Artigos: Drama e culpa, armas de manipular


Yuval Harari, em seu “Homo Deus”, diz que “No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Passamos o tempo debatendo questões secundárias”.

Pois me parece muito relevante entender como nossas mentes podem ser manipuladas, nossa capacidade de raciocinar turvada, nossa boa fé ludibriada. Tanto quanto saber detectar vigaristas que usam esses expedientes, para nos defender deles: a democracia precisa do voto consciente. E meu trabalho de psicanalista é tornar a consciência cada vez mais aguda, em mim mesmo, no consultório ou onde me deem voz. Creio que essa questão não tem nada de secundária.

Dois dos expedientes mais eficazes de manipulação de mentes são fazer drama e nos criar sentimento de culpa. Essa manobra não podia nos ser mais familiar, e digo “familiar” stricto senso, já que muitas mães usaram e abusaram disso para nos conduzir, digamos assim, sempre com a melhor das intenções, claro.

Não é de surpreender que políticos populistas tenham importado o truque para a condução das massas, transformando-as em rebanhos dóceis.

Isso me ficou gritantemente claro ao assistir à série “Hitler, o círculo do mal”, da Netflix. Como isso aconteceu no mesmo dia em que vi o Lula discursando antes de ser preso, as semelhanças me assombraram.

Senão, vejamos: a postura messiânica do führer ao discursar, cuidadosamente ensaiada frente ao espelho para transmitir a maior dose de drama possível, aliava-se à estratégia arquitetada pelo gênio da propaganda manipulativa, Josef Goebbels. Hitler sabia hipnotizar seus seguidores transmitindo-lhes a ideia de que eram vítimas: dos Aliados, que os humilharam no tratado de Versalhes, mas sobretudo da conspiração dos judeus para dominar o mundo – os judeus eram usados então como a CIA e os Estados Unidos o são atualmente na propaganda política.

Tomados pelo drama que Hitler encenava em seus discursos, cada vez mais seguidores abdicavam de pensar por conta própria, o grande homem pensava por eles, tudo o que lhes cabia era segui-lo com fervor religioso. Acima do bem e do mal, criticá-lo seria um crime de lesa-pátria: ele já não era mais um homem, “era uma ideia”.

Hitler conseguiu polarizar a Alemanha numa espécie de “nós contra eles” sem meio termo: se você não estiver do nosso lado, então você é do inimigo. De todos era exigida uma adesão incondicional. Suas milícias tinham salvo- conduto para depredar, vandalizar, pichar, desmoralizar, caluniar, espancar qualquer um, ou qualquer coisa, que fosse identificado como sendo parte desse “eles”.

Mas, e o sentimento de culpa? Ainda não foi inventado um instrumento de poder que a ele se compare: você pode manter alguém de joelhos sob a mira de um revólver, mas afastada a ameaça, o outro se levantará. Se você conseguir fazê-lo sentir-se culpado, ele lhe rogará para ficar de joelhos.

E a culpa tem dois lados: o do algoz (o culpado) e o da vítima. Hitler se identificava – e identificava seus correligionários – como vítima, e clamava por vingança contra seus algozes. Na dinâmica do sentimento de culpa, a vítima está automaticamente absolvida, não tem culpa de nada, é um perseguido. E mais, está ungida de uma espécie de nobreza, a nobreza do mártir, aquela que transforma a vítima num santo. Esse é o poder do vitimismo.

Com essas ferramentas de poder, Hitler se elegeu democraticamente na Alemanha. Tomado o poder, aparelhou com nazistas todas as instituições, inclusive o judiciário, até conseguir o poder absoluto. O resto é história.

 

 

 


Natureza Humana: O drama como instrumento de poder


Drama: p.ext. psic. estado de comoção provocado por experiência emocional penosa e desgastante.

Cena 1: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela leva as costas da mão à testa, diz “Ohhhh…” e desmaia.
Cena 2: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela põe a mão no queixo, entorta a cabeça para o lado e diz: “É só isso que você tem para mostrar? Se toca, ô cara!”

O que difere nas duas cenas é a presença ou a ausência de drama. Como diz o dicionário, no primeiro caso a mocinha teve uma “experiência emocional penosa e desgastante”, viveu um drama. No segundo, a mocinha percebeu da coisa o ridículo, que é o desmascaramento da pretensão descabida: zero de drama!

O que levou a haver drama para a primeira moça foi seu Superego lhe dizer, a partir de tudo o que ela ouviu em sua criação, que sexo é horrível se estiver fora do contexto dos sagrados laços do amor e do matrimônio. Mesmo assim é assunto que não se fala, muito menos se exibe. Seus pais sempre fizeram o maior “drama” do tema, dizendo à filha que ela “precisava evitar um destino pior que a morte: a desonra!” Ela acreditou, comprou o drama e se tornou uma escrava de seu Superego.

