Categoria: Natureza Humana


A raiva é a mãe da justiça

“Eu sou o ar que ela respira? Isso é triste, porque ninguém dá bola para o ar, a menos que ele falte”.

A mesma coisa estranha acontece com a justiça e a saúde: se elas estão presentes, a gente nem nota. Se você não estava notando seu pé, é sinal de que ele está com saúde, caso contrário ele chamaria a sua atenção.

Temos notado a justiça, pois neste momento o país atravessa um desses transes históricos em que sua falta precisa ser aguda e amplamente corrigida. E está sendo, num “reality show” melhor que qualquer novela.
O que é justiça? Hans Kelsen que me perdoe, mas quero um sentido mais primitivo, mais da natureza humana, pois ele está presente desde nosso nascimento, num software genético voltado para a falta de justiça: o sentimento de que alguma coisa está errada, e que precisa ser corrigida. Esse sentimento pode ter o nome genérico de “irritação”, uma perda da paz, que ganhará mais tarde o nome de raiva.

Um bebê molhado ou com fome perde a paz, se irrita e chora, pois é tudo o que consegue em sua impotência. O choro dele nos irrita, e corremos para devolver sua paz, de modo a recuperar a nossa.

Uma irritação mais sofisticada: ciúme. A criança agora tem três anos e ganhou um irmãozinho. Toda a atenção da família, que era exclusiva dela, se volta para a nova cria. A criança prejudicada tem raiva; já não chora, pois tem mais potência: ela só quer matar o intruso. Dizem-lhe que isso é feio, que ela deve amar o irmão. A raiva não passa, a paz não vem, a justiça não foi feita. Ela não seria feita matando o caçula, mas também não foi feita calando a criança. Uma solução mais sofisticada se fazia necessária. A coisa está ficando mais complexa mesmo, e vai piorar.

“Eu não quero vingança, quero é justiça”. Quantas vezes ouvimos isso em entrevistas na cena do crime? Bem traduzido, daria em: “O que eu quero mesmo é vingança, mas na falta de melhor, fico com essa droga de justiça”.

A pena de Talião era mais próxima do nosso desejo (“olho por olho; dente por dente”), daí a palavra “retaliação”, mas o mundo foi se tornando cada vez mais civilizado, fomos obrigados a abrir mão da violência em favor do Estado (sim, ele tem o monopólio da força bruta, e precisa usá-la de vez em quando) para poder conviver com estranhos.

Já não podemos fazer “justiça com as próprias mãos”, mas continuamos querendo. É isso que Freud chamou de “mal-estar na civilização”.

Ora, “mal-estar” é um eufemismo para raiva. Precisamos fazer alguma coisa para diminuí-la. Precisamos aperfeiçoar a justiça, este é o único caminho para a civilização triunfar sobre a barbárie, pois ela mora dentro de nós desde pequenos, lembra?

“A justiça tarda, mas não falha”? Errado: a justiça que tarda é falha. A prisão por condenação em segunda instância é um dos meios de aliviar nossa raiva de ver uma justiça que nunca alcança poderosos endinheirados.

Seja no âmbito familiar, seja no público, não há caminho para a redução de nossa raiva que não passe pelo aperfeiçoamento da justiça.

Dentro do horror, essa é a beleza do momento que vivemos: a busca de uma justiça honrada igual para todos.


Burrice

“Antes do meu primeiro casamento eu não era solteiro, era imbecil: tinha vergonha do meu desejo, pensava que apresentá-lo a uma moça seria um insulto, que elas deveriam ser tratadas como deusas em pedestais”. O relato de consultório, feito por pessoa inteligente, diz: a pessoa pode emburrecer ao longo da vida; essa burrice pode ser revertida.

Conceituando inteligência como a capacidade de se ligar dois ou mais arquivos de memória (que Richard Dawkins chamou de “memes”) para formar terceiros, e de burrice a incapacidade de fazer tal coisa, constatamos que: a) a humanidade tem um predomínio de imbecis; b) erudição não é sinônimo de inteligência (há eruditos cuja cabeça se parece um museu de aves empalhadas: são belos exemplares, mas eles não se cruzam nem procriam).

Mas se a imbecilidade é variável, o que nos torna imbecis? E o que facilita a inteligência? Há crianças que se destacam pelo brilho, mas dificilmente se vê uma criança imbecil. Elas têm um despudor e uma leviandade de pensamento – e de palavra – que fazem sua inteligência brilhar. Isso lhes dá maleabilidade, agilidade e plasticidade de processamento de ideias, parte fundamental da inteligência.

Mas isso vai se perder: rapidamente a criança é apresentada ao que é próprio e ao impróprio, ao pensável e ao impensável. Começam a ser construídas cercas eletrificadas em seu cérebro: se ela ousa ultrapassar, toma choque. Na minha infância católica havia o pecado mortal de pensamento: eu iria para o inferno só por pensar, por exemplo, em sacanagem.

Começa aí a patrulha do pensamento, a “crimideia” orwelliana que vai nos emburrecer. Claro, o politicamente correto ainda vem…Para piorar, na adolescência passamos a ter que lidar com assuntos de complexidade enorme, sem o menor preparo para isso: a sexualidade e as preliminares do mundo adulto. É quando começamos a sucumbir ao senso comum, não o dos pais (eles agora são o inimigo), mas o da tribo a que aderimos, no auge de nossa insuficiência: temos que nos homogeneizar, eliminar qualquer traço de diferença deles. Por reação às nossas inseguranças, adquirimos certezas absolutas: não existe melhor contribuição para a burrice.

Se não fosse suficiente, o adolescente ainda corre o risco da maconha, das drogas estupefacientes (fazedoras de estúpidos), além de se levar a sério. Levar-se a sério é pior que maconha, para emburrecer. Mas crescemos. Aí mora nossa chance: se caminharmos para a independência, poderemos tomar o caminho de recuperar a inteligência.

Claro, ainda há ciladas pela frente: crenças absolutistas, políticas ou religiosas; novas tribos para aplacar inseguranças; neuroses (que nos aprisionam ao passado); depressão; a atração pelo dramático, que impede a reflexão.Fico feliz por trabalhar como um “recuperador de HD”: num ambiente seguro, o pensamento redescobre o despudor e a leviandade necessários para rever sua história e livrá-la do lastro de burrice que corrompeu seu processador. Uma vez separados o pensar e o agir, o primeiro escolherá em liberdade uma ação mais inteligente.

As razões do coração

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”. A primeira vez que ouvi essa frase foi num samba de Marino Pinto e Zé da Zilda (“Aos pés da santa cruz”), mas ela havia sido dita trezentos anos antes pelo filósofo e matemático francês Blaise Pascal (1623-1662), antevendo as dimensões do inconsciente muito antes de Freud nascer. Duas coisas me encantam na frase de Pascal: o apreço pela razão, bem típica de seu tempo (Iluminismo e Idade Moderna), com a vontade de que a razão viesse a dar conta de tudo. A outra: o fato de eu trabalhar com a invenção de Freud, e de me esforçar para, com a psicanálise, entender as razões do coração.
Não sei qual das duas me encanta mais. Claro, eu adoro descobrir por que razão esquisita uma pessoa morre de medo de avião, mas anda tranquilamente de carro (o lugar mais arriscado em que entramos). Ou que diabos levam àquela outra se apaixonar por alguém que é claramente uma roubada. Descobrir a trama que conecta a história de uma pessoa a suas decisões aparentemente irracionais é como ser um detetive neo-iluminista em busca das razões cifradas do desejo inconsciente, as razões do coração. E até as há sociológico/psicanalíticas: por que gays buscam o amor de um hétero, quando seria razoável que o buscassem entre seus pares? Porque foram rejeitados por seus pais héteros, e agora querem corrigir a história (a encrenca é que a história tende a se repetir, tão parecido com o pai é o objeto de seu desejo). Outra: por que às vezes, no amor, a distância aproxima e a proximidade afasta? Porque a distância favorece a idealização, e a proximidade traz o real. É difícil, preferimos o ideal.
Mas certamente o apreço pela razão tem sido um farol-guia em minha vida. Tenho por ela carinho, respeito e admiração. Como a humanidade fez para sobreviver, vivo a procurar o sentido das coisas, dos fenômenos, da ação humana. A ela sou grato pela minha saúde mental; em sua defesa eu saio amiúde, mormente nesses tempos em que ela vive sendo escorraçada das conversas, quando não vilipendiada nos pronunciamentos políticos. Basta ver o quanto nos enlouquece a distorção do sentido, o como a razão é torturada pelas intenções espúrias da novilíngua de quem está querendo nos enrolar.
Tudo o que se publica (este artigo, p.ex.) visa influenciar o senso comum. O termo “formadores de opinião” é pretensioso, mas vem daí. Em alguns casos, como na crescente aversão ao cigarro, o senso comum é afinado com a razão. Em muitos outros, como na equação simplória do “pobre é coitado e bom; rico é cruel e mau”, e o coitadismo que daí resulta, é mais afinado com o “ter razão”, por irracional que seja.
A propósito, mesmo irracional, há no processo uma homenagem à razão: todos querem “ter razão”, a despeito do de seus desprezos pela lógica. Como Polonius disse ao rei, “Senhor, existe método nessa loucura”: ela serve a um objetivo de dominação. E vá você discutir com um louco: ele usará qualquer truque, desprezará o racional para continuar “tendo razão”.
Afinal, como disse Chesterton, “o louco é aquele que perdeu tudo, exceto a razão”. São as razões do coração.

Por que pisamos em ovos com nossos filhos

Vejo crianças fazendo manha, gritando em restaurantes, se jogando no chão, esperneando no shopping quando contrariadas, desrespeitando professores, sendo insuportáveis…

Por que essas coisas se tornaram cada vez mais comuns, e por que eram tão raras quando eu fui criança? Lembro-me de minha mãe dizendo para meu irmão, que a olhava furibundo depois de um merecido – e literal – puxão de orelha: “Você pensa que me mete medo com esses olhos?” E não metia mesmo. Ao contrário de muitos pais da atualidade, ela não tinha medo de criança, ela não sofria de pedofobia.

Essas palavras que terminam em fobia passaram a ser entendidas mais recentemente como “ter-se ódio a”, como em “homofobia”, mas o sentido original é “medo de”. No entanto, o medo e o ódio não andam distantes quando o assunto é a homofobia, ou a pedofobia.

Supostamente, somos mais fortes que uma criança, sempre o fomos. O que as tornou tão poderosas ao ponto de temê-las, de nos sentirmos impotentes para o exercício da autoridade tão necessária para prepará-las para a vida?

Há vários fenômenos confluentes para esse resultado, mas ele resulta de duas mudanças básicas: a maneira como vemos as crianças e a maneira como vemos a autoridade.
A concepção do que é uma criança mudou drasticamente nos últimos trezentos anos: de objeto da propriedade dos pais, podendo ser vendida ou morta sem consequências legais, até virar um bibelô, coitadista, frágil, traumatizável, tutelada por leis e estatutos protecionistas, que deve ser alvo de um amor incondicional beirando a subserviência, para quem os pais devem dar “tempo de qualidade”, já que não devotam todas as horas de sua vida (“como deveriam”), e diante de quem é dever moral de quaisquer pais minimamente educados se sentir culpadíssimos por tudo o que erram em sua criação (e eles “erram muito”, espere até seu filho crescer e ir a um psicanalista para você ver a desgraça que fez nele).

Ou seja, as crianças passaram de moscas mortas a monstros poderosos diante de quem os pais morrem de medo.

Nenhuma surpresa, pois o movimento mais comum da humanidade é o pêndulo da formação reativa: ficamos com horror das barbáries cometidas contra as crianças no passado, e por isso exageramos para o lado oposto, passamos a mimá-las como se fossem quebrar com um espirro. Antes eram invisíveis; agora damos-lhes toneladas de atenção, até a brincar com elas nos impomos! Antes éramos tiranos; agora as tiranas são elas, nós lhes passamos o bastão.

