Daudt no Facebook: Telegramas e telefonemas

Venho observando em mim algo estanho: não gosto mais de falar ao telefone. Sou de uma geração que adorava passar horas namorando, ou simplesmente papeando, pelo telefone. Aguardávamos o toque da campainha com ansiedade, se imaginávamos que poderia ser da pessoa amada. Minha irmã deve ter batido algum recorde, pois começou um telefonema às nove da noite com o namorado, e só o interrompeu porque meu pai foi ver quem estava falando em casa… às quatro da madrugada!

Hoje, depois do e-mail e do Facebook, acho infinitamente mais confortável ver se chegaram mensagens, para respondê-las no momento em que achar melhor. Parece o tempo pré-telefone, quando as pessoas se comunicavam por bilhetes entregues em casa. O fato é que o toque do telefone passou a me soar invasivo, imperativo, autoritário, dominador. Prefiro mesmo escrever.

Sei, sei, já sou jurássico, pois o WhatsApp acabou com esse tempo lento e reinventou a invasão, mas, jurássico que sou, não tenho celular…


Natureza Humana: Escárnio e honra

Do dicionário Houaiss:

Escárnio: atitude ou manifestação ostensiva de desdém, de menosprezo
Ex.: ele olhou com escárnio para os eleitores que o vaiavam

Honra: princípio ético que leva alguém a ter uma conduta virtuosa, corajosa, e que lhe permite gozar de bom conceito junto à sociedade
Ex.: a honra às vezes está acima das leis

Temos dois diferentes processos de construção de nossa identidade, daquilo que somos, e nem sempre eles são conscientes: identificação por imposição e identificação por gosto.

A primeira pode se dar de maneira direta, como no caso do príncipe herdeiro de uma casa real, que se submete desde o berço a um destino; ou então, “minha família é de banqueiros há quatro gerações, por isso fui ser banqueiro”.
Também pode ser de maneira indireta: a maioria dos abusadores/espancadores de crianças foi abusada/espancada por seus pais, quando pequenos.

Outro jeito é por reação ao que os pais foram, e que os filhos abominaram (filhos de pais caretas viram hippies; filhos de hippies viram caretas). Há um tipo dessa identificação que é particularmente cruel: a do vingador. Você já deve ter visto um filme de faroeste em que a criança assiste a sua família ser massacrada por bandoleiros, e jura vingança: “Dedicarei minha vida a perseguir, achar e acabar com esses bandidos”. Resulta que o menino se torna alguém cujo destino foi imposto indiretamente pelos assassinos de sua família.

As identificações por gosto são mais fáceis de compreender, e são sempre conscientes: você descobre alguém, ou alguma coisa, que você admira muito, e almeja ser ou fazer igual. É o processo de identificação mais bonito que há. Vivi isso na pele: aos catorze anos, descobri meu modelo de pai num livro (“To kill a mockingbird”/“O sol é para todos”, Harper Lee, 1960) e desde então Atticus Finch foi meu farol-guia para a paternidade. Ele era justo e honrado.

As identificações por imposição nunca funcionam muito bem. Elas se parecem com um transplante meio rejeitado, aquele tecido se inflama, dá problema de saúde, não cai bem em quem o recebe. A pessoa vai pela vida carregando um fardo.

As identificações por gosto funcionam de maneira completamente diferente: o tecido transplantado é completamente absorvido pelo organismo, se torna parte de nossa estrutura, nos faz mais fortes. Com elas, somos um tecido inconsútil, nunca uma colcha de retalhos.

Grande parte do trabalho da psicanálise é tornar conscientes os modelos de identificação que prejudicam nossas vidas, e rejeitá-los a partir daí. Isso é parte fundamental da cura.

Nosso Brasil está doente, de doença moral. Quando olhamos para cima, a podridão abunda. E ela desce em cascata como a lama de Mariana, contaminando o Estado com um governo que escarnece de seus governados. Há um tecido degenerado se impondo a nós, em franco processo de rejeição: é preciso eliminá-lo antes que cause falência de múltiplos órgãos públicos.

A ministra Carmen Lúcia agiu como médica e fez um diagnóstico preciso dessa doença: cinismo e escárnio.
Quando vemos tal postura, olhamos para cima com gosto e nos identificamos. O nome disso é Honra.


