Artigos: Reação e reflexão


(Reportagem completa em Época ou na versão impressa)

Nunca ficou tão claro quanto na atual campanha que ela é mais um plebiscito contra ou a favor de Lula e seu PT. É uma competição de rejeições: ele não/PT não. Toda a estratégia de marketing das duas campanhas está voltada à reação contra a outra: “Não ao comunismo!” “Não ao fascismo!” Vi um comentarista da tv lamentando que a propaganda dos candidatos não contemplasse propostas de governo, que fosse focada nos horrores do oponente, que só apostasse na reação dos eleitores.

Mas isso faz sentido, é uma aposta nas características mais primitivas da natureza humana, o imediatismo e a reatividade. Elas ganham de longe do pensamento de médio/longo prazo e da reflexão. Imagine nosso ancestral na savana africana vendo um grupo de conhecidos passar correndo. Seu instinto de sobrevivência lhe diria para sair correndo junto, nada de parar para refletir o que levava aquela gente a tal correria. A humanidade descende dele. O reflexivo foi devorado.

Mas há um elemento desencadeador dessa reatividade: o drama. A questão ali era de sobrevivência imediata, quanto mais drama, menos reflexão. Se a estratégia de marketing visa a reação, a tendência é tocar terror, é amplificar o drama. Não é à toa que a filosofia só foi surgir depois da revolução agrícola, quando a sobrevivência imediata ficou menos dramática, e havia tempo livre para se sentar na ágora e conversar com os amigos.

É o que pretendo fazer aqui, uma pausa para refletir sobre os movimentos pendulares de reatividade que costumam dominar a política, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Num breve apanhado a partir do início do capitalismo, os ideais da revolução francesa de liberdade e de igualdade (deixemos a fraternidade por enquanto de lado, por excessivamente ideal) sempre foram perseguidos de maneira polarizada e reativa: a direita defendendo a liberdade; a esquerda defendendo a igualdade, e cada um achando que o outro estava errado.

Abro aqui um parêntesis para considerar que a própria democracia é uma forma reativa de governo: desde seu início ela reage à atração humana pela tirania. Os governantes da Grécia Clássica viviam sob suspeita de se ambicionarem tiranos. Pudera, a tirania é imediatista e a democracia é um investimento de médio/longo prazo. Se a assembleia ateniense lhes desse um voto de desconfiança escrito dentro da casca de uma ostra, eram enviados ao… ostracismo. A divisão democrática em três poderes tem esse propósito: um poder vigia o outro em permanente desconfiança de seus desejos tirânicos.

Voltando: o capitalismo em seu estado selvagem produziu uma desigualdade que tem na escravatura seu maior exemplo. Os defensores da igualdade, as esquerdas, começaram aí a conquistar os corações de boa vontade pelo mundo. Essa reação tomou sua forma principal no remédio de Karl Marx, o comunismo/socialismo, cujos defensores se autodenominavam “progressistas”, e denominavam seus opositores de… “reacionários”, como se eles reagissem ao progresso. Como a igualdade proposta pelo comunismo era difícil de ser conseguida por convencimento, o remédio deles incluía a tomada de poder pela revolução e a imposição de uma ditadura do proletariado, incluindo o fuzilamento de opositores.  Mas a lei de lord Akton passava a funcionar (“O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”), e os dirigentes comunistas tendiam a se esquecer da igualdade (ou a promover a igualdade na miséria) em favor da ganância.

A direita então reagiu, sempre em movimentos autoritários também, entre eles o nazismo e o fascismo, e a nossa tão atualmente lembrada ditadura militar. Esta surgiu num movimento tipicamente reativo: enquanto a Guerra Fria comia solta, Fidel Castro havia tornado Cuba comunista apenas quatro anos antes, e o medo de termos uma repetição aqui (Jango era presidente, mas parecia em campanha para tomar o poder), com direito a paredón e tudo, fez com que grande parte da população se tornasse simpática à ideia de que os militares viessem salvá-la, mesmo com um governo autoritário. Novamente o drama da sobrevivência induzindo à reação e ao imediatismo.

Foi a vez da reação das forças de esquerda, que agora diziam lutar pela democracia, mas continuavam na mesma luta pela ditadura do proletariado. Claro, havia os mais explícitos, como os da luta armada. Os menos explícitos já seguiam a orientação gramsciana de aparentar aderir ao jogo democrático para atingir os mesmos fins. Desde os anos 60, a orientação do “partidão” (PCB) era de que todos os postos de ensino de história e geografia fossem ocupados, para a conquista do coração compassivo dos jovens. Foram muito bem-sucedidos nisso: nunca mais se viu um meio acadêmico de humanas que não fosse de esquerda, desde então.

Outras bandeiras tão meritórias quanto a da igualdade foram empunhadas pelas esquerdas (direitos humanos; o respeito às minorias através do politicamente correto; ecologia), e se transformaram em distintivos de superioridade moral a serem esfregados na cara da “direita insensível”, além de álibis que justificavam o uso de quaisquer meios, já que os objetivos eram tão nobres.

A direita, claro, reagiu dizendo que as esquerdas defendiam a vida dos bandidos e menosprezavam a vida dos assaltados; que queriam impor às crianças suas visões pervertidas de sexualidade; que queriam acabar com o agronegócio para salvar pererecas em charcos.

Este é o momento em que vivemos, quando um candidato simbolizou o repúdio à pose de superioridade moral das esquerdas em geral, e do Lula/PT em particular, à chantagem emocional de “se não está do nosso lado, então é fascista e contra os pobres”, ao mesmo tempo em que representa a recusa às ideologias em favor de valores do senso comum (chamados de “valores da família”). É o momento da reação exagerada contra a ação exagerada das esquerdas, que por sua vez era também uma reação exagerada… e assim por diante. Muito parecido com o que aconteceu nos EUA com a eleição de Trump.

Também muito parecido com o que acontece na esfera pessoal, quando um pai conservador acaba por ter um filho hippie, e o hippie velho não entende por que seu filho saiu tão careta. Reatividades…

O incrível é que esse teatro de sons e fúria possa ser parte do jogo democrático. E é! A democracia é um negócio difícil, contrário ao primitivismo da natureza humana, mas ainda assim contido nela, já que a democracia leva em conta o predador tirano que existe em nós, e arranja meios institucionais de coibi-lo, atenuá-lo. É só ver como a proximidade do poder já leva os candidatos a diminuir a gritaria, a homenagear a constituição democrática, a sugerir que eles estão abertos ao convencimento e a negociações.

Ou seja, é como disse Churchill, a democracia ainda é o pior dos regimes… com a exceção de todos os outros.


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