Natureza Humana: Culpa corrige?


Para quem cresceu – como eu – na cultura católica, o sentimento de culpa era a maior ferramenta da correção dos erros (pecados). Nós pecávamos, infringindo um (ou mais) dos dez mandamentos, ficávamos envergonhados, íamos nos confessar, o padre endossava nossa culpa com seu perdão e sua penitência… e saíamos dali aliviados para pecar novamente. Era simples assim.

Simples, certamente; mas, eficiente para construir um indivíduo ético? Nem tanto… De fato, há no sentimento de culpa uma injustiça embutida que produz uma revolta silenciosa contra ele, o que depois se manifesta como reincidência do erro.

Senão, vejamos: o mecanismo que nos produz o sentimento de culpa é o de nos ver como pessoas horríveis. Para isso é preciso ter-se na cabeça um modelo ideal de pessoa, e sua contraparte, o antimodelo. O imaculado e o imundo. O santo e o pecador.

Em termos psicanalíticos, isso supõe que nossos valores não pertençam a nós mesmos, mas a nosso Superego. Nós  abaixo dessa instância ideal e julgadora, sempre lutando para alcançá-la, sempre intuindo que ficaremos na dívida. Desse modo, nossa relação com o ideal (vale dizer, com nosso Superego) é sadomasoquista, é uma relação fodão-merda: aos olhos dele, nós seremos sempre inferiores e horríveis. É isso que ocorre no sentimento de culpa: a gente se sente um merda.

Esta é a injustiça embutida no sentimento de culpa; a sentença é excessiva, não há direito de defesa, não há apelação a outras instâncias, ela nos causa revolta e nos faz rejeitar/vingar-se o/do tribunal que nos condenou. Ela nos faz ter uma relação de veneração e ódio ao Superego: ora somos submissos a ele, ora “pecamos” de novo tendo duas motivações (o sabor do desejo proibido e o sabor de mandar o Superego/tribunal às favas).

Quando procurei a psicanálise pela primeira vez, demorei para entender que o analista kleiniano tinha como método de cura o mesmo arsenal que a igreja católica: a culpa. Só que agora eu deveria me arrepender de meus sintomas, e prometer nunca mais tê-los. Tal como o método católico de combater o pecado, é claro que não funcionava.

Mais recentemente fui informado que a psicanálise lacaniana propõe que, em vez de culpa, a pessoa se torne responsável por seus desejos e por sua conduta. Isso me pareceu certamente um avanço, mas ainda vejo problemas: sem que se questione o tribunal do Superego, sem que se rejeite seus ideais de perfeição inatingíveis, sem que se repense uma nova maneira de implementar a ética, facilmente a responsabilidade funcionará como culpa, e tudo voltará à estaca zero.

A proposta que me surgiu a partir do conhecimento do Superego, através de Freud, foi a de acabar com ele (sei que isso não é possível, mas ter isso como meta é). Não de renegá-lo, mas de olhar para os valores desejáveis que moram nele, e de se apoderar desses valores como coisa nossa. Em palavras psicanalíticas: onde esteve o Superego, que haja o Ego! Ou seja, que ponhamos o Superego e suas leis sob um olhar crítico. Que se faça uma assembleia constituinte a partir do rompimento com a ditadura do Superego, exatamente como foi feita em 1986 entre nós, com o fim da ditadura militar. Que se aproveitem como valores nossos – de nosso Ego – as leis que servirem, e que se varram as leis autoritárias para o lixo da história.

A partir daí, a culpa pode ser bem aposentada em sua função capenga de corregedora dos costumes. Ela é substituída com vantagens imensas pelo simples reconhecimento do erro. Essa prática cultiva a humildade e nos dispensa de alternar arrogância com humilhação. Eis porque venho treinando, em vez de dizer “desculpe-me” (que endossa a culpa), dizer simplesmente “erro meu”.

Uma historinha para ilustrar esse processo. Na festa de 25 anos de formados do colégio Santo Inácio, perguntei ao nosso antigo padre prefeito de disciplina:
“Padre, ouvi dizer que masturbação não manda mais o pecador para o inferno, é verdade? Então, o que aconteceu com aqueles que morreram antes da mudança da lei?”
Ele desconversou:
“Daudt, eu acho que você já bebeu muito vinho…”


Natureza Humana: Raiva de quem se ama .2 – O que fazer?


 

A principal dificuldade para o bom gerenciamento da raiva é se estar prisioneiro do vício fodão-merda (f&m). Se qualquer injustiça que nos fazem, mesmo a de uma fechada no trânsito, é percebida como “estão querendo tirar uma de fodão pra cima de mim”, é inevitável que o desejo de vingança apareça: “vou mostrar que o merda é ele!”

Infelizmente, o vício f&m pode também estar presente nas relações de amor. Ele é a principal causa do crime passional (“ela se riu de mim com seu amante, os dois riram de mim enquanto fodiam”). Claro, não é o único fator do ciúme – que é a principal fonte de raiva de quem se ama –, há também o desprestígio, que é a principal forma de ciúmes da mulher (mas não exclusiva; apesar de os ciúmes masculinos serem principalmente sexuais, eles são misturados com desprestígio). Mas sentir-se desprestigiado é também uma forma de se sentir um merda, e isso dá muita raiva, e desejo de vingança.

Então, quando se trata de gerenciar a raiva de quem se ama, a primeira questão é o que fazer com o desejo de vingança. Por incrível que pareça, antes disso é necessário perceber a própria raiva, bem como a injustiça que a causou: se uma pessoa é muito importante para você, pode ser que o medo de perdê-la seja tão grande que nem a consciência da raiva apareça, e no lugar dela se sinta apenas mágoa, ressentimento, um mal-estar, um desânimo.

Pois esse é um bom caminho para começar: “Hum, me deu um desapontamento, uma brochada, uma tristeza com fulano… Eu suspeito que ele me magoou de alguma maneira, deixa eu ver onde foi”.

Descoberta a ofensa, o próximo passo é avaliá-la tentando ser justo. “Ah, isso não pode ficar assim, foi uma coisa grave!”. Ou então, “Eu estarei fazendo uma tempestade em copo d’água? Essa ofensa vai ser vista como uma bobagem, um problema meu?”

Vamos ao primeiro caso: qual é o seu objetivo na busca de corrigir a injustiça? É preservar o amor que vocês têm, certo? (Se não for, se o amor se perdeu por causa da ofensa, que pena, mas não há gerenciamento outro senão achar o jeito de ir embora).

Ora, se o objetivo é preservar/aumentar o amor entre vocês, isso precisa ser declarado logo de cara: “Ih, eu gosto tanto de sentir amor por você que eu preciso acertar umas coisas que estão me atrapalhando, que estão sequestrando o bom sentimento entre a gente”. Uma abertura dessas deixa o outro disposto a ouvir; ela não acusa, não supõe malícia da outra parte, não encosta contra a parede: “Eu sei que você não fez por mal, ou talvez nem tenha notado, mas…”

Dê saída ao gato: o princípio diplomático da saída honrosa faz com que vocês operem fora do jogo f&m; ninguém está querendo bancar o superior, ninguém está humilhando ou fazendo o outro de merda. Um gato encurralado avançará com as garras na sua cara, e o combate continuará. Não é esse o objetivo primeiro.

“Ah, mas isso parece D.R., e o meu marido odeia D.R. (Discutir a Relação)”. Há uma boa razão para se detestar D.R., que é não partilhar das bases/premissas em que ela é travada: se as queixas se referem ao não cumprimento de cláusulas de um acordo secreto e feito sem transparência, ao qual o outro não aderiu (o mais típico são as obrigações implícitas e não contratadas de como ser um namorado), é de se esperar que o outro não consiga avançar na conversa, pois há um problema de raiz.

Nesse sentido, um cliente passou por uma experiência muito curiosa: ele queria firmar acordos explícitos sobre o que significava namorar, desde o início da relação. A namorada se queixou: “Ah, assim nosso namoro vai ficar parecendo uma empresa. Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ao que ele perguntou: “Quantos namoros seus que ‘fluíram naturalmente’ deram certo?” Nenhum tinha dado, claro…

Bem, essas eram as propostas para mágoas graves, dessas que não se pode deixar passar. Mas… e quando a mágoa é do tipo que parece pequena, daquelas que o outro “vai achar uma bobagem”?

O que fazer nessas ocasiões dá mais trabalho. Primeiramente, porque quem sente a ofensa nunca acha que é uma bobagem, apenas acha que o outro vai achar. E por isso fica quieto: “O que deu em você?” “Nada!” E é um “nada” muito puto. Não dá para ter de pronto a consciência que um cliente desenvolveu depois de muita reflexão: “Sinto muito se eu não consigo te dar carinho quando você pede, porque isso me lembra de meus pais que viviam me pedindo carinho, mesmo quando eu estava ocupado brincando. Eu automaticamente transfiro a situação para você, e em vez de seu pedido me produzir ternura, me dá aversão. Mas eu estou ‘trabalhando isso’ na minha terapia, hahaha”.

Ele uniu humildade e humor, e isso é de desarmar qualquer briga. Claro, ele não chegou aí de um dia para o outro, mas isso nos dá um farol-guia: humildade e admissão de algo que pode ser um problema próprio, que não é culpa do outro, que ainda nem está claro, de fato é um belo começo para se lidar com raiva de quem se ama, e aumentar o amor.

 


Natureza Humana: Um dilema de consciência


“O Waze  disse para ir pela direita! Ele sabe melhor que você, ele tem inteligência e informação!”
“Certo, mas eu tenho inteligência e consciência, e prefiro ir pelo caminho de sempre. Não estou tão interessado em ganhar uns minutos, quero mais ver minhas paisagens… externas e internas, ok?”

As pessoas estão abrindo mão de sua autonomia e delegando cada vez mais suas decisões à inteligência artificial, aos algoritmos “sábios”. Que futuro nos aguarda? De carros autônomos e pessoas dependentes, agindo/reagindo no automático?

Segundo Yuval Harari (em “Homo Deus”), eis o dilema que o futuro nos apresenta: vamos nos entregar ao comando e à tutela cada vez mais eficiente da Inteligência Artificial, ou vamos privilegiar e cultivar a única inteligência que é exclusivamente nossa, a inteligência com consciência?

Primeiro, o que é consciência; o dicionário nos dá dois significados: o do saber-se existindo e percebendo o que se passa por dentro e por fora de si, aquilo que Descartes concluiu (“Ei, eu sei que existo, eu sei que estou pensando!” Ok, ele não disse com essas palavras, mas era esse o espírito da coisa) no século XVII; e a capacidade moral de distinguir o certo do errado.

Este segundo significado historicamente atrapalhou a minha relação com a consciência. Lembro-me de ouvir na infância “Põe a mão na consciência!”, quando nossas mães suspeitavam de alguma malfeitoria de nossa parte, e havia até piadinhas sobre a localização anatômica da tal consciência. Mais tarde aprendi que, em algumas línguas, “má consciência” significa sentimento de culpa.

Mas isso não impediu meu crescente caso de amor, minha atração fatal pela agudeza de consciência, em seu primeiro sentido. Queria muito – e continuo querendo – ter clareza cristalina do que se passa em meu pensamento, em mim, e ao meu redor. Quando aprendi com Edgar Morin sobre o pensamento complexo, foi um deslumbramento: entender que cada ato nosso, cada impulso é resultado de inúmeros fatores, muitos deles contraditórios; que era esse jogo de forças, semelhante à análise vetorial (quem disse que a física do 1° ano científico foi inútil?) desembocava numa resultante, que poderia mudar, assim que o jogo de forças mudasse também; que “ambivalência” significava forças opostas na mente que não se excluíam, mas ambas valiam!; que o ato falho poderia me tornar consciente da força ambivalente mais reprimida, tudo isso me fascinava/fascina.

Foi por causa do desejo de consciência que me apaixonei pela psicanálise. Ela nada mais é que um processo de expansão da consciência voltada para o “debugging”: imagine nossa mente como softwares, e que alguns deles têm uma contaminação atrapalhadora de seu funcionamento (os bugs). O único jeito de tirá-los (debugging) é entrar no sistema e rastreá-los, entendê-los e desmontá-los. Isso só se faz levando a consciência a lugares onde ela não podia ir antes; tornando o inconsciente… consciente.

Para mim, o resultado desse processo de expansão interminável da consciência – que se dá mesmo enquanto escrevo aqui – foi um amor à sabedoria que ele produz: é a face filosófica da psicanálise, um legado dela que enriquece lindamente a vida para quem adentra sua prática. Essa sabedoria só pode ser amada por uma inteligência consciente. Oba! Essa é só nossa!

Pelo menos por enquanto é só nossa, não creio que haja barreiras impossíveis que impeçam a criação de uma inteligência artificial com consciência de si. Mas como demandaria um investimento imenso aliado a um benefício mais que duvidoso, acredito que as chances de isso acontecer sejam mínimas.

A expansão da consciência significa escolhas melhores – por conhecimento de nossos próprios desejos –, e a expressão “voto consciente” não pretende outra coisa que escolhas melhores. Não creio que tão cedo alguém delegue a um Waze eleitoral o seu voto para escolher o presidente. Seria o passo anterior para temos um algoritmo de I.A. na presidência da república. “Oh, mas isso é tentador!” Sim, se você acredita em déspotas esclarecidos. A tentação de delegar escolhas e decisões que nossa espécie tem, seguramente é o maior atrapalhador da expansão de nossa consciência. É o “segura na mão de Deus, e vai”. Ou o “deixa a vida me levar, vida leva eu”.

Mora dentro de nós um Homer Simpson que só quer saber de cerveja, de “curtidas” nas redes sociais, e comida processada, vegetando em um sofá deformado por sua obesidade.

Mas também pode morar um ser consciente que aprecie entender a si mesmo o bastante para traçar seus caminhos na direção que mais se sintonize com seus desejos; que a partir dessa compreensão de si, seja capaz de querer compreender o outro, ter por ele empatia (colocar-se em seu lugar), ter por ele simpatia (afinidade de afetos), ter por ele compaixão (partilhar de seus sofrimentos). Tudo isso porque investiu no cultivo de sua consciência.

É uma decisão diária de cada um de nós, e será um dia uma decisão da humanidade: autônomos ou autômatos?


Natureza Humana: “Eus” eróticos


 

“Se todos conhecessem a vida sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, disse Nelson Rodrigues. O mais esquisito é que, como temos vários “eus”, pode haver desavenças e estranhamentos mesmo dentro de uma só pessoa, algum “eu” nosso pode virar a cara ao passar por outro de si mesmo que lhe pareça embaraçoso.

Isso fica claro quando dizemos, “eu não estava em mim, eu era outro”; “quando eu me lembro de mim jovem, fico até envergonhado, olho as fotos e me pergunto quem era aquele idiota”; “aquilo fez surgir um monstro dentro de mim”; “eu virei um animal!”. Um cliente de 80 anos me disse: “Sou um quando subo escadas, outro quando desço”.

Ou quando alguém muito presunçoso nos diz: “Eu não estou te reconhecendo, você não é assim!” Uma frase dessas faz de fato aparecer um monstro dentro de mim, com vontade de matar quem disse…

Mas esse negócio de ter passado os últimos quarenta anos ouvindo pacientes no consultório me fez perceber a quantidade de “eus” possíveis, quando o assunto é erotismo. É uma pena que o tema careça de palavras, tanto quanto de lugar social para ser conversado. Por falta de palavras, é pouco pensado. Por falta de pensamento, é pouco falado. As palavras do erotismo tendem ora ao engravatado, ora ao calão. Ora felação, ora boquete. Outro dia me perguntaram o que era “minete” (por causa do “Primo Basílio”), e quando eu respondi que era cunilíngua, ficaram na mesma até que expliquei: “é estímulo oral-genital feito numa mulher”. Quer coisa mais engravatada que isso?

Mas esse tema veio por conta de um cliente que descobriu um “eu” mulher em si. Ele é casado com uma moça muito ativa no sexo, que tomou a rara iniciativa de descobrir as zonas erógenas do marido. Deve-se dizer que o rapaz é abençoado pela natureza, pois de descoberta arrepiante em descoberta arrepiante (orelhas, nuca, mamilos, axilas, parte interior das coxas, períneo, glúteos, a lista é longa, acho que só os cotovelos ficaram de fora), finalmente adentraram – e o verbo não é acidental – o território do ânus/reto.

Foi quando se fez presente o poeta quinhentista português, Sá de Miranda, em seu poema mais famoso: “Comigo me desavim”. É que o rapaz tinha uma longa tradição homofóbica, e achou-se muito esquisito por ter gostado tanto das peripécias da mulher naquela… área. Teria ele descoberto que, por trás de sua macheza, no fundo (sem intenção de piada) era gay?

Deve-se registrar que o rapaz é obsessivo, e como tal, tem dificuldade com categorias intermediárias, não conhece cinquenta tons de cinza, para ele só costuma existir preto ou branco, ou isto ou aquilo, nunca ora isto, ora aquilo.

Para piorar, ele acreditava que somos indivíduos, seres (como diz o termo) indivisíveis e únicos. “Ou então o cara tem desordem de múltiplas personalidades, é uma espécie de maluco”, pensava ele. O coitado sempre viveu em busca de seu “verdadeiro eu”, para ser shakespeareanamente fiel a ele (“To thy own self be true”, um dos conselhos de Polonius a seu filho, em “Hamlet”).

É, fazia parte de sua obsessividade o valor de ser autêntico, sincero e honesto acima de tudo; qualquer coisa diferente era hipocrisia, e/ou concessão social. Não chegava a dizer para uma mãe, “Seu bebê é horroroso”, mas quase.

Pois é com esse conjunto de fatores que nosso herói enfrentou essas novidades em sua vida, e já podemos ter um vislumbre de suas mudanças de convicções, sem precisar ir aos detalhes de seu caminho (árduo) para isso. Passemos a ele a palavra:

“Não, concluí que não sou gay nem nunca serei. Nem ao menos tenho um “eu” gay, pois nunca olhei com tesão para um homem, e é isso que define o desejo homoerótico. Mas descobri que posso me sentir como uma fêmea. No começo, minha mulher só brincava com meu ânus com seus dedos, e isso me dava muito prazer. Depois ela passou a usar seu vibrador, e me penetrava com ele. Isso produz dois prazeres diferentes: o da dilatação e o da próstata, quando vai fundo. O segundo é muito estranho, pois tem alguma dor envolvida, parece a dor gostosa de massagem. O curioso é que não dá tesão nem vontade de gozar, mas leva a um quase-orgasmo muito intenso, e quando termina, a uma paz imensa, eu caio no sono dos anjos.”

