Sobre a crônica da Danuza Leão (“Ela”, de hoje, 20/01/19, do “O Globo”)

“É muito superficial aquele que não julga pelas aparências” (Oscar Wilde)

“Intuição” é um bom nome para o que em psicanálise se chama de percepção pré-consciente. Pequenos sinais não óbvios, se existe uma motivação poderosa, chamarão a atenção da pessoa. Você fala que não há intuição masculina, mas há, só depende da motivação. Um homem pode ouvir o motor de um carro e dizer “Ih, vai dar problema”. Perguntado o que o leva a pensar assim, responderá: “É o jeitão…” Ele está motivado por um assunto que é de seu total interesse. Minha filha diria sobre o mesmo carro: “Eu vi que ele era azul…” Em outra ocasião, minha irmã me apresentou a um possível futuro sócio dela. Poucos segundos depois eu a chamei num canto e disse “É vigarista!” Por quê? Pelo jeitão. E pelo meu costume de valorizar as sensações mínimas de conforto/desconforto que as pessoas me despertam, e de querer entendê-las, algo muito útil no consultório e na vida em geral.

O prestígio que um homem dá (ou é capaz de tirar de) à mulher eleita é de total interesse dela. Isso a torna extremamente atenta aos pequenos sinais, ao jeitão, que no homem indicam se ele está investindo (ou se está desinvestindo/investindo em outra) nela. Eis porque o ciúme feminino é principalmente de prestígio, ou seja, pode haver ciúmes do futebol e dos amigos dele mesmo se ela tem certeza de que não há sexo envolvido nessas atividades.

Por fim, a história do seu gato me lembrou muito de minha filha, quando o caçula nasceu: era do total interesse dela a atenção que recebia de nós, portanto o bebê novo a perturbava. Eu lhe disse que a coisa esquisita que ela sentia se chamava “ciúme”, e que quando ela sentisse aquilo, que falasse pro pai porque eu ia pegar ela no colo e encher de beijinhos. Era muito bonitinho ver ela chegar para mim e dizer “Pai, tô com ciúme”. Eu cumpria a promessa, ela ficava feliz e tranquila, funcionou muito bem.

Pena que os gatos não falem…

 


Cura em psicanálise


Cura é um conceito especialmente precioso (e mal entendido) em psicanálise: ela fala de remoção da doença, por certo, mas fala principalmente em ser cuidado. Curar é cuidar, é o que faz o curador de menores. Esse cuidar envolve função de mãe (calor, nutrição, proteção), e envolve função de pai (cultivo da capacitação, atendimento das capacidades). Um não funciona sem o outro. Remete à metáfora do ninho/voo que explica o complexo de Édipo: o pássaro precisa de ninho para voar. Sem ninho ele morre, se magoa, fica preso ao ressentimento; mas excesso de ninho o deixa aleijado e dependente. Então, curar/cuidar é estar atento às necessidades/capacidades do outro para que ele ganhe voo próprio, autônomo e independente. O complexo de Édipo são os entraves à nossa capacidade/autonomia que restam do mau gerenciamento do ninho na nossa criação.

Como a psicanálise já pega o estrago feito, a cura se dá por ganho de terreno, nunca por extirpação (como na cirurgia).


Artigos: Psicanálise só existe em países democráticos


A entrevista de Elizabeth Roudinesco para a Globonews traz essa observação: a psicanálise só existiu e prosperou em países onde havia democracia. Foi banida da Alemanha nazista, da Itália fascista, não existiu nos países comunistas, Rússia, Cuba, China e congêneres.

Isso é coerente com a estrutura da invenção freudiana: ela requer liberdade de pensamento e expressão. E vai mais além: a cura depende de uma crítica ao nosso superego, ou seja, ao nosso sistema de governo interno.

É… só dava mesmo para ser dentro da democracia!

 


Artigos: Reação e reflexão


(Reportagem completa em Época ou na versão impressa)

Nunca ficou tão claro quanto na atual campanha que ela é mais um plebiscito contra ou a favor de Lula e seu PT. É uma competição de rejeições: ele não/PT não. Toda a estratégia de marketing das duas campanhas está voltada à reação contra a outra: “Não ao comunismo!” “Não ao fascismo!” Vi um comentarista da tv lamentando que a propaganda dos candidatos não contemplasse propostas de governo, que fosse focada nos horrores do oponente, que só apostasse na reação dos eleitores.