Você pode pensar, “mas que moça mais neurótica!”, e terá razão: não há neurose se não houver drama, e toda pessoa muito dramática tem enormes chances de sofrer de neurose.

A menos, claro, que seja como esses políticos que usam o drama como ferramenta de manipulação de seus seguidores, pois entenderam muito bem que o drama é um poderoso instrumento de poder. Aí o diagnóstico não é de neurose, e sim de sociopatia; eles não acreditam no drama que fazem, internamente se riem de seus devotos, olham para eles como um bando de otários fáceis de enganar.

Para se ter ideia do jogo de poder que envolve a neurose, uma paciente fóbica e com síndrome do pânico teve câncer. A partir de sua luta pela vida, cirurgia, quimioterapia, os sintomas neuróticos sumiram por completo! Como nos versos de Camões, “Cesse tudo o que a antiga musa canta, que um poder mais alto se alevanta”. Uma vez curada, para sua surpresa o pânico e a fobia voltaram: o que era o drama da neurose face à ameaça da morte? O Superego se encolheu e ficou esperando sua oportunidade. Quando ele viu que a morte se distanciou, veio com tudo de novo.

Um outro exemplo, este do cancioneiro popular, está no samba “O mundo não se acabou”, de Assis Valente: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar (…)/ Acreditei nessa conversa mole/ pensei que o mundo ia se acabar/ e fui tratando de me despedir/ e sem demora fui tratando de aproveitar/ beijei na boca de quem não devia/ peguei na mão de quem não conhecia/ dancei um samba em traje de maiô/ e o tal do mundo não se acabou”.

Claro que quando o mundo não se acabou, o Superego voltou com tudo, e a pobre criatura ficou arrasada de vergonha… Ela, que tinha se divertido a valer, agora via seu passado recente como “uma experiência emocional penosa e desgastante”. Como um drama!

Não é preciso ir tão longe, qualquer pessoa que enfiou o pé na jaca, tomou todas, pintou e bordou na véspera (diz- se que o Superego é solúvel em álcool), no dia seguinte morre de ressaca, sobretudo de ressaca moral, com a volta do drama.

Como contraste temos a comédia: o que faz a comédia de costumes senão nos fazer rir de nossos próprios dramas? O comediante americano Chris Rock faz sua plateia se dobrar de rir ao lhes perguntar: “Por que você acha que sua mulher te trata feito um cachorro? Porque você não foi a primeira escolha dela, otário!” Homens e mulheres gargalham, ao verem seu drama tornado risível naquele pequeno momento de pouca seriedade permitida. Depois, voltam ao normal…

De fato, é preciso levar-se muito a sério para acreditar em drama: em todas as novelas, os personagens se levam horrivelmente a sério. “Rodolfo Augusto, o que significa essa marca de batom?” “Não é nada disso que você está pensando, Yolanda Cristina, eu posso explicar!” Não é à toa que a arte de escrever novelas se chama “dramaturgia”.

Enfim, Espinoza nos ensinou que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam. Pois se há um cordel poderoso de que o Superego usa e abusa, esse é o drama.

 


Natureza Humana: Raiva injusta


Desde que nascemos, a coisa mais difícil de se gerenciar (além do erotismo) é a raiva. A raiva nos surge em qualquer percepção de injustiça por nós sofrida, e ela é fundamental para que tenhamos força e motivação para corrigir essa injustiça. Sem indignação não há justiça, dessa forma podemos dizer que A RAIVA É MÃE DA JUSTIÇA.

A justiça, por sua vez, vem da avaliação do tipo de troca que estabelecemos com o mundo, e que o mundo estabelece conosco. Se a troca é justa, é acertada, é equivalente, sentimos paz. Se nos tiram, nos subtraem, nos abusam, sentimos raiva. E a raiva busca um acerto de contas, ou seja, justiça. Isso não é aprendido, nasce com a gente.

Uma criança opera sua raiva de forma… infantil: sai batendo, sai gritando, sai chorando, muito devido à sua impotência frente à raiva. Cedo a cultura (i.e., o Superego) lhe ensina que isso é errado. Mas não lhe ensina o que fazer para operar sua raiva de maneira civilizada em busca de justiça. A principal função do Estado, desde que foi inventado após a revolução agrícola, há uns onze mil anos, é exatamente a de mediador de conflitos e promovedor de justiça. O cidadão abre mão do uso da violência em causa própria e entrega ao Estado (a quem sustenta com seus impostos) a mediação de seus conflitos, sua segurança contra o crime e a predação,  a promoção de justiça, enfim.

