Natureza Humana: Síndrome de Groucho Marx


“Eu nunca entraria para um clube que me aceitasse como sócio!”, disse o comediante americano Groucho Marx (1890-1977). A frase remete a uma crença básica dos obsessivos: “As pessoas veem os 80% que eu produzo de bom, e por isso acham que eu sou inteligente. Mas eu ainda vou encontrar alguém mais inteligente do que eu, que perceberá os meus 20% de idiotice e de fraqueza, e me denunciará pelo que eu sou realmente: uma fraude!”

Só que os portadores da síndrome de Groucho Marx vão um passo além: só respeitarão quem os desprezar, só querem entrar no clube bom o bastante para rejeitá-los como fraudes, e com isso revelam ter ao mesmo tempo uma ideia muitíssimo elevada de si mesmos, convivendo com uma depreciação enorme… de si mesmos.

Como isso é possível? Pela especialmente difícil convivência entre Ego e Superego que os obsessivos têm em geral, e que os “Grouchos” têm, especialmente.

Explicando: o Ego sou eu, ou melhor, o software mental que me permite pensar que existo, que sou uma pessoa; uma interface que olha para o mundo e com ele negocia a partir do que vê em si. O Superego é um tanto mais complexo. Ele começa como um software de sobrevivência, algo que nasce com a gente e que, a partir dos dois anos, nos dá sentimentos aflitivos que nos mantêm vivos: repugnância de fezes e de podridão; medos de escuro; de altura; de confinamento; de grandes felinos; de répteis; de grandes insetos voadores… e de desamparo.

Este último é a chave do problema: ele rondará qualquer relação humana importante que tivermos, a começar, claro, pela relação com nossos pais, de quem nossa sobrevivência dependeu por longo tempo. “Ah, mas eu nunca me senti desamparado por meus pais”. É verdade, eles não te ameaçaram com perda de amor nem com abandono, mas como é que, na paixão, você ficou aterrorizado com a ideia de perder o amor da sua vida?

É porque, mesmo amados, nós nos tornamos sensíveis a variações de ibope. Exemplo: “Meu irmão era uma peste e brigão, mas minha mãe, mesmo se queixando, dava-lhe tremenda atenção. Foi assim que intuí a estratégia de conseguir atenção e amor através de ser o oposto dele. Fui bonzinho, prestativo, nunca dei trabalho, fui ótimo aluno, nunca raivoso, sempre aceitando tudo”.

Esse daí fez pós-graduação para se tornar obsessivo: reprimiu a raiva, o ciúme, o sentimento de injustiça através de construir um ideal de perfeição baseado no antimodelo peste que foi seu irmão. Foi assim que absorveu uma crença de um mundo sem meio-termo: ou 100%, ou zero; ou branco imaculado, ou manchado imprestável e desprezível; ou isto, ou aquilo (como no imortal poema de Cecília Meireles, uma ode à obsessão). Foi assim que seu Superego se construiu: com uma face ideal e perfeita, e outra face julgadora, que olha com desprezo e crítica para o Ego a partir dessa perfeição.

Acontece que a perfeição só existe como ideia, como ideal. A realidade – que pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente (Woody Allen) – nunca é cem por cento.

Vai daí que o nosso obsessivo – ou seu Superego – sabe-se menor que 100%, e só dá atenção aos 20% que faltam. Ele é obcecado com a falta, com a falha, com o defeito, nunca elogia o que está bom, só comenta o que está ruim, e isso a começar por si mesmo. Às vezes ele pode se conter e não fazer essas críticas aos outros (aprendeu que é feio ser judicioso, por exemplo), mas que ele pensa isso tudo, ah, pensa. E o primeiro a ser julgado é ele mesmo.

Não é à toa que se tornou um Groucho: seu clube ideal 100% não o aceita, mas é o único que ele julga merecedor de sua aprovação. Já pensou o efeito devastador que isso tem nas relações amorosas?


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