“A coisa se complicou mais quando ela quis ‘brincar de homem’, e me perguntou se eu não queria experimentar ‘ser mulher’. Ela me possuiu usando uma cinta com um dildo de silicone, eu com os olhos cobertos por uma máscara de dormir… e a fantasia funcionou: eu me senti uma mulher, me entregando a ela/ele. Desta vez foi diferente, fiquei excitado com a entrega, me imaginando ora como se assistisse a um filme pornô em que eu fosse a mulher (é esquisito, mas a ‘mulher’ não se parecia comigo, era gostosa e me dava tesão, mas… era eu), ora me sentindo na pele da mulher possuída, e tive um orgasmo fantástico.”

“Depois dessa história duas coisas aconteceram: nunca me senti tão solidário, nem tão companheiro dela como antes. E este sentimento se estendeu às mulheres em geral: eu me coloquei na pele delas, me pareceu entender suas dores e seus prazeres, seus desejos e seus desgostos, suas fragilidades e suas forças.”

“A minha homofobia me ataca ainda por essa história toda, mas arranjei um consolo ao me dizer que, ao descobrir em mim um ‘eu’ mulher, superei – de um jeito bonito – um medo/limitação que muitos homens passam a vida varrendo para debaixo do tapete. Não sabem o que estão perdendo!”

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Todos os relatos aqui narrados são ficcionais, fruto de uma colagem de várias histórias de consultório, e qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real é mera coincidência.


Diversos: Resumo do livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade’, de Yuval Harari, por Francisco Daudt


Resumo do livro nesse link —>  https://bit.ly/2IJ8ZRs

“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, Yuval Harari. Esse é o livro mais interessante que eu já li nos últimos tempos. Agora.. ele tem 470 páginas. Então eu vi muita mãe e muito pai dizendo ‘ah, meu filho não encara um livro desse tamanho’. É por causa disso que eu fiz o resumo de 20 páginas que você está recebendo agora (visualizar no link acima). Ele vai ler o resumo e vai dizer ‘poxa, ele é tão interessante que é capaz do livro ser mais’, e eu vou dizer, o livro é mais interessante!”

Diversos: Resposta a um aluno – dica para uma palestra sobre adolescência e depressão


RESPOSTA A UM ALUNO…

que me pediu dica para uma palestra sobre adolescência e depressão:

Eu adoro as abordagens conceituais como abertura, de modo que começaria conceituando depressão e adolescência.

“A depressão é uma resposta defensiva ao estado de angústia continuada, chamado “stress”. A adolescência, por ser o portal da vida adulta e dos encargos de sobrevivência independente, saída da casa dos pais para o mundo das profissões e da formação de nova família, produz na criança um estado continuado de medos, inseguranças, dúvidas, fragilidades, ou seja, um estado de angústia continuada.”

“Então, entendemos porque muitos adolescentes entram em depressão em algum momento. Mas se é assim, por que nem todos os adolescentes se deprimem? Por duas razões: ‘nature and nurture’, suas naturezas e suas criações. A genética tem um papel importante no surgimento da depressão, há famílias em que esse mecanismo de defesa é herdado. Ao mesmo tempo, uma criação que acolhe a entrada gradual de uma criança na vida adulta, que respeita sua pessoal e intransferível curva de aprendizado, permitindo que ela se torne adulta comendo o mingau quente pelas beiradas, sem nunca queimar a boca, diminuirá a angústia de crescimento de tal maneira que dificilmente haverá depressão.”

Eu iria por aí.


 

 

 


Entrevistas: Entrevista de Francisco Daudt para a Revista E / Sesc São Paulo


Francisco Daudt

“Meu objeto de estudo e de interesse são as pessoas.” É o que relata o psicanalista Francisco Daudt, autor de A Criação Original – A Teoria da Mente Segundo Freud (7Letras), lançado em 2017, além de A Natureza Humana Existe – E Como Manda na Gente (Casa da Palavra, 2013), entre outros livros. Foi por causa desse interesse e curiosidade que, mesmo formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1971, e após ter exercido clínica gastrenterológica durante cinco anos, Daudt migrou para a psicanálise. E lá se vão quatro décadas dedicadas à investigação do que move e intriga o ser humano. Para falar sobre esse assunto, o psicanalista, que assinou uma coluna no caderno Cotidiano do jornal Folha de S.Paulo até dezembro passado, não se prende a jargões. De maneira simples e informal, ele expõe, nesta entrevista, reflexões acerca de relacionamentos versus tecnologia, amor romântico, intolerância e outros temas.

 

Foto: Leila Fugii

 Há certo mal-estar nesta civilização tecnológica sobre o foco dos relacionamentos?

Tenho observado bem-estar e mal-estar porque a tecnologia é mais ou menos como a faca – a faca é uma tecnologia, é low tech, mas é tecnologia. E a faca tem usos bons e maus. Ela pode salvar vidas – nas mãos de um cirurgião – ou tirá-las – nas mãos de um assassino. Com a tecnologia acontece o mesmo: vai depender de quem usá-la. Vejo pessoas que usam o WhatsApp, por exemplo, como eu uso: a meu serviço. De vez em quando – o smartphone fica na minha mesa de cabeceira – eu vou lá checar. Uso o WhatsApp da mesma forma como usava o e-mail, mas vejo gente escravizada pelo aplicativo, gente a serviço dele. Fiquei sabendo, por um cliente meu, quando eu não tinha smartphone (o primeiro que comprei foi em maio de 2017), que ele teve de pedir mil desculpas à namorada porque levou cinco minutos para responder a uma mensagem dela. Ele estava no banheiro. Eu fiquei apavorado com isso. Que escravidão é essa? Nesse caso, é um tremendo mal-estar. Mas não foi a tecnologia que o trouxe, e sim o uso triste que a pessoa faz dela. A tecnologia é uma bênção e estamos envoltos nela. Tenho uma filha que morava em Cingapura, são 24 horas de viagem para chegar lá. E falava com ela todos os dias pelo Skype. Enquanto em 1982, tinha um amigo que morava em Paris e um dia cometi a atrocidade de bater papo com ele por telefone – 14 minutos de ligação que me custaram uma fortuna na época.