Mas isso faz sentido, é uma aposta nas características mais primitivas da natureza humana, o imediatismo e a reatividade. Elas ganham de longe do pensamento de médio/longo prazo e da reflexão. Imagine nosso ancestral na savana africana vendo um grupo de conhecidos passar correndo. Seu instinto de sobrevivência lhe diria para sair correndo junto, nada de parar para refletir o que levava aquela gente a tal correria. A humanidade descende dele. O reflexivo foi devorado.

Mas há um elemento desencadeador dessa reatividade: o drama. A questão ali era de sobrevivência imediata, quanto mais drama, menos reflexão. Se a estratégia de marketing visa a reação, a tendência é tocar terror, é amplificar o drama. Não é à toa que a filosofia só foi surgir depois da revolução agrícola, quando a sobrevivência imediata ficou menos dramática, e havia tempo livre para se sentar na ágora e conversar com os amigos.

É o que pretendo fazer aqui, uma pausa para refletir sobre os movimentos pendulares de reatividade que costumam dominar a política, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Num breve apanhado a partir do início do capitalismo, os ideais da revolução francesa de liberdade e de igualdade (deixemos a fraternidade por enquanto de lado, por excessivamente ideal) sempre foram perseguidos de maneira polarizada e reativa: a direita defendendo a liberdade; a esquerda defendendo a igualdade, e cada um achando que o outro estava errado.

Abro aqui um parêntesis para considerar que a própria democracia é uma forma reativa de governo: desde seu início ela reage à atração humana pela tirania. Os governantes da Grécia Clássica viviam sob suspeita de se ambicionarem tiranos. Pudera, a tirania é imediatista e a democracia é um investimento de médio/longo prazo. Se a assembleia ateniense lhes desse um voto de desconfiança escrito dentro da casca de uma ostra, eram enviados ao… ostracismo. A divisão democrática em três poderes tem esse propósito: um poder vigia o outro em permanente desconfiança de seus desejos tirânicos.

Voltando: o capitalismo em seu estado selvagem produziu uma desigualdade que tem na escravatura seu maior exemplo. Os defensores da igualdade, as esquerdas, começaram aí a conquistar os corações de boa vontade pelo mundo. Essa reação tomou sua forma principal no remédio de Karl Marx, o comunismo/socialismo, cujos defensores se autodenominavam “progressistas”, e denominavam seus opositores de… “reacionários”, como se eles reagissem ao progresso. Como a igualdade proposta pelo comunismo era difícil de ser conseguida por convencimento, o remédio deles incluía a tomada de poder pela revolução e a imposição de uma ditadura do proletariado, incluindo o fuzilamento de opositores.  Mas a lei de lord Akton passava a funcionar (“O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”), e os dirigentes comunistas tendiam a se esquecer da igualdade (ou a promover a igualdade na miséria) em favor da ganância.

A direita então reagiu, sempre em movimentos autoritários também, entre eles o nazismo e o fascismo, e a nossa tão atualmente lembrada ditadura militar. Esta surgiu num movimento tipicamente reativo: enquanto a Guerra Fria comia solta, Fidel Castro havia tornado Cuba comunista apenas quatro anos antes, e o medo de termos uma repetição aqui (Jango era presidente, mas parecia em campanha para tomar o poder), com direito a paredón e tudo, fez com que grande parte da população se tornasse simpática à ideia de que os militares viessem salvá-la, mesmo com um governo autoritário. Novamente o drama da sobrevivência induzindo à reação e ao imediatismo.

Foi a vez da reação das forças de esquerda, que agora diziam lutar pela democracia, mas continuavam na mesma luta pela ditadura do proletariado. Claro, havia os mais explícitos, como os da luta armada. Os menos explícitos já seguiam a orientação gramsciana de aparentar aderir ao jogo democrático para atingir os mesmos fins. Desde os anos 60, a orientação do “partidão” (PCB) era de que todos os postos de ensino de história e geografia fossem ocupados, para a conquista do coração compassivo dos jovens. Foram muito bem-sucedidos nisso: nunca mais se viu um meio acadêmico de humanas que não fosse de esquerda, desde então.