É quando o medo desperta o ódio: os filhos gritam e a gente fica de saco cheio. Mas odiá-los é tabu impensável, pior que incesto, por isso nós o reprimimos, e em seu lugar surge a bondade reativa: “Meu amor, mamãe vai te explicar que gritar não é bonito”. Mais gritos; mais “bondade”. Pais bonzinhos podem ferrar a vida de seus filhos por falta de autoridade.
Autoridade: depois de anos de ditadura, passamos a confundir autoridade (a condução de quem sabe mais) com autoritarismo (imposição pela força), e com isso, perdoem a metáfora, jogamos o bebê fora junto com a água do banho.

O que acontece quando o casamento se torna uma prisão

A paixão tem prazo de validade (cerca de três/quatro anos) e três destinos possíveis: a indiferença mútua, quando então há uma separação sem rancor; o amor companheiro, seu melhor resultado, quando a amizade erótica entre pessoas que se conhecem e se admiram toma o lugar das ilusões; e o sadomasoquismo, quando o amor é substituído pelo rancor surdo, num processo de vingança interminável, de ambas as partes.

O triste é perceber que o sadomasoquismo leva a mais bodas de ouro do que o amor: olhe em volta, nos restaurantes, os casais de meia idade em silêncio, desfilando seu desprezo recíproco para a platéia.

Sempre me intrigou o porquê desse fenômeno. Afinal, se eles se odeiam, por que não se separam?

Quarenta anos de clínica me levaram a entender: porque não podem; eles se encontram numa prisão, e um é carcereiro do outro.

Numa prisão você perde a liberdade: por definição, é um lugar de que você não pode sair quando quiser. Perder a liberdade não é ruim em si, vive-se perdendo a liberdade por vontade, em troca de um projeto bacana, com ter filhos, por exemplo. Há mesmo aqueles que têm horror à liberdade, arranjam alguém (um deus; um partido; um líder populista) para obedecer, e acham que estão com a vida resolvida, pois fazer escolhas os assusta.

Ora, até aí, nada; é escolha deles, que sejam felizes; é como na anedota: “O que você acha dos padres se casarem?” “Bem, se eles se amam, por que não?”

Mas a prisão não é uma escolha, ela traz revolta e ressentimento, ela produz ódio. O problema é que esse ódio não se dirige ao “sistema”, e os guardas estão bem defendidos. Sobra o companheiro de cárcere. Se Jesus disse “ama o próximo”, porque é complicado amar o distante, também se acaba por odiar o próximo… porque ele está ao nosso alcance.

Essa é a tristeza do casamento-prisão: odeia-se o cônjuge- carcereiro. Lá se está a contragosto – e mostrando isso –, forçado, aturando, por falta de grana, porque se entrou por paixão efêmera, por linha de montagem social, para não parecer esquisitão, solteirona, gay, porque todo mundo se casa, estava na hora de entrar para o rol dos homens sérios, para sair da prisão que era a casa dos pais, ter uma festa de arromba, descansar do medo de levar fora, arranjar alguém que o sustente, para sair bem na foto.

É por isso que, no consultório, faço essa pergunta: o que te prende a esse casamento? Muitas vezes uma pergunta parece uma ordem disfarçada (“Sai logo dessa droga!”). Não é o caso: quero conhecer mesmo os grilhões daquela prisão.

Isso faz da separação uma possibilidade séria: “É, de fato, eu não morreria se me separasse, mas… não quero! Há muitas coisas boas no meu casamento, além dos filhos. Bem, se eu posso me separar e não quero, por que eu fico me queixando do outro? Por que eu sou um ressentido crônico contra alguém que considero meu carcereiro?”

Nessa hora, a pessoa retorna de algum modo ao início de seu relacionamento, quando estava nele porque queria, e não aprisionado. Nessa hora a pessoa pode escolher se casar: só pode se casar quem pode se separar.

É quando o casamento não é mais uma prisão.

