Entrevistas: (Folha de S. Paulo) “Freud veio para esclarecer, não nos deixar perplexos”, diz Francisco Daudt


MANUEL DA COSTA PINTO – COLUNISTA DA FOLHA

“A Criação Original”, novo livro do colunista da Folha e psicanalista Francisco Daudt, traz uma declaração de princípios: “A clareza é o ponto fundamental neste livro”. Seu desafio é apresentar de maneira ao mesmo tempo didática e consistente o conjunto dos conceitos e da prática psicanalítica, numa reação ao caráter frequentemente hermético que marca os textos dos seguidores de Freud.

“Sua escrita era tão clara e acessível, tão bem escrita, que a única honraria que lhe coube em vida foi o ‘Nobel alemão’ de literatura, o prêmio Goethe [1930]. Quis fazer jus à intenção do mestre: ele veio para esclarecer, não para deixar ninguém perplexo, muito menos reverente diante de sua obra”, afirma Daudt em entrevista à “Ilustrada”.

Há, nessa defesa da clareza, um sentido ético e uma crítica explícita à estratégia de poder embutida no serpentário retórico de muitos teóricos de psicanálise, sobretudo Lacan e seus epígonos: “Ainda somos prisioneiros do mito francês de que uma fala obscura traduz erudição e sapiência. Sou adepto de Karl Popper, o epistemólogo que afirma que uma hipótese deve ser vulnerável a críticas e à refutação, caso contrário não se terá como aferir sua condição de verdadeira ou falsa. Em outras palavras, eu não posso te enrolar se estiver escrevendo em português claro. Isto vale para a
psicanálise, a política e a economia”.

O livro não segue a evolução cronológica do pensamento de Freud. Isso significa, por exemplo, que a “teoria dos impulsos”, que o pensador vienense modificou até seus últimos escritos (com a introdução tardia da ideia de “impulso de morte”), é apresentada ao leitor nos capítulos iniciais de “A Criação Original” e já em sua forma final.

“Se alguém se dispuser a enfrentar os 24 volumes da obra completa de maneira cronológica (que é como eles se dispõem), vai demorar horrores para entender a teoria freudiana. Vai virar um contemporâneo de Freud, que era obrigado a ir ‘acompanhando a novela’. Nós estamos na posição de pegar o conjunto da obra e rastreá-la no sentido de sua maior compreensão”.

Mas, ao contrário de leituras “fundamentalistas”, que consideram intocável a letra freudiana, Daudt considera a psicanálise uma “ciência embrionária”, sujeita a correções (e o próprio autor corrige, ao longo texto, afirmaçõesque fizera em livros ou artigos anteriores): “Freud foi um cientista, um médico, e a ciência é humilde na busca da verdade. Imitei o espírito científico de Freud: ele próprio se corrigiu quando disse que afinal não era a neurose que causava angústia, mas o contrário, a angústia causava a neurose. Abordar o texto freudiano como se fosse uma bíblia, ‘a Palavra’ que requer exegese, é um insulto ao velho professor”.

Aqui mais uma vez, há um sentido ético na recusa de colocar a psicanálise num altar: “Se a psicanálise for colocada sobre um pedestal, elevada à categoria de religião, com acólitos se submetendo a instituições, o psicanalista tenderá a fazer o mesmo com seus pacientes: tenderá a subjugá-los”.

Em nome da clareza, Daudt também critica o uso de termos como “Ego” e “pulsão”, em lugar de simplesmente “Eu” ou “impulso”, que seriam traduções óbvias do estilo vernacular de Freud. “Essa praga começou com Ernest Jones, primeiro tradutor de Freud para o inglês, que resolveu envolver sua escrita numa vestimenta pomposa –e corporativa– de termos médicos em latim e grego. Começou aí a doença institucional da psicanálise: o psicanalista servindo a instituição, em vez de servir a seus pacientes. Ficou um saber envolto em mistério, somente para iniciados, intimidando o leigo (vale dizer, o paciente), dando impressão de grande saber, mas só impressão. E vai contra o propósito básico da psicanálise, que é corrigir a submissão da criança à cultura e construir um indivíduo independente e autônomo.”.

Nesse sentido, “A Criação Original” desafia o tabu psicanalítico de que o leitor não pode e não deve ousar ler Freud com o intuito de se autonalisar: “Esse é um ponto em que divirjo completamente de meus ‘díspares’ (há muito tempo entendi que não tenho pares): quando Freud falou em análise interminável, estava falando da transferência de tecnologia que deve se dar num processo psicanalítico, de tal modo a que o paciente prossiga em um processo de autoanálise vida afora. A internet qualificou os pacientes para fazerem perguntas sobre suas doenças aos médicos, e isso os obriga a ficar mais espertos e atualizados. Quero o mesmo para os pacientes de psicanálise! Quero defender o direito do consumidor desse serviço! Quero que entendam ou tenham boas intuições sobre suas doenças, seus complexos de Édipo, que exijam entender o que o psicanalista lhe diz”.

Aliás, o capítulo sobre o complexo de Édipo (um dos pilares da criação freudiana) também traz uma contribuição teórica de Daudt, fruto das experiências clínicas relatadas pelo psicanalista carioca:

“Há no livro uma novidade: o conceito de que o complexo de Édipo não é uma fatalidade absoluta, e sim um dano de tamanho variável na vida dos filhos, causado pela incompetência dos pais em criá-los. Quanto menos incompetentes, menor o dano. Incompetentes todos seremos, pois não existe trabalho mais difícil do que atender na justa medida as capacidades e necessidades dos filhos à medida que crescem”.

Sob o intencional didatismo de “A Criação Original”, portanto, há também uma leitura não canonizadora de Freud. Ao expor a formação do aparelho psíquico desde sua fase rudimentar até suas etapas mais complexas, Francisco Daudt mostra como pode ser dinâmico, mutável, o enfrentamento de nosso aparelho psíquico com as vivências subjetivas e com o mundo exterior.

“A Criação Original – A Teoria da Mente Segundo Freud”
Francisco Daudt
Editora 7Letras
336 págs.

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