Categoria: Entrevistas


(Folha de S. Paulo) “Freud veio para esclarecer, não nos deixar perplexos”, diz Francisco Daudt


MANUEL DA COSTA PINTO – COLUNISTA DA FOLHA

“A Criação Original”, novo livro do colunista da Folha e psicanalista Francisco Daudt, traz uma declaração de princípios: “A clareza é o ponto fundamental neste livro”. Seu desafio é apresentar de maneira ao mesmo tempo didática e consistente o conjunto dos conceitos e da prática psicanalítica, numa reação ao caráter frequentemente hermético que marca os textos dos seguidores de Freud.

“Sua escrita era tão clara e acessível, tão bem escrita, que a única honraria que lhe coube em vida foi o ‘Nobel alemão’ de literatura, o prêmio Goethe [1930]. Quis fazer jus à intenção do mestre: ele veio para esclarecer, não para deixar ninguém perplexo, muito menos reverente diante de sua obra”, afirma Daudt em entrevista à “Ilustrada”.

Há, nessa defesa da clareza, um sentido ético e uma crítica explícita à estratégia de poder embutida no serpentário retórico de muitos teóricos de psicanálise, sobretudo Lacan e seus epígonos: “Ainda somos prisioneiros do mito francês de que uma fala obscura traduz erudição e sapiência. Sou adepto de Karl Popper, o epistemólogo que afirma que uma hipótese deve ser vulnerável a críticas e à refutação, caso contrário não se terá como aferir sua condição de verdadeira ou falsa. Em outras palavras, eu não posso te enrolar se estiver escrevendo em português claro. Isto vale para a
psicanálise, a política e a economia”.

O livro não segue a evolução cronológica do pensamento de Freud. Isso significa, por exemplo, que a “teoria dos impulsos”, que o pensador vienense modificou até seus últimos escritos (com a introdução tardia da ideia de “impulso de morte”), é apresentada ao leitor nos capítulos iniciais de “A Criação Original” e já em sua forma final.

“Se alguém se dispuser a enfrentar os 24 volumes da obra completa de maneira cronológica (que é como eles se dispõem), vai demorar horrores para entender a teoria freudiana. Vai virar um contemporâneo de Freud, que era obrigado a ir ‘acompanhando a novela’. Nós estamos na posição de pegar o conjunto da obra e rastreá-la no sentido de sua maior compreensão”.

Mas, ao contrário de leituras “fundamentalistas”, que consideram intocável a letra freudiana, Daudt considera a psicanálise uma “ciência embrionária”, sujeita a correções (e o próprio autor corrige, ao longo texto, afirmaçõesque fizera em livros ou artigos anteriores): “Freud foi um cientista, um médico, e a ciência é humilde na busca da verdade. Imitei o espírito científico de Freud: ele próprio se corrigiu quando disse que afinal não era a neurose que causava angústia, mas o contrário, a angústia causava a neurose. Abordar o texto freudiano como se fosse uma bíblia, ‘a Palavra’ que requer exegese, é um insulto ao velho professor”.

Aqui mais uma vez, há um sentido ético na recusa de colocar a psicanálise num altar: “Se a psicanálise for colocada sobre um pedestal, elevada à categoria de religião, com acólitos se submetendo a instituições, o psicanalista tenderá a fazer o mesmo com seus pacientes: tenderá a subjugá-los”.

Em nome da clareza, Daudt também critica o uso de termos como “Ego” e “pulsão”, em lugar de simplesmente “Eu” ou “impulso”, que seriam traduções óbvias do estilo vernacular de Freud. “Essa praga começou com Ernest Jones, primeiro tradutor de Freud para o inglês, que resolveu envolver sua escrita numa vestimenta pomposa –e corporativa– de termos médicos em latim e grego. Começou aí a doença institucional da psicanálise: o psicanalista servindo a instituição, em vez de servir a seus pacientes. Ficou um saber envolto em mistério, somente para iniciados, intimidando o leigo (vale dizer, o paciente), dando impressão de grande saber, mas só impressão. E vai contra o propósito básico da psicanálise, que é corrigir a submissão da criança à cultura e construir um indivíduo independente e autônomo.”.