Outras bandeiras tão meritórias quanto a da igualdade foram empunhadas pelas esquerdas (direitos humanos; o respeito às minorias através do politicamente correto; ecologia), e se transformaram em distintivos de superioridade moral a serem esfregados na cara da “direita insensível”, além de álibis que justificavam o uso de quaisquer meios, já que os objetivos eram tão nobres.

A direita, claro, reagiu dizendo que as esquerdas defendiam a vida dos bandidos e menosprezavam a vida dos assaltados; que queriam impor às crianças suas visões pervertidas de sexualidade; que queriam acabar com o agronegócio para salvar pererecas em charcos.

Este é o momento em que vivemos, quando um candidato simbolizou o repúdio à pose de superioridade moral das esquerdas em geral, e do Lula/PT em particular, à chantagem emocional de “se não está do nosso lado, então é fascista e contra os pobres”, ao mesmo tempo em que representa a recusa às ideologias em favor de valores do senso comum (chamados de “valores da família”). É o momento da reação exagerada contra a ação exagerada das esquerdas, que por sua vez era também uma reação exagerada… e assim por diante. Muito parecido com o que aconteceu nos EUA com a eleição de Trump.

Também muito parecido com o que acontece na esfera pessoal, quando um pai conservador acaba por ter um filho hippie, e o hippie velho não entende por que seu filho saiu tão careta. Reatividades…

O incrível é que esse teatro de sons e fúria possa ser parte do jogo democrático. E é! A democracia é um negócio difícil, contrário ao primitivismo da natureza humana, mas ainda assim contido nela, já que a democracia leva em conta o predador tirano que existe em nós, e arranja meios institucionais de coibi-lo, atenuá-lo. É só ver como a proximidade do poder já leva os candidatos a diminuir a gritaria, a homenagear a constituição democrática, a sugerir que eles estão abertos ao convencimento e a negociações.

Ou seja, é como disse Churchill, a democracia ainda é o pior dos regimes… com a exceção de todos os outros.


Artigos: Falando de política


Nós estamos vivendo mais um momento reativo (e a reatividade é o movimento mental mais comum da humanidade, a reflexão é o difícil e o raro):
Capitalismo selvagem leva à reação do comunismo/socialismo entre as pessoas de boa vontade que têm compaixão pelos pobres;

Tendo o poder, comunistas/socialistas esquecem os pobres e se entregam à ganância e ao autoritarismo, e matam oponentes no paredón ou nos gulags;

Forças de direita reagem e produzem ditaduras, como a de 1964;

Forças de esquerda reagem, dizem que lutam pela democracia, seja pela luta armada, seja dentro do jogo democrático possível, mas lutam pela ditadura do proletariado;

A partir de 85, com a redemocratização, reforça-se a estratégia gramsciana de tomar o poder por dentro, com simulacros de democracia: aparelhamentos sociais (escola, intelectualidade, mídia, patrulha do politicamente correto), forma-se um consenso de que a esquerda é moralmente superior, pois a direita despreza/odeia os pobres, portanto é moralmente inaceitável;

Insultada, a direita reage, fala grosso (Trump, Bolsonaro), corre para os valores do senso comum. É o que me parece o estado atual.
Isso é a síntese do que analiso, fazendo um símile entre psicologia de pessoa e psicologia de populações.


Natureza Humana: Culpa corrige?


Para quem cresceu – como eu – na cultura católica, o sentimento de culpa era a maior ferramenta da correção dos erros (pecados). Nós pecávamos, infringindo um (ou mais) dos dez mandamentos, ficávamos envergonhados, íamos nos confessar, o padre endossava nossa culpa com seu perdão e sua penitência… e saíamos dali aliviados para pecar novamente. Era simples assim.

Simples, certamente; mas, eficiente para construir um indivíduo ético? Nem tanto… De fato, há no sentimento de culpa uma injustiça embutida que produz uma revolta silenciosa contra ele, o que depois se manifesta como reincidência do erro.

