Categoria: Natureza Humana


A fresta


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“Ó Manuel, a tua mulher transa contigo, é por amor ou é por interesse?”

“Ó Joaquim, deve ser por amor. Ela não mostra o menor interesse…”

De fato, a despeito de cada um de nós ser um universo complexo de dramas, desejos, memórias, sentimentos e histórias, nossa espécie não parece muito interessada em mergulhar nesse oceano, a menos que efemeramente motivada por Eros. Percebemos o outro e somos por ele percebidos como se vistos por uma fresta de porta.

Pense bem, e com cruel sinceridade: quantas pessoas te conhecem, não digo completamente que seria impossível, mas 50% de você? Se a resposta encheu os dedos de uma mão, você é um milionário.

Tudo começa, sim, pela falta de interesse, mas esse conhecimento esbarra em tropeços, como o da leitura tendenciosa. A primeira lição de psicanálise deveria ser: não tire os outros por si. Eles são diferentes!

Nessa minha curiosa – em mais de um sentido – profissão, venho me dedicando a exercícios mentais bizarros, mas necessários. Os pacientes sofrem por não compreender como funciona a cabeça de seus entes queridos. O exercício consiste em tentar entrar na pele dessas pessoas e buscar algum símile em mim que sirva de ferramenta para aquele propósito. Isso difere de tirar o outro por mim, uso aqui o princípio do romano Terêncio (190 a.C.), “nada do que é humano me é estranho”.

Dois casos: como funciona a mente de quem tem Alzheimer? Os pais idosos dos pacientes são fonte de incompreensão, impaciência e culpa. É preciso compreendê-los. Se você já tomou um porre, ou ficou chapado de maconha, sabe o que é a perda da memória de curto prazo. Não é amnésia, porque a memória não se forma. Você não saberia o que está escrito no início do artigo, nem ele que você o visitou há pouco. Há flashes de consciência, mas ela estará ligada a arquivos antigos, e deles vêm os sentimentos. De resto, a coisa é semelhante a estar dormindo, mergulhado numa névoa.
O segundo caso é como funciona a mente de um imbecil. Este tem particular importância, já que eles são a franca maioria da humanidade, foi por isso que Churchill disse: “a democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”. Esse símile é mais fácil: todos somos imbecis em vários momentos da vida, haja vista a adolescência, quando a insegurança e o medo nos levava ao movimento imbecil típico de se agarrar em certezas extremas, o tal “segura na mão de deus e vai”, não importa o deus, se religioso ou político. É o tempo em que temos certeza de que nossos pais são imbecis…

Sim, a falta de humildade é uma das características. Outra é a incapacidade Homer Simpson de reflexão: reatividade e imediatismo. Um estímulo será categorizado como bom ou mau, e a reação vem a galope. Ah, claro, as categorias de julgamento são poucas, e o veredicto, rápido. Atualmente, a da moda é: isso me ofende? Ofende alguém? Posso acusar o outro de ofensivo?

Vem da obsessão em sentir-se superior, e defender-se de qualquer coisa que o diminua: o terror de parecer merda.

Definitivamente, interessar-se por conhecer o outro é um gosto adquirido, como o da música clássica. E tão raro quanto…

PS: Esta é a última vez que minha coluna sai na Folha, pois me dispensaram.


Seleção adversa

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“O editor é aquele que sabe separar o joio do trigo… e publicar o joio”, diz a antiga piada jornalística. A peneira de qualquer seleção embute critérios, ora explícitos, ora despercebidos. O da seleção natural é a sobrevivência dos mais adaptados; o da seleção de futebol, a excelência (assim esperamos).

Mais sutis são os critérios da seleção adversa. Para começar, ela nunca é declarada: ninguém enuncia que vai escolher os piores. Depois, sua existência nem percebida é.

Um exemplo chocante e atual: imagine uma profissão que dê status, sustento, que imponha celibato a homens, que os coloque em posição de poder junto a muitos meninos… e você selecionará homossexuais pedófilos.

Outro exemplo: uma profissão que tenha foro privilegiado, seja capaz de livrar da cadeia seus criminosos através de voto corporativo, que tenha acesso ao dinheiro público por decisão de seus pares, e que seu lugar de trabalho seja uma estranha cidade isolada… e você terá muito mais que trezentos picaretas.

Comemorando Lutero, somos herdeiros da Contrarreforma: ela seleciona autoritários, centralistas, sebastianistas, burocratas, conchavistas, bajuladores e corporativistas, inibe empreendedores e incentiva parasitas que esperam tudo de El-Rei. Que tal?

Mas, o que estou falando? Até parece que a minha profissão escapa da seleção adversa. Se não, vejamos: ela também dá sustento e status, e parece bastar-lhe falar complicado, quase um dialeto parecido com o português, ser misterioso, parecer superior, e “não ter compromisso com a cura, mas com a busca do inefável”. Ela atrairá um bando de imbecis pomposos.

A lista não termina: cidades pobres afugentam os belos e os inteligentes (o mesmo se aplica aos bairros e aos shopping-centers pobres); profissões mal remuneradas que parecem fáceis selecionam profissionais fracos (um dos males do sistema educacional); profissões fodonas que parecem difíceis selecionam sadomasoquistas perversos; imunidade a demissões seleciona… funcionários públicos, assim como impunidade seleciona criminosos e cultiva a corrupção.

Você não imagina a minha hesitação em escrever este artigo. A epidemia de ofendidos e de politicamente corretos seleciona vasilinagem e ausência de opinião, mesmo em artigos de… opinião. E produz o seguinte “disclaimer”: claro que levo em conta os abnegados e devotados, os idealistas e os políticos corretos que conseguem furar a seleção adversa e ajudar o Brasil a andar. Mas eles nadam contra a corrente, este é o meu ponto. Se quisermos ser reformistas de fato, precisamos ter consciência dos critérios da seleção adversa: eles podem estar presentes em qualquer ato de escolha. E as eleições vêm aí…

Por fim, nossa mente também é capaz de seleção adversa: você já ouviu falar de “dedo podre” para a escolha de parceiros, não? Pois ele vem de processos inconscientes ligados ao complexo de Édipo: somos por ele levados a buscar alguém muito parecido com aqueles que nos ferraram em nossa criação, e tentar convertê-lo em alguém que corrija nosso passado, nos ame, nos perceba, nos considere e nos trate bem pelo resto da vida.

Sem comentários…

 


Os ofendidos


Parece haver uma epidemia mundial de suscetibilidades exacerbadas. Ou, em linguagem simples, o pessoal anda catando pelo em ovo para se mostrar ofendido.

Diante da complexidade que é a mente humana, cada sintoma precisa ser examinado através de seus fatores, um de cada vez, como se fosse uma cebola e suas camadas: das mais externas e óbvias para as mais inconscientes e profundas.

Um fenômeno sociológico como esse mostra fatores muito curiosos, como o da moda, por exemplo. Steven Pinker definiu-a como um instrumento de demonstração de proeminência social, tipo penas de pavão: no topo da pirâmide se desenvolve uma prática tida pelos poucos iniciados como mostra de superioridade. Ela logo começa a ser copiada pelas camadas subjacentes, na tentativa de os menores se assemelharem aos maiores. Quando ela se vulgarizar (significa “espalhar-se pelo povo”), o topo a descarta e passa a outra novidade.

No caso dos ofendidos há também o componente da moda, mas é uma moda que não copia os sofisticados do topo, como as gravatas Hermès do Collor, e sim um outro tipo de sofisticação: o politicamente correto.

Essa outra praga vem se tornando um instrumento de censura prévia e de controle do pensamento “desviante”, ao ponto de o Enen tê-lo como critério para dar zero em redação, felizmente barrado pelo STF.