Nesse sentido, “A Criação Original” desafia o tabu psicanalítico de que o leitor não pode e não deve ousar ler Freud com o intuito de se autonalisar: “Esse é um ponto em que divirjo completamente de meus ‘díspares’ (há muito tempo entendi que não tenho pares): quando Freud falou em análise interminável, estava falando da transferência de tecnologia que deve se dar num processo psicanalítico, de tal modo a que o paciente prossiga em um processo de autoanálise vida afora. A internet qualificou os pacientes para fazerem perguntas sobre suas doenças aos médicos, e isso os obriga a ficar mais espertos e atualizados. Quero o mesmo para os pacientes de psicanálise! Quero defender o direito do consumidor desse serviço! Quero que entendam ou tenham boas intuições sobre suas doenças, seus complexos de Édipo, que exijam entender o que o psicanalista lhe diz”.

Aliás, o capítulo sobre o complexo de Édipo (um dos pilares da criação freudiana) também traz uma contribuição teórica de Daudt, fruto das experiências clínicas relatadas pelo psicanalista carioca:

“Há no livro uma novidade: o conceito de que o complexo de Édipo não é uma fatalidade absoluta, e sim um dano de tamanho variável na vida dos filhos, causado pela incompetência dos pais em criá-los. Quanto menos incompetentes, menor o dano. Incompetentes todos seremos, pois não existe trabalho mais difícil do que atender na justa medida as capacidades e necessidades dos filhos à medida que crescem”.

Sob o intencional didatismo de “A Criação Original”, portanto, há também uma leitura não canonizadora de Freud. Ao expor a formação do aparelho psíquico desde sua fase rudimentar até suas etapas mais complexas, Francisco Daudt mostra como pode ser dinâmico, mutável, o enfrentamento de nosso aparelho psíquico com as vivências subjetivas e com o mundo exterior.

“A Criação Original – A Teoria da Mente Segundo Freud”
Francisco Daudt
Editora 7Letras
336 págs.

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Revista da Cultura: Formação do mal-educado

Entrevista concedida a Bruna Galvão para a Revista da Cultura em julho de 2014. Leia Mais


Entrevista para a Revista Regional em abril de 2014

O senhor, como poucos, sabe interpretar a alma da sociedade atual. Ela é tão diferente das outras de décadas atrás ou o conceito é o mesmo da busca incessante pela felicidade?

D- As pressões que nossa genética – que a natureza, portanto – exerce sobre nosso comportamento sempre incluíram, e sempre incluirão, a busca por prazer, que é a base do impulso de reprodução – sexual, portanto – . A cada circunstância cultural nova, essa busca pode ganhar aspectos periféricos diferentes. Vivemos uma era de abundância calórica – epidemia de obesidade – e estímulo ao prazer imediato. Tudo o que nossa natureza faz é tomar carona nas oportunidades. Na savana africana não havia essa moleza, mas havia também o imediatismo voltado à sobrevivência. Leia Mais


Entrevista: “A Cura Gay”

Entrevista para a revista mensal ‘Psique – Ciência e vida’ de agosto de 2013

O deputado João Campos (PSDB-GO), autor do projeto de decreto legislativo, chamado de “cura gay”, afirmou que a finalidade da iniciativa era “regatar a premissa inicial do artigo 5º da Constituição, de que todos são iguais perante a lei. E a resolução nº 1 do Conselho Federal de Psicologia ofende esse princípio, na medida em que discrimina o homossexual e não dá o mesmo tratamento ao heterossexual”. Como você avalia essa interpretação?

Não faço a mais pálida idéia de questões jurídico-constitucionais, pois não são assuntos da minha alçada. Mas é da minha competência dizer o que significa ‘cura gay’. Quando se fala na cura do câncer, se pensa na maneira de extirpar uma doença. Pois é nesta acepção do verbo curar que ele é usado na expressão ‘cura gay’: extirpar de uma pessoa a “doença” de ter o desejo sexual orientado para o mesmo sexo. Isso agride o conhecimento científico, que rege a Psicologia e a Medicina, desde que se convencionou internacionalmente (e  a Organização Mundial de Saúde assim o reconhece) que a orientação homossexual não constitui uma doença. Processos semelhantes já ocorreram ao longo do tempo. O mais recente e notório foi quando se passou a aceitar que 10% da população nascem canhotos, nascem e nascerão, como manifestação da genética,sem que isso seja mais considerado um vício comportamental a ser extirpado mediante castigos ou a imobilização da mão esquerda.