Senão, vejamos: o mecanismo que nos produz o sentimento de culpa é o de nos ver como pessoas horríveis. Para isso é preciso ter-se na cabeça um modelo ideal de pessoa, e sua contraparte, o antimodelo. O imaculado e o imundo. O santo e o pecador.

Em termos psicanalíticos, isso supõe que nossos valores não pertençam a nós mesmos, mas a nosso Superego. Nós  abaixo dessa instância ideal e julgadora, sempre lutando para alcançá-la, sempre intuindo que ficaremos na dívida. Desse modo, nossa relação com o ideal (vale dizer, com nosso Superego) é sadomasoquista, é uma relação fodão-merda: aos olhos dele, nós seremos sempre inferiores e horríveis. É isso que ocorre no sentimento de culpa: a gente se sente um merda.

Esta é a injustiça embutida no sentimento de culpa; a sentença é excessiva, não há direito de defesa, não há apelação a outras instâncias, ela nos causa revolta e nos faz rejeitar/vingar-se o/do tribunal que nos condenou. Ela nos faz ter uma relação de veneração e ódio ao Superego: ora somos submissos a ele, ora “pecamos” de novo tendo duas motivações (o sabor do desejo proibido e o sabor de mandar o Superego/tribunal às favas).

Quando procurei a psicanálise pela primeira vez, demorei para entender que o analista kleiniano tinha como método de cura o mesmo arsenal que a igreja católica: a culpa. Só que agora eu deveria me arrepender de meus sintomas, e prometer nunca mais tê-los. Tal como o método católico de combater o pecado, é claro que não funcionava.

Mais recentemente fui informado que a psicanálise lacaniana propõe que, em vez de culpa, a pessoa se torne responsável por seus desejos e por sua conduta. Isso me pareceu certamente um avanço, mas ainda vejo problemas: sem que se questione o tribunal do Superego, sem que se rejeite seus ideais de perfeição inatingíveis, sem que se repense uma nova maneira de implementar a ética, facilmente a responsabilidade funcionará como culpa, e tudo voltará à estaca zero.

A proposta que me surgiu a partir do conhecimento do Superego, através de Freud, foi a de acabar com ele (sei que isso não é possível, mas ter isso como meta é). Não de renegá-lo, mas de olhar para os valores desejáveis que moram nele, e de se apoderar desses valores como coisa nossa. Em palavras psicanalíticas: onde esteve o Superego, que haja o Ego! Ou seja, que ponhamos o Superego e suas leis sob um olhar crítico. Que se faça uma assembleia constituinte a partir do rompimento com a ditadura do Superego, exatamente como foi feita em 1986 entre nós, com o fim da ditadura militar. Que se aproveitem como valores nossos – de nosso Ego – as leis que servirem, e que se varram as leis autoritárias para o lixo da história.

A partir daí, a culpa pode ser bem aposentada em sua função capenga de corregedora dos costumes. Ela é substituída com vantagens imensas pelo simples reconhecimento do erro. Essa prática cultiva a humildade e nos dispensa de alternar arrogância com humilhação. Eis porque venho treinando, em vez de dizer “desculpe-me” (que endossa a culpa), dizer simplesmente “erro meu”.

Uma historinha para ilustrar esse processo. Na festa de 25 anos de formados do colégio Santo Inácio, perguntei ao nosso antigo padre prefeito de disciplina:
“Padre, ouvi dizer que masturbação não manda mais o pecador para o inferno, é verdade? Então, o que aconteceu com aqueles que morreram antes da mudança da lei?”
Ele desconversou:
“Daudt, eu acho que você já bebeu muito vinho…”


Natureza Humana: Raiva de quem se ama .2 – O que fazer?


 

A principal dificuldade para o bom gerenciamento da raiva é se estar prisioneiro do vício fodão-merda (f&m). Se qualquer injustiça que nos fazem, mesmo a de uma fechada no trânsito, é percebida como “estão querendo tirar uma de fodão pra cima de mim”, é inevitável que o desejo de vingança apareça: “vou mostrar que o merda é ele!”

Infelizmente, o vício f&m pode também estar presente nas relações de amor. Ele é a principal causa do crime passional (“ela se riu de mim com seu amante, os dois riram de mim enquanto fodiam”). Claro, não é o único fator do ciúme – que é a principal fonte de raiva de quem se ama –, há também o desprestígio, que é a principal forma de ciúmes da mulher (mas não exclusiva; apesar de os ciúmes masculinos serem principalmente sexuais, eles são misturados com desprestígio). Mas sentir-se desprestigiado é também uma forma de se sentir um merda, e isso dá muita raiva, e desejo de vingança.

Então, quando se trata de gerenciar a raiva de quem se ama, a primeira questão é o que fazer com o desejo de vingança. Por incrível que pareça, antes disso é necessário perceber a própria raiva, bem como a injustiça que a causou: se uma pessoa é muito importante para você, pode ser que o medo de perdê-la seja tão grande que nem a consciência da raiva apareça, e no lugar dela se sinta apenas mágoa, ressentimento, um mal-estar, um desânimo.

Pois esse é um bom caminho para começar: “Hum, me deu um desapontamento, uma brochada, uma tristeza com fulano… Eu suspeito que ele me magoou de alguma maneira, deixa eu ver onde foi”.

Descoberta a ofensa, o próximo passo é avaliá-la tentando ser justo. “Ah, isso não pode ficar assim, foi uma coisa grave!”. Ou então, “Eu estarei fazendo uma tempestade em copo d’água? Essa ofensa vai ser vista como uma bobagem, um problema meu?”

Vamos ao primeiro caso: qual é o seu objetivo na busca de corrigir a injustiça? É preservar o amor que vocês têm, certo? (Se não for, se o amor se perdeu por causa da ofensa, que pena, mas não há gerenciamento outro senão achar o jeito de ir embora).

Ora, se o objetivo é preservar/aumentar o amor entre vocês, isso precisa ser declarado logo de cara: “Ih, eu gosto tanto de sentir amor por você que eu preciso acertar umas coisas que estão me atrapalhando, que estão sequestrando o bom sentimento entre a gente”. Uma abertura dessas deixa o outro disposto a ouvir; ela não acusa, não supõe malícia da outra parte, não encosta contra a parede: “Eu sei que você não fez por mal, ou talvez nem tenha notado, mas…”

Dê saída ao gato: o princípio diplomático da saída honrosa faz com que vocês operem fora do jogo f&m; ninguém está querendo bancar o superior, ninguém está humilhando ou fazendo o outro de merda. Um gato encurralado avançará com as garras na sua cara, e o combate continuará. Não é esse o objetivo primeiro.

“Ah, mas isso parece D.R., e o meu marido odeia D.R. (Discutir a Relação)”. Há uma boa razão para se detestar D.R., que é não partilhar das bases/premissas em que ela é travada: se as queixas se referem ao não cumprimento de cláusulas de um acordo secreto e feito sem transparência, ao qual o outro não aderiu (o mais típico são as obrigações implícitas e não contratadas de como ser um namorado), é de se esperar que o outro não consiga avançar na conversa, pois há um problema de raiz.

Nesse sentido, um cliente passou por uma experiência muito curiosa: ele queria firmar acordos explícitos sobre o que significava namorar, desde o início da relação. A namorada se queixou: “Ah, assim nosso namoro vai ficar parecendo uma empresa. Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ao que ele perguntou: “Quantos namoros seus que ‘fluíram naturalmente’ deram certo?” Nenhum tinha dado, claro…

Bem, essas eram as propostas para mágoas graves, dessas que não se pode deixar passar. Mas… e quando a mágoa é do tipo que parece pequena, daquelas que o outro “vai achar uma bobagem”?

O que fazer nessas ocasiões dá mais trabalho. Primeiramente, porque quem sente a ofensa nunca acha que é uma bobagem, apenas acha que o outro vai achar. E por isso fica quieto: “O que deu em você?” “Nada!” E é um “nada” muito puto. Não dá para ter de pronto a consciência que um cliente desenvolveu depois de muita reflexão: “Sinto muito se eu não consigo te dar carinho quando você pede, porque isso me lembra de meus pais que viviam me pedindo carinho, mesmo quando eu estava ocupado brincando. Eu automaticamente transfiro a situação para você, e em vez de seu pedido me produzir ternura, me dá aversão. Mas eu estou ‘trabalhando isso’ na minha terapia, hahaha”.