 A presença forte da tecnologia tem feito com que a vida se transforme em contagem de minutos. Será que essa ansiedade que é gerada preenche nosso tempo com obrigações?

Meu objeto de estudo e de interesse são as pessoas. E tenho um desejo para mim e para meus clientes: as pessoas se sentirão mais felizes com independência e autonomia. E autonomia significa poder fazer suas próprias regras. Então, autonomia para mim é poder olhar o WhatsApp três ou quatro vezes por dia e só. Colocar a tecnologia a meu serviço. Agora, você acha que uma pessoa que se deixa escravizar pelo WhatsApp só se deixa escravizar por ele? Nada. Ela está escravizada em várias outras frentes. Não é nem aquela história bonita de [Étienne de] La Boétie em Discurso da Servidão Voluntária [obra do filósofo francês que viveu no século 16 em que afirma ser possível resistir à opressão sem recorrer à violência] em que a decisão foi da pessoa. Se ela quisesse ser escrava porque pensou bem na vida e decidiu: tenho vocação para submisso, ok. Não tenho nada a ver com isso. Agora a pessoa ser absorvida sem saber por que entrou naquele mundo e de repente se ver como escrava? Quero ajudar essa pessoa. Você que está aí do outro lado, se você se sentir escravo, você tem um problema na vida. Esse tipo de submissão provoca essa infelicidade digital, esse incômodo: a pessoa está ligada na tecnologia e não nas pessoas a sua volta.

 Nesse caso, as pessoas estão se engajando nas redes para marcar uma opinião própria ou apenas buscam reconhecimento do outro?

Foi cantada essa pedra pelo Nelson Rodrigues: o mal da atualidade é que “os idiotas perderam a modéstia”. Para qualquer coisa que a gente faça, é preciso reunir três condições básicas: motivação, meios e oportunidades. Então, essa motivação de se mostrar com pena de pavão, como alguém importante, essa motivação exibicionista, ela existe em todos nós. Por que as penas de pavão são importantes? Porque são atrativos sexuais – você está se exibindo e tornando-se mais desejável. Ok, a motivação está aí. E o que a tecnologia veio trazer? Meios e oportunidades de se exibir. As redes sociais são o local perfeito para exibir sua opinião. Daí, você vai opinar para mostrar algo para alguém. Isso serve ao vício da afirmação. Isso é compulsivo. Quem são os haters? São aqueles caras que se afirmam como superiores.

 Por que há uma intolerância, um incômodo, com aqueles que são diferentes?

Nós contra eles. O que acontece é aquilo que a gente chama de Lei de Pedro Aleixo [um civil escolhido pelos militares, para mostrar que estes ainda prezavam pela democracia e que era esse o propósito do movimento de 1964, como vice-presidente do general Costa e Silva]. Até que Costa e Silva resolveu baixar o AI-5, a assinatura de “nós agora somos uma ditadura”. O que era antes uma ditadura “envergonhada” a partir do AI-5 virou uma ditadura escancarada. Quando Costa e Silva promulgou esse ato institucional, ele rodou pela mesa dos ministros e do vice-presidente para que endossassem e assinassem embaixo do AI-5. Quando chegou a vez do Pedro Aleixo, ele disse: “Não assino”. Aí alguém perguntou: “Mas, seu vice-presidente, você acha que o presidente vai fazer mau uso deste instrumento?”. E ele disse: “Não é o presidente que eu temo, mas, quando o arbítrio e o autoritarismo se instalam no topo da cadeia, eles descem em cascata até o guarda da esquina, e a esse eu temo. Então, não assino”. Por isso, a Lei de Pedro Aleixo é quando você tem alguém no topo da cadeia capaz de contaminar os outros, foi isso o que aconteceu. Pense em dois tempos separados, sem fazer nenhuma defesa necessária: viemos de uma inflação que já foi de 80% ao mês, depois veio o Plano Real, a inflação despencou e começou um círculo virtuoso no país. As pessoas já sabem o valor das coisas, há um tipo de contaminação que desce em cascata, que respeita valores democráticos – uma espécie de orgulho de cidadania. A tecnologia entra aí como meio e oportunidade, mas a motivação principal não é a tecnologia.

Natureza e biologia são
as nossas principais influências.
Tecnologia vem lá em quinto lugar

 Essa indisposição contamina? Você observa isso dentro e fora do seu consultório?

Essas disputas sobre as quais falei ficaram mais exacerbadas. Houve uma espécie de fanatização que serve a esse processo de raiva ao qual se refere. Aquela história islâmica: morte ao cão infiel, morte a quem não acredita. Isso é o topo da raiva – matar quem não é igual a gente. Isso é da condição humana: temos horror do diferente. O ser humano tem horror de quem não é da sua família, de quem não é da sua tribo, que é uma espécie de extensão da família. Somos programados pela genética ancestral a ter 200 pessoas como tribo, caçadores-coletores. Esse negócio de andar pela rua passando por gente que você não conhece, isso é uma coisa artificiosa da grande cidade. Uma grande tolerância nossa que tem de ser garantida pelo Estado, que deve e precisa ter o monopólio da segurança. Como vemos agora o Rio de Janeiro, abandonado neste setor, espalha-se o medo. Porque a condição de barbárie de origem, de cada um por si, de mata-mata, começa a se espalhar. Vivemos nesse acordo social em que, se existe um governo em que você confia, tolera-se conviver com o diferente. Caso contrário, a gente começa a odiar.

 

Foto: Leila Fugii

 Essa nova opinião pública que se manifesta prontamente pelas redes, o que há de positivo?

O positivo, curiosamente, é uma extensão de um mal falado instituto dos relacionamentos humanos: a fofoca. A fofoca nada mais é que uma troca de informação interna: “Sabe aquele laboratório, ele faz isso e aquilo, não compre dele”. Esse ciclo de informação pode ser precioso. Mas a rede social pode funcionar para o bem e para o mal. Por isso, usar as redes para manifestar opinião pública, coisas que não vão sair no jornal, mas vão sair na rede. Isso é positivo.