Ao mesmo tempo, se a orientação homossexual for vista por religiões como uma forma de possessão demoníaca, e seus devotos quiserem se submeter a exorcismos por essas religiões oferecidos, já não é problema nosso. É uma questão de fé, e as questões de fé fogem completamente ao debate científico. Nelas a Ciência não se mete, e não deve se meter. Portanto, não será procedimento feito por quem se comprometeu com as referências científicas que balizam a prática médica ou psicológica. Não será feito num consultório, por um psicólogo ou por um médico, e, sim, por um religioso, onde ele achar melhor praticá-lo.

Em suas análises sobre o tema, você cita a classificação das orientações sexuais criada por Alfred Kinsey, com tipos bem definidos: heterossexual exclusivo; hétero ocasionalmente homossexual; hétero frequentemente homo; igualmente hétero e homo (bissexual); homo frequentemente hétero; homo ocasionalmente hétero e homossexual exclusivo. Em sua experiência profissional, concorda com essa escala?

Vamos convencionar que a lista descreve tipos de zero a seis de orientações sexuais. Mais adiante, quando citar o exclusivamente homossexual, falarei do tipo 6, assim como o exclusivamente heterossexual será chamado de tipo zero, e assim por diante.

Mas, respondendo: se aplicada a homens, sim, concordo, e o próprio Kinsey afirmava que, com as mulheres, os tipos mais nítidos eram apenas o exclusivamente hétero (tipo zero) e o exclusivamente homo (tipo 6). Que elas não se fixavam em nenhum dos tipos intermediários, que eram capazes de passear por vários. Na minha experiência, seja clínica, seja social, nunca encontrei um homem bissexual perfeito, o tipo 3 de Kinsey. Vale dizer, um homem cujos olhos se atraiam com tesão indiferentemente para ambos os sexos, já que, entre homens, essa é a melhor maneira de se identificar a orientação sexual.

O despertar do desejo erótico funciona de forma diferente nos homens e nas mulheres. Um homem olha seu objeto de desejo com excitação sexual. É por isso que eles são os principais fregueses da pornografia, sejam gays, sejam héteros. Uma mulher olhará para um homem e o achará “interessante”. Se o homem interessante olhar para ela com tesão, e ela se sentir desejada por ele, aí então a excitação sexual nela se desperta. Apenas 10% das mulheres têm esse tesão visual que os homens têm (e serão apreciadoras de pornografia, portanto), pois são o grupo de maior nível sanguíneo de testosterona.

Certa vez, numa palestra com mais de cem mulheres, enunciei essa tese. Algumas reclamaram, que elas também tinham tesão visual. Propus um teste: “Imaginem duas fotos, a primeira com um jovem bem apessoado completamente nu sobre fundo infinito. A segunda com um homem na casa dos 40, têmporas grisalhas, terno Armani, saindo do banco de trás de uma Mercedes com motorista. Quem prefere o Armani levante a mão (exatas 90% levantaram). O jovem nu? (10%).

Na compreensão freudiana, a sexualidade é uma força cujo impulso se estrutura para além ou a despeito de classificações convencionais, como a distinção entre hétero, homoe bissexualidade. O que acha?

De fato, a beleza conceitual freudiana é que ele descreve Eros como o impulso de vida, de construção, o motor de qualquer de nossos atos, mesmo quando mesclado ao impulso de morte. Freud, que se horrorizara com a 1ª Guerra Mundial, vendo ali a expressão maior do impulso de morte, sempre soube que a motivação das guerras era a conquista, o poder, e como decorrência, o sexo. Sabia que Eros precisava romper barreiras, destruir, mesmo que fosse a singela unidade familiar (quando um estranho veio “seduzir” minha filha para se casar com ela, acabou destruindo o retrato da familinha feliz, para construir a deles), para se fazer valer.

Freud concebeu a enorme complexidade de nosso desejo, a ponto de preferir o termo “impulso” (em alemão, trieb, primo do drive inglês) para que ficasse diferente de “instinto”, apenas para frisar que o impulso era só o começo de um processo, que, ao longo da vida ganharia colorações próprias e únicas vindas da cultura até formar essa imensidade oceânica que abrange consciência e inconsciente, o desejo.

