Artigos: Riqueza e desigualdade


(Respondendo a uma irmã que me perguntou por que eu não acho o capitalismo “malvado” e o socialismo “bonzinho”).

“Toda propriedade é um roubo”, disse Proudhon, o teórico do anarquismo no século XIX. A crença de que, se há ricos, é porque eles exploraram os pobres tem sido a base do pensamento das esquerdas. Ela explicaria a desigualdade, e é a justificativa moral da luta por justiça social que empreendem.

E isto era verdade até o surgimento do capitalismo. Um senhor feudal era rico porque explorava os camponeses do feudo. Não se criavam riquezas; elas surgiam aqui por subtração ali.

Então o capitalismo produz riqueza? Não é preciso roubar dos pobres? Que evidências há disso? Bem, a história é longa, mas só vamos tomar um único dado para essa demonstração: a população mundial. Ela se manteve estável por séculos, em torno de 300/500 milhões, até 200 anos atrás – quando do surgimento da revolução industrial, a principal decorrência do capitalismo. A partir daí começou seu crescimento vertiginoso até os atuais 7,5 bilhões. Um salto de quinze vezes. Como se uma casa de dois pisos virasse subitamente um prédio de trinta andares. Veja no YouTube:

Foi preciso haver recursos (riqueza) para alimentar essa explosão populacional. Não haveria como isso se desse através de roubo dos mais pobres. Criou-se riqueza, portanto.

Mas, e a desigualdade? Aceitamos bem várias desigualdades: de talento, de beleza, de inteligência. Pode-se até invejar quem tirou na loteria genética, mas no fundo sabemos que isso é da vida. Aceitamos até que a riqueza seja decorrência dessa desigualdade: aplaudiremos um astro de rock, de TV, ou um jogador de futebol muito ricos, pois achamos que eles merecem seu dinheiro. O que desperta a indignação das pessoas é a desigualdade de bens fruto do capitalismo: o rico empreendedor, o rico banqueiro. Não se vê o talento deles. Não se vê seu merecimento por serem ricos. Intuitivamente, pensa-se neles como predadores, causadores da pobreza.

Então a desigualdade que incomoda é a de bens, uns terem mais que outros; e o senso comum “sabe” qual é seu causador: o capitalismo.

No entanto, ao gerar riqueza, o capitalismo fez mais pelo combate à desigualdade que qualquer outro sistema econômico, aí incluído o socialismo real (a menos que se considere a igualdade na miséria causada por ele, vivendo em contraste com dirigentes do partido único super-ricos). Um morador da Rocinha vive hoje com mais conforto que um senhor feudal da Idade Média, que não tinha ar condicionado e TV. Nunca houve uma classe média como a partir do capitalismo. Aliás, nunca houve classe média antes. Um Sebastião Salgado precisa viajar até a África subsaariana para ver um famélico desnutrido; comum é a obesidade.

Agora, o capitalismo é predador. Dele pode-se dizer o mesmo que da natureza humana: deixado solto, ele explorará e dominará. Sua face mais cruel foi a escravatura. Por isso a democracia representativa põe-lhe os freios, civiliza-o. Quem mais bem fez à domesticação do capitalismo foi Karl Marx: ao apontar sua face cruel, ao predizer sua queda, ele fez com que as democracias começassem a tornar o capitalismo mais civilizado, a tirar sua selvageria. Como o capitalismo é um sistema vivo, diferentemente do dogmático socialismo, ele está em permanente mudança para sobreviver, em permanente adaptação.

E aí as esquerdas democráticas têm um papel fundamental, que é fazer com que a riqueza gerada pelo capitalismo reverta cada vez mais para a igualdade que a democracia almeja: igualdade de oportunidades e de direitos. Educação, infraestrutura e segurança. Confiança de que as leis serão aplicadas a todos igualmente.


Artigos: Riqueza e desigualdade – Folha de S. Paulo (19/05/2019)

21/05/2019

Follow @FranciscoDaudt // O senso comum brasileiro diz que o capitalismo é malvado e que o socialismo é bonzinho. Só que não é bem assim… [...]


Artigos: Riqueza e desigualdade

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Sobre a crônica da Danuza Leão (“Ela”, de hoje, 20/01/19, do “O Globo”)

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