Para qualquer coisa que a gente faça,
é preciso reunir três condições básicas:
motivação, meios e oportunidades

 Há uma reação conservadora às novidades trazidas pela modernidade?

Os conservadores têm reação a pessoas que se valem de uma suposta superioridade por algo que é de modismo. Então, tem alguém ali dizendo que é formidável porque é politicamente correto, formidável porque apontou o racismo no outro. Isso vai deixando, de uma maneira geral, uma raiva e quando há a oportunidade deságuam essa raiva votando em conservadores como Donald Trump, que é a coisa mais assombrosa que os Estados Unidos produziram. Computo isso como uma reação a essa onda de ofendidos politicamente corretos. O fato de as pessoas não poderem fazer nada, pois o outro se ofende com qualquer coisa, levou a uma pausa na defesa dos direitos democráticos para haver a defesa dos sentimentos. Todo mundo tem sentimentos muito suscetíveis. E aí começou uma irritação com esses ofendidos – e o resultado é o Trump. Por isso que pai careta tem filho hippie, e pai hippie tem filho careta, porque eles reagem em cadeia.

 Hoje se discute muito o novo papel do homem na sociedade e nas relações. Qual sua observação acerca desse cenário?

Mas que homem? Existe basicamente essa coisa: a negação da natureza. As mulheres continuam engravidando e os homens não. Esse é o traço biológico mais marcante. Você não disse que a tecnologia molda o homem? A biologia molda o ser humano de uma maneira mais marcante ainda. O fato de uma mulher engravidar e um homem não faz com que o comportamento sexual dos dois seja muito diferente. O homem poder engravidar e sair correndo, e a mulher engravidar e ficar prisioneira daquele ato durante anos. Isso faz toda a diferença do mundo. Sabe que nossa espécie tem uma coisa que é rara entre os mamíferos, acho que somos únicos: o investimento do macho na cria.

 O que seria esse investimento do macho na cria?

Uma mulher tem um filho, o homem não vai embora, ele ajuda, põe dinheiro em casa, põe alimento, cuida daquela criança, divide com a mulher o cuidado com aquela criança, ampara os dois, defende os dois, alimenta os dois. Isso é investimento do macho em sua cria. Isso é raro na natureza. Na nossa espécie, o bebê é completamente incapaz durante anos. Agora, você pega um cavalo: quando ele nasce, não leva nem duas horas e está de pé e mamando. Então, é essa condição biológica que novamente vai moldar vários dos nossos comportamentos sociais e sexuais. A mulher vai funcionar de um jeito e o homem de outro. O homem precisa ser convencido a investir naquele filho. De que maneira? Pelo amor que o filho desperta nele. O amor, nesse caso, serve como instrumento de sobrevivência. Dentro da nossa espécie, o sentimento de ligação amorosa serve de instrumento de sobrevivência dos filhos.

Então, autonomia para mim é poder olhar
o WhatsApp três ou quatro vezes por dia e só.
Colocar a tecnologia a meu serviço

 No seu consultório ainda existe a expectativa do príncipe encantado? Do amor romântico?

Claro. Isso faz parte da nossa espécie. Tanto que estou dizendo que é o amor romântico que compromete o homem a ajudar a cria. Isso é seleção natural. O amor romântico não desaparece. Esse encantamento, essa coisa, a paixão não desaparece. É curioso se você for ver em termos de seleção natural que a paixão tem um prazo de duração de três, quatro anos. Que tempo é esse? O tempo para a cria poder se virar sozinha minimamente. Então, historicamente, a ajuda do homem se deu justamente durante o período crucial que a cria era extraordinariamente dependente e a ajuda de que a mulher precisava era imensa. Então, nossa programação foi moldada para uma ligação com uma mulher e sua cria que dura três, quatro anos. Depois disso, a criança está em pé e já pode seguir o grupo nômade e o homem já pode diminuir sua participação no negócio.

 Essa quantidade de pessoas ao redor dos 40 e 50 que moram sozinhas ou procuram morar sozinhas mesmo que estejam se relacionando: o que pensar sobre esse fenômeno?

Isso é uma coisa que a sociedade abriu como possibilidade. Mas também é algo cíclico. Na Inglaterra, o solteirão é uma instituição. Agora, o cara que se separou e agora mora sozinho, ele geralmente é uma pessoa que descobriu que morar junto é um inferno mesmo. Uma coisa é você namorar, outra coisa é morar junto. Aí a pessoa mora sozinha e toma gosto. O que vai fazer: “Cada um em sua casa”, diz para a namorada. Porque sabe que isso de morar junto não é fácil. Então, há pessoas usufruindo de uma categoria social que lhes é favorável e que é a possibilidade de morar sozinho sem ninguém torcer o nariz. Isso serve para homem e para mulher. Antes, falava-se de uma mulher morando sozinha: “Aí tem”. Olha que beleza, olha que conquista maravilhosa.

Esse tipo de submissão provoca
essa infelicidade digital, esse incômodo:
a pessoa está ligada na tecnologia e não nas pessoas a sua volta

 Você vê isso como um ganho na sociedade, não como uma disfunção?

Acredito que isso seja um ganho, mas o que estou dizendo não exclui a existência disso [da solidão]. Não é por causa da impossibilidade de relacionamento que as pessoas estão sozinhas. Há muitas categorias sociais que são bem acolhidas e aceitas, como o cara que é sozinho, mora com outro cara, ou a mulher que mora com outra mulher numa república. Graças a Deus isso existe, ainda bem, é ótimo.

 Sobre a família estendida de hoje: vários casamentos, dois pais, quatro avós… Isso é um ganho?

