Categoria: Natureza Humana


Culpa corrige?


Para quem cresceu – como eu – na cultura católica, o sentimento de culpa era a maior ferramenta da correção dos erros (pecados). Nós pecávamos, infringindo um (ou mais) dos dez mandamentos, ficávamos envergonhados, íamos nos confessar, o padre endossava nossa culpa com seu perdão e sua penitência… e saíamos dali aliviados para pecar novamente. Era simples assim.

Simples, certamente; mas, eficiente para construir um indivíduo ético? Nem tanto… De fato, há no sentimento de culpa uma injustiça embutida que produz uma revolta silenciosa contra ele, o que depois se manifesta como reincidência do erro.

Senão, vejamos: o mecanismo que nos produz o sentimento de culpa é o de nos ver como pessoas horríveis. Para isso é preciso ter-se na cabeça um modelo ideal de pessoa, e sua contraparte, o antimodelo. O imaculado e o imundo. O santo e o pecador.

Em termos psicanalíticos, isso supõe que nossos valores não pertençam a nós mesmos, mas a nosso Superego. Nós  abaixo dessa instância ideal e julgadora, sempre lutando para alcançá-la, sempre intuindo que ficaremos na dívida. Desse modo, nossa relação com o ideal (vale dizer, com nosso Superego) é sadomasoquista, é uma relação fodão-merda: aos olhos dele, nós seremos sempre inferiores e horríveis. É isso que ocorre no sentimento de culpa: a gente se sente um merda.

Esta é a injustiça embutida no sentimento de culpa; a sentença é excessiva, não há direito de defesa, não há apelação a outras instâncias, ela nos causa revolta e nos faz rejeitar/vingar-se o/do tribunal que nos condenou. Ela nos faz ter uma relação de veneração e ódio ao Superego: ora somos submissos a ele, ora “pecamos” de novo tendo duas motivações (o sabor do desejo proibido e o sabor de mandar o Superego/tribunal às favas).

Quando procurei a psicanálise pela primeira vez, demorei para entender que o analista kleiniano tinha como método de cura o mesmo arsenal que a igreja católica: a culpa. Só que agora eu deveria me arrepender de meus sintomas, e prometer nunca mais tê-los. Tal como o método católico de combater o pecado, é claro que não funcionava.

Mais recentemente fui informado que a psicanálise lacaniana propõe que, em vez de culpa, a pessoa se torne responsável por seus desejos e por sua conduta. Isso me pareceu certamente um avanço, mas ainda vejo problemas: sem que se questione o tribunal do Superego, sem que se rejeite seus ideais de perfeição inatingíveis, sem que se repense uma nova maneira de implementar a ética, facilmente a responsabilidade funcionará como culpa, e tudo voltará à estaca zero.

A proposta que me surgiu a partir do conhecimento do Superego, através de Freud, foi a de acabar com ele (sei que isso não é possível, mas ter isso como meta é). Não de renegá-lo, mas de olhar para os valores desejáveis que moram nele, e de se apoderar desses valores como coisa nossa. Em palavras psicanalíticas: onde esteve o Superego, que haja o Ego! Ou seja, que ponhamos o Superego e suas leis sob um olhar crítico. Que se faça uma assembleia constituinte a partir do rompimento com a ditadura do Superego, exatamente como foi feita em 1986 entre nós, com o fim da ditadura militar. Que se aproveitem como valores nossos – de nosso Ego – as leis que servirem, e que se varram as leis autoritárias para o lixo da história.

A partir daí, a culpa pode ser bem aposentada em sua função capenga de corregedora dos costumes. Ela é substituída com vantagens imensas pelo simples reconhecimento do erro. Essa prática cultiva a humildade e nos dispensa de alternar arrogância com humilhação. Eis porque venho treinando, em vez de dizer “desculpe-me” (que endossa a culpa), dizer simplesmente “erro meu”.

Uma historinha para ilustrar esse processo. Na festa de 25 anos de formados do colégio Santo Inácio, perguntei ao nosso antigo padre prefeito de disciplina:
“Padre, ouvi dizer que masturbação não manda mais o pecador para o inferno, é verdade? Então, o que aconteceu com aqueles que morreram antes da mudança da lei?”
Ele desconversou:
“Daudt, eu acho que você já bebeