meu rumo.

Diz a piada que o pai gaucho aconselhou ao filho: “Na vida, filho, tu traça uma meretriz e segue essa meretriz sem dela se desviar”. De fato, tenho uma diretriz ético-estética traçada em minha mente que me serve de farol-guia, é meu oriente, meu norte, minha bússola, e, expliquei para a leitora, não posso retomar meu rumo, porque dele nunca me desviei. Leia Mais


Natureza Humana: Herança Maldita

O que há de comum nas situações descritas a seguir?

Madame declara que renovará sua equipe econômica caso reeleita (só queria saber que economista se prestaria ao mesmo papel de manteiga derretida, de capacho onde Madame limpa os pés depois de ditar os rumos da economia, pois, desde que disse que os métodos de Palocci – os mesmos da equipe que fez o Plano Real – eram rudimentares, todos sabem que a Ministra da economia é ela). Leia Mais


Natureza Humana: Religiões Singulares

Meu filho, apresentado aos dez mandamentos no primário do colégio católico, trouxe-me uma questão interessante: “Pai, vi um que mandava honrar pai e mãe, mas não tem nenhum mandando honrar filho e filha, por quê?”. Algum tempo mais tarde, veio outra: “Cristo morreu na cruz para nos salvar, exatamente do quê?” 

Nada como ter um aprendizado sem a reverência do inquestionável (porque sagradas são as Escrituras) para refletir sem medo. Leia Mais


Natureza Humana: Lei de Pedro Aleixo

O programa inato mais espetacular com que a natureza nos dotou é o de aprendizado. Não há nada igual em complexidade e beleza.

É ele que forma aquilo que somos, o que chamamos nosso “Eu”. Através da Identificação. Ela começa com a simples imitação, foi assim que aprendemos a falar. Mas imitar alguém que admiramos, alguém que nos toca pela integridade, pela ética, pela postura, pela sabedoria, pelas virtudes cultivadas, nos leva a um processo de incorporação autoral: aquilo que absorvemos, e que se sintoniza com o que temos de melhor, deixa de ser do outro, torna-se fragmento, não de uma colcha de retalhos, mas da trama inconsútil que nos constitui. Disse Paulo Freire: quem aprende bem algo com alguém, desse algo, ou desse alguém, torna-se coautor. Leia Mais


Natureza Humana: Medo

Estresse é algo mal compreendido. Significa angústia prolongada. Angústia é um aperto no peito que o medo dá. Portanto, estresse é a condição de medo prolongado.

Temos medo de várias coisas: da ameaça física (violência humana, ataque animal etc.); do que nos leva a conter a raiva; da sifudência imaginada (ir à falência, ficar velho pobre e desamparado etc.); do que nos provoca culpa; e da ameaça de perda do amor de pessoas queridas. Leia Mais

4567891011121314151617181920212223