Por certo. Disso não temos dúvida alguma. Essa é uma reinvenção da nossa ancestralidade. Havia fazendas em que moravam cinco, seis famílias numa mesma casa. Nela, um filho se identificava muito mais com uma tia, que logo escolhia um determinado sobrinho como filho. Havia várias possibilidades de adultos como referências. Isso não é desvantajoso, nem é novidade. Não vou ficar dizendo que isso ou aquilo é o certo, mas uma das categorias sociais bem-aceitas que têm vantagens é a grande família. A redução do número de filhos é muito engraçada, pois a mãe natureza a se revolta contra isso. Você agora só tem dois filhos, aí sua filha adolescente engravida e tem mais um filho dentro de casa. Como se ela tivesse trazido um irmãozinho e não o filho dela para a mãe/avó criar. Você não luta contra a natureza, e, se luta, ela te dá uma volta a galope. Natureza e biologia são as nossas principais influências. Tecnologia vem lá em quinto lugar.

Entrevista publicada em 27/04/2018 na  Revista E / Sesc São Paulo.

 

 


 

 

 


Natureza Humana: Raiva de quem se ama


 

Se você pensou em briga de casal, pensou certo. A encrenca é que há outras raivas mais complicadas ainda: raiva dos pais e raiva dos filhos, por exemplo. Por aí dá para sentir o quanto o assunto é delicado. Para começar, muitos vão dizer, “nunca senti raiva dos meus pais, que dirá dos meus filhos”.

Mas é que a raiva pode ter outros nomes, todos derivados do mesmo processo que a origina, o sentimento de estar sendo de algum modo prejudicado, ou injustiçado: mágoa, ressentimento, ciúmes, irritação, impaciência costumam ser definições mais reconhecíveis do que esse sentimento chocante que é “raiva” – quando aplicado a quem se ama.

E é chocante e delicado por lidar com consequências dolorosas: a culpa, e/ou o medo da perda do amor da pessoa querida. Imagine um pai sentindo muita raiva de um filho que se comporta igualzinho àquela mãe de quem ele se separou e que hoje despreza, ou daquele filho que dá um trabalho insano: se esse pai tiver no Superego um modelo de paternidade perfeita e imaculada, que não comporta maus sentimentos em relação aos filhos, ficará muito culpado.

Agora imagine um filho muito perturbado com uma mãe que demonstra escancarada preferência pelo irmão. Imagine o temor que sentirá em revelar sua revolta. Ora, se ele já é preterido sem fazer nada, a ameaça/risco de ser desamparado se mostrando raivoso é muito grande.

O que nos leva ao velho problema: a raiva não tem lugar social de direito entre as crianças, ela tende a ser reprimida pelos adultos como feia e má, se dirigida aos familiares; só o “puro amor” é aceitável. Sua função de reparar injustiças se perde, e um problema pior surge: a raiva passa a ser reprimida por dentro.

Mas aquela criança cresce, e vira um adulto que, se lida mais ou menos com raiva de estranhos, continua completamente desajeitado com a raiva de quem ele ama.

Que caminhos toma então essa raiva inaceitável? Alguns possíveis, que têm em comum serem totalmente incompetentes para trazer justiça as situações que a geraram:

- negação (“Raiva? Quem, eu? Nunca!”);

- formação reativa – o exagero do oposto (geralmente em consequência do primeiro: um mimo, um excesso de amorosidade descabida e imerecida);

- contenção (entuba, entuba… e explode);

- repressão (a raiva some, se desloca e se transforma em sintomas neuróticos obsessivos, fobias, síndrome do pânico e depressão);

- sadomasoquismo (do lado sádico: maltrato, bullying, humilhações, ironia/sarcasmo, e espancamento, podendo chegar a assassinato; do lado masoquista: vitimização, pena de si mesmo, silêncio e recolhimento social, encolhimento e paralização diante da vida, exposição de sua fragilidade – o que costuma ser um convite ao bullying).

É curioso, mas o sadomasoquismo entre pessoas que se amam pode ser tão sutil que passe despercebido. Estamos acostumados a pensar o s&m como uma perversão sexual que inclui chicotes e botas de couro, algemas e coisas que tais, mas ele pode funcionar em fogo brando: em vez de óleo fervente, banho-maria. Você já viu casais que soltam farpas entre si, se humilham, se menosprezam publicamente (ou um humilha e o outro se encolhe frente ao bullying) em graus variados. O problema é que isso pode fazer bodas de ouro…

O que fazer, então? Claro, é melhor previnir que remediar: a expressão verbal direta do problema precisa ter lugar social, as crianças terem o direito de expressar que estão com ciúmes do irmão; a escola precisa ter um ombudsman, uma ouvidoria para os alunos, uma espécie de judiciário para resolver pendências entre eles, assim como outros instrumentos de aprender cidadania.

Os namorados precisam poder fazer bons contratos entre si, para evitar as D.Rs. do mal, onde só rolam acusações mútuas: a namorada de um cliente lhe disse, “Mas assim o nosso namoro vai parecer uma empresa! Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ele lhe respondeu: “O que aconteceu com os seus namoros em que ‘as coisas fluíram naturalmente’?”

O que fazer quando o problema está instalado, e quais são os canais competentes para a raiva de quem se ama é assunto tão extenso que vai ficar para a próxima. Aguardemos “Raiva de quem se ama. 2”.

 

 


Natureza Humana: Síndrome de Groucho Marx


“Eu nunca entraria para um clube que me aceitasse como sócio!”, disse o comediante americano Groucho Marx (1890-1977). A frase remete a uma crença básica dos obsessivos: “As pessoas veem os 80% que eu produzo de bom, e por isso acham que eu sou inteligente. Mas eu ainda vou encontrar alguém mais inteligente do que eu, que perceberá os meus 20% de idiotice e de fraqueza, e me denunciará pelo que eu sou realmente: uma fraude!”

Só que os portadores da síndrome de Groucho Marx vão um passo além: só respeitarão quem os desprezar, só querem entrar no clube bom o bastante para rejeitá-los como fraudes, e com isso revelam ter ao mesmo tempo uma ideia muitíssimo elevada de si mesmos, convivendo com uma depreciação enorme… de si mesmos.

Como isso é possível? Pela especialmente difícil convivência entre Ego e Superego que os obsessivos têm em geral, e que os “Grouchos” têm, especialmente.