Haveria dois lugares onde o gerenciamento da raiva deveria ser ensinado: a casa e a escola. Infelizmente, tal não acontece, nem em uma, nem em outra. Ambas se reúnem para reprimir a raiva, mostrá-la como algo feio e errado, algo a ser suprimido, a ser substituído pela “bondade”. O resultado é isso que vemos: doença neurótica obsessiva, ou transgressão sadomasoquista. A obsessividade funciona sobre dois eixos: pureza e controle. A principal “pureza” que o obsessivo busca é a ausência de maus sentimentos, do rancor, da vingança, da maldade. Seu ideal de controle serve aos mesmos propósitos de busca de pureza: arrumação, pontualidade, higiene e limpeza exageradas, um mundo perfeito de ordem e de paz. Quanto mais raiva a reprimir, mais rejuntes de azulejos a serem limpados com cotonete, mais quadros tortos a acertar. Mas… a injustiça que causou aquelas raivas continua sem ser corrigida.

O sadomasoquismo é também ineficiente. Primeiro porque ele é deslocado: um menino que tortura animaizinhos não está corrigindo a injustiça original, está é arranjando mais encrenca para si mesmo. Depois porque ele vicia, a criança fica apegada a seus jogos malvados (o bullying é um exemplo típico), sendo ativamente cruel, e assim repassando a crueldade que sofreu, perpetuando a injustiça. Quem não se lembra do “passa adiante, se não vira elefante”? O aluno da carteira de trás dava um cascudo no da frente, e o da frente, em vez de corrigir o malfeito, tornava-se malfeitor também.

Mas nem toda raiva é fruto de um clamor justo: há raivas injustas. A mais típica é a inveja. Se fulano tem um carro melhor do que o meu, não é justo que eu acredite que ele está me sacaneando por isso… apesar de o sentimento ser esse. Esta é a principal dificuldade para se chegar a um bom conceito de justiça social, por exemplo: ela é frequentemente concebida como uma igualdade de posses, em vez de se pensar em igualdade de oportunidades, e em igualdade frente às leis, essas sim, os pilares da democracia.

Já os ciúmes, apesar de poderem ser clamor injusto, muitas vezes são raiva justa: se uma criança é completamente negligenciada pelos pais porque nasceu um bebê novo na casa, ela está coberta de razão para sentir raiva da situação.

Meu ponto aqui é que nem toda raiva é coisa feia a ser reprimida, e pode ser olhada com a seguinte pergunta interna: “onde estou sendo injustiçado, e o que posso fazer para corrigir isso?”; mas também que nem toda raiva contém um clamor indiscutível de justiça.

 


Natureza Humana: A homofobia como religião


Entendida geralmente como ódio aos gays, a homofobia tem como principal sentimento, tudo me convence disso, o próprio medo (fobos, em grego). O ódio é decorrência do medo, como veremos.

Mas medo a quê? Aí entra a complexidade humana, a lista é extensa: medo a ter algo de gay em si, e a consequente terceirização como defesa, e aí entra o ódio (“o gay é ele”); medo de perder cacife de sedução junto às mulheres por não ser suficientemente másculo; medo de banimento, do ostracismo, da segregação, de ser exilado de seus pares, degredado de sua tribo por mostrar que não tem qualificações para a ela pertencer, pois no fundo é “um daqueles”.

Este último medo é o mais grave de todos. Entre os medos de raiz com que nascemos (altura, escuro, répteis, grandes insetos voadores, grandes felinos), o medo do desamparo talvez seja o mais intenso. Nossa espécie é dependente de amparo desde que nasce, e sua sobrevivência supõe cooperação do grupo. Não à toa um dos castigos mais severos conhecidos é o banimento, o exílio, a rejeição social.

Mais um fator que leva à homofobia: a construção da identidade masculina. Como os pavões, nós também precisamos de penas para exibir e atrair as fêmeas, algo que mande a elas a mensagem “eu sou um macho atraente”. Força, coragem, proeminência social, ser “vencedor”, competitivo, derrotar os outros, não mostrar atributos femininos quaisquer, enfim, ser um fodão e não um merda, essas são algumas de nossas penas de pavão.

Mas já se pode notar uma equivalência entre ter atributos femininos e ser desqualificado como um merda (uma das origens da misoginia, a propósito).