Homofobia

É uma palavra engraçada, sua tradução do grego é “medo de iguais”. Ora, toda a natureza humana está voltada para ter medo dos diferentes: quem não é da tribo deve ser inimigo, pensavam nossos ancestrais africanos (só eles?), de modo que a melhor palavra grega para nós seria “heterofobia” (medo de diferentes).

Mas a acepção que ficou é de “ódio aos gays”. Se você reparar, é um sentimento quase que exclusivo de homens em relação a outros homens. O que leva a isso? Que encrenca têm os homens com o homoerotismo?

É coisa complexa, começa com a formação da identidade masculina e o horror aos diferentes. Quando um menino é pequeno, ele começa a perceber que as meninas são de fato diferentes dele: só 10% delas são “Tom boys”, sobem em árvores, jogam futebol, correm, lutam e são companheiras dele como um amigo. As outras 90% fazem coisas incompreensíveis para ele, como brincar de boneca e de casinha. São diferentes.

Ai, meu deus, já ouço os culturalistas a dizer que isso é “porque eles são ensinados assim”. Não é! Crie um menino dos 90% (os outros 10% equivalem ao Tom boy das meninas) entre tias, babados e bonecas, dentro de um quarto cor de rosa, e ele vai querer correr e transformar as bonecas em super-heróis.

Os meninos fazem uma liga entre si, e, como dizia o clube do Bolinha, “menina não entra”. É aí que começa a misoginia (aversão às mulheres), que vai ganhar adereços novos ao longo da vida dos meninos. Essa liga é fonte de identidade e de patrulha: quem se comportar “diferente” vai ser chamado de “mulerzinha”, “mariquinha”. Veja bem: não é de “viadinho”. Não, o errado é parecer menina.

Aí também começa uma característica masculina diferenciada: a amizade entre homens. Na caça e na guerra nossos ancestrais depositaram sua sobrevivência nas mãos dos amigos, e isso nos selecionou para amar o amigo e confiar nele. Em termos de fidelidade, ou mesmo de intensidade, amor de amigo é único, forte e silencioso. Exceto quando de pileque: aí seus afetos tornam-se explícitos e sentimentais. Não há correspondente entre mulheres, é coisa de homem mesmo.
Mas só no pileque essa explicitude é perdoada; no resto do tempo, os amigos vivem se patrulhando, e/ou brincando, das possíveis viadagens de seus comportamentos.

Para piorar, ágape, filia e Eros (camaradagem, amizade e amor sensual) não têm fronteiras rígidas. E pior ainda: entre um gay absoluto e um hétero absoluto existem cinqüenta tons de cinza (ou os seis graus da escala Kinsey). De modo que não é incomum um hétero entrar em crise com sua identidade masculina por ter vislumbrado em si um desejo, um olhar, uma atração “incorreta”.

Essa é a hora da ameaça, véspera do ódio. Como um islâmico inseguro de sua fé, que precisa matar os infiéis por isso, o “abalado” sai à caça do seu novo inimigo: está inaugurado o homofóbico perigoso. Ele quer matar fora algo que mora dentro de si: a suspeita de amor “errado”, capaz de destruí-lo como o “homem” que ele se concebeu ser.

É quando homofobia retorna ao seu sentido original: medo de iguais. Pois não existem homofóbicos entre héteros absolutos. Eles não estão nem aí…


Uma filosofia prática

“Amor à sabedoria”: o significado original da palavra filosofia não poderia ser mais, ao mesmo tempo, compreensível e encantador. Sabedoria não é um simples saber, é o saber que ajuda na vida, é a compreensão, é o saber virtuoso. E prático. Assim era na Grécia, onde a palavra nasceu. Quando Heráclito de Éfeso disse, há mais de 2500 anos, “Nenhum homem entra num rio duas vezes”, ele enunciava algo de muito sábio e muito prático: vivemos em constante mudança; na segunda vez o rio não será o mesmo, nem o homem será o mesmo.
Isto faz com que meu título seja redundante. Mas necessário: de lá para cá, a filosofia foi se tornando matéria para estudiosos, muitas vezes incompreensível, usando linguagem acessível para poucos, engravatada e solene, deixou de ser amigável. Ao ponto que meu pai, engenheiro e prático como ele só, implicava comigo dizendo um bordão espanhol: “La filosofia es la ciencia con la cual y sin la cual todo queda exatamente igual”.