Ele uniu humildade e humor, e isso é de desarmar qualquer briga. Claro, ele não chegou aí de um dia para o outro, mas isso nos dá um farol-guia: humildade e admissão de algo que pode ser um problema próprio, que não é culpa do outro, que ainda nem está claro, de fato é um belo começo para se lidar com raiva de quem se ama, e aumentar o amor.

 


Natureza Humana: Um dilema de consciência


“O Waze  disse para ir pela direita! Ele sabe melhor que você, ele tem inteligência e informação!”
“Certo, mas eu tenho inteligência e consciência, e prefiro ir pelo caminho de sempre. Não estou tão interessado em ganhar uns minutos, quero mais ver minhas paisagens… externas e internas, ok?”

As pessoas estão abrindo mão de sua autonomia e delegando cada vez mais suas decisões à inteligência artificial, aos algoritmos “sábios”. Que futuro nos aguarda? De carros autônomos e pessoas dependentes, agindo/reagindo no automático?

Segundo Yuval Harari (em “Homo Deus”), eis o dilema que o futuro nos apresenta: vamos nos entregar ao comando e à tutela cada vez mais eficiente da Inteligência Artificial, ou vamos privilegiar e cultivar a única inteligência que é exclusivamente nossa, a inteligência com consciência?

Primeiro, o que é consciência; o dicionário nos dá dois significados: o do saber-se existindo e percebendo o que se passa por dentro e por fora de si, aquilo que Descartes concluiu (“Ei, eu sei que existo, eu sei que estou pensando!” Ok, ele não disse com essas palavras, mas era esse o espírito da coisa) no século XVII; e a capacidade moral de distinguir o certo do errado.

Este segundo significado historicamente atrapalhou a minha relação com a consciência. Lembro-me de ouvir na infância “Põe a mão na consciência!”, quando nossas mães suspeitavam de alguma malfeitoria de nossa parte, e havia até piadinhas sobre a localização anatômica da tal consciência. Mais tarde aprendi que, em algumas línguas, “má consciência” significa sentimento de culpa.

Mas isso não impediu meu crescente caso de amor, minha atração fatal pela agudeza de consciência, em seu primeiro sentido. Queria muito – e continuo querendo – ter clareza cristalina do que se passa em meu pensamento, em mim, e ao meu redor. Quando aprendi com Edgar Morin sobre o pensamento complexo, foi um deslumbramento: entender que cada ato nosso, cada impulso é resultado de inúmeros fatores, muitos deles contraditórios; que era esse jogo de forças, semelhante à análise vetorial (quem disse que a física do 1° ano científico foi inútil?) desembocava numa resultante, que poderia mudar, assim que o jogo de forças mudasse também; que “ambivalência” significava forças opostas na mente que não se excluíam, mas ambas valiam!; que o ato falho poderia me tornar consciente da força ambivalente mais reprimida, tudo isso me fascinava/fascina.

Foi por causa do desejo de consciência que me apaixonei pela psicanálise. Ela nada mais é que um processo de expansão da consciência voltada para o “debugging”: imagine nossa mente como softwares, e que alguns deles têm uma contaminação atrapalhadora de seu funcionamento (os bugs). O único jeito de tirá-los (debugging) é entrar no sistema e rastreá-los, entendê-los e desmontá-los. Isso só se faz levando a consciência a lugares onde ela não podia ir antes; tornando o inconsciente… consciente.

Para mim, o resultado desse processo de expansão interminável da consciência – que se dá mesmo enquanto escrevo aqui – foi um amor à sabedoria que ele produz: é a face filosófica da psicanálise, um legado dela que enriquece lindamente a vida para quem adentra sua prática. Essa sabedoria só pode ser amada por uma inteligência consciente. Oba! Essa é só nossa!

