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Psicanálise só existe em países democráticos


A entrevista de Elizabeth Roudinesco para a Globonews traz essa observação: a psicanálise só existiu e prosperou em países onde havia democracia. Foi banida da Alemanha nazista, da Itália fascista, não existiu nos países comunistas, Rússia, Cuba, China e congêneres.

Isso é coerente com a estrutura da invenção freudiana: ela requer liberdade de pensamento e expressão. E vai mais além: a cura depende de uma crítica ao nosso superego, ou seja, ao nosso sistema de governo interno.

É… só dava mesmo para ser dentro da democracia!

 


Reação e reflexão


(Reportagem completa em Época ou na versão impressa)

Nunca ficou tão claro quanto na atual campanha que ela é mais um plebiscito contra ou a favor de Lula e seu PT. É uma competição de rejeições: ele não/PT não. Toda a estratégia de marketing das duas campanhas está voltada à reação contra a outra: “Não ao comunismo!” “Não ao fascismo!” Vi um comentarista da tv lamentando que a propaganda dos candidatos não contemplasse propostas de governo, que fosse focada nos horrores do oponente, que só apostasse na reação dos eleitores.

Mas isso faz sentido, é uma aposta nas características mais primitivas da natureza humana, o imediatismo e a reatividade. Elas ganham de longe do pensamento de médio/longo prazo e da reflexão. Imagine nosso ancestral na savana africana vendo um grupo de conhecidos passar correndo. Seu instinto de sobrevivência lhe diria para sair correndo junto, nada de parar para refletir o que levava aquela gente a tal correria. A humanidade descende dele. O reflexivo foi devorado.

Mas há um elemento desencadeador dessa reatividade: o drama. A questão ali era de sobrevivência imediata, quanto mais drama, menos reflexão. Se a estratégia de marketing visa a reação, a tendência é tocar terror, é amplificar o drama. Não é à toa que a filosofia só foi surgir depois da revolução agrícola, quando a sobrevivência imediata ficou menos dramática, e havia tempo livre para se sentar na ágora e conversar com os amigos.

É o que pretendo fazer aqui, uma pausa para refletir sobre os movimentos pendulares de reatividade que costumam dominar a política, não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Num breve apanhado a partir do início do capitalismo, os ideais da revolução francesa de liberdade e de igualdade (deixemos a fraternidade por enquanto de lado, por excessivamente ideal) sempre foram perseguidos de maneira polarizada e reativa: a direita defendendo a liberdade; a esquerda defendendo a igualdade, e cada um achando que o outro estava errado.

Abro aqui um parêntesis para considerar que a própria democracia é uma forma reativa de governo: desde seu início ela reage à atração humana pela tirania. Os governantes da Grécia Clássica viviam sob suspeita de se ambicionarem tiranos. Pudera, a tirania é imediatista e a democracia é um investimento de médio/longo prazo. Se a assembleia ateniense lhes desse um voto de desconfiança escrito dentro da casca de uma ostra, eram enviados ao… ostracismo. A divisão democrática em três poderes tem esse propósito: um poder vigia o outro em permanente desconfiança de seus desejos tirânicos.

Voltando: o capitalismo em seu estado selvagem produziu uma desigualdade que tem na escravatura seu maior exemplo. Os defensores da igualdade, as esquerdas, começaram aí a conquistar os corações de boa vontade pelo mundo. Essa reação tomou sua forma principal no remédio de Karl Marx, o comunismo/socialismo, cujos defensores se autodenominavam “progressistas”, e denominavam seus opositores de… “reacionários”, como se eles reagissem ao progresso. Como a igualdade proposta pelo comunismo era difícil de ser conseguida por convencimento, o remédio deles incluía a tomada de poder pela revolução e a imposição de uma ditadura do proletariado, incluindo o fuzilamento de opositores.  Mas a lei de lord Akton passava a funcionar (“O poder corrompe; o poder absoluto corrompe absolutamente”), e os dirigentes comunistas tendiam a se esquecer da igualdade (ou a promover a igualdade na miséria) em favor da ganância.

A direita então reagiu, sempre em movimentos autoritários também, entre eles o nazismo e o fascismo, e a nossa tão atualmente lembrada ditadura militar. Esta surgiu num movimento tipicamente reativo: enquanto a Guerra Fria comia solta, Fidel Castro havia tornado Cuba comunista apenas quatro anos antes, e o medo de termos uma repetição aqui (Jango era presidente, mas parecia em campanha para tomar o poder), com direito a paredón e tudo, fez com que grande parte da população se tornasse simpática à ideia de que os militares viessem salvá-la, mesmo com um governo autoritário. Novamente o drama da sobrevivência induzindo à reação e ao imediatismo.

Foi a vez da reação das forças de esquerda, que agora diziam lutar pela democracia, mas continuavam na mesma luta pela ditadura do proletariado. Claro, havia os mais explícitos, como os da luta armada. Os menos explícitos já seguiam a orientação gramsciana de aparentar aderir ao jogo democrático para atingir os mesmos fins. Desde os anos 60, a orientação do “partidão” (PCB) era de que todos os postos de ensino de história e geografia fossem ocupados, para a conquista do coração compassivo dos jovens. Foram muito bem-sucedidos nisso: nunca mais se viu um meio acadêmico de humanas que não fosse de esquerda, desde então.

Outras bandeiras tão meritórias quanto a da igualdade foram empunhadas pelas esquerdas (direitos humanos; o respeito às minorias através do politicamente correto; ecologia), e se transformaram em distintivos de superioridade moral a serem esfregados na cara da “direita insensível”, além de álibis que justificavam o uso de quaisquer meios, já que os objetivos eram tão nobres.

A direita, claro, reagiu dizendo que as esquerdas defendiam a vida dos bandidos e menosprezavam a vida dos assaltados; que queriam impor às crianças suas visões pervertidas de sexualidade; que queriam acabar com o agronegócio para salvar pererecas em charcos.

Este é o momento em que vivemos, quando um candidato simbolizou o repúdio à pose de superioridade moral das esquerdas em geral, e do Lula/PT em particular, à chantagem emocional de “se não está do nosso lado, então é fascista e contra os pobres”, ao mesmo tempo em que representa a recusa às ideologias em favor de valores do senso comum (chamados de “valores da família”). É o momento da reação exagerada contra a ação exagerada das esquerdas, que por sua vez era também uma reação exagerada… e assim por diante. Muito parecido com o que aconteceu nos EUA com a eleição de Trump.

Também muito parecido com o que acontece na esfera pessoal, quando um pai conservador acaba por ter um filho hippie, e o hippie velho não entende por que seu filho saiu tão careta. Reatividades…

O incrível é que esse teatro de sons e fúria possa ser parte do jogo democrático. E é! A democracia é um negócio difícil, contrário ao primitivismo da natureza humana, mas ainda assim contido nela, já que a democracia leva em conta o predador tirano que existe em nós, e arranja meios institucionais de coibi-lo, atenuá-lo. É só ver como a proximidade do poder já leva os candidatos a diminuir a gritaria, a homenagear a constituição democrática, a sugerir que eles estão abertos ao convencimento e a negociações.

Ou seja, é como disse Churchill, a democracia ainda é o pior dos regimes… com a exceção de todos os outros.


Falando de política


Nós estamos vivendo mais um momento reativo (e a reatividade é o movimento mental mais comum da humanidade, a reflexão é o difícil e o raro):
Capitalismo selvagem leva à reação do comunismo/socialismo entre as pessoas de boa vontade que têm compaixão pelos pobres;

Tendo o poder, comunistas/socialistas esquecem os pobres e se entregam à ganância e ao autoritarismo, e matam oponentes no paredón ou nos gulags;

Forças de direita reagem e produzem ditaduras, como a de 1964;

Forças de esquerda reagem, dizem que lutam pela democracia, seja pela luta armada, seja dentro do jogo democrático possível, mas lutam pela ditadura do proletariado;

A partir de 85, com a redemocratização, reforça-se a estratégia gramsciana de tomar o poder por dentro, com simulacros de democracia: aparelhamentos sociais (escola, intelectualidade, mídia, patrulha do politicamente correto), forma-se um consenso de que a esquerda é moralmente superior, pois a direita despreza/odeia os pobres, portanto é moralmente inaceitável;

Insultada, a direita reage, fala grosso (Trump, Bolsonaro), corre para os valores do senso comum. É o que me parece o estado atual.
Isso é a síntese do que analiso, fazendo um símile entre psicologia de pessoa e psicologia de populações.


Drama e culpa, armas de manipular


Yuval Harari, em seu “Homo Deus”, diz que “No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Passamos o tempo debatendo questões secundárias”.

Pois me parece muito relevante entender como nossas mentes podem ser manipuladas, nossa capacidade de raciocinar turvada, nossa boa fé ludibriada. Tanto quanto saber detectar vigaristas que usam esses expedientes, para nos defender deles: a democracia precisa do voto consciente. E meu trabalho de psicanalista é tornar a consciência cada vez mais aguda, em mim mesmo, no consultório ou onde me deem voz. Creio que essa questão não tem nada de secundária.