Eu ficava triste com isso, pois já via nela encantos. Mas entendia o argumento dele: a filosofia muitas vezes me intimidava como uma moça difícil e inalcançável, que não permite intimidades.

Quando comecei a estudar psicanálise, me senti muito confortável com Freud: sua prosa elegante e compreensível me atraía. Ele era um médico que falava para leigos “em linguagem de dia de semana”, sem o latinório que costuma permear a literatura médica e que sempre me irritou. Você sabe que os médicos têm TRÊS palavras para esconder que não sabem a causa de uma doença? São elas: idiopática, essencial e criptogenética. Isso beira a desonestidade intelectual.

Pois não é que quando avancei nos estudos de outros psicanalistas a coisa foi piorando? Com os franceses, então, nem se fala. Foi ficando parecido com o que aconteceu com a filosofia: uma linguagem pretensiosa e incompreensível que me remetia a uma tradição brasileira lamentável: se você não compreendeu uma coisa, ela é formidável. Aceite, faça de conta que entendeu e ninguém perceberá sua burrice.

Mas justamente com a psicanálise? Um conhecimento que visa entender o funcionamento de nossa mente, que visa facilitar a vida para aumentar nossas chances na busca da felicidade? Como ela poderia vir para confundir, se nasceu para explicar? Para nos atrapalhar, se veio para ajudar?

Inaceitável. Eu vinha da medicina clínica e não aceitava isso nela, traduzia tudo para meus clientes, buscava transparência, sabendo que a falta dela era usada para enrolar pessoas. Não ia embarcar nessa agora.

Não! A psicanálise tem tudo para ser uma filosofia ao estilo grego: um conhecimento prático para facilitar nossa vida, para nos tirar do atoleiro emocional em que as inevitáveis desventuras da criação nos põem. Quando ela sai do pedestal e se abre a conversar com outras disciplinas, a se enriquecer com elas, mais amigável e verdadeira se torna.

Hoje, para mim, sua maior amiga é a psicologia evolucionista, que trouxe o fator biológico para ajudar a compreender o humano.

Foi assim que Freud e Darwin se puseram de acordo: a maior coisa que se aprende na vida é amar e ser amado de volta.

Prático, não?


Independência e autonomia

A psicanálise tem uma ideologia? Se ideologia for tomada na acepção de conjunto de convicções, ideais e propósitos, sim, a psicanálise inevitavelmente conterá uma ideologia. A começar pelo nome: análise, em sua origem, significa decompor, separar em partes para examinar; psique é a alma grega, a mente. Em suma: entender como a mente funciona.

Esse “entender” é uma meta ambiciosa: supõe reflexão, introversão, ambição de conhecimento. O que nos leva a Espinosa e seu conceito de liberdade: ela consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam.

Então a psicanálise ambiciona a liberdade do espírito, o pensamento livre. Como consequência, o ser humano livre.
“Mas o psicanalista não deve deixar seu desejo de lado, ao analisar?” Conversa fiada: tal coisa nem é possível, nem desejável. Ele deve sim é ter clareza de seu desejo para que lhe sirva de ajuda, e não de estorvo.

Desejo, sim, para cada cliente que chega o mesmo que desejo para meus filhos, para os leitores desta coluna e para os indivíduos em geral: independência e autonomia, os frutos e a origem da ambição de liberdade. E eu, que sempre vi militância como coisa chata, devo reconhecer que tenho uma: a busca de independência e autonomia.
“E não são sinônimos?” Parecem, mas não são. Independência é não depender, de nada nem de ninguém, só é viável como meta permanente, portanto. Ela, como a liberdade ou o dinheiro, não tem valor em si, mas sim como um bem precioso para ser investido no que desejarmos: “Invisto e perco parte de minha independência, parte de minha liberdade, parte de meu dinheiro, ao criar meus filhos, mas que retorno de felicidade este investimento me traz”.