Se ele se manifestava de forma hétero ou homo, saudável ou patológica (pois, seja hétero, seja homo, a manifestação do desejo pode ser saudável ou patológica), bem, isso era outro assunto a ser tratado em outros capítulos, na verdade em outros livros.

O projeto causou muita polêmica na opinião pública, pois cura pressupõe que haja doença. Você acha que a orientação sexual do indivíduo, seja ela qual for, pode ser considerada uma doença? É possível traçar um paralelo entre o projeto e a escala Kinsey, citada anteriormente?

As doenças psíquicas, mesmo quando a genética pesa mais, têm sempre uma vasta contribuição da forma que a pessoa é recebida e criada pelo mundo (pais, biológicos ou não, orfanatos, escolas, governos, ambientes, o conjunto daquilo que chamamos “cultura”, o meio em que a criança é cultivada). É só pensar na escola e na maneira cruel como as pequenas diferenças são tratadas (o bullying sempre tem como alvo o diferente), e lembrar dos apelidos que recebem (Quatro-olhos, Rolha de poço, Baleia, Cabeção, Pelé, CDF, Tampinha, e finalmente Mariquinhas ou “Mulerzinha”) para entender que o menino efeminado terá um mundo hostil pela frente. Que costuma começar em casa, quando o pai, decepcionado por não ter um filho viril, muscular, esportista, lutador, passa a discriminar e a comparar com os irmãos aquele diferente. Pediram-me para traçar um perfil de um personagem de novela que é a “bicha má” estereotipada, que se ressente de o pai preferir sempre a irmã, por mais que ele se esforce por agradá-lo. E eu pude imaginar que essa discriminação vinha da infância.

Tudo isso para dizer que, quem pensa que ser gay é uma “opção”, desconsidera a vida dura que a imensa maioria deles tem. Que se lhes houvesse sido dada a escolha, certamente não seria essa vida que levariam. Que o mundo lhes é hostil desde pequenos, e que essa hostilidade não sumirá com a idade. Resulta que, como as doenças psíquicas são mecanismos de defesa exagerados, qualquer um que se viu na contingência de ter muito que se defender do mundo, tenderá a ter mais doenças psíquicas.

Mas não significa que sua condição de base seja em si uma doença. Negros, no sul dos Estados Unidos. Judeus, na Alemanha nazista. Soldados em guerra (preocupam os índices de suicídio entre soldados norte-americanos atualmente no exterior). Todos são e foram grupos nos quais a depressão e a submissão (ambos são mecanismos de defesa) fizeram a festa.

No entanto, nem nos passa pela cabeça que ser negro, ser judeu ou ser soldado possa ser considerado como doença psíquica.

Mas sua pergunta contém uma complexidade a ser contemplada: os tipos intermediários (do tipo 1 ao tipo 5) podem ter uma margem de “conversão”. Se um tipo 1 decide, durante um período de sua vida, ter experiências homossexuais, pode bem resolver que já deu por visto esta fase, e que não quer mais encrencas com a sociedade, deixando o eventual desejo homo na prateleira. Assim também um tipo 4 pode passar a vida casado e cuidando da família, mas depois da crise da meia-idade (quando se contempla que você passou metade da sua vida fazendo o que esperavam que fizesse, e resolve dizer, “de agora em diante o resto é meu”) querer se dedicar ao desejo complicado que esperava sua vez.

Imaginar que um tipo zero ou um tipo 6 possam passar por essa “conversão”, quando o desejo oposto ao deles não lhes é nem um assunto, é contrariar Schopenhauer, que dizia que um homem pode fazer o que quiser, mas não pode escolher o que vai desejar. De fato, nosso “livre arbítrio” não é livre ao ponto de que eu acorde amanhã e diga, “hoje vou me apaixonar por um rinoceronte”.

Em função dessa análise, você sepulta definitivamente a antiga afirmação de que a homossexualidade é uma opção?

Pergunto aqui: quem escolheria uma vida de deboches e perseguições, sofrimentos e desilusões? Quem, por gosto, se confinaria em guetos, com uma mobilidade social reduzida? Se não fosse empurrado e coagido a tal por uma força maior do que ela, pessoal alguma faria tal idiotice. É como “a bolsa ou a vida” dos assaltantes, que, assim como qualquer coação, não oferece propriamente uma escolha. É como a hipocrisia de chamar os pagadores de impostos de “contribuintes”. Ora, contribuição é um ato de vontade, e eu pago muito imposto, e muito contra a vontade, pelo mau uso que fazem do nosso dinheiro.

Considero a história da “cura gay” como um sintoma de doença política que acontece quando as correlações de poderes dentro da sociedade (significado de “política”) se pervertem numa relação de domínio-submissão, que é uma das faces do sadomasoquismo.

Em termos psicológicos, como funcionam a cabeça das pessoas que classificam a homossexualidade como doença? É possível dizer que esse conceito é apenas conseqüência das influências religiosas, ou há outros elementos que podem ser considerados?

Como funcionava a cabeça dos que pensavam que os negros eram sub-humanos, castigados por Javé por serem descendentes do filho de Noé, que debochou do pai quando o viu bêbado? E dos que criam na tese de que nascer canhoto era como nascer doente (é engraçada a sinonímia de canhoto, que abrange “o demônio” e o sinistro, entre outras pérolas)?

Se você considerar que o senso comum é a mais poderosa das religiões informais, eu diria que si, que é conseqüência de influências religiosas, mas que é o eterno costume humano de enquadrar a diferença em alguma coisa que se possa colocar num escaninho maligno, e não pensar mais nela.

No entanto, além dos religiosos, muitos psicanalistas e psicoterapeutas, até os anos 1990, ofereciam reversão para o tratamento da homossexualidade e eram convencidos de que o desejo homoerótico era uma derivação do narcisismo, uma incapacidade de aceitar a diferença, por mais paradoxal que pareça. Eles não aceitavam que a homossexualidade pudesse, simplesmente, ser da natureza das pessoas. Um exemplo é que, somente em 1973, a American Psychiatric Association deixou de considerar a homossexualidade como doença. O que acha disso?

Eu deploro essa verdade que você citou dentro da pergunta. Considero-a como um sintoma do corporativismo arrogante da Psicanálise, de se julgar uma modalidade de conhecimento superior a outras e, por isso, imune a suas críticas (o epistemólogo Karl Popper – por quem tenho grande admiração – trabalhou com Adler, discípulo de Freud, e ficava horrorizado com a leviandade que ele tinha ao enunciar as “verdades” psicanalíticas como irrefutáveis). Ora, justamente uma pré-condição popperiana para se avaliar um postulado pelo método científico, era de que ele fosse vulnerável às refutações que poderiam surgir ao longo do tempo. Ao ponto que, em ciência se diz que a verdade é a tese que ainda não foi refutada.

Certa vez uma amiga me disse que a dança contemporânea era um jogo incestuoso, que só interessava aos bailarinos e suas famílias, que acabavam por ser sua única platéia. E ela era bailarina. Acredito que a mesma observação pode se aplicar às corporações psicanalíticas. Infelizmente, esse mal veio do próprio gênio que descreveu a Psicanálise como método de investigação da mente, pois se apressou a criar uma instituição que “protegesse” suas idéias de possíveis desvirtuamentos, e o fez com mão de ferro.

Para se ter idéia de quão isolada e prepotente se tornou a psicanálise nos primeiros 80 anos do século XX, basta dizer que nos anos 70 o psicanalista Jurandir Freire Costa “ousou” escrever uma tese, em que defendia que, quando a psicanálise fosse aplicada a pessoas de classe média baixa e pobres, o psicanalista deveria adaptar sua linguagem para que o paciente compreendesse. Ora, isso supõe que, da classe média para cima, o paciente estava tão “aculturado” pela psicanálise que o psicanalista não precisava se dar ao trabalho de se fazer entender. O paciente que se achasse burro mesmo, que se esforçasse para se adaptar àquele ser misterioso e superior, que, entre silêncios intermináveis, emitia frases enigmáticas (minha encrenca maior com Lacan passa por aí) com supostos significados profundos.

Qualquer antropólogo que tomasse conhecimento de tal tese, correria o risco de morrer de rir. Porque eles sempre se esforçaram por se adaptar à linguagem das culturas estudadas. Também, se não o fizessem, corriam outro risco: o de levar com uma borduna no meio do crânio.