Explicando: o Ego sou eu, ou melhor, o software mental que me permite pensar que existo, que sou uma pessoa; uma interface que olha para o mundo e com ele negocia a partir do que vê em si. O Superego é um tanto mais complexo. Ele começa como um software de sobrevivência, algo que nasce com a gente e que, a partir dos dois anos, nos dá sentimentos aflitivos que nos mantêm vivos: repugnância de fezes e de podridão; medos de escuro; de altura; de confinamento; de grandes felinos; de répteis; de grandes insetos voadores… e de desamparo.

Este último é a chave do problema: ele rondará qualquer relação humana importante que tivermos, a começar, claro, pela relação com nossos pais, de quem nossa sobrevivência dependeu por longo tempo. “Ah, mas eu nunca me senti desamparado por meus pais”. É verdade, eles não te ameaçaram com perda de amor nem com abandono, mas como é que, na paixão, você ficou aterrorizado com a ideia de perder o amor da sua vida?

É porque, mesmo amados, nós nos tornamos sensíveis a variações de ibope. Exemplo: “Meu irmão era uma peste e brigão, mas minha mãe, mesmo se queixando, dava-lhe tremenda atenção. Foi assim que intuí a estratégia de conseguir atenção e amor através de ser o oposto dele. Fui bonzinho, prestativo, nunca dei trabalho, fui ótimo aluno, nunca raivoso, sempre aceitando tudo”.

Esse daí fez pós-graduação para se tornar obsessivo: reprimiu a raiva, o ciúme, o sentimento de injustiça através de construir um ideal de perfeição baseado no antimodelo peste que foi seu irmão. Foi assim que absorveu uma crença de um mundo sem meio-termo: ou 100%, ou zero; ou branco imaculado, ou manchado imprestável e desprezível; ou isto, ou aquilo (como no imortal poema de Cecília Meireles, uma ode à obsessão). Foi assim que seu Superego se construiu: com uma face ideal e perfeita, e outra face julgadora, que olha com desprezo e crítica para o Ego a partir dessa perfeição.

Acontece que a perfeição só existe como ideia, como ideal. A realidade – que pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente (Woody Allen) – nunca é cem por cento.

Vai daí que o nosso obsessivo – ou seu Superego – sabe-se menor que 100%, e só dá atenção aos 20% que faltam. Ele é obcecado com a falta, com a falha, com o defeito, nunca elogia o que está bom, só comenta o que está ruim, e isso a começar por si mesmo. Às vezes ele pode se conter e não fazer essas críticas aos outros (aprendeu que é feio ser judicioso, por exemplo), mas que ele pensa isso tudo, ah, pensa. E o primeiro a ser julgado é ele mesmo.

Não é à toa que se tornou um Groucho: seu clube ideal 100% não o aceita, mas é o único que ele julga merecedor de sua aprovação. Já pensou o efeito devastador que isso tem nas relações amorosas?


Artigos: Drama e culpa, armas de manipular


Yuval Harari, em seu “Homo Deus”, diz que “No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Passamos o tempo debatendo questões secundárias”.

Pois me parece muito relevante entender como nossas mentes podem ser manipuladas, nossa capacidade de raciocinar turvada, nossa boa fé ludibriada. Tanto quanto saber detectar vigaristas que usam esses expedientes, para nos defender deles: a democracia precisa do voto consciente. E meu trabalho de psicanalista é tornar a consciência cada vez mais aguda, em mim mesmo, no consultório ou onde me deem voz. Creio que essa questão não tem nada de secundária.

Dois dos expedientes mais eficazes de manipulação de mentes são fazer drama e nos criar sentimento de culpa. Essa manobra não podia nos ser mais familiar, e digo “familiar” stricto senso, já que muitas mães usaram e abusaram disso para nos conduzir, digamos assim, sempre com a melhor das intenções, claro.

Não é de surpreender que políticos populistas tenham importado o truque para a condução das massas, transformando-as em rebanhos dóceis.

Isso me ficou gritantemente claro ao assistir à série “Hitler, o círculo do mal”, da Netflix. Como isso aconteceu no mesmo dia em que vi o Lula discursando antes de ser preso, as semelhanças me assombraram.

Senão, vejamos: a postura messiânica do führer ao discursar, cuidadosamente ensaiada frente ao espelho para transmitir a maior dose de drama possível, aliava-se à estratégia arquitetada pelo gênio da propaganda manipulativa, Josef Goebbels. Hitler sabia hipnotizar seus seguidores transmitindo-lhes a ideia de que eram vítimas: dos Aliados, que os humilharam no tratado de Versalhes, mas sobretudo da conspiração dos judeus para dominar o mundo – os judeus eram usados então como a CIA e os Estados Unidos o são atualmente na propaganda política.

Tomados pelo drama que Hitler encenava em seus discursos, cada vez mais seguidores abdicavam de pensar por conta própria, o grande homem pensava por eles, tudo o que lhes cabia era segui-lo com fervor religioso. Acima do bem e do mal, criticá-lo seria um crime de lesa-pátria: ele já não era mais um homem, “era uma ideia”.

Hitler conseguiu polarizar a Alemanha numa espécie de “nós contra eles” sem meio termo: se você não estiver do nosso lado, então você é do inimigo. De todos era exigida uma adesão incondicional. Suas milícias tinham salvo- conduto para depredar, vandalizar, pichar, desmoralizar, caluniar, espancar qualquer um, ou qualquer coisa, que fosse identificado como sendo parte desse “eles”.

Mas, e o sentimento de culpa? Ainda não foi inventado um instrumento de poder que a ele se compare: você pode manter alguém de joelhos sob a mira de um revólver, mas afastada a ameaça, o outro se levantará. Se você conseguir fazê-lo sentir-se culpado, ele lhe rogará para ficar de joelhos.

E a culpa tem dois lados: o do algoz (o culpado) e o da vítima. Hitler se identificava – e identificava seus correligionários – como vítima, e clamava por vingança contra seus algozes. Na dinâmica do sentimento de culpa, a vítima está automaticamente absolvida, não tem culpa de nada, é um perseguido. E mais, está ungida de uma espécie de nobreza, a nobreza do mártir, aquela que transforma a vítima num santo. Esse é o poder do vitimismo.

Com essas ferramentas de poder, Hitler se elegeu democraticamente na Alemanha. Tomado o poder, aparelhou com nazistas todas as instituições, inclusive o judiciário, até conseguir o poder absoluto. O resto é história.

 

 

 

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