Natureza Humana: Raiva de quem se ama


 

Se você pensou em briga de casal, pensou certo. A encrenca é que há outras raivas mais complicadas ainda: raiva dos pais e raiva dos filhos, por exemplo. Por aí dá para sentir o quanto o assunto é delicado. Para começar, muitos vão dizer, “nunca senti raiva dos meus pais, que dirá dos meus filhos”.

Mas é que a raiva pode ter outros nomes, todos derivados do mesmo processo que a origina, o sentimento de estar sendo de algum modo prejudicado, ou injustiçado: mágoa, ressentimento, ciúmes, irritação, impaciência costumam ser definições mais reconhecíveis do que esse sentimento chocante que é “raiva” – quando aplicado a quem se ama.

E é chocante e delicado por lidar com consequências dolorosas: a culpa, e/ou o medo da perda do amor da pessoa querida. Imagine um pai sentindo muita raiva de um filho que se comporta igualzinho àquela mãe de quem ele se separou e que hoje despreza, ou daquele filho que dá um trabalho insano: se esse pai tiver no Superego um modelo de paternidade perfeita e imaculada, que não comporta maus sentimentos em relação aos filhos, ficará muito culpado.

Agora imagine um filho muito perturbado com uma mãe que demonstra escancarada preferência pelo irmão. Imagine o temor que sentirá em revelar sua revolta. Ora, se ele já é preterido sem fazer nada, a ameaça/risco de ser desamparado se mostrando raivoso é muito grande.

O que nos leva ao velho problema: a raiva não tem lugar social de direito entre as crianças, ela tende a ser reprimida pelos adultos como feia e má, se dirigida aos familiares; só o “puro amor” é aceitável. Sua função de reparar injustiças se perde, e um problema pior surge: a raiva passa a ser reprimida por dentro.

Mas aquela criança cresce, e vira um adulto que, se lida mais ou menos com raiva de estranhos, continua completamente desajeitado com a raiva de quem ele ama.

Que caminhos toma então essa raiva inaceitável? Alguns possíveis, que têm em comum serem totalmente incompetentes para trazer justiça as situações que a geraram:

- negação (“Raiva? Quem, eu? Nunca!”);

- formação reativa – o exagero do oposto (geralmente em consequência do primeiro: um mimo, um excesso de amorosidade descabida e imerecida);

- contenção (entuba, entuba… e explode);

- repressão (a raiva some, se desloca e se transforma em sintomas neuróticos obsessivos, fobias, síndrome do pânico e depressão);

- sadomasoquismo (do lado sádico: maltrato, bullying, humilhações, ironia/sarcasmo, e espancamento, podendo chegar a assassinato; do lado masoquista: vitimização, pena de si mesmo, silêncio e recolhimento social, encolhimento e paralização diante da vida, exposição de sua fragilidade – o que costuma ser um convite ao bullying).

É curioso, mas o sadomasoquismo entre pessoas que se amam pode ser tão sutil que passe despercebido. Estamos acostumados a pensar o s&m como uma perversão sexual que inclui chicotes e botas de couro, algemas e coisas que tais, mas ele pode funcionar em fogo brando: em vez de óleo fervente, banho-maria. Você já viu casais que soltam farpas entre si, se humilham, se menosprezam publicamente (ou um humilha e o outro se encolhe frente ao bullying) em graus variados. O problema é que isso pode fazer bodas de ouro…

O que fazer, então? Claro, é melhor previnir que remediar: a expressão verbal direta do problema precisa ter lugar social, as crianças terem o direito de expressar que estão com ciúmes do irmão; a escola precisa ter um ombudsman, uma ouvidoria para os alunos, uma espécie de judiciário para resolver pendências entre eles, assim como outros instrumentos de aprender cidadania.

Os namorados precisam poder fazer bons contratos entre si, para evitar as D.Rs. do mal, onde só rolam acusações mútuas: a namorada de um cliente lhe disse, “Mas assim o nosso namoro vai parecer uma empresa! Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ele lhe respondeu: “O que aconteceu com os seus namoros em que ‘as coisas fluíram naturalmente’?”

O que fazer quando o problema está instalado, e quais são os canais competentes para a raiva de quem se ama é assunto tão extenso que vai ficar para a próxima. Aguardemos “Raiva de quem se ama. 2”.

 

 


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