Este risco os psicanalistas só foram sentir nos anos 1990, quando seus consultórios se esvaziaram em favor dos consultórios psiquiátricos. Mas eles, conservando a ignorância arrogante (a pior forma de ignorância), diziam que a psicanálise não visava à cura e sim a uma elevada compreensão da psique, e que eles não acreditavam nessas “pílulas da felicidade” (a era iniciada com o Prozac).

Eu mesmo, já médico clínico havia cinco anos, quando me interessei em migrar para a psicanálise, encontrei derivados da instituição criada por Freud (que havia se transformado na International Psychoanalytic Association, com sede em Londres), que impunham ao candidato uma análise com um “didata” com poder de veto sobre as pretensões profissionais dos candidatos seu pacientes.

Ora, isso me parecia um insulto à psicanálise: pedir que o paciente se expressasse sem censura, tendo a espada de Dâmocles da expulsão pendente sobre sua cabeça. Isso daria um tal medo ao candidato, que ele só poderia se comportar de maneira “boazinha” para com seu analista didata e sua instituição. Refutação zero igual a ciência zero, para o popperiano que eu já era.

Por isso, e me valendo da autoridade que possuía, contruí minha formação da mesma forma que Freud fez a dele: de forma autônoma. Queria, como continuo querendo, que a psicanálise conversasse, longe de seu pedestal de barro, com a neurociência, com a psicologia evolucionista (da qual sou fã – viva Steven Pinker e os neodarwinistas), com a psicologia cognitiva (que me parece afinada com a freudiana, numa linguagem mais simples). Sobretudo queria que a psicanálise, mesmo não podendo ser uma ciência, já que seus achados não podem ser testados em laboratório, apreciasse o espírito científico que teve Freud, e que gostasse de epistemologia, para trilhar o caminho sem fim de busca da verdade.

Ouço que as grandes Sociedades andam mais humildes hoje em dia, mais por pressão mercadológica, na hora em que começaram a ver seus “crentes” esvaziarem os consultórios. E que pararam com a besteira de que o desejo homossexual era “apenas uma manifestação do narcisismo, daqueles que não conseguem lidar com a ausência de pênis numa mulher”, não por convicção, mas por pressão externa, como a da American Psychiatric Association.

O fato de o projeto ter sido aprovado na comissão de direitos humanos da Camara, presidida pelo deputado e pastor Marco Feliciano (PSC-SP), pode influenciar a opinião pública a seguir um discurso conservador?

O fato de a Comissão de Direitos Humanos ser presidida por quem é mostra um sintoma de total descaso com a opinião pública, um escárnio de quem tem certeza de ter o povo no cabresto (ou tinha, como as recentes manifestações mostraram). No momento em que escrevo, o Congresso, pressionado pelas ruas (ó, belo Impulso de morte!) resolveu engavetar o projeto da “cura gay” com a mesma presteza que derrubou a PEC_37 que tolhia o Ministério Público em seu poder de investigação.

Então, eu diria que sim, que o escárnio do poder central pelos valores do povo influenciou,  psicologicamente, a opinião pública a seguir pelas ruas com seu discurso conservador (que conserva, que preserva) do princípio de que todo o poder emana do povo e em seu nome será exercido, como reza o primeiro parágrafo da nossa Constituição.

Você já declarou em artigos que “ter algo de gay, tudo indica que venha de berço, hereditário ou da gestação”. Poderia explicar essas versões para o fato de uma pessoa ter uma orientação sexual diferente da convencional?

Preferiria dizer “diferente da majoritária”, já que estamos falando de uma minoria. E uma minoria histórica, já que os tipos 6 masculinos são entre 5 e 6% da população, e os tipos 6 femininos a metade disso (entre 2,5 e 3%). Esse número, estável pelos tempos e pelas culturas,é um dos indicadores (assim como os 10% de canhotos) de que estamos diante de uma origem genética. Outra coisa gritante é que meninos de dois anos, mesmo quando não criados entre tias e irmãs, se comportem como meninas na escolha de brinquedos (pode encher o quarto da criança de guerreiros e bolas de futebol, não adianta), nas brincadeiras de casinha, na pouca muscularidade, na prolixidade, no comportamento sedutor junto a homens adultos. Ninguém os ensinou a ser assim. Encha o quarto de um menino nascido hétero de babados e bonecas, criado por tias, e ele inventará um jeito de subir numa árvore, de correr atrás de uma bola.