Pelo menos por enquanto é só nossa, não creio que haja barreiras impossíveis que impeçam a criação de uma inteligência artificial com consciência de si. Mas como demandaria um investimento imenso aliado a um benefício mais que duvidoso, acredito que as chances de isso acontecer sejam mínimas.

A expansão da consciência significa escolhas melhores – por conhecimento de nossos próprios desejos –, e a expressão “voto consciente” não pretende outra coisa que escolhas melhores. Não creio que tão cedo alguém delegue a um Waze eleitoral o seu voto para escolher o presidente. Seria o passo anterior para temos um algoritmo de I.A. na presidência da república. “Oh, mas isso é tentador!” Sim, se você acredita em déspotas esclarecidos. A tentação de delegar escolhas e decisões que nossa espécie tem, seguramente é o maior atrapalhador da expansão de nossa consciência. É o “segura na mão de Deus, e vai”. Ou o “deixa a vida me levar, vida leva eu”.

Mora dentro de nós um Homer Simpson que só quer saber de cerveja, de “curtidas” nas redes sociais, e comida processada, vegetando em um sofá deformado por sua obesidade.

Mas também pode morar um ser consciente que aprecie entender a si mesmo o bastante para traçar seus caminhos na direção que mais se sintonize com seus desejos; que a partir dessa compreensão de si, seja capaz de querer compreender o outro, ter por ele empatia (colocar-se em seu lugar), ter por ele simpatia (afinidade de afetos), ter por ele compaixão (partilhar de seus sofrimentos). Tudo isso porque investiu no cultivo de sua consciência.

É uma decisão diária de cada um de nós, e será um dia uma decisão da humanidade: autônomos ou autômatos?


Natureza Humana: “Eus” eróticos


 

“Se todos conhecessem a vida sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, disse Nelson Rodrigues. O mais esquisito é que, como temos vários “eus”, pode haver desavenças e estranhamentos mesmo dentro de uma só pessoa, algum “eu” nosso pode virar a cara ao passar por outro de si mesmo que lhe pareça embaraçoso.

Isso fica claro quando dizemos, “eu não estava em mim, eu era outro”; “quando eu me lembro de mim jovem, fico até envergonhado, olho as fotos e me pergunto quem era aquele idiota”; “aquilo fez surgir um monstro dentro de mim”; “eu virei um animal!”. Um cliente de 80 anos me disse: “Sou um quando subo escadas, outro quando desço”.

Ou quando alguém muito presunçoso nos diz: “Eu não estou te reconhecendo, você não é assim!” Uma frase dessas faz de fato aparecer um monstro dentro de mim, com vontade de matar quem disse…

Mas esse negócio de ter passado os últimos quarenta anos ouvindo pacientes no consultório me fez perceber a quantidade de “eus” possíveis, quando o assunto é erotismo. É uma pena que o tema careça de palavras, tanto quanto de lugar social para ser conversado. Por falta de palavras, é pouco pensado. Por falta de pensamento, é pouco falado. As palavras do erotismo tendem ora ao engravatado, ora ao calão. Ora felação, ora boquete. Outro dia me perguntaram o que era “minete” (por causa do “Primo Basílio”), e quando eu respondi que era cunilíngua, ficaram na mesma até que expliquei: “é estímulo oral-genital feito numa mulher”. Quer coisa mais engravatada que isso?

Mas esse tema veio por conta de um cliente que descobriu um “eu” mulher em si. Ele é casado com uma moça muito ativa no sexo, que tomou a rara iniciativa de descobrir as zonas erógenas do marido. Deve-se dizer que o rapaz é abençoado pela natureza, pois de descoberta arrepiante em descoberta arrepiante (orelhas, nuca, mamilos, axilas, parte interior das coxas, períneo, glúteos, a lista é longa, acho que só os cotovelos ficaram de fora), finalmente adentraram – e o verbo não é acidental – o território do ânus/reto.

Foi quando se fez presente o poeta quinhentista português, Sá de Miranda, em seu poema mais famoso: “Comigo me desavim”. É que o rapaz tinha uma longa tradição homofóbica, e achou-se muito esquisito por ter gostado tanto das peripécias da mulher naquela… área. Teria ele descoberto que, por trás de sua macheza, no fundo (sem intenção de piada) era gay?