É aí que a homofobia começa: em nossa infância. Desde cedo estamos treinando sem saber para adquirir essas penas, é um empurrão da mãe natureza presente em todos os mamíferos. Nenhum menino correlaciona os jogos eróticos com seus pares à identidade gay, eles não estão nem aí para isso. Seu foco é exclusivamente sobre o que parecer feminino. O xingamento entre meninos não é “viadinho”, é “mulherzinha”. Meninos bonitos de feições delicadas sofrerão bullying por se parecerem com meninas. Brincadeiras que não sejam musculares idem, imagine-se um menino a brincar de casinha… O desprezo pelas meninas (o clube do Bolinha dizia, “menina não entra”) se estenderá aos meninos que com elas se parecerem, comportamental ou fisicamente. Daí se desenvolve uma patrulha que examina atentamente gestos, maneira de andar, de falar, opiniões, gostos etc. que se une à competitividade para dizer “eu sou fodão, você é merda”.

À partir da puberdade, com a chegada dos hormônios sexuais, se conectam finalmente o “mulherzinha” e o gay: se ele é mulherzinha, então ele gosta de outros homens, e pior, gosta de ser possuído por outros homens, como se fosse uma mulher. Eis porque o homossexual passivo será mais desprezado ainda.

É esse conjunto da obra que faz com que a homofobia entre adultos possa ganhar o status de religião: uma crença supernatural que estabelece o certo e o errado sobre como um homem deve ser, se comportar e pensar, que reune adeptos, que tem práticas rituais reiteradas, que forma uma coligação poderosa à qual é interessante pertencer… e da qual é terrível ser banido.

Pense na brincadeira de implicar mais comum entre grupos masculinos: é suspeitar de, ou insinuar a falta de masculinidade em seus pares. Isso é típico ritual religioso: está reafirmado o culto a um deus (a macheza), e o repúdio aos demônios (a viadagem); existe um céu (o triunfo da fodonice) e um inferno (o banimento e a humilhação).

O terror desse banimento é tal que a mais destruidora forma de mecanismo de defesa contra a angústia – a psicose – frequentemente se dá diante do medo de se tornar gay. A pessoa se desmantela internamente, se desorienta, alucina e delira. A alucinação auditiva mais comum: o psicótico ouve vozes que o chamam de viado.

Preciso dizer mais?

 


Artigos: Imbecilidade: agravantes e atenuantes


[Texto especial para a Folha de S. Paulo]

“Os imbecis perderam a modéstia”; “Os idiotas vão dominar o mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

As famosas frases de Nelson Rodrigues constatam uma triste realidade da espécie. Não à toa Churchill disse que a democracia era o pior dos regimes (com exceção de todos os outros).

Mas queixar-se da imbecilidade humana é como queixar-se da chuva: é um dado da natureza e não há nada a fazer, exceto proteger-se dela.

Minha questão aqui é que a ninguém a imbecilidade é alheia, não há quem esteja imune a ela; todo Einstein tem seu momento de Eremildo, o personagem idiota do Elio Gaspari. O que quero comentar são os fatores que agravam a imbecilidade, e os que a atenuam, para que todos nós possamos lidar melhor com ela.

Você pensará que “lidar melhor com ela” visa apenas atenuá-la, mas não; eu acredito que há muita gente mal intencionada querendo aumentá-la. Se não, como explicar o descalabro da educação pública? Esta, que é o pilar da busca da igualdade de oportunidades; esta, que transformou a Coreia do Sul em potência econômica em poucas décadas, em nossa terra é entregue às baratas. Deve haver muito político temendo um povo esclarecido, preferindo pobres mendigando por uma bolsa-esmola a troco de votos…

A chave psicológica do aumento/diminuição da imbecilidade está na capacidade humana de reflexão/reação. Se somos induzidos à reatividade, nossa burrice aumenta. Se temos espaço para a reflexão, o que aumenta é a nossa inteligência.

É verdade que nossa espécie não teve muito estímulo para a reflexão em suas origens: imagine um ancestral nosso na savana africana vendo um bando de amigos em correria. Se ele parasse para refletir sobre o pânico público, provavelmente teria sido devorado por um predador, não deixando descendentes. A reatividade de sair correndo junto salvou sua vida. A filosofia teve mais chance de existir quando o grego clássico pôde tranquilamente conversar e refletir com seus pares na Ágora.

Eis que nesse cenário acima está o que determina a reatividade, e o que possibilita a reflexão: sentir-se – ou não – ameaçado; precisar – ou não – de se defender. De fato, todos os mecanismos de defesa psíquicos são emburrecedores. Tomemos apenas a negação como exemplo: todos nós estamos fadados a morrer. A morte e os impostos são as duas únicas certezas da vida. Agora considere a quantidade de energia que a humanidade investe na negação da morte. Considere o aluguel mental que isso traz, todas as derivações dessa negação (Galileu e a rejeição ao heliocentrismo, p.ex.), e você terá uma pálida ideia da influência emburrecedora dos mecanismos de defesa.