Há uma clara ligação entre o “p.c.” e a onda de ofendidos, um é fruto do outro, foi a sua incorreção política que me ofendeu, viu? O que visa o ofendido é fazer alguém se sentir culpado para que ele se retrate, ou indenize. Neste particular, ele parece ser filho do coitadismo que assola particularmente o Brasil. Aquele que remete à divisão da sociedade em “oprimidos” (os coitados) e “opressores” (os malvados). Essa linhagem de categorias pode ter como avô o “mártir”, que na tradição católica “oferece a outra face ao agressor”, na busca de fazê-lo se sentir imensamente culpado.

Ora, o sentimento de culpa é a mais poderosa arma de manipulação inventada pela espécie humana: é quando alguém lhe agradece por ficar de joelhos diante de você. Ele também embaralha o pensamento, ao ponto de o culpado abrir mão do direito de defesa: repare que, no truque de oferecer a outra face, ninguém pergunta mais o que provocou o primeiro tapa. E olhe que poderia ter sido fruto de insulto extremo. Lembrando que entre os católicos você poderia ir para o inferno por pecado de pensamento!

Em psicanálise também se usa, para investigar, o “cui prodest” romano (“quem se beneficia do crime?”). Ora, quem ganha com a patrulha de pensamento, o medo de pensar, a “crimideia” orwelliana? Dificilmente seria a democracia. Tem todo o jeito de pensamento autoritário, de controle do povo. Eu sei, eu sei, Marcuse, Gramsci, a substituição da luta de classes pela luta opressor/oprimido, comer a democracia por dentro, aparelhamento etc. Mas quis fazer o argumento desde seu beabá. E ele aí está. Mas faço a ressalva: há ofensas reais, e elas estão no código penal (calúnia, injúria, difamação, discriminação). Há virtude no cuidado em se expressar. Digo isso antes que alguém se ofenda…
P.S. – CIÊNCIA NÃO É GASTO, CIÊNCIA É INVESTIMENTO!

 


Sonho de escola


Sergio Bernardes, o arquiteto, respondia àqueles que reclamavam de seus projetos amalucados: “Eu sei que eles não vão ser realizados mesmo, deixa eu delirar”. Pois é motivado por ver meu filho estudando como nunca (“Ah, agora que a escolaridade acabou, eu posso estudar o que quero”), e por mais um massacre feito por aluno vítima de bullying, que me valho da licença de Bernardes para delirar meu sonho de escola.

Nela, seus ensinos principais seriam cidadania e economia doméstica, com matérias subordinadas a esses aprendizados.

Sob o poder moderador da direção da escola, os alunos brincariam de aprender sobre democracia: a principal função do Estado (segurança pública com implementação das leis); a razão de haver Três Poderes separados (permanente desconfiança de vocações tirânicas, cada um vigiando o outro); respeito ao contraditório; as vantagens do parlamento; a mediação de conflitos através do judiciário (fim do bullying impune, ou da vingança pelas próprias mãos); a busca das igualdades ambicionadas pela democracia (de oportunidades, e perante às leis); aprenderiam que o voto é a última instância decisória, e só acontece depois de muito debate; liberdade de pensamento e de expressão (respeitadas as proibições de injúrias, calúnias e difamações); liberdades em geral, se respeitadas as leis; a função dos impostos e sua necessária ligação com os deveres do serviço público (“No taxation without representation”).

A lista é interminável, o que está aqui apenas abre o debate. Poderiam brincar de formar um parlamento, um executivo e um judiciário, experimentar a democracia representativa.

No aprendizado de economia doméstica, a primeira lição seria: dinheiro não cai do céu (Milton Freedman, “não existe essa coisa de almoço grátis”). “Quais são meus custos; quais são meus ganhos”; diferença entre custo fixo e custo variável; entre gasto e investimento; relações custo/ benefício; poupança ligada a planejamento de médio e longo prazo; diferenças entre regimes econômicos (capitalismo/socialismo); relação entre regimes econômicos e regimes de governo.

Como se daria a transmissão de conteúdos? Aí vem uma parte que é o meu xodó: a santa tecnologia iria realizar uma aproximação do mais caro ideal da democracia, a igualdade de oportunidades. Através de tablets e de tutoriais, os alunos de Quixeramobim teriam também os melhores professores do país. A história e a geografia servindo ao aprendizado de cidadania; a matemática e a física, ao de economia doméstica (quem quisesse ir além dos juros e da regra de três, iria fazê-lo por interesse próprio, não por imposição); a língua portuguesa aprendida durante as respostas discursivas aos testes (haveria testes ao fim de cada aula no tablet, tanto discursivas quanto de múltipla escolha), num revisor de texto que mostrasse as impropriedades da escrita.

Haveria grupos de estudos eletivos e obrigatórios, com monitores para ajudar, mas sobretudo para ensinar a estudar.

Finalmente, o recreio: aprendizado de ética na convivência e no esporte.

Algo precisa mudar: a escola atual não prepara cidadãos éticos e independentes.

 


O pior dos vícios


“You’re a loser” é o pior chingamento da língua inglesa, e sua tradução mais realista é “você é um merda” (“perdedor” e “fracassado” não fazem jus à força da expressão original). Isso se dá porque eles – sobretudo nos EUA – dividem o mundo em “winners” e “losers” (fodões e merdas, a partir de agora reconhecidos pela sigla f&m, que é para não ofender sensibilidades), as pessoas vivem na aflição de como serão classificadas.

Isso pode ter começado entre os americanos, mas agora é fenômeno mundial, e sentimos essa guerra f&m a toda hora.

Explico a guerra: o sentimento de se ver como um “m” equivale a se perceber como um pária sem perspectivas na vida. É tão insuportável, dá tanta raiva, que a pessoa fará qualquer negócio, até matar, para aliviá-lo. Mas a reação mais comum é buscar fazer alguém mais se sentir um “m” para ter um mini-triunfo como “f” (“Ora, “m” é o outro, eu sou “f”!). Vamos chamar isso de defesa-f. É um mecanismo de defesa contra a angústia e, se usado constantemente, torna-se uma doença, uma variação do jogo sadomasoquista (s&m) sem as botas e o chicote e sem o fetiche sexual, o que poderia até ter sua graça, mas esse é sutil e não tem graça nenhuma, a menos que se fale da graça do ridículo, do deboche e da humilhação, de se rir do outro, e não com o outro.

Torna-se um vício, o pior dos vícios. Vício é uma ação compulsiva que causa dano ao próprio e a outros, como é o caso. Mas por que o pior? Por não ser óbvio, e por se incorporar à cultura como uma crença, uma ideologia. Por ganhar o endosso do senso comum, ao ponto que pensamos em alguém e automaticamente já o classificamos no f&m. Listo abaixo alguns dos desdobramentos que fazem do vício f&m um gravíssimo e crescente problema de saúde pública mundial.

Criação dos filhos: os pais perderam a autoridade junto a eles, muito por medo de que eles não os amem (seriam “m” por isso). Os filhos detectam esse medo, manipulam os pais com ele, e os pais se vingam sutilmente, entrando no jogo f&m com os filhos. Ah, mas nunca lhes batem fisicamente…
Bullying: costumava ser perseguição aos diferentes. Hoje é escancaradamente jogo f&m.
Drogas e álcool: as drogas podem ao mesmo tempo consolar o sentimento de ser um “m”, e iludir momentaneamente de que você é um “f”.
Redes sociais: pareça um “f” e faça os outros se sentirem “m”, parece ser seu principal uso.
Politicamente correto: a moda de se sentir ofendido por tudo é totalmente f&m (“me chamaram de ‘m’, mas agora eu vou mostrar quem é o ‘m’”).
Relação de casais: sim, o sadomasoquismo costuma fazer mais bodas de ouro que o amor, mas veja o teor do maltrato mútuo de um casal e me diga se não é f&m?
Ciúmes: ser corno, dentro da crença, é ser “m”, e a defesa-f pode ser o assassinato.
Inveja: “tenho ódio de quem é melhor que eu, está me fazendo de ‘m’!”
Política: preciso explicar? O que é a guerra entre “nós” e “eles”?
Qual a alternativa? O cultivo da virtude: a humildade de se saber humano e frágil (e não um “m”), e a ambição de ser bom (e não “f”).

Até lá, espero que a guerra f&m entre Trump e Kim Jon-um não nos mate a todos.


A cascata


 

“É tudo mentira. Ele é um simulador, frio, calculista, ele é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”.

Pois é. Eu estava bem feliz de tratar de assuntos conceituais da natureza humana, de não ter que falar de política, desde que Madame retornou à insignificância de onde nunca deveria ter saído, mas essas frases acima… Nas palavras de Michael Corleone, “eu quero sair, mas eles me puxam de volta!”

Para minha sorte, elas se referem a uma condição humana pouco entendida: a sociopatia. O sociopata é um psicopata que opera no atacado. Não se contenta em ser um assassino em série, um pequeno trapaceiro, um malfeitor de voo curto. Como o psicopata, ele não tem barreiras morais que se interponham a seus propósitos criminosos. Não há remorso, não há reconhecimento de erro, não há humildade. Ao contrário, há megalomania: a convicção de superioridade, de estar acima do bem e do mal, de ser possuidor de uma clareza mental assassina que transforma todos os demais em imbecis. E um gozo infinito em fazê-los de imbecis. Não poderia dar explicação melhor de como funciona um psicopata do que aquelas frases do início: a simulação fria do que for necessário para seus propósitos. Fazer-se de vítima? Ele será a maior vítima do mundo. Mentir descaradamente? Ele fará a mentira soar como a maior das verdades. Ignorar o que disse ontem e dizer o justo oposto? Foi você que ouviu mal, ele sempre pensou assim. Compromisso com a verdade, com a dignidade, com a honestidade? Zero. Mas se a aparência disso lhe for útil, ele se dirá a pessoa mais honesta do Brasil.

Manipulação? É fascinante assistir a ela. Televisionado na presença de um juiz, ele o usará como palanque para falar com seus seguidores, e dar-lhes argumentos – ainda que rudimentares – que mantenham sua crença nele.

Não existem psicopatas burros. O despudor, o cinismo e a leviandade retiraram-lhes as travas mentais que nos restringem. Dizem que os psicopatas não têm superego. Não é isso, pois tudo o que fazem é direcionado justamente contra aquilo que o superego manda. Eles são obcecados pela quebra das leis e da ética. É uma vida devotada à transgressão e à trapaça: seu maior gozo é chutar o superego para o alto.

O sociopata descobriu a mais eficiente das armas para manipular multidões: o sentimento de culpa. “Eu fui ferrado na vida, e os culpados são ‘eles’, e agora eu falo em nome de todos os ferrados, para nos vingar ‘deles’”. Como pastor do coitadismo, tudo lhe é desculpado, a culpa é dos outros. Não é à toa que sentir-se ofendido e culpar os outros virou uma praga em que o politicamente correto tomou carona.

O que nos leva à cascata. Quando Pedro Aleixo recusou-se a assinar o AI-5, perguntaram-lhe se ele temia que o presidente fizesse mal uso dele. “Não temo o presidente”, respondeu, “mas quando o autoritarismo se instala no alto da cadeia de comando, desce em cascata até o guarda da esquina. E este eu temo”.

É a cascata o pior legado do sociopata e seus asseclas: a corrupção moral do país, o coitadismo, a incompetência abençoada são ainda mais graves que os horrores que têm aparecido.


Esperança


“A pontualidade é a virtude sem testemunhas”, dizem os franceses em solidariedade àqueles que esperam. Esperar é muito chato, mas nossa relação com a espera é ambivalente: “Quem espera sempre alcança”; “O melhor da festa é esperar por ela”.

E há a esperança. Ela nos importa muito, ao ponto de ser a última que morre. É verdade que existe a esperança vã, e a esperança em deus, mas quando a esperança está ligada à expectativas realistas de que venham os frutos de uma boa semeadura, ela é um sentimento fundamental em nossas vidas: o momento em que avançamos para além do princípio do prazer imediatista e conseguimos investir no médio e longo prazo, levando em conta o princípio da realidade.

“Si quieres peras, planta perales, no las pida al olmo”, disse com razão um argentino famoso, estímulo para uma boa construção do sentimento de esperança. Sim, porque uma esperança de boa qualidade se constrói com atos virtuosos. É diferente da expectativa insconsciente dos mimados, de que o dinheiro – e tudo o mais que queiram – cairá do céu. Nem sei se eles têm essa esperança, acho mesmo que eles tomam a coisa como garantida (“take it for granted”) porque são mais que estragados (“spoiled”), acham-se no direito de ter isso (“entitled”).

Essas reflexões sobre a esperança me vieram por causa dos trinta anos do Instituto Superior de Educação Pró-Saber, aqui do Rio, que forma professores para comunidades carentes sob o lema da “transformação com esperança”. Pessoas pobres (e não “humildes”, nem “simples”, pois essas são qualidades que eu mesmo busco ter, sem ser pobre) encontram ali a oportunidade de se transformar em algo melhor – para si e para os outros –, investindo numa esperança bem construída, uma capacitação universitária que resulta em ações virtuosas contagiantes.

É como se a cada momento essas pessoas estivessem diante de duas portas: a da transformação com esperança, e a da vitimização coitadista, da pena de si mesmo, de esperar viver como cafetão da própria miséria. Que porta escolherão? O Pró-Saber lhes estende a mão para que escolham a primeira, e isso é muito bonito.

Estender a mão para quem queira se transformar, crescer, voar com asas próprias. Dou-me conta de que isso é um permanente alimento em minha vida, é o que faço com meus filhos, clientes, leitores. E não pense que se trata de um gesto desprendido e altruísta, não, é em interesse próprio, pois isso me transforma, me faz crescer e me dá asas para voar. Se a ética é o acordo de boa convivência, de não fazer o mal, a ética ativa vai além, acrescenta e transforma, é onde ela se encontra com a estética: constrói beleza.

Nosso pobre país está doente, carente de ética e de beleza moral. Assistimos com sentimento de impotência a um desfile de horrores, o único alento vindo da surpresa de ver o pus saindo e malfeitores poderosos entrando… na cadeia.

Mas há algo que está a nosso alcance e que todos os dias temos a chance de fazer: escolher a porta da transformação, do ato virtuoso por pequeno que seja: ele será nosso tijolo na construção de uma nova catedral, a esperança.

 

 

 


Narcisos


“Ah, cansei de falar de mim! Fala um pouco agora você, sobre mim…”

Esses narcisistas sempre me intrigaram, e isso me levou a ir entendendo uma coisa ou duas sobre eles. A primeira e mais óbvia é que seu maior interesse é a própria imagem. Na Grécia clássica seria aquela refletida na superfície do lago; atualmente se diria que eles são obcecados em sair bem na foto. É verdade que “nada do que é humano nos é estranho”, mas isso é prioridade total em suas vidas.

Tomemos o exemplo do noivo crônico: o cara está casado com a própria mãe, mas sabe que não fica bem na foto ser solteirão aos quarenta anos. Então vai arrastando o noivado, e quando a noiva rompe com ele, fica-a bajulando para que ela não o odeie: precisa sair bem na foto.

Um cliente me conta que a mulher lhe deu um presente de cinquenta anos que nada tinha a ver com ele. “Ela não tem a menor consideração por mim”. É verdade, mas o curioso é que não há maldade nisso: simplesmente ela não o considera porque ele não lhe passa pela cabeça. Ele não mora lá. O presente era caro e ela ia ir bem na foto: era o bastante.

A outra ficou impressionada com a biblioteca dele. Levou tempo para entender que ele só comprava, mas não lia, livros que o fariam… sair bem na foto, como intelectual.

Sim, porque não é a própria pessoa se admirar, apenas. É também buscar ser admirada. É como uma obsessão em seduzir, o que me fez pensar no componente histérico dos narcisistas: eles querem ser desejados, mas é frequente que quando esse desejo lhes for mostrado, pedindo retorno, eles se escandalizem dizendo que “você não entendeu bem, eu só queria ser agradável”. Isso tem ficado claro nos casos de supostos héteros seduzindo gays: eles jogam uma tonelada de charme, e ficam travados (ou indignados) quando finalmente recebem a cantada que buscaram.

Como se forma um narcisista? Em alguns casos é fácil: a pessoa sempre foi muito bonita, desde criança está acostumada a ser gostada e desejada por sua aparência; intui que seu maior capital erótico/afetivo mora nessa beleza, e portanto passa a ter por ela um zelo excessivo. Daí podem derivar dismorfia (gente magra se achando obesa) e hipocondria (que Freud classificou como neurose narcísica): demasiada atenção em si mesmo.

Outro caso clássico é o dos filhos únicos (se são lindos, então…): é muita atenção sobre eles. Mas vi um caso em que a filha mais nova, desprezada pela mãe que só tinha olhos para o primogênito, tomou o irmão como modelo, imitando-o no narcisismo, como a buscar o amor idealizado da mãe que nunca havia sido seu: passou a vida desprezando quem a amava (tornando-se com isso idêntica à mãe), pois só queria o amor de quem a desprezava.

E narcisismo tem jeito? Bem, os casos que me chegam têm em comum uma preciosidade: a pessoa se incomodou de ser assim. Se além disso ela está entre os poucos inteligentes da espécie humana (o que é uma soma de raridades, convenhamos), ela pode usar sua inteligência – e sua própria vaidade – para aprender a sair da arapuca afetiva e neurótica em que se meteu – ou foi metida.

Mas dá um trabalho…


As penas do pavão


 

“É claro que existe um componente exibicionista em eu ter aquele carro. Disse isso e ela ficou desapontada comigo, achou que eu o tinha porque gostava de carros desde pequeno. Expliquei que uma coisa não excluía a outra, que ambas são verdadeiras, e que existem também vários outros componentes para qualquer coisa que eu faça na vida”.

Duas coisas me encantam neste relato: a percepção da complexidade do que motiva nossos atos – vale dizer, de nosso desejo –, e a serena aceitação do exibicionismo como parte saudável dele.

Desejo, em psicanálise, é uma trama complexa que começa no único sentido da vida: reproduzir-se (sentido biológico, claro). Está em nosso DNA. Até nosso instinto de sobrevivência existe para servir à reprodução: depois dela somos tão descartáveis quanto as efêmeras, insetos que morrem no mesmo dia em que se reproduzem. No nosso caso a coisa é muito mais complicada: somos guiados pela busca de prazer, é ela que vai nos levar à reprodução, e é a memória dessas experiências de prazer que vai construir a trama do nosso desejo. Assim, um simples sorvete pode parecer o mesmo para duas pessoas, mas representa desejos únicos e intransferíveis, pois cada uma traz histórias diferentes com aquele sorvete. Cheio de memórias, cheio de componentes, que nem o carro.

Mas o componente exibicionista está mais ligado à reprodução do que o sorvete: ele está voltado para a seleção sexual.

É aí que entra o pavão. Quem já viu uma pavoa pode ter ficado impressionado de como ela é sem-graça, sobretudo se comparada ao macho: ele se parece uma drag queen, de tão enfeitado. Ela pode se dar ao luxo de ser assim despretensiosa porque detém o poder de escolha: é ela quem determina que macho estará à altura de ser seu par. Eles então competem por ela na base de se mostrar: “Olha como eu sou formidável!” E haja pena de pavão.

Isso está ficando vagamente familiar, não? Pois é: carros lindos, competição, poder, status, proeminência social, e até artigos publicados na Folha, têm sim um componente exibicionista que, fale-se abertamente ou não, contém a esperança de ser eroticamente escolhido.

“Êpa, mas as nossas fêmeas não têm nada de sem-graça, pelo contrário, elas também têm componentes exibicionistas”. Ah, mas isso é porque as pavoas não estão nem um pouco interessadas em se casar com os pavões, o “one night stand” lhes basta. Na nossa espécie a coisa é diferente: se as fêmeas escolhem com quem vão se deitar, os machos escolhem com quem vão se casar. A pavoa não precisa de ajuda para criar os filhos, enquanto nossa espécie é a que tem filhos mais dependentes entre todas do planeta. Não há outro mamífero com tanto investimento do pai. Ou seja, o casamento – a ajuda – é essencial, e isso põe a mulher na posição de ter que fazer marketing de si mesmo como esposa desejável.

São estratégias diferentes, o homem se vendendo como fonte de boa ajuda e de bons genes; a mulher como confiável (não fará o homem cuidar do filho dos outros), saudável e boa parideira (que os homens chamam de “gostosa”).

De qualquer jeito serão componentes exibicionistas do desejo: penas de pavão.


O Eu e o Acima-de-mim


O marquês de Sade se masturbava em seu quarto, olhos postos no crucifixo acima dele, na parede, a dizer-lhe desafiadoramente: “Me mata, me mata agora, se você existe!” Chegado o orgasmo, gritava em meio a gargalhadas: “Aha! Você não existe!”

Essa cena poderia ser uma síntese de sua produção literária, talvez de sua vida: ele sempre foi um inimigo fiel e devoto do seu Acima-de-mim. Eternamente dedicado a renegá-lo, a imaginar que insulto poderia ser pior para escarnecê-lo, que ultraje conseguiria seduzir mais seus leitores para o culto de amor e ódio a essa Nêmesis que consumiu sua existência.

O Acima-de-mim é uma tradução possível para o alemão “das Über-ich”, termo alemão criado por Freud para uma das três instâncias da mente, que conhecemos como Superego (as outras são “das Ich” e “das Es” – o Eu e o Algo-em-mim, conhecidas como o Ego e o Id).

Volto a tratar do assunto porque sua presença em nossas vidas é muito mais poderosa – e subestimada – do que se percebe, mesmo porque ele, o Acima-de-mim, é em parte insconsciente.

A parte notada nós a conhecemos desde a infância, quando nossos pais diziam: “Meu filho, ouça a voz da consciência”. De fato, lá estava ela a nos dizer o que era certo, e como nós andávamos errados. Ela funciona como uma constituição e um tribunal portáteis, paradigma da perfeição a nos criticar e a nos exigir a que sigamos seu exemplo, que nos comportemos como se fossemos ela. E volta e meia nós fazemos isso, ficamos acima-dos-outros, basta ver a atividade mais comum no facebook, o puxão de orelha – para dizer o mínimo – público, com os consequentes rancores e retaliações que essas espinafrações causam.

Vivemos um momento histórico em que há uma competição acirrada – o tal “nós contra eles” – para ver quem é o mais crítico, mais dono da verdade, mais perfeito e mais acima-dos-outros. Estamos constantemente  afiando nosso juiz interno, emitindo sentenças de morte contra nossos inimigos, acirrando nossos ódios. Tal é o legado do populismo, de dividir o país para conquistar o poder em nome de bons propósitos, que se tornam desmascarados ao mostrar sua face gananciosa.

Mas o discurso populista o é porque atinge o povo com simplorismo, e essa perda de complexidade mora dentro de nós: ela é a fala habitual do Superego. De sua posição Acima-de-mim, ele pode me ser útil, mas também pode ter se tornado um julgador cruel, um sucessor de quem me criou mal, um déspota tão odiento quanto o era para o marquês de Sade, dizendo que só há branco e preto, que se eu não sou imaculado, então eu não presto. Ou seja, um magistrado idiota a quem só me resta odiar/temer/reverenciar, tudo isso junto, numa confusão dos diabos que me emburrece pelo tumulto mental que causa. Como é mais fácil odiar do lado de fora, não há populismo sem inimigo público. Esse é seu truque mais comum. Esse é o estado a que chegamos.

Mas por que eu estou falando de política, se quero ser conceitual? Porque é de política que se trata: da política que se passa dentro de nossas cabeças. A briga principal é entre o Eu e o Acima-de-mim.

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