Autonomia, do grego, “regras para si”, significa mandar na própria vida, tomar decisões e rumos próprios. Nosso limite é a Constituição: o que não for proibido por lei será de nosso direito fazer.

Só manda na própria vida quem tem independência, e sim, a primeira independência é de dinheiro, pois quem paga, manda. Se alguém paga suas contas, é provável que mande em você, com mais ou menos sutileza. Um profissional autônomo é assim chamado porque seu dinheiro vem de vários “patrões”, com consequente menor poder de mando sobre ele. Por esse motivo, vejo a tendência brasileira de ambicionar negócio próprio com muita simpatia.

Então, há uma sequência que decorre daquela ideologia contida na psicanálise: conhecer; entender; libertar; tornar independente; tornar autônomo.

São essas as bases para a construção do indivíduo (o ser separado da massa, “que não pode mais ser dividido”). Ele manda em si e tem direito a ser único, a ser singular, a ser diferente —dentro dos limites constitucionais. O indivíduo é a célula básica da sociedade democrática: é ele, com seu pensamento livre e sua autonomia, que se oporá ao tirano.

Entendo quem tenha como ideologia a anulação do indivíduo, a sociedade de colmeia, das térmites e das formigas. Ter liberdade pode assustar, há quem prefira um Grande Pai. Entendo, mas deploro. Desde que não atente contra as leis democráticas, eu o tolerarei.

Mas, como psicanalista, não posso ajudar.


O voo e o ninho

O destino de um pássaro é voar, está em seus genes. Mas, para voar ele precisa do ninho. O ninho o protege, aquece e alimenta enquanto suas penas não crescem, suas habilidades de vôo não se desenvolvem. Se o ninho o expulsa precocemente, ele se estatela no chão e morre. Mas se o ninho o prende além da conta, ele não aprende a voar, ele fica restrito àquele casulo, ele não cumpre seu destino.

 

O bom destino de um pássaro, portanto, depende de um delicado equilíbrio entre o voo e o ninho: excesso de ninho aleija o pássaro; falta de ninho o mata.
Conosco não é diferente: precisamos de colo, de amparo, de proteção para seguir nosso destino – se concordarmos que nosso bom destino é a independência e a autonomia do indivíduo que se formou.

 

Mas o equilíbrio necessário para essa formação, a conversa entre ninho e voo, entre colo e independência, é infinitamente mais complexa e delicada que a dos pássaros. Eles afinal estão programados pelo instinto, que a eles se impõe como força maior.

 

Nós, não. Nossa espécie tem um programa de aprendizado tão extraordinário, e um tempo de aprendizado tão enorme, que o instinto com que nascemos vai se colorindo de experiências e de memórias tão singulares que o produto resultante se distingue do instinto, e ganha assim um nome novo: desejo.

 

Desejo: esse programa oceânico e descomunal que nos rege mantém com o instinto relações de raiz. Sim, continuamos a querer reprodução como os pássaros querem, mas de forma bem mais complicada, para dizer o mínimo.

 

De tal forma que, sim, nós botaremos filhos no mundo. Agora, daí a ter habilidade e competência para levar bem o equilíbrio entre ninho e voo, ah, isso é outra conversa.
A menina de oito anos levou um bilhete escrito por ela para sua mãe: “Não suporto mais esse cárcere maldito! Libertem-me dos grilhões que me aprisionam”. A mãe leu o bilhete e disse: “Ai, que lindo! Vou grudar na geladeira”.

 

Para quem acha que a psicanálise tem mania de culpar os pais, devo dizer que não é bem isso. O que ela faz é rastrear a história das incompetências da criação de cada um. Você acha que a mãe daquela menina é culpada de algo? Não, ela foi apenas incompetente, incapaz de perceber que a filha se expressava assustadoramente bem, com um diagnóstico preciso do que se passava. Incapaz de corrigir-se e de corrigi-lo. Culpa implica má intenção, e é muito raro ver pais mal-intencionados em relação aos filhos.