Para um exemplo mais recente, considere os nossos “debates” políticos. Há espaço para reflexão neles? Todos se ocupam de atacar o oponente através dos piores adjetivos, pois sabemos que “a melhor defesa é o ataque”. Claro, todos estão sob a ameaça dos rótulos horríveis que cada parte lhes lança. Eis porque só fazem reagir. É a imbecilidade desfilando em toda sua glória.

Algo em âmbito mais próximo? Pense nas D.R. (Discussões de relação). A ameaça de rompimento, de desamparo, de perda de amor está tão presente que a reatividade defensiva impera, é por isso que não se vai muito longe nelas… Se elas começassem com uma declaração apaziguadora (“eu te amo e quero me entender bem com você”), as chances de reflexão seriam maiores.

Todas as doenças psíquicas – neuroses, psicoses, perversões, depressão, psicopatia – derivam de se estar aprisionado a mecanismos de defesa contra as ameaças do mundo (i.e., do Superego), e sabemos como elas nos reduzem a capacidade de raciocinar.

Eis porque adoro a conversa calma e amigável; o ambiente que acolhe e não acusa; a amizade que não pressupõe malícia da outra parte; a autoridade do saber, e não a de mando; a democracia parlamentar, e não a tirania.

 


Natureza Humana: Uma proposta radical de psicanálise


“Radical” significa “de raiz”. “Psicanálise” significa “pesquisa para conhecer o funcionamento da mente”. De modo que o título acima pode ser traduzido como “Uma proposta que leva em conta as condições de raiz do funcionamento da mente, para seu conhecimento”. Não há nada mais de raiz em nossa existência que o impulso de reprodução que trazemos em nosso DNA. De fato, reprodução é o único sentido biológico da vida, e tudo decorre dele, inclusive nosso instinto de autopreservação (precisamos estar vivos para reproduzir). Em nossa espécie, a reprodução é sexuada e implica negociação entre as partes. Se imaginarmos uma negociação vantajosa para ambas as partes numa escala de zero a dez, ela irá de zero no estupro troglodita do homem das cavernas, e caminhará para dez quanto mais consensual e civilizado o sexo for.

Nossa espécie é também capaz de consciência, e tem margem crescente de liberdade de arbítrio quanto mais autônomo independente for o indivíduo.

Disso resulta que o arbítrio, a escolha, se dará sobre que tipo de sexo se almeja: estupro ou consensual? Não é uma questão de ou oito ou oitocentos, é uma questão de tendência: teremos mais ou menos consideração pelos interesses e desejos do outro? Usaremos de chantagem, ou de sedução? De força, ou de convencimento? Intimidaremos, ou encantaremos? Não há escapatória: todos nós estaremos diante desse dilema.

Mas o dilema se apresenta apenas no sexo? É evidente que não, ele está diante de nós em toda e qualquer troca humana, em toda conversa, em todo trabalho, em toda criação de filhos. Até em textos que escrevermos estaremos escolhendo: imposição ou convencimento?

A mesma questão se apresenta quando o assunto é política, quando o dilema tem a seguinte tradução: tirania ou democracia? Sim, a metáfora é: a tirania é o estupro; a democracia é o sexo consensual. O que vamos querer? Quanto a isso não há neutralidade nas relações humanas: a escolha se impõe, mesmo se não a explicitarmos. Mesmo se inconsciente, tomaremos um dos dois caminhos, seremos principalmente a favor, ou de um, ou de outro.

O que nos leva à psicanálise. Sim, ela é um método de investigação, um estudo do funcionamento da mente. Mas ela também é uma intervenção terapêutica no indivíduo, o que implica um desejo de interferir nos rumos de sua vida: ela categoriza algo que se passa nele como problema, como doença, e se propõe a ajudá-lo a sair dessa condição. Se concordamos com essa premissa, a psicanálise não pode se pretender “neutra”: ela terá que fazer face ao dilema imposição x convencimento; tirania x democracia.

Freud descreveu a mente com três instâncias, ou, já que estamos falando de política – e há uma política na mente –, “três poderes” que interagem em harmonia ou em conflito: o Id, com suas exigências ligadas à reprodução, seus desejos dela derivados; o Superego, representante do mundo externo, suas leis e suas ameaças; e o Ego, aquilo em que nos reconhecemos como identidade, em permanente conversa com os outros poderes, frequentemente esmagado por eles.

