Natureza Humana: O que quer a psicanálise


 

“Que diabos esse meu analista pretende?”, me perguntei em 1969, quando pela primeira vez entrei em contato com a psicanálise. Estava no 4° ano do ensino médico, com metas claras para minha profissão: eu queria curar meus pacientes, queria a saúde, não queria a doença.

As influências que me norteavam eram neoiluministas, modernas, ordenadas, racionais e objetivas: Santo Inácio e os jesuítas; a lógica de São Tomás de Aquino; George Orwell e seu magnífico antimodelo de tudo o que eu não queria (“1984” e a tirania); valores democráticos de igualdade de direitos e deveres (estávamos em plena ditadura). Não era à toa que aquele ser misterioso atras do divã me incomodava com seu silêncio superior. Nem minhas perguntas ele respondia.

Naquele tempo a neurose e a imaturidade faziam de mim um imbecil, de modo que fiquei quieto e me “submeti” ao tratamento – com o endosso mudo do analista – sem saber que repetia minha doença em pleno consultório.

Muito tempo se passou até que eu decifrasse o que ele, e o que várias correntes psicanalíticas, afinal queriam. Os kleinianos, que as pessoas se submetessem ao superego, aceitassem os valores da cultura, não discutissem suas criações ou seus pais, entrassem na linha. Os contraculturais queriam lutar contra o superego e transgredi-lo (sendo assim comandados por ele às avessas). Os lacanianos se dividiam entre os que buscavam o inefável (seja lá isso o que for) e os que estimulavam o cliente a descobrir um sentido para sua vida e a se responsabilizar por ele (sem considerar que a neurose impede essa descoberta, mas como eles não buscam a cura…).

E havia Freud. Dez anos ensinando teoria freudiana me mostraram que o norte estava lá. Havia um conceito claro de doença: o Complexo de Édipo e a prisão que ele representa em nossa vida, alugando-nos com as incompetências de quem nos criou. Por decorrência, havia um conceito claro de saúde: entenda o que te aconteceu e deixe finalmente isso para trás, como o acidente de percurso que é. Não se aprisione, nem na obediência ao que lhe ensinaram, nem na vingança contra quem lhe fez mal. Seja independente para ter autonomia. Conheça seu desejo, limpando-o da interferência dessas invasões bárbaras da tua história.

Dito assim parece simples, mas dá um trabalho enorme: é preciso conhecer o embate interno entre o superego e os desejos reprimidos, e como esse programa foi instalado em nós. É preciso conhecer o inconsciente que nos comanda (Freud: “Onde esteve o Id, que esteja o Ego”).

Mas, ficava claro para mim, também era preciso conhecer o superego (Sun Tzu: “Conhecer o inimigo”). Nós mantemos uma relação sadomasoquista com ele desde cedo na vida, do tipo fodão-merda: ele a nos pôr para baixo; nós alugados, ora a acreditar nele (e temer que os outros nos descubram), ora a odiá-lo em transgressões. E vivendo essa guerra do lado de fora: as pessoas posam de superiores (nós inclusive) e se tornam nossos inimigos. Era entender para se libertar.

Tenho claro o que quero, então: ampliar Freud e dizer, “Onde esteve o Id – e o superego –, que esteja o Ego”.


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