Dois dos expedientes mais eficazes de manipulação de mentes são fazer drama e nos criar sentimento de culpa. Essa manobra não podia nos ser mais familiar, e digo “familiar” stricto senso, já que muitas mães usaram e abusaram disso para nos conduzir, digamos assim, sempre com a melhor das intenções, claro.

Não é de surpreender que políticos populistas tenham importado o truque para a condução das massas, transformando-as em rebanhos dóceis.

Isso me ficou gritantemente claro ao assistir à série “Hitler, o círculo do mal”, da Netflix. Como isso aconteceu no mesmo dia em que vi o Lula discursando antes de ser preso, as semelhanças me assombraram.

Senão, vejamos: a postura messiânica do führer ao discursar, cuidadosamente ensaiada frente ao espelho para transmitir a maior dose de drama possível, aliava-se à estratégia arquitetada pelo gênio da propaganda manipulativa, Josef Goebbels. Hitler sabia hipnotizar seus seguidores transmitindo-lhes a ideia de que eram vítimas: dos Aliados, que os humilharam no tratado de Versalhes, mas sobretudo da conspiração dos judeus para dominar o mundo – os judeus eram usados então como a CIA e os Estados Unidos o são atualmente na propaganda política.

Tomados pelo drama que Hitler encenava em seus discursos, cada vez mais seguidores abdicavam de pensar por conta própria, o grande homem pensava por eles, tudo o que lhes cabia era segui-lo com fervor religioso. Acima do bem e do mal, criticá-lo seria um crime de lesa-pátria: ele já não era mais um homem, “era uma ideia”.

Hitler conseguiu polarizar a Alemanha numa espécie de “nós contra eles” sem meio termo: se você não estiver do nosso lado, então você é do inimigo. De todos era exigida uma adesão incondicional. Suas milícias tinham salvo- conduto para depredar, vandalizar, pichar, desmoralizar, caluniar, espancar qualquer um, ou qualquer coisa, que fosse identificado como sendo parte desse “eles”.

Mas, e o sentimento de culpa? Ainda não foi inventado um instrumento de poder que a ele se compare: você pode manter alguém de joelhos sob a mira de um revólver, mas afastada a ameaça, o outro se levantará. Se você conseguir fazê-lo sentir-se culpado, ele lhe rogará para ficar de joelhos.

E a culpa tem dois lados: o do algoz (o culpado) e o da vítima. Hitler se identificava – e identificava seus correligionários – como vítima, e clamava por vingança contra seus algozes. Na dinâmica do sentimento de culpa, a vítima está automaticamente absolvida, não tem culpa de nada, é um perseguido. E mais, está ungida de uma espécie de nobreza, a nobreza do mártir, aquela que transforma a vítima num santo. Esse é o poder do vitimismo.

Com essas ferramentas de poder, Hitler se elegeu democraticamente na Alemanha. Tomado o poder, aparelhou com nazistas todas as instituições, inclusive o judiciário, até conseguir o poder absoluto. O resto é história.

 

 

 


Imbecilidade: agravantes e atenuantes


[Texto especial para a Folha de S. Paulo]

“Os imbecis perderam a modéstia”; “Os idiotas vão dominar o mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

As famosas frases de Nelson Rodrigues constatam uma triste realidade da espécie. Não à toa Churchill disse que a democracia era o pior dos regimes (com exceção de todos os outros).

Mas queixar-se da imbecilidade humana é como queixar-se da chuva: é um dado da natureza e não há nada a fazer, exceto proteger-se dela.

Minha questão aqui é que a ninguém a imbecilidade é alheia, não há quem esteja imune a ela; todo Einstein tem seu momento de Eremildo, o personagem idiota do Elio Gaspari. O que quero comentar são os fatores que agravam a imbecilidade, e os que a atenuam, para que todos nós possamos lidar melhor com ela.

Você pensará que “lidar melhor com ela” visa apenas atenuá-la, mas não; eu acredito que há muita gente mal intencionada querendo aumentá-la. Se não, como explicar o descalabro da educação pública? Esta, que é o pilar da busca da igualdade de oportunidades; esta, que transformou a Coreia do Sul em potência econômica em poucas décadas, em nossa terra é entregue às baratas. Deve haver muito político temendo um povo esclarecido, preferindo pobres mendigando por uma bolsa-esmola a troco de votos…

A chave psicológica do aumento/diminuição da imbecilidade está na capacidade humana de reflexão/reação. Se somos induzidos à reatividade, nossa burrice aumenta. Se temos espaço para a reflexão, o que aumenta é a nossa inteligência.