Na política da mente pode também haver tendência à tirania ou à democracia, à imposição ou à boa negociação. Cabe a nós almejar uma delas e lutar por ela.

Mas meu assunto aqui é o que cabe à psicanálise. Como vimos, o que não cabe de jeito nenhum é a neutralidade, pois a doença psíquica bem pode ser definida como a tirania reinando na política mental: ora o Ego (leia-se “nós”) é um joguete nas mãos do Id; ora é um servidor submisso do Superego; ora é como o marisco, espremido na guerra entre o mar e o rochedo.

Eis minha proposta radical de psicanálise: ela precisa se posicionar a favor da democracia e contra a tirania. Vale dizer, a favor do convencimento e contra a imposição; a favor do melhor entendimento entre os poderes psíquicos, para que o Ego possa existir em paz.

A favor do sexo consensual, e contra o estupro.

Você me perguntará como isso se implementa. Pois pretendo responder a essa pergunta de maneira extensa num livro com o mesmo título deste artigo. Este é o meu projeto para o ano de 2018.


Natureza Humana: A fresta


_

“Ó Manuel, a tua mulher transa contigo, é por amor ou é por interesse?”

“Ó Joaquim, deve ser por amor. Ela não mostra o menor interesse…”

De fato, a despeito de cada um de nós ser um universo complexo de dramas, desejos, memórias, sentimentos e histórias, nossa espécie não parece muito interessada em mergulhar nesse oceano, a menos que efemeramente motivada por Eros. Percebemos o outro e somos por ele percebidos como se vistos por uma fresta de porta.

Pense bem, e com cruel sinceridade: quantas pessoas te conhecem, não digo completamente que seria impossível, mas 50% de você? Se a resposta encheu os dedos de uma mão, você é um milionário.

Tudo começa, sim, pela falta de interesse, mas esse conhecimento esbarra em tropeços, como o da leitura tendenciosa. A primeira lição de psicanálise deveria ser: não tire os outros por si. Eles são diferentes!

Nessa minha curiosa – em mais de um sentido – profissão, venho me dedicando a exercícios mentais bizarros, mas necessários. Os pacientes sofrem por não compreender como funciona a cabeça de seus entes queridos. O exercício consiste em tentar entrar na pele dessas pessoas e buscar algum símile em mim que sirva de ferramenta para aquele propósito. Isso difere de tirar o outro por mim, uso aqui o princípio do romano Terêncio (190 a.C.), “nada do que é humano me é estranho”.

Dois casos: como funciona a mente de quem tem Alzheimer? Os pais idosos dos pacientes são fonte de incompreensão, impaciência e culpa. É preciso compreendê-los. Se você já tomou um porre, ou ficou chapado de maconha, sabe o que é a perda da memória de curto prazo. Não é amnésia, porque a memória não se forma. Você não saberia o que está escrito no início do artigo, nem ele que você o visitou há pouco. Há flashes de consciência, mas ela estará ligada a arquivos antigos, e deles vêm os sentimentos. De resto, a coisa é semelhante a estar dormindo, mergulhado numa névoa.
O segundo caso é como funciona a mente de um imbecil. Este tem particular importância, já que eles são a franca maioria da humanidade, foi por isso que Churchill disse: “a democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”. Esse símile é mais fácil: todos somos imbecis em vários momentos da vida, haja vista a adolescência, quando a insegurança e o medo nos levava ao movimento imbecil típico de se agarrar em certezas extremas, o tal “segura na mão de deus e vai”, não importa o deus, se religioso ou político. É o tempo em que temos certeza de que nossos pais são imbecis…

Sim, a falta de humildade é uma das características. Outra é a incapacidade Homer Simpson de reflexão: reatividade e imediatismo. Um estímulo será categorizado como bom ou mau, e a reação vem a galope. Ah, claro, as categorias de julgamento são poucas, e o veredicto, rápido. Atualmente, a da moda é: isso me ofende? Ofende alguém? Posso acusar o outro de ofensivo?

Vem da obsessão em sentir-se superior, e defender-se de qualquer coisa que o diminua: o terror de parecer merda.

Definitivamente, interessar-se por conhecer o outro é um gosto adquirido, como o da música clássica. E tão raro quanto…

PS: Esta é a última vez que minha coluna sai na Folha, pois me dispensaram.


Natureza Humana: Seleção adversa

e

 

“O editor é aquele que sabe separar o joio do trigo… e publicar o joio”, diz a antiga piada jornalística. A peneira de qualquer seleção embute critérios, ora explícitos, ora despercebidos. O da seleção natural é a sobrevivência dos mais adaptados; o da seleção de futebol, a excelência (assim esperamos).