Daudt no Facebook: Sobre a felicidade dos terroristas

(A respeito do artigo de J P Coutinho: A felicidade dos terroristas)

Gostei muito da abordagem desse J.P. Coutinho; ele busca a motivação para entender o terrorismo, ele quer entender o desejo, ele olha para o universo do indivíduo. O Estado islâmico pode querer acabar com o indivíduo, mas precisa dele para este fim, precisa motivá-lo. O EI precisa do desejo, mesmo se deseje exterminá-lo.

Você já viu vídeos de grandes demolições? Já percebeu o êxtase que eles produzem, na hora em que aqueles prédios gigantescos se desmantelam como castelos de carta? Você exultou secretamente à vista das torres gêmeas se esfarinhando no chão? Então você tem o vislumbre do prazer da destruição, um prazer instantâneo que nenhuma construção produz. O mesmo prazer experimentado pelo hater de Facebook quando taça uma pedra na cara do mais sofisticado pensador, e exulta por “se sentir superior a ele”.

O hater do Facebook poderia bem ingressar no exército do Estado Islâmico…

Abaixo, artigo de J P Coutinho.

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A felicidade dos terroristas

João Pereira Coutinho

24/11/15

Serão os terroristas felizes? Estranha pergunta, essa. E, no entanto, não tenho pensado em mais nenhuma depois dos ataques de Paris.

Os especialistas elaboram todas as teorias sobre o autoproclamado Estado Islâmico. E depois procuram explicar as metástases que o grupo espalhou pela Europa.

Escuto tudo como um aluno aplicado e retorno à primeira pergunta: serão os terroristas felizes? Há vídeos que passam na TV. Todos eles sorriem. Existe até um filme no qual um alegado terrorista de origem portuguesa disserta sobre o prazer da matança. Não tenho dúvidas. Esses homens são felizes.

Um pensamento bizarro e fútil? Não creio. Li bastante sobre a origem do EI e os “objetivos” da organização. A culpa é dos Estados Unidos, dizem uns, que destruíram a estrutura sunita no Iraque e entregaram o país ao sectarismo dos xiitas.

A culpa é da Arábia Saudita, dizem outros, que financia e exporta o wahabismo para a Síria e outros territórios na vizinhança.

Ou então a culpa é do Islã, ou de uma interpretação radical do Islã, que exige a morte dos “infiéis” e a conquista de território para a causa do Profeta.

E, quando se fala da Europa e dos milhares de jihadistas que estarão dentro das fronteiras, encontramos os mesmos modelos de explicação. A culpa é do multiculturalismo, que permitiu o crescimento de corpos estranhos dentro das sociedades pluralistas europeias.

A culpa é da pobreza e da marginalização, que conduziu os filhos de emigrantes muçulmanos para a “guerra santa” contra os “cruzados”.

Ou então a culpa é das fronteiras abertas da Europa, um convite para que os novos bárbaros invadam o Ocidente.

Admito que todas essas explicações sejam verdadeiras (ou falsas). Mas, quando olho para o rosto dos terroristas, o que vejo é a felicidade da matança. Eles não matam apenas por uma religião (que mal estudaram) ou por razões geopolíticas (que nem sequer entendem).

Eles matam porque gostam de matar. Como dizia Ernst Jünger, eles estão tomados pela “vermelha embriaguez do sangue”.

Talvez seja injusto convocar Jünger, um dos grandes escritores do século 20, para tão más companhias. Mas um livro dele tem merecido releitura nos últimos tempos.

O título é “A Guerra como Experiência Interior”. Trata-se do relato do autor da sua experiência na Primeira Guerra Mundial. Verdade: a Guerra de 1914 foi feita por soldados, não por terroristas. E o alemão Jünger tem pelo inimigo (francês) a admiração que só a bravura merece.

Mas o que me interessa no relato é a dimensão de êxtase que o combatente sente na batalha. A sociedade pode refrear “a pulsão dos apetites e dos desejos”, escreve ele (como escreveu Freud). Mas a parte bestial do ser humano não pode ser abolida da nossa natureza.

Somos feitos de razão e sentimento. Mas também de fúria e instinto. E, quando provamos a loucura da guerra, emergimos como “o primeiro homem”, “o homem das cavernas”.

Existe uma passagem do livro que ilustra essa terrível verdade. Acontece em 1917, quando o soldado Jünger passeia pelas ruas de Bruxelas e olha para uma vitrine onde estão pequenas peças de porcelana.

O autor comove-se com a beleza da arte –uma espécie de “intermezzo” da carnificina; ou então a memória nostálgica de um outro Jünger, que existiu antes das cinzas.

Ao lado da vitrine, dois soldados conversam. E um deles, olhando também para a vitrine, confessa: “Gostava de ver um canhão 380 acertar nisto em cheio.” Entendemos que a pulsão destrutiva é tudo que resta na alma daquele homem. E, quando assim é, os medos mais primordiais –como o medo da morte– tornam-se “pequenos e desprezíveis”.

O Ocidente pode pensar em todas as estratégias para combater o terrorismo. Algumas delas –vigilância, ação militar etc.– podem ser incontornáveis.

Mas existe uma “dissonância cognitiva” que continua a existir entre “nós” e “eles”: embalados pelo conforto da paz, somos incapazes de entender, muito menos aceitar, a felicidade dos terroristas. A felicidade de homens como nós que provaram e gostaram do sangue. E que exatamente por isso querem mais e mais e mais –até que a morte nos separe.


Daudt no Facebook: Pus vindo à luz

Eu sei que os furúnculos estranhamente saíram de moda, mas quando aquela tumoração dolorida se abria, e o pus jorrava, a dor era atroz, mas nós médicos sabíamos que a cura estava a caminho.

A prisão de Delcidio e Esteves, resultado da melhor performance da vida do ator Bernardo Cerveró, se parece muito com a hora em que o tumor se abre e o pus jorra: dói, sim, mas é o começo da cura de uma doença moral que contagiou o país a partir do lulopetismo: o cinismo, o escárnio (apud Carmen Lúcia, juíza símbolo – com Sérgio Moro – dessa virada), o esquecimento dos valores que constroem nossas vidas e nosso país.

 


Natureza Humana: Islamofobia

De um tempo para cá começamos a ouvir termos como “homofobia”, “islamofobia”. Quando ouvi isso pela primeira vez, quis saber quem tinha esse medo todo de gay. Pois me explicaram que não se tratava de medo, mas sim de ódio a gay. Mas está errado: o prefixo para ódio é “mis/miso” (misantropo; misoginia). O grego “phobos” significa “medo”.

Agora não adianta mais, o termo já tomou embalo no novo sentido. Mas eis que aconteceu a sexta-feira, 13 de novembro, em Paris, e islamofobia retomou seu sentido original: “medo do Islã”. Ela equivale ao 1° de setembro de 1939, quando Hitler invadiu a Polônia. Acredite, até então se dizia que Hitler deveria ser tratado com compreensão, que ele só queria reparar as injustiças históricas sofridas pela Alemanha. O primeiro-ministro inglês Chamberlain não se cansava de defender a conversação diplomática, de fazer concessões a Hitler na esperança de que ele contivesse sua sanha guerreira. A assinar com Hitler tratados de não-agressão, com os quais o ditador limpava… a lama de suas botas.

A invasão da Polônia foi o momento em que a máscara caiu de vez. Era fim de conversa. Em 3 de setembro, o governo inglês declarou guerra à Alemanha.

Sim, islamofobia: todos nós estamos com MEDO do Islã. As semelhanças com Hitler e com o nazismo são gritantes: as mesmas contemporizações, a mesma compreensão pelos coitadinhos, as mesmas argumentações de que “não se pode confundir o nazismo com a Alemanha, o alemão é um povo pacífico (!)”, “a jihad é uma revolta legítima diante de anos de sofrimentos”. Foi a tolerância com o nazismo que permitiu que ele assumisse o poder e tentasse dominar o mundo.

Por outro lado, que situação dolorosa e constrangedora para aqueles que se esforçam em defender o Islã como uma religião de paz, amor e tolerância. Como devem estar sofrendo clérigos e fiéis muçulmanos com o uso diário do Corão para perseguir, violentar, torturar, mutilar, decapitar e até crucificar infiéis! De onde sai tanto ódio? Está o Islã se transformando em uma ideologia de ódio e intolerância em nome de Alá? Ou sempre foi assim? Onde estão as vozes de clérigos para falar de um Islã de amor e tolerância com autoridade e autenticidade? Será que não podem falar, pois serão considerados, eles mesmos, infiéis? Como lidar com este gigantesco problema? Qual será o futuro dos nossos filhos, pois que há uma guerra em curso?

É hora de, para todos os que respeitam a religião islâmica, esperar que cada muçulmano em todos os cantos do mundo venha declarar de público sua renúncia a algo que está, se não no Corão, em sua interpretação por inúmeros líderes islâmicos: o princípio do combate sem trégua ao que não adere a suas crenças, o princípio de MORTE AOS CÃES INFIÉIS. Que somos nós, do Ocidente. Você e eu, para esses, somos cães infiéis.

Gostaria de ver as mulheres liderando essa causa da defesa dos valores ocidentais, pois não há ninguém tão massacrado quanto a mulher muçulmana, e se há um valor ocidental símbolo de todos os outros, este é a luta pela dignidade da mulher, por sua igualdade de direitos.


Daudt no Facebook: Impedimenta

“Na Praça Clovis minha carteira foi batida. Tinha vinte e cinco cruzeiros e o teu retrato. Vinte e cinco, francamente achei barato, pra me livrar daquele atraso de vida”

(“Praça Clovis”, Paulo Vanzolini)

Do dicionário: impedimenta
1. aquilo que dificulta o avanço de alguém, por exemplo, bagagens ou outros equipamentos

Na série das coisas que podemos fazer para viver melhor, além de ganhar tempo, ganhar terreno e ampliar nossa zona de conforto, seguramente tem um lugar especial nosso esforço para diminuir a impedimenta.

Todos temos alguma, aquelas tralhas físicas e mentais que carregamos nas costas e que nos são um atraso de vida.
Além do retrato da maldita, pense bem na tralha inútil de objetos e de hábitos que carregamos.

Recentemente a minha cozinheira se aposentou. Pensei em arranjar outra, porque minha secretária não tem as mesmas habilidades culinárias. Mas depois me dei conta de que, além do salário e das burocracias que o governo inventa para nós infernizar a vida, eu me livrava de uma convivência, de uma quantidade de calorias diárias (como impedi-la de fazer suflê de queijo?), e de uma série de outras tralhas que sua presença implicava.
Reduzi assim minha impedimenta, e estou me sentindo literalmente mais leve…


Daudt no Facebook: Cool and trendy

É difícil aceitar que a gente se mova por causa de sexo. Que nós somos pavões querendo atrair parceiros. Que o monte de coisa que fazemos não passa de penas de pavão, chamarizes sexuais. Que nós somos a galinha: a máquina que o ovo inventou para produzir outro ovo.

“Ah, eu não! Eu sou uma pessoa desapegada de valores terrenos, eu só quero fazer o bem ao próximo, eu tenho o altruísmo como meu farol-guia, não quero nada para mim. Eu estou muito acima da mesquinharia, do exibicionismo, da vulgaridade. Minha onda é o intelecto, o requinte, o bom-gosto, o refinamento”.

Ok, você diria então que você influencia tendências, que as pessoas podem se impressionar com você?
“Bem, isso até pode acontecer, não que seja meu objetivo, que eu não estou nem aí para essas coisas, essas pessoas que me seguem, sabe, bem, elas… que direi?”

Eu entendi: você é cool and trendy. Low profiled. Contemporary. New. Fresh. Você é moda!

Uma das coisas mais fascinantes que aprendi com a psicologia evolucionista foi o sentido da moda: um pequeno grupo de pessoas com proeminência social desenvolvem um ícone externo de suas importâncias (um hábito; uma roupa; um acessório etc.) com que sinalizam para muito poucos o quanto “estão por dentro”. A mensagem inicial é “nós fazemos parte do mesmo clube”. Com o tempo, “periféricos” vão se dando conta de que o ícone também pode valer para eles, e vão copiando, na intenção de dizer que eles também fazem parte do clube.

Mas divulgação tem uma face cruel: vulgarização. Quando a turma “de cima” se dá conta de que o ícone se tornou vulgar, imediatamente o descarta como brega! E começa a criar outro.

Eu vi isso se dar inúmeras vezes. A primeira foi com as camisas Lacoste. No final dos anos 50 elas eram camisas que os muito chiques usavam para jogar tênis. Elas eram brancas, francesas, e só usadas para o esporte. No começo dos 60 apareceram as coloridas e seu uso fora das quadras. Agora, mais de sessenta anos depois, elas são acessíveis a muitos manés, e os trendy migraram para as Brooks Brothers… (Ai, meu Deus, entreguei!).


Daudt no Facebook: Área de competência

Não gosto de comunistas em geral, e do Che Guevara em particular, mas ele disse algo uma vez com que concordo: “Si quieres peras, planta perales! No las pida al olmo!” (Algo como, “se você quer pêras, ora, trate de plantar pereiras, não as procure nas mangueiras”).

Se me convidarem para conversar sobre futebol, agradeço, mas não aceito: está fora da minha área de competência. Assim como a área de competência da pereira é dar peras.

Grande parte do que tenho feito para viver melhor – e ajudar os clientes a isso – tem sido aprender a detectar minha própria área de competência, e a dos outros. Isso ajuda e muito a zelar por minha zona de conforto, que, conforme esclareci anteriormente, prezo imensamente.

Olha quanto aborrecimento isso poupa: de discutir com quem não preza a razão e só quer ganhar a discussão, custe o que custar; de comer a comida feita por quem não sabe cozinhar; de ouvir música feita por quem não sabe tocar; de ir a festas sóbrio e achar que vai se divertir; de achar que vai mudar o/a namorado/a depois que se casar com ele/a…

Mas isso também serve para o seu lado do balcão: “Não queira ir o sapateiro além das sandálias”, diz o ditado romano. Ter noção de sua área de competência e se manter dentro dela é cultivar a virtude da humildade. Não a da falsa modéstia, mas a da rara prática de reconhecer seus erros e seus limites. Sabe aquela que a Dilma não tem nem terá?

Aliás, falando em alguém fora de sua área de competência…


Daudt no Facebook: Falar mal

“S’embora falar mal?”, dizia uma amiga à minha irmã, e embarcavam num esporte delicioso, falar mal dos costumes e comportamentos de conhecidos em particular, e da sociedade em geral.

A fofoca tem duas faces: a permuta valiosa de informações que de outro jeito não nos chegariam (“Sabe aquele médico? Ele me bolinou enquanto me examinava!”); e a expressão maldosa de diminuir os outros, e com isso fazer-se sentir superior.

Tais comportamentos – o valioso e o pretensioso – existem desde que o mundo é mundo. Há uma terceira função, bem declarada na primeira frase deste texto: o estabelecimento de cumplicidades, o fortalecimento de ligações. Infelizmente, grande parte dessas ligações não se dão por afinidades, mas por uniões “contra”. Romeu e Julieta não tiveram tempo de descobrir, mas aquele “you and me against the world” não iria durar muito…

Mas me perguntaram, diante de uma piada deliciosa do cara que chega na padaria e pede “um pãozinho francês”, e o padeiro responde que “Ah, um pãozinho de Mariana você não quer, né?” que retrata o massacre sobre aqueles que se comoveram com o massacre francês e ousaram dizer isso em suas páginas: por que isso? Por que tamanha crueldade?

Ora, novamente por proeminência social: se eu critico, eu sou superior; se eu falo mal, eu estou do lado do bem; se eu, não tendo competência para construir, destruo, é porque eu estou acima do que foi construído, eu sou melhor, eu sou foda…


Daudt no Facebook: Proeminência social

Ser destacado socialmente, dizem os psicólogos evolucionistas, traz vantagens sexuais: mais poder, mais dinheiro, mais prestígio fazem com que os homens passem genes preciosos para sua prole, genes que serão disputados por mulheres que querem vantagens para seus filhos. As mulheres que se destacam socialmente podem fazer escolhas melhores de futuros pais para sua prole.

Essas afirmações são coerentes com o que observamos no dia a dia. O que pode ser surpreendente é o que pode significar proeminência social. Abaixo, alguns exemplos bizarros do que faz alguém ser destacado socialmente.

Inteligência e sabedoria? Sim. Mas brutalidade e violência também. Os diretores de Carandiru perguntavam ao Dr. Drauzio Varella o que tinham aqueles bandidos para atrair tantas mulheres. A resposta era uma só: proeminência no grupo social deles.

Fama? Sim, mas infâmia também. “Falem mal, mas falem de mim”, parece ser a corrida desesperada das redes sociais. Nunca, em nenhum tempo da humanidade, um número tão grande de pessoas teve a oportunidade de se exibir como pela internet agora. As exibições vão de vidas “maravilhosas” a selfies bizarros. Este ano morreram mais pessoas em todo o mundo por selfies arriscados que por ataques de tubarão.

Generosidade e santidade? Talvez, mas homens-bomba, mulheres-bomba, crianças-bomba islâmicas também. Nas comunidades islâmicas, saber que alguém será um suicida traz imediata proeminência social para a pessoa e para sua família. Existem filas de candidatos ao suicídio/assassinato por bomba, e briga entre os que querem furar a fila, tudo motivado pelo desejo de proeminência social.

Ou seja, a espécie humana é muito interessante…
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