Gêmeos idênticos têm um índice de orientação homossexual idêntica de mais de 60%, enquanto gêmeos fraternos (com DNA diferente) partilham a orientação homossexual em menos de 10%. Há quem veja nisso um argumento para contradizer a genética, pois crêem que identidade de genoma é identidade em tudo. Basta ver gêmeos idênticos para se perceber que eles não são tão idênticos assim. É incompreendido o fato de que o DNA de uma pessoa não é o mesmo que o projeto de uma linha de montagem, que produzirá peças sempre idênticas. É mais como uma receita de bolo: incidentes de preparação podem produzir, a partir da mesma receita, bolos diferentes.

É possível um homossexual se convencer que sua condição é uma doença e desejar ser “curado”?

Perfeitamente possível. A fé é a adesão e entrega amorosa ao absurdo e ao ilógico, venha ela de religiões formais, venha ela da mais forte das religiões informais e invisíveis, que é o senso comum. Entre os católicos, há o convencimento da transmutação de farinha de trigo assada e de suco de uva fermentado, por meio das palavras do sacerdote, em carne e sangue verdadeiros de Jesus Cristo. Entre os adeptos do senso comum (que nem se sabem assim), há a convicção de que as mães são sagradas, que seu amor pelos filhos é perfeito, e que qualquer pensamento contrário a isso é uma blasfêmia a ser punida. Seja pela religião formal, seja pelo senso comum, uma pessoa pode estar plenamente convencida de que os diferentes são doentes a serem curados. Ora, na falecida União Soviética, a dissidência política não era vista como motivo de internação em instituições psiquiátricas? Durante a história mundial, não foi discutida a qualidade de ser humano de indígenas, de negros e de judeus? Não se subestime a força de convencimento do senso comum, ela é enorme. Assim como é enorme a tendência humana de delegar a alguém, ou a algo mais a tarefa de pensar e de agir e, depois, segui-lo com fanatismo, como Hitler, como a Bíblia, como o Corão.

Muitas vezes, na ânsia de defender a liberdade de orientação sexual, alguns acabaram exaltando a homossexualidade, afirmando que o melhor é ser diferente. Na sua avaliação, essa interpretação é correta, ou o fato de assumir a homossexualidade é perturbador e sofrido para a maioria das pessoas?

Para se entender esse fenômeno é necessário conhecer o conceito de formação reativa: é um sentimento, ou uma postura, que se forma nas pessoas por horror ao sentimento ou à postura oposta. Por isto, filhos de tabagistas e alcoólatras podem se tornar militantes antivícios (tabagistas e alcoólatras que procuram se manter em abstinência costumam fazer o mesmo, tornando-se intolerantes e patrulheiros ao simples cheiro de cigarro, que dirá a alguém fumando em suas presenças). Filhos de caretas tornam-se hippies, filhos de hippies tornam-se caretas.

Homens perturbados com a possibilidade de portarem algo de gay tornam-se pitboys homofóbicos, militantes perseguidores, espancadores, assassinos de gays, ou propositores de “cura gay”, de tanto horror que têm dessa tentação que lhes mora no íntimo.

Imagina se um tipo zero será militante antigay, homofóbico, de um assunto que nem lhe passa pela cabeça. Todos olhamos com desconfiança o falso moralista que bate no peito a dizer, “Sou honesto!”, e pensamos que ele oculta uma vida de bandalheira.

É a formação reativa que leva alguém a afirmar que “Black is beaultiful”, quando todos sabemos que há brancos e negros horrorosos ou belos. É da formação reativa que vem o “orgulho gay”. Ele tende a ser filho direto da vergonha de ser gay. Como não há vergonha de ser hétero, não há passeatas de orgulho hétero. Os adeptos do orgulho gay seguem, sem saber, um preceito de Lênin, que dizia que uma árvore nascida com grave inclinação, para ser posta a prumo, deveria ser amarrada por um longo período na direção oposta, e só depois desamarrada.

