Natureza Humana: “Eus” eróticos


 

“Se todos conhecessem a vida sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, disse Nelson Rodrigues. O mais esquisito é que, como temos vários “eus”, pode haver desavenças e estranhamentos mesmo dentro de uma só pessoa, algum “eu” nosso pode virar a cara ao passar por outro de si mesmo que lhe pareça embaraçoso.

Isso fica claro quando dizemos, “eu não estava em mim, eu era outro”; “quando eu me lembro de mim jovem, fico até envergonhado, olho as fotos e me pergunto quem era aquele idiota”; “aquilo fez surgir um monstro dentro de mim”; “eu virei um animal!”. Um cliente de 80 anos me disse: “Sou um quando subo escadas, outro quando desço”.

Ou quando alguém muito presunçoso nos diz: “Eu não estou te reconhecendo, você não é assim!” Uma frase dessas faz de fato aparecer um monstro dentro de mim, com vontade de matar quem disse…

Mas esse negócio de ter passado os últimos quarenta anos ouvindo pacientes no consultório me fez perceber a quantidade de “eus” possíveis, quando o assunto é erotismo. É uma pena que o tema careça de palavras, tanto quanto de lugar social para ser conversado. Por falta de palavras, é pouco pensado. Por falta de pensamento, é pouco falado. As palavras do erotismo tendem ora ao engravatado, ora ao calão. Ora felação, ora boquete. Outro dia me perguntaram o que era “minete” (por causa do “Primo Basílio”), e quando eu respondi que era cunilíngua, ficaram na mesma até que expliquei: “é estímulo oral-genital feito numa mulher”. Quer coisa mais engravatada que isso?

Mas esse tema veio por conta de um cliente que descobriu um “eu” mulher em si. Ele é casado com uma moça muito ativa no sexo, que tomou a rara iniciativa de descobrir as zonas erógenas do marido. Deve-se dizer que o rapaz é abençoado pela natureza, pois de descoberta arrepiante em descoberta arrepiante (orelhas, nuca, mamilos, axilas, parte interior das coxas, períneo, glúteos, a lista é longa, acho que só os cotovelos ficaram de fora), finalmente adentraram – e o verbo não é acidental – o território do ânus/reto.

Foi quando se fez presente o poeta quinhentista português, Sá de Miranda, em seu poema mais famoso: “Comigo me desavim”. É que o rapaz tinha uma longa tradição homofóbica, e achou-se muito esquisito por ter gostado tanto das peripécias da mulher naquela… área. Teria ele descoberto que, por trás de sua macheza, no fundo (sem intenção de piada) era gay?

Deve-se registrar que o rapaz é obsessivo, e como tal, tem dificuldade com categorias intermediárias, não conhece cinquenta tons de cinza, para ele só costuma existir preto ou branco, ou isto ou aquilo, nunca ora isto, ora aquilo.

Para piorar, ele acreditava que somos indivíduos, seres (como diz o termo) indivisíveis e únicos. “Ou então o cara tem desordem de múltiplas personalidades, é uma espécie de maluco”, pensava ele. O coitado sempre viveu em busca de seu “verdadeiro eu”, para ser shakespeareanamente fiel a ele (“To thy own self be true”, um dos conselhos de Polonius a seu filho, em “Hamlet”).

É, fazia parte de sua obsessividade o valor de ser autêntico, sincero e honesto acima de tudo; qualquer coisa diferente era hipocrisia, e/ou concessão social. Não chegava a dizer para uma mãe, “Seu bebê é horroroso”, mas quase.

Pois é com esse conjunto de fatores que nosso herói enfrentou essas novidades em sua vida, e já podemos ter um vislumbre de suas mudanças de convicções, sem precisar ir aos detalhes de seu caminho (árduo) para isso. Passemos a ele a palavra:

“Não, concluí que não sou gay nem nunca serei. Nem ao menos tenho um “eu” gay, pois nunca olhei com tesão para um homem, e é isso que define o desejo homoerótico. Mas descobri que posso me sentir como uma fêmea. No começo, minha mulher só brincava com meu ânus com seus dedos, e isso me dava muito prazer. Depois ela passou a usar seu vibrador, e me penetrava com ele. Isso produz dois prazeres diferentes: o da dilatação e o da próstata, quando vai fundo. O segundo é muito estranho, pois tem alguma dor envolvida, parece a dor gostosa de massagem. O curioso é que não dá tesão nem vontade de gozar, mas leva a um quase-orgasmo muito intenso, e quando termina, a uma paz imensa, eu caio no sono dos anjos.”

“A coisa se complicou mais quando ela quis ‘brincar de homem’, e me perguntou se eu não queria experimentar ‘ser mulher’. Ela me possuiu usando uma cinta com um dildo de silicone, eu com os olhos cobertos por uma máscara de dormir… e a fantasia funcionou: eu me senti uma mulher, me entregando a ela/ele. Desta vez foi diferente, fiquei excitado com a entrega, me imaginando ora como se assistisse a um filme pornô em que eu fosse a mulher (é esquisito, mas a ‘mulher’ não se parecia comigo, era gostosa e me dava tesão, mas… era eu), ora me sentindo na pele da mulher possuída, e tive um orgasmo fantástico.”

“Depois dessa história duas coisas aconteceram: nunca me senti tão solidário, nem tão companheiro dela como antes. E este sentimento se estendeu às mulheres em geral: eu me coloquei na pele delas, me pareceu entender suas dores e seus prazeres, seus desejos e seus desgostos, suas fragilidades e suas forças.”

“A minha homofobia me ataca ainda por essa história toda, mas arranjei um consolo ao me dizer que, ao descobrir em mim um ‘eu’ mulher, superei – de um jeito bonito – um medo/limitação que muitos homens passam a vida varrendo para debaixo do tapete. Não sabem o que estão perdendo!”

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Todos os relatos aqui narrados são ficcionais, fruto de uma colagem de várias histórias de consultório, e qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real é mera coincidência.


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