Deve-se registrar que o rapaz é obsessivo, e como tal, tem dificuldade com categorias intermediárias, não conhece cinquenta tons de cinza, para ele só costuma existir preto ou branco, ou isto ou aquilo, nunca ora isto, ora aquilo.

Para piorar, ele acreditava que somos indivíduos, seres (como diz o termo) indivisíveis e únicos. “Ou então o cara tem desordem de múltiplas personalidades, é uma espécie de maluco”, pensava ele. O coitado sempre viveu em busca de seu “verdadeiro eu”, para ser shakespeareanamente fiel a ele (“To thy own self be true”, um dos conselhos de Polonius a seu filho, em “Hamlet”).

É, fazia parte de sua obsessividade o valor de ser autêntico, sincero e honesto acima de tudo; qualquer coisa diferente era hipocrisia, e/ou concessão social. Não chegava a dizer para uma mãe, “Seu bebê é horroroso”, mas quase.

Pois é com esse conjunto de fatores que nosso herói enfrentou essas novidades em sua vida, e já podemos ter um vislumbre de suas mudanças de convicções, sem precisar ir aos detalhes de seu caminho (árduo) para isso. Passemos a ele a palavra:

“Não, concluí que não sou gay nem nunca serei. Nem ao menos tenho um “eu” gay, pois nunca olhei com tesão para um homem, e é isso que define o desejo homoerótico. Mas descobri que posso me sentir como uma fêmea. No começo, minha mulher só brincava com meu ânus com seus dedos, e isso me dava muito prazer. Depois ela passou a usar seu vibrador, e me penetrava com ele. Isso produz dois prazeres diferentes: o da dilatação e o da próstata, quando vai fundo. O segundo é muito estranho, pois tem alguma dor envolvida, parece a dor gostosa de massagem. O curioso é que não dá tesão nem vontade de gozar, mas leva a um quase-orgasmo muito intenso, e quando termina, a uma paz imensa, eu caio no sono dos anjos.”

“A coisa se complicou mais quando ela quis ‘brincar de homem’, e me perguntou se eu não queria experimentar ‘ser mulher’. Ela me possuiu usando uma cinta com um dildo de silicone, eu com os olhos cobertos por uma máscara de dormir… e a fantasia funcionou: eu me senti uma mulher, me entregando a ela/ele. Desta vez foi diferente, fiquei excitado com a entrega, me imaginando ora como se assistisse a um filme pornô em que eu fosse a mulher (é esquisito, mas a ‘mulher’ não se parecia comigo, era gostosa e me dava tesão, mas… era eu), ora me sentindo na pele da mulher possuída, e tive um orgasmo fantástico.”

“Depois dessa história duas coisas aconteceram: nunca me senti tão solidário, nem tão companheiro dela como antes. E este sentimento se estendeu às mulheres em geral: eu me coloquei na pele delas, me pareceu entender suas dores e seus prazeres, seus desejos e seus desgostos, suas fragilidades e suas forças.”

“A minha homofobia me ataca ainda por essa história toda, mas arranjei um consolo ao me dizer que, ao descobrir em mim um ‘eu’ mulher, superei – de um jeito bonito – um medo/limitação que muitos homens passam a vida varrendo para debaixo do tapete. Não sabem o que estão perdendo!”

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Todos os relatos aqui narrados são ficcionais, fruto de uma colagem de várias histórias de consultório, e qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real é mera coincidência.


Diversos: Resumo do livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade’, de Yuval Harari, por Francisco Daudt


Resumo do livro nesse link —>  https://bit.ly/2IJ8ZRs

“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, Yuval Harari. Esse é o livro mais interessante que eu já li nos últimos tempos. Agora.. ele tem 470 páginas. Então eu vi muita mãe e muito pai dizendo ‘ah, meu filho não encara um livro desse tamanho’. É por causa disso que eu fiz o resumo de 20 páginas que você está recebendo agora (visualizar no link acima). Ele vai ler o resumo e vai dizer ‘poxa, ele é tão interessante que é capaz do livro ser mais’, e eu vou dizer, o livro é mais interessante!”
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