 

Criar filhos é a profissão mais difícil que existe. Como ela é universalmente adotada, seja com talento e vocação, seja sem – o que é mais freqüente –, o que acontece é que somos resultado de um show de incompetências. Uns pássaros, ora aleijados, ora estropiados, de voo capenga, passando as incompetências de geração em geração.

 

A essas incompetências de criação que carregamos como um fardo pela vida afora, Freud deu o nome de Complexo de Édipo. Édipo, o pobre grego quase assassinado pelos pais biológicos, que teve sua origem escondida pelos pais adotivos, e como fruto dessa trapalhada acabou se casando com a própria mãe. E se culpou por isso!

 

Pobre diabo foi ele. Pobres diabos somos nós.

Nossa espécie está condenada a uma dança de trapaças e desencontros

“Ela apontou a pistola para ele, e disse: ‘Você vai tirar a roupa e me comer agora!’ Sem alternativas, ele obedeceu: deitou-se de costas enquanto ela o cavalgava, encaixando-se em sua ereção”.
Não é preciso entender de natureza humana para saber que a peça de ficção acima é totalmente inverossímil. Enquanto que, para os homens, o estupro é uma estratégia reprodutiva de negociação mínima, o contrário não se aplica: um homem intimidado não ficará ereto. E os temores nem precisam vir da ponta de uma arma. Conta-se que Antônio Maria foi confundido com o escritor Carlos Heitor Cony por uma estonteante loura, que se declarou sua fã. Ele confirmou. Afinal num motel, a moça chamou-o para a cama. Neste ponto, Cony, que ouvia a história, perguntou-lhe ansioso: “E aí, Maria, e aí?” “Aí, Cony, VOCÊ brochou!”
David Buss, psicólogo evolucionista, escreveu um livro chamado “Por que as mulheres fazem sexo”. Tem duzentas páginas. Elas podem se dar ao luxo de terem tantas e diferentes razões, pois não precisam de muito aparato biológico para o congresso carnal. Se o livro tratasse de homens, só teria uma linha: “Porque tiverem desejo e conseguiram uma ereção”. Ah, e teriam que escapar da ejaculação precoce, outra manifestação do desconforto psíquico frente ao sexo.
Ou seja, quer função? Não intimide, não coaja, não cobre, não culpe: nós homens somos muito frágeis nesse setor, precisamos nos sentir “por cima da situação” para funcionar.
Já que são as mulheres que escolhem quem terá acesso a elas – e toda misoginia vem do inconformismo com esse poder –, há dois softwares básicos de fazer a corte que rodam na cabeça masculina: o “papai” e o “cafajeste”.
Se pudéssemos traduzi-los, o “papai” diria: “Aceite-me, pois eu sou um bom rapaz, atencioso, respeitador, acho você o máximo, vou te ligar amanhã, quero me casar com você, cuidar de nossos filhos, nuca te abandonarei”.
E o “cafajeste”: “Humm, você é gostosa e eu vou te levar à loucura, vou soltar essa puta que existe em você e que ninguém mais vê além de mim, vamos acabar com essa babaquice de ser santa, você não nasceu pra isso, você nasceu para ser feliz no sexo, a hora é esta, sem amanhã”. Curioso é que o equivalente do programa “santa”, das mulheres de autoestima elevada, não seja o “papai”: ele roda nos homens que não se acham os maiorais. Nestes últimos roda o “cafajeste”.
Como a mãe natureza privilegia a quantidade de filhos, mas também cuida da qualidade de criação, ambos os programas têm seu apelo: uma mulher pode amar seu marido fiel e ficar transtornada com o cafajeste que lhe mostre desejo.
Finalmente, um homem tendendo a papai pode bem tentar simular um cafajeste para melhorar suas chances.
E vice-versa: na ópera “Don Giovanni”, de Mozart, o proverbial cafajeste que deu origem ao termo Don Juan canta Zerlina, noiva de um camponês, prometendo-lhe casamento nobre na ária “La ti darem la mano” (“Você não foi feita para ser camponesa”).
Não adianta: para continuar a existir, nossa espécie está condenada a uma dança cheia de trapaças e desencontros, ainda que cheia de desejo de encontro e de sinceridade.
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