Mais sutis são os critérios da seleção adversa. Para começar, ela nunca é declarada: ninguém enuncia que vai escolher os piores. Depois, sua existência nem percebida é.

Um exemplo chocante e atual: imagine uma profissão que dê status, sustento, que imponha celibato a homens, que os coloque em posição de poder junto a muitos meninos… e você selecionará homossexuais pedófilos.

Outro exemplo: uma profissão que tenha foro privilegiado, seja capaz de livrar da cadeia seus criminosos através de voto corporativo, que tenha acesso ao dinheiro público por decisão de seus pares, e que seu lugar de trabalho seja uma estranha cidade isolada… e você terá muito mais que trezentos picaretas.

Comemorando Lutero, somos herdeiros da Contrarreforma: ela seleciona autoritários, centralistas, sebastianistas, burocratas, conchavistas, bajuladores e corporativistas, inibe empreendedores e incentiva parasitas que esperam tudo de El-Rei. Que tal?

Mas, o que estou falando? Até parece que a minha profissão escapa da seleção adversa. Se não, vejamos: ela também dá sustento e status, e parece bastar-lhe falar complicado, quase um dialeto parecido com o português, ser misterioso, parecer superior, e “não ter compromisso com a cura, mas com a busca do inefável”. Ela atrairá um bando de imbecis pomposos.

A lista não termina: cidades pobres afugentam os belos e os inteligentes (o mesmo se aplica aos bairros e aos shopping-centers pobres); profissões mal remuneradas que parecem fáceis selecionam profissionais fracos (um dos males do sistema educacional); profissões fodonas que parecem difíceis selecionam sadomasoquistas perversos; imunidade a demissões seleciona… funcionários públicos, assim como impunidade seleciona criminosos e cultiva a corrupção.

Você não imagina a minha hesitação em escrever este artigo. A epidemia de ofendidos e de politicamente corretos seleciona vasilinagem e ausência de opinião, mesmo em artigos de… opinião. E produz o seguinte “disclaimer”: claro que levo em conta os abnegados e devotados, os idealistas e os políticos corretos que conseguem furar a seleção adversa e ajudar o Brasil a andar. Mas eles nadam contra a corrente, este é o meu ponto. Se quisermos ser reformistas de fato, precisamos ter consciência dos critérios da seleção adversa: eles podem estar presentes em qualquer ato de escolha. E as eleições vêm aí…

Por fim, nossa mente também é capaz de seleção adversa: você já ouviu falar de “dedo podre” para a escolha de parceiros, não? Pois ele vem de processos inconscientes ligados ao complexo de Édipo: somos por ele levados a buscar alguém muito parecido com aqueles que nos ferraram em nossa criação, e tentar convertê-lo em alguém que corrija nosso passado, nos ame, nos perceba, nos considere e nos trate bem pelo resto da vida.

Sem comentários…

 


Natureza Humana: Os ofendidos


Parece haver uma epidemia mundial de suscetibilidades exacerbadas. Ou, em linguagem simples, o pessoal anda catando pelo em ovo para se mostrar ofendido.

Diante da complexidade que é a mente humana, cada sintoma precisa ser examinado através de seus fatores, um de cada vez, como se fosse uma cebola e suas camadas: das mais externas e óbvias para as mais inconscientes e profundas.

Um fenômeno sociológico como esse mostra fatores muito curiosos, como o da moda, por exemplo. Steven Pinker definiu-a como um instrumento de demonstração de proeminência social, tipo penas de pavão: no topo da pirâmide se desenvolve uma prática tida pelos poucos iniciados como mostra de superioridade. Ela logo começa a ser copiada pelas camadas subjacentes, na tentativa de os menores se assemelharem aos maiores. Quando ela se vulgarizar (significa “espalhar-se pelo povo”), o topo a descarta e passa a outra novidade.

No caso dos ofendidos há também o componente da moda, mas é uma moda que não copia os sofisticados do topo, como as gravatas Hermès do Collor, e sim um outro tipo de sofisticação: o politicamente correto.

Essa outra praga vem se tornando um instrumento de censura prévia e de controle do pensamento “desviante”, ao ponto de o Enen tê-lo como critério para dar zero em redação, felizmente barrado pelo STF.

Há uma clara ligação entre o “p.c.” e a onda de ofendidos, um é fruto do outro, foi a sua incorreção política que me ofendeu, viu? O que visa o ofendido é fazer alguém se sentir culpado para que ele se retrate, ou indenize. Neste particular, ele parece ser filho do coitadismo que assola particularmente o Brasil. Aquele que remete à divisão da sociedade em “oprimidos” (os coitados) e “opressores” (os malvados). Essa linhagem de categorias pode ter como avô o “mártir”, que na tradição católica “oferece a outra face ao agressor”, na busca de fazê-lo se sentir imensamente culpado.