É verdade que nossa espécie não teve muito estímulo para a reflexão em suas origens: imagine um ancestral nosso na savana africana vendo um bando de amigos em correria. Se ele parasse para refletir sobre o pânico público, provavelmente teria sido devorado por um predador, não deixando descendentes. A reatividade de sair correndo junto salvou sua vida. A filosofia teve mais chance de existir quando o grego clássico pôde tranquilamente conversar e refletir com seus pares na Ágora.

Eis que nesse cenário acima está o que determina a reatividade, e o que possibilita a reflexão: sentir-se – ou não – ameaçado; precisar – ou não – de se defender. De fato, todos os mecanismos de defesa psíquicos são emburrecedores. Tomemos apenas a negação como exemplo: todos nós estamos fadados a morrer. A morte e os impostos são as duas únicas certezas da vida. Agora considere a quantidade de energia que a humanidade investe na negação da morte. Considere o aluguel mental que isso traz, todas as derivações dessa negação (Galileu e a rejeição ao heliocentrismo, p.ex.), e você terá uma pálida ideia da influência emburrecedora dos mecanismos de defesa.

Para um exemplo mais recente, considere os nossos “debates” políticos. Há espaço para reflexão neles? Todos se ocupam de atacar o oponente através dos piores adjetivos, pois sabemos que “a melhor defesa é o ataque”. Claro, todos estão sob a ameaça dos rótulos horríveis que cada parte lhes lança. Eis porque só fazem reagir. É a imbecilidade desfilando em toda sua glória.

Algo em âmbito mais próximo? Pense nas D.R. (Discussões de relação). A ameaça de rompimento, de desamparo, de perda de amor está tão presente que a reatividade defensiva impera, é por isso que não se vai muito longe nelas… Se elas começassem com uma declaração apaziguadora (“eu te amo e quero me entender bem com você”), as chances de reflexão seriam maiores.

Todas as doenças psíquicas – neuroses, psicoses, perversões, depressão, psicopatia – derivam de se estar aprisionado a mecanismos de defesa contra as ameaças do mundo (i.e., do Superego), e sabemos como elas nos reduzem a capacidade de raciocinar.

Eis porque adoro a conversa calma e amigável; o ambiente que acolhe e não acusa; a amizade que não pressupõe malícia da outra parte; a autoridade do saber, e não a de mando; a democracia parlamentar, e não a tirania.

 


O Foguete

O amigo me perguntou, o Porto servido e bebericado:

— Mas, afinal, você vai ter uma coluna de educação sexual? Não era para ser sobre sexo?

— É sobre sexo. Eduardo e Monica criando os filhos e lhes dando direito ao desejo, isso não é sobre sexo? Quando que seus pais te disseram que você tinha direito ao desejo, e que ele não era coisa feia? Não há nada mais sobre sexo do que estar confortável com seu desejo. Hoje mesmo vem a história da Monica com a filha… bom, deixa eu contar. Leia Mais


Zonas Erógenas

O Manuel perguntou ao amigo Joaquim:

— Ó Joaquim, tua mulher transa contigo, é pur amore, ou é pur interesse?

Depois de uma pausa pensativa, Joaquim respondeu:

— Ó Manél, deve ser pur amore, pois que ela não mostra o menor interesse…

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Eduardo e Mônica II

Eduardo e Mônica tiveram um bom aconselhamento de como criar os filhos, fizeram um bom casal e geraram dois filhinhos, Cristina e Rodrigo, com três anos de diferença. Leia Mais


Falar sobre sexo

It’s a puzzlement!”, como diria o Yul Brynner, como rei do Sião (“é uma complicação, uma encrenca”).

Você pode tentar a linguagem de um médico, e ela será engravatada ou/e incompreensível, mas ninguém vai ficar embaraçado.

Você pode tentar ser mais… digamos, pedestre. Todos vão te compreender, mas com rubor nas faces.

Você pode ser infantil, e chamar a genitália feminina de “pipita” e a masculina de “piupiu”, “bilau” e quejandos (se você for ao dicionário, vai encontrar uma extensa sinonímia para ambos – experimente, que é de rolar de rir), todos vão te entender, mas você soará ridículo. Leia Mais


A Complexidade do Desejo

Um cliente me pergunta: “eu sou um pedófilo?” Ou melhor, se seu desejo por púberes femininas (é quando começam a surgir mamas e ancas) seria um desvio patológico, ou uma dessas coisas da natureza, como o desejo homossexual. “Não sei dizer, mas minorias de minorias costumam ser patologias. Precisamos investigar. Vamos fazer o retrato falado de seu desejo”.  Leia Mais

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