Natureza Humana: Seleção adversa

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“O editor é aquele que sabe separar o joio do trigo… e publicar o joio”, diz a antiga piada jornalística. A peneira de qualquer seleção embute critérios, ora explícitos, ora despercebidos. O da seleção natural é a sobrevivência dos mais adaptados; o da seleção de futebol, a excelência (assim esperamos).

Mais sutis são os critérios da seleção adversa. Para começar, ela nunca é declarada: ninguém enuncia que vai escolher os piores. Depois, sua existência nem percebida é.

Um exemplo chocante e atual: imagine uma profissão que dê status, sustento, que imponha celibato a homens, que os coloque em posição de poder junto a muitos meninos… e você selecionará homossexuais pedófilos.

Outro exemplo: uma profissão que tenha foro privilegiado, seja capaz de livrar da cadeia seus criminosos através de voto corporativo, que tenha acesso ao dinheiro público por decisão de seus pares, e que seu lugar de trabalho seja uma estranha cidade isolada… e você terá muito mais que trezentos picaretas.

Comemorando Lutero, somos herdeiros da Contrarreforma: ela seleciona autoritários, centralistas, sebastianistas, burocratas, conchavistas, bajuladores e corporativistas, inibe empreendedores e incentiva parasitas que esperam tudo de El-Rei. Que tal?

Mas, o que estou falando? Até parece que a minha profissão escapa da seleção adversa. Se não, vejamos: ela também dá sustento e status, e parece bastar-lhe falar complicado, quase um dialeto parecido com o português, ser misterioso, parecer superior, e “não ter compromisso com a cura, mas com a busca do inefável”. Ela atrairá um bando de imbecis pomposos.

A lista não termina: cidades pobres afugentam os belos e os inteligentes (o mesmo se aplica aos bairros e aos shopping-centers pobres); profissões mal remuneradas que parecem fáceis selecionam profissionais fracos (um dos males do sistema educacional); profissões fodonas que parecem difíceis selecionam sadomasoquistas perversos; imunidade a demissões seleciona… funcionários públicos, assim como impunidade seleciona criminosos e cultiva a corrupção.

Você não imagina a minha hesitação em escrever este artigo. A epidemia de ofendidos e de politicamente corretos seleciona vasilinagem e ausência de opinião, mesmo em artigos de… opinião. E produz o seguinte “disclaimer”: claro que levo em conta os abnegados e devotados, os idealistas e os políticos corretos que conseguem furar a seleção adversa e ajudar o Brasil a andar. Mas eles nadam contra a corrente, este é o meu ponto. Se quisermos ser reformistas de fato, precisamos ter consciência dos critérios da seleção adversa: eles podem estar presentes em qualquer ato de escolha. E as eleições vêm aí…

Por fim, nossa mente também é capaz de seleção adversa: você já ouviu falar de “dedo podre” para a escolha de parceiros, não? Pois ele vem de processos inconscientes ligados ao complexo de Édipo: somos por ele levados a buscar alguém muito parecido com aqueles que nos ferraram em nossa criação, e tentar convertê-lo em alguém que corrija nosso passado, nos ame, nos perceba, nos considere e nos trate bem pelo resto da vida.

Sem comentários…

 


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