Ora, o sentimento de culpa é a mais poderosa arma de manipulação inventada pela espécie humana: é quando alguém lhe agradece por ficar de joelhos diante de você. Ele também embaralha o pensamento, ao ponto de o culpado abrir mão do direito de defesa: repare que, no truque de oferecer a outra face, ninguém pergunta mais o que provocou o primeiro tapa. E olhe que poderia ter sido fruto de insulto extremo. Lembrando que entre os católicos você poderia ir para o inferno por pecado de pensamento!

Em psicanálise também se usa, para investigar, o “cui prodest” romano (“quem se beneficia do crime?”). Ora, quem ganha com a patrulha de pensamento, o medo de pensar, a “crimideia” orwelliana? Dificilmente seria a democracia. Tem todo o jeito de pensamento autoritário, de controle do povo. Eu sei, eu sei, Marcuse, Gramsci, a substituição da luta de classes pela luta opressor/oprimido, comer a democracia por dentro, aparelhamento etc. Mas quis fazer o argumento desde seu beabá. E ele aí está. Mas faço a ressalva: há ofensas reais, e elas estão no código penal (calúnia, injúria, difamação, discriminação). Há virtude no cuidado em se expressar. Digo isso antes que alguém se ofenda…
P.S. – CIÊNCIA NÃO É GASTO, CIÊNCIA É INVESTIMENTO!

 


Natureza Humana: Sonho de escola


Sergio Bernardes, o arquiteto, respondia àqueles que reclamavam de seus projetos amalucados: “Eu sei que eles não vão ser realizados mesmo, deixa eu delirar”. Pois é motivado por ver meu filho estudando como nunca (“Ah, agora que a escolaridade acabou, eu posso estudar o que quero”), e por mais um massacre feito por aluno vítima de bullying, que me valho da licença de Bernardes para delirar meu sonho de escola.

Nela, seus ensinos principais seriam cidadania e economia doméstica, com matérias subordinadas a esses aprendizados.

Sob o poder moderador da direção da escola, os alunos brincariam de aprender sobre democracia: a principal função do Estado (segurança pública com implementação das leis); a razão de haver Três Poderes separados (permanente desconfiança de vocações tirânicas, cada um vigiando o outro); respeito ao contraditório; as vantagens do parlamento; a mediação de conflitos através do judiciário (fim do bullying impune, ou da vingança pelas próprias mãos); a busca das igualdades ambicionadas pela democracia (de oportunidades, e perante às leis); aprenderiam que o voto é a última instância decisória, e só acontece depois de muito debate; liberdade de pensamento e de expressão (respeitadas as proibições de injúrias, calúnias e difamações); liberdades em geral, se respeitadas as leis; a função dos impostos e sua necessária ligação com os deveres do serviço público (“No taxation without representation”).

A lista é interminável, o que está aqui apenas abre o debate. Poderiam brincar de formar um parlamento, um executivo e um judiciário, experimentar a democracia representativa.

No aprendizado de economia doméstica, a primeira lição seria: dinheiro não cai do céu (Milton Freedman, “não existe essa coisa de almoço grátis”). “Quais são meus custos; quais são meus ganhos”; diferença entre custo fixo e custo variável; entre gasto e investimento; relações custo/ benefício; poupança ligada a planejamento de médio e longo prazo; diferenças entre regimes econômicos (capitalismo/socialismo); relação entre regimes econômicos e regimes de governo.

Como se daria a transmissão de conteúdos? Aí vem uma parte que é o meu xodó: a santa tecnologia iria realizar uma aproximação do mais caro ideal da democracia, a igualdade de oportunidades. Através de tablets e de tutoriais, os alunos de Quixeramobim teriam também os melhores professores do país. A história e a geografia servindo ao aprendizado de cidadania; a matemática e a física, ao de economia doméstica (quem quisesse ir além dos juros e da regra de três, iria fazê-lo por interesse próprio, não por imposição); a língua portuguesa aprendida durante as respostas discursivas aos testes (haveria testes ao fim de cada aula no tablet, tanto discursivas quanto de múltipla escolha), num revisor de texto que mostrasse as impropriedades da escrita.

Haveria grupos de estudos eletivos e obrigatórios, com monitores para ajudar, mas sobretudo para ensinar a estudar.

Finalmente, o recreio: aprendizado de ética na convivência e no esporte.

Algo precisa mudar: a escola atual não prepara cidadãos éticos e independentes.

 

1234567891011121314151617181920