Natureza Humana: O drama como instrumento de poder


Drama: p.ext. psic. estado de comoção provocado por experiência emocional penosa e desgastante.

Cena 1: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela leva as costas da mão à testa, diz “Ohhhh…” e desmaia.
Cena 2: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela põe a mão no queixo, entorta a cabeça para o lado e diz: “É só isso que você tem para mostrar? Se toca, ô cara!”

O que difere nas duas cenas é a presença ou a ausência de drama. Como diz o dicionário, no primeiro caso a mocinha teve uma “experiência emocional penosa e desgastante”, viveu um drama. No segundo, a mocinha percebeu da coisa o ridículo, que é o desmascaramento da pretensão descabida: zero de drama!

O que levou a haver drama para a primeira moça foi seu Superego lhe dizer, a partir de tudo o que ela ouviu em sua criação, que sexo é horrível se estiver fora do contexto dos sagrados laços do amor e do matrimônio. Mesmo assim é assunto que não se fala, muito menos se exibe. Seus pais sempre fizeram o maior “drama” do tema, dizendo à filha que ela “precisava evitar um destino pior que a morte: a desonra!” Ela acreditou, comprou o drama e se tornou uma escrava de seu Superego.

Você pode pensar, “mas que moça mais neurótica!”, e terá razão: não há neurose se não houver drama, e toda pessoa muito dramática tem enormes chances de sofrer de neurose.

A menos, claro, que seja como esses políticos que usam o drama como ferramenta de manipulação de seus seguidores, pois entenderam muito bem que o drama é um poderoso instrumento de poder. Aí o diagnóstico não é de neurose, e sim de sociopatia; eles não acreditam no drama que fazem, internamente se riem de seus devotos, olham para eles como um bando de otários fáceis de enganar.

Para se ter ideia do jogo de poder que envolve a neurose, uma paciente fóbica e com síndrome do pânico teve câncer. A partir de sua luta pela vida, cirurgia, quimioterapia, os sintomas neuróticos sumiram por completo! Como nos versos de Camões, “Cesse tudo o que a antiga musa canta, que um poder mais alto se alevanta”. Uma vez curada, para sua surpresa o pânico e a fobia voltaram: o que era o drama da neurose face à ameaça da morte? O Superego se encolheu e ficou esperando sua oportunidade. Quando ele viu que a morte se distanciou, veio com tudo de novo.

Um outro exemplo, este do cancioneiro popular, está no samba “O mundo não se acabou”, de Assis Valente: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar (…)/ Acreditei nessa conversa mole/ pensei que o mundo ia se acabar/ e fui tratando de me despedir/ e sem demora fui tratando de aproveitar/ beijei na boca de quem não devia/ peguei na mão de quem não conhecia/ dancei um samba em traje de maiô/ e o tal do mundo não se acabou”.

Claro que quando o mundo não se acabou, o Superego voltou com tudo, e a pobre criatura ficou arrasada de vergonha… Ela, que tinha se divertido a valer, agora via seu passado recente como “uma experiência emocional penosa e desgastante”. Como um drama!

Não é preciso ir tão longe, qualquer pessoa que enfiou o pé na jaca, tomou todas, pintou e bordou na véspera (diz- se que o Superego é solúvel em álcool), no dia seguinte morre de ressaca, sobretudo de ressaca moral, com a volta do drama.

Como contraste temos a comédia: o que faz a comédia de costumes senão nos fazer rir de nossos próprios dramas? O comediante americano Chris Rock faz sua plateia se dobrar de rir ao lhes perguntar: “Por que você acha que sua mulher te trata feito um cachorro? Porque você não foi a primeira escolha dela, otário!” Homens e mulheres gargalham, ao verem seu drama tornado risível naquele pequeno momento de pouca seriedade permitida. Depois, voltam ao normal…

De fato, é preciso levar-se muito a sério para acreditar em drama: em todas as novelas, os personagens se levam horrivelmente a sério. “Rodolfo Augusto, o que significa essa marca de batom?” “Não é nada disso que você está pensando, Yolanda Cristina, eu posso explicar!” Não é à toa que a arte de escrever novelas se chama “dramaturgia”.

Enfim, Espinoza nos ensinou que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam. Pois se há um cordel poderoso de que o Superego usa e abusa, esse é o drama.

 


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