Natureza Humana: Masturbação


“É fazer amor com a pessoa que você mais ama”, nas palavras de Woody Allen. Já Stanislaw Ponte Preta dizia que a vantagem dela era “não ter que levar em casa depois”.

O que parece anedota contém dois princípios que fazem da masturbação o que ela é: segurança e independência. Sua história individual se inaugura quando um bebê descobre que sugar o dedo acalma e satisfaz enquanto “a coisa real” não acontece. É assim que ele tolera a vida real: recolhendo-se ao autoerotismo.

Nossa vida inteira será assim, um zigue-zague permanente entre o investimento no mundo externo e o recolhimento ao nosso refúgio interno. Para se ter ideia da importância desse recolhimento, uma boa maneira de se torturar alguém é privá-lo do sono. Se nós não pudermos nos refugiar a um colo autoerótico, independente e seguro – o sono –, não toleraremos viver.

Chegada a noite, nós desligamos o mundo externo: luz, temperatura e silêncio, buscamos uma posição confortável e nos entregamos a um devaneio gostoso que nos embale como um regaço acolhedor. É nessa situação que recarregamos nossas baterias para poder reinvestir no mundo. O sono poderia ser chamado de vício solitário pelo tempo que dedicamos a ele – um terço da vida – se a definição de vício não incluísse o prejuízo de nossos principais interesses. Mas não, o sono é a maior demonstração de que o autoerotismo é essencial para se viver.

Voltando à masturbação genital, ela desempenha um papel fundamental nessa situação desgraçada em que a mãe natureza nos meteu: nós somos animais sexuados, ou seja, nós precisamos negociar com o mundo externo para a reprodução acontecer (as bactérias não sofrem disso). Essa negociação trabalhosa só terá sucesso se nós conhecermos minimamente o nosso desejo. Sem isso, não haverá nem motivação, nem ereção. É aonde entra o autoerotismo: só o devaneio (ou o filme pornô) certo acende o tesão, é desse jeito que vamos aprendendo sobre nós.

Dito assim, pareceria que a masturbação é só para homens, mas o que vejo na clínica é que as mulheres muitas vezes só descobrem o orgasmo através dela. Basta pensar que, como praticamente não há homem que nunca tenha se masturbado (Gore Vidal dizia que, se frequência é critério de normalidade, então a masturbação é a vida sexual normal dos homens), não há homem que não conheça o orgasmo, que é um circuito cerebral aprendido com o autoerotismo.

Por fim, a masturbação vicia? Qualquer coisa que nos interesse tem o potencial de nos viciar: internet, WhatsApp, celular, comida etc. Mas em quarenta anos de clínica só encontrei um único cliente viciado nela. Ela prejudicava seus principais interesses: ele perdia trabalho, tinha largado o mundo de lado. Usava a masturbação como remédio para aliviar sua depressão (o álcool continua sendo o “remédio natural” mais usado).

Não é de espantar que quem queira controlar as pessoas queira controlar a masturbação: fazê-la contra a lei, censurar a internet, torná-la pecado mortal, dizer que ela adoece ou faz crescer pelos nas mãos. Ela é uma grande professora de independência e autonomia. Muito subversiva, portanto.


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