Natureza Humana: Raiva de quem se ama .2 – O que fazer?


 

A principal dificuldade para o bom gerenciamento da raiva é se estar prisioneiro do vício fodão-merda (f&m). Se qualquer injustiça que nos fazem, mesmo a de uma fechada no trânsito, é percebida como “estão querendo tirar uma de fodão pra cima de mim”, é inevitável que o desejo de vingança apareça: “vou mostrar que o merda é ele!”

Infelizmente, o vício f&m pode também estar presente nas relações de amor. Ele é a principal causa do crime passional (“ela se riu de mim com seu amante, os dois riram de mim enquanto fodiam”). Claro, não é o único fator do ciúme – que é a principal fonte de raiva de quem se ama –, há também o desprestígio, que é a principal forma de ciúmes da mulher (mas não exclusiva; apesar de os ciúmes masculinos serem principalmente sexuais, eles são misturados com desprestígio). Mas sentir-se desprestigiado é também uma forma de se sentir um merda, e isso dá muita raiva, e desejo de vingança.

Então, quando se trata de gerenciar a raiva de quem se ama, a primeira questão é o que fazer com o desejo de vingança. Por incrível que pareça, antes disso é necessário perceber a própria raiva, bem como a injustiça que a causou: se uma pessoa é muito importante para você, pode ser que o medo de perdê-la seja tão grande que nem a consciência da raiva apareça, e no lugar dela se sinta apenas mágoa, ressentimento, um mal-estar, um desânimo.

Pois esse é um bom caminho para começar: “Hum, me deu um desapontamento, uma brochada, uma tristeza com fulano… Eu suspeito que ele me magoou de alguma maneira, deixa eu ver onde foi”.

Descoberta a ofensa, o próximo passo é avaliá-la tentando ser justo. “Ah, isso não pode ficar assim, foi uma coisa grave!”. Ou então, “Eu estarei fazendo uma tempestade em copo d’água? Essa ofensa vai ser vista como uma bobagem, um problema meu?”

Vamos ao primeiro caso: qual é o seu objetivo na busca de corrigir a injustiça? É preservar o amor que vocês têm, certo? (Se não for, se o amor se perdeu por causa da ofensa, que pena, mas não há gerenciamento outro senão achar o jeito de ir embora).

Ora, se o objetivo é preservar/aumentar o amor entre vocês, isso precisa ser declarado logo de cara: “Ih, eu gosto tanto de sentir amor por você que eu preciso acertar umas coisas que estão me atrapalhando, que estão sequestrando o bom sentimento entre a gente”. Uma abertura dessas deixa o outro disposto a ouvir; ela não acusa, não supõe malícia da outra parte, não encosta contra a parede: “Eu sei que você não fez por mal, ou talvez nem tenha notado, mas…”

Dê saída ao gato: o princípio diplomático da saída honrosa faz com que vocês operem fora do jogo f&m; ninguém está querendo bancar o superior, ninguém está humilhando ou fazendo o outro de merda. Um gato encurralado avançará com as garras na sua cara, e o combate continuará. Não é esse o objetivo primeiro.

“Ah, mas isso parece D.R., e o meu marido odeia D.R. (Discutir a Relação)”. Há uma boa razão para se detestar D.R., que é não partilhar das bases/premissas em que ela é travada: se as queixas se referem ao não cumprimento de cláusulas de um acordo secreto e feito sem transparência, ao qual o outro não aderiu (o mais típico são as obrigações implícitas e não contratadas de como ser um namorado), é de se esperar que o outro não consiga avançar na conversa, pois há um problema de raiz.

Nesse sentido, um cliente passou por uma experiência muito curiosa: ele queria firmar acordos explícitos sobre o que significava namorar, desde o início da relação. A namorada se queixou: “Ah, assim nosso namoro vai ficar parecendo uma empresa. Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ao que ele perguntou: “Quantos namoros seus que ‘fluíram naturalmente’ deram certo?” Nenhum tinha dado, claro…

Bem, essas eram as propostas para mágoas graves, dessas que não se pode deixar passar. Mas… e quando a mágoa é do tipo que parece pequena, daquelas que o outro “vai achar uma bobagem”?

O que fazer nessas ocasiões dá mais trabalho. Primeiramente, porque quem sente a ofensa nunca acha que é uma bobagem, apenas acha que o outro vai achar. E por isso fica quieto: “O que deu em você?” “Nada!” E é um “nada” muito puto. Não dá para ter de pronto a consciência que um cliente desenvolveu depois de muita reflexão: “Sinto muito se eu não consigo te dar carinho quando você pede, porque isso me lembra de meus pais que viviam me pedindo carinho, mesmo quando eu estava ocupado brincando. Eu automaticamente transfiro a situação para você, e em vez de seu pedido me produzir ternura, me dá aversão. Mas eu estou ‘trabalhando isso’ na minha terapia, hahaha”.

Ele uniu humildade e humor, e isso é de desarmar qualquer briga. Claro, ele não chegou aí de um dia para o outro, mas isso nos dá um farol-guia: humildade e admissão de algo que pode ser um problema próprio, que não é culpa do outro, que ainda nem está claro, de fato é um belo começo para se lidar com raiva de quem se ama, e aumentar o amor.

 


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