Daudt no Facebook: Mundo

Minha tia Carmen pintou um azulejo com uma cena campestre, uma casinha à beira de um rio, um ambiente comovedor com uma quadrinha embaixo:

 

“Dizem que há mundos lá fora
Que em sonhos nunca vi.
Que me importa todo o mundo,
Se meu mundo é todo aqui?”

 

Faz mais de sessenta anos a última vez que vi esse azulejo, mas a quadrinha nunca saiu de minha memória. Hoje a compreendo melhor: existem dois mundos, o lá de fora de verdade, e o lá de fora representado em nossa mente. Em algumas coisas eles precisam combinar, mas não em tudo. Vejo como fui construindo meu mundo ao longo da vida, e ele só faz melhorar: meu tempo – meu patrimônio mais precioso - é dedicado aos meus filhos, meus amigos, pessoas queridas (e aí estão incluídos os pacientes) e a belezas em geral. Esse último item abrange coisas engraçadas como escrever coisas que façam bem a quem as lê, ver CSINY, fazer turismo no Rio com um amigo, antigo médico professor de 91 anos etc.

Poderia parecer um mundo individualista, mas descobri que cultivar valores éticos e estéticos, assim como construir amores companheiros, são as melhores ações políticas que posso ter, que cuidar da melhor maneira possível do meu mundo reapresentado em minha mente é a melhor maneira de contribuir para o mundo lá fora de verdade.

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Natureza Humana: Excelência

“Vossa Excelência é um bandido!”, disse o ministro, produzindo mais um ruído de comunicação, mais um desses despautérios com que esse governo tenta – entre tantos outros malfeitos – nos enlouquecer. 

“Excelência” adjetivada de “bandido”? É um erro lógico grave chamado “contradição entre termos” (contradiction in terms). Círculo quadrado? Não! Alguém anda tomando o santo nome da excelência em vão…

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Natureza Humana: Horror a Liberdade

Ambivalência significa que, em alguns casos de duas ideias opostas, AMBAS VALEM (ambi + vale). A humanidade gosta de liberdade, certo? E se eu te disser que a humanidade, em sua grande maioria, também tem horror a ela? Está bem, vou argumentar. O que é liberdade? É um ativo, um bem, um patrimônio disponível para aplicação, como dinheiro para se gastar. Antes de você ter em que aplicar, ou em que gastar, o dinheiro não vale nada, é só um potencial, um número na conta, uns papéis no cofre. 

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Natureza Humana: Começo de Conversa

“Você mataria sua mãe a facadas? Não? Nem eu! Então já temos alguma coisa em comum, é um começo de conversa”. Esta era a anedota que meu tio Marcello contava para dizer que, quando a divergência com alguém era grande, fazia-se necessário buscar fundações comuns para a construção do edifício do entendimento. Ele era engenheiro. Na construção de casas, há coisas que as põem de pé e outras que as derrubam, não há isso de verdades relativas. Ele era razoável, esse termo ardiloso que parece significar “mais ou menos”, mas também quer dizer “pessoa que tem apreço pela razão, e com quem se pode raciocinar”. Às vezes apelo para o inglês “reasonable” – o Pasquale Cipro que me perdoe – para me fazer claro.

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Natureza Humana: Cães e Filhos

É tudo culpa do Freud. Antes dele, crianças eram propriedades dos pais: podiam matá-las, vendê-las, o que fosse, mas a última coisa que sentiriam seria culpa em relação a elas. Para ser mais preciso, as primeiras leis de proteção à infância só surgiram na Revolução Industrial, quando elas se tornaram parte da força de trabalho.

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Natureza Humana: Justiça

Existe uma questão muito evitada, infelizmente, pelos psicanalistas: que instrumento a psicanálise usa para a busca da cura? Pois respondo: é a justiça. 

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Natureza Humana: Drama, reação e reflexão

Ele passeava pela praça XV quando alguém lhe agarrou pelo braço:

— Manoel, sua casa está pegando fogo em Niterói e sua mulher corre risco de morrer queimada! Vai lá, homem, vai salvá-la!

Desesperado, ele pegou a primeira barca. Já no meio da baía da Guanabara, pensou: “Espera aí… Eu não moro em Niterói, não sou casado e não me chamo Manoel, o que é que eu estou fazendo aqui?”

O drama fez com que ele reagisse. A lentidão da barca permitiu que ele refletisse.

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Natureza Humana: O Menino no Armário

“Por dentro, com a alma atarantada, sou uma criança e não entendo nada” (Erasmo Carlos)

 Seja porque a vida de gente grande é uma pedreira, seja pela neotenia – o apego à forma jovem, a característica mais bela de nossa espécie –, o fato é que há homens que nunca deixam de ser meninos pela vida afora (assim como há aqueles que parecem nunca tê-lo sido).  Leia Mais


Natureza Humana: Sadomasoquismo Sutil

O pai tijucano viu o filho desenhando e gritou: “Para de desenhar que isso é coisa de viado!” (com “i” mesmo, que “veado” não tem o mesmo impacto homofóbico). Quem viu “Anos dourados” do Gilberto Braga sabe que a Tijuca era um bairro do Rio de Janeiro que imprimia caráter: valores de classe média e preconceitos escancarados. Se fosse um pai da zona sul, mais sofisticada, não diria uma palavra: suspiraria e balançaria a cabeça em desalento. Os mesmos preconceitos, mas com sutileza.

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Natureza Humana: Compaixão e Consideração

Ele estava horrorizado consigo mesmo: a criança morrera de câncer, e ele, o pediatra, não sentira nada. “Eu tenho alguma coisa de muito errado na minha cabeça: não tive pena, não sofri, não perdi o sono…”

Quis saber se ele havia feito tudo o que podia, se tinha apoiado os pais nas horas difíceis, se havia minimizado o sofrimento da criança, enfim, se honrara seu juramento hipocrático. “Sim, claro, como sempre, mas essa não é a questão…”

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