Artigos: Drama e culpa, armas de manipular


Yuval Harari, em seu “Homo Deus”, diz que “No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Passamos o tempo debatendo questões secundárias”.

Pois me parece muito relevante entender como nossas mentes podem ser manipuladas, nossa capacidade de raciocinar turvada, nossa boa fé ludibriada. Tanto quanto saber detectar vigaristas que usam esses expedientes, para nos defender deles: a democracia precisa do voto consciente. E meu trabalho de psicanalista é tornar a consciência cada vez mais aguda, em mim mesmo, no consultório ou onde me deem voz. Creio que essa questão não tem nada de secundária.

Dois dos expedientes mais eficazes de manipulação de mentes são fazer drama e nos criar sentimento de culpa. Essa manobra não podia nos ser mais familiar, e digo “familiar” stricto senso, já que muitas mães usaram e abusaram disso para nos conduzir, digamos assim, sempre com a melhor das intenções, claro.

Não é de surpreender que políticos populistas tenham importado o truque para a condução das massas, transformando-as em rebanhos dóceis.

Isso me ficou gritantemente claro ao assistir à série “Hitler, o círculo do mal”, da Netflix. Como isso aconteceu no mesmo dia em que vi o Lula discursando antes de ser preso, as semelhanças me assombraram.

Senão, vejamos: a postura messiânica do führer ao discursar, cuidadosamente ensaiada frente ao espelho para transmitir a maior dose de drama possível, aliava-se à estratégia arquitetada pelo gênio da propaganda manipulativa, Josef Goebbels. Hitler sabia hipnotizar seus seguidores transmitindo-lhes a ideia de que eram vítimas: dos Aliados, que os humilharam no tratado de Versalhes, mas sobretudo da conspiração dos judeus para dominar o mundo – os judeus eram usados então como a CIA e os Estados Unidos o são atualmente na propaganda política.

Tomados pelo drama que Hitler encenava em seus discursos, cada vez mais seguidores abdicavam de pensar por conta própria, o grande homem pensava por eles, tudo o que lhes cabia era segui-lo com fervor religioso. Acima do bem e do mal, criticá-lo seria um crime de lesa-pátria: ele já não era mais um homem, “era uma ideia”.

Hitler conseguiu polarizar a Alemanha numa espécie de “nós contra eles” sem meio termo: se você não estiver do nosso lado, então você é do inimigo. De todos era exigida uma adesão incondicional. Suas milícias tinham salvo- conduto para depredar, vandalizar, pichar, desmoralizar, caluniar, espancar qualquer um, ou qualquer coisa, que fosse identificado como sendo parte desse “eles”.

Mas, e o sentimento de culpa? Ainda não foi inventado um instrumento de poder que a ele se compare: você pode manter alguém de joelhos sob a mira de um revólver, mas afastada a ameaça, o outro se levantará. Se você conseguir fazê-lo sentir-se culpado, ele lhe rogará para ficar de joelhos.

E a culpa tem dois lados: o do algoz (o culpado) e o da vítima. Hitler se identificava – e identificava seus correligionários – como vítima, e clamava por vingança contra seus algozes. Na dinâmica do sentimento de culpa, a vítima está automaticamente absolvida, não tem culpa de nada, é um perseguido. E mais, está ungida de uma espécie de nobreza, a nobreza do mártir, aquela que transforma a vítima num santo. Esse é o poder do vitimismo.

Com essas ferramentas de poder, Hitler se elegeu democraticamente na Alemanha. Tomado o poder, aparelhou com nazistas todas as instituições, inclusive o judiciário, até conseguir o poder absoluto. O resto é história.

 

 

 


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