“Sair do armário” sempre encontra percalços. Talvez menores para os tipos 6, que não têm alternativa (e todos já sabiam, mesmo). Mas o “politicamente correto”, essa praga da vigilância e patrulhamento que reinventou o pecado de pensamento muito depois de a Igreja aposentá-lo, coage a tipos entre 2 e 5 a “sair do armário”, como se eles, em dívida para com seus “pares”, devessem operar um reducionismo a suas complexidades e afirmar de peito aberto, “Sou gay!”, e passar a combater suas “recaídas” hétero.

É uma tendência religiosa de imposição dos dogmas das esquerdas, em sua eterna tentativa de busca de poder através de instalar o pensamento homogêneo, por querê-lo hegemônico.

Você já declarou que “todos os casos de ‘cura’ psicanalítica do desejo gay que conheci, e não foram poucos, ‘recairam’ tempos depois”. Pode explicar quais foram esses casos e como se deram essas chamadas ‘recaidas’?

Os pobres coitados dos pacientes de tipos Kinsey intermediários só saiam de suas analises depois que “convenciam” o doutor de que ele havia operado o milagre, e que agora eles, livres da moléstia, eram hétero desde criancinhas. Saída a pistola de suas têmporas, em breve começavam a lidar com o desejo proibido e as ‘recaídas’ (de início, por pecado de pensamento, seguido de masturbações com devaneios ‘doentes’ e, logo, vias de fato clandestinas) aconteciam. Alguns desistiam de vez da psicanálise, outros achavam por bem “reforçarem-se” com novos, caríssimos – cinco sessões semanais para combater o mal recidivante – em intermináveis processos, verdadeiros castigos de Sísifo, a cada vez que a pedra rolava ladeira abaixo.

O papel da psicanálise é importante para ajudar homossexuais com dificuldades de aceitação de sua própria orientação sexual e, também, com problemas psicológicos, como depressão, derivado do preconceito e das pressões sociais?

Se a psicanálise contemplar o que Kinsey descreveu e ajudar o paciente a avaliar o peso que o desejo homoerótico tem em sua vida; se a psicanálise souber distinguir as perturbações edípicas e as neuroses ou/e perversões delas decorrentes (e não decorrentes da orientação sexual em si), e tratarem do paciente sem querer enquadrá-lo num ideal absurdo de “normalidade psíquica”; se contemplar suas inserções únicas na cultura, aí, sim, ela terá sido de imensa ajuda à inteireza do indivíduo que a procurou.

Você acredita que se deve promover uma reflexão teórica e psicológica sobre a homossexualidade no registro da análise intelectual e não ficar nas habituais discussões polêmicas, que são, às vezes, colocadas de maneira irracional?

Tanto acredito que me dediquei (e não foi pouco) a responder a esta entrevista, que não é outra coisa senão o que sua pergunta propõe. E, de resto, discussões “para vencer”, com atritos que geram mais calor do que luz, me desgostam sobremaneira. Se estou num meio em que as argumentações usam da lógica e da razão para fins de convencer (que é vencer junto, sem querer humilhar ninguém), acho que tenho uma contribuição a fazer. Nos outros casos, simplesmente me levanto e vou embora cuidar da minha vida, e estar com interlocutores, em vez de locutores surdos e fanáticos.

 


Entrevista para o consultor Fernando Luzio

Leiam ou ouçam a entrevista que dei para o site do consultor estratégico Fernando Luzio.  Basta clicar aqui no link


Revista Lola (março 2012)

A felicidade virou uma obsessão

O psicanalista Francisco Daudt da Veiga afirma que estamos confundindo o sagrado direito de querer ser feliz com uma busca frenética pelo prazer imediato. E defende a amizade como a única coisa capaz de sustentar um casamento por décadas

Por Carol Vaisman, Fotos Marcelo Correa Leia Mais


Revista Capricho (março 2012)

1. A senha da internet:

— Muitos adolescentes estão trocando as senhas da internet com o namorado, afinal “não tem nada para esconder”. Por que isso não é legal?

FD- Há um conceito em nossa cultura que confunde amor com perda da individualidade. Não à toa, os padres dizem “De hoje em diante sereis um só corpo e uma só alma”. Isto é fonte garantida de rancor reprimido (ou contido), que um dia vai explodir. O adolescente tem uma tendência a buscar pertencimentos outros que difiram de sua família. Daí as tribos e os namoros que giram em torno da posse e dos ciúmes.  A senha é um ícone da individualidade, que estará sendo negada. Leia Mais