Natureza Humana: O Eu e o Acima-de-mim


O marquês de Sade se masturbava em seu quarto, olhos postos no crucifixo acima dele, na parede, a dizer-lhe desafiadoramente: “Me mata, me mata agora, se você existe!” Chegado o orgasmo, gritava em meio a gargalhadas: “Aha! Você não existe!”

Essa cena poderia ser uma síntese de sua produção literária, talvez de sua vida: ele sempre foi um inimigo fiel e devoto do seu Acima-de-mim. Eternamente dedicado a renegá-lo, a imaginar que insulto poderia ser pior para escarnecê-lo, que ultraje conseguiria seduzir mais seus leitores para o culto de amor e ódio a essa Nêmesis que consumiu sua existência.

O Acima-de-mim é uma tradução possível para o alemão “das Über-ich”, termo alemão criado por Freud para uma das três instâncias da mente, que conhecemos como Superego (as outras são “das Ich” e “das Es” – o Eu e o Algo-em-mim, conhecidas como o Ego e o Id).

Volto a tratar do assunto porque sua presença em nossas vidas é muito mais poderosa – e subestimada – do que se percebe, mesmo porque ele, o Acima-de-mim, é em parte insconsciente.

A parte notada nós a conhecemos desde a infância, quando nossos pais diziam: “Meu filho, ouça a voz da consciência”. De fato, lá estava ela a nos dizer o que era certo, e como nós andávamos errados. Ela funciona como uma constituição e um tribunal portáteis, paradigma da perfeição a nos criticar e a nos exigir a que sigamos seu exemplo, que nos comportemos como se fossemos ela. E volta e meia nós fazemos isso, ficamos acima-dos-outros, basta ver a atividade mais comum no facebook, o puxão de orelha – para dizer o mínimo – público, com os consequentes rancores e retaliações que essas espinafrações causam.

Vivemos um momento histórico em que há uma competição acirrada – o tal “nós contra eles” – para ver quem é o mais crítico, mais dono da verdade, mais perfeito e mais acima-dos-outros. Estamos constantemente  afiando nosso juiz interno, emitindo sentenças de morte contra nossos inimigos, acirrando nossos ódios. Tal é o legado do populismo, de dividir o país para conquistar o poder em nome de bons propósitos, que se tornam desmascarados ao mostrar sua face gananciosa.

Mas o discurso populista o é porque atinge o povo com simplorismo, e essa perda de complexidade mora dentro de nós: ela é a fala habitual do Superego. De sua posição Acima-de-mim, ele pode me ser útil, mas também pode ter se tornado um julgador cruel, um sucessor de quem me criou mal, um déspota tão odiento quanto o era para o marquês de Sade, dizendo que só há branco e preto, que se eu não sou imaculado, então eu não presto. Ou seja, um magistrado idiota a quem só me resta odiar/temer/reverenciar, tudo isso junto, numa confusão dos diabos que me emburrece pelo tumulto mental que causa. Como é mais fácil odiar do lado de fora, não há populismo sem inimigo público. Esse é seu truque mais comum. Esse é o estado a que chegamos.

Mas por que eu estou falando de política, se quero ser conceitual? Porque é de política que se trata: da política que se passa dentro de nossas cabeças. A briga principal é entre o Eu e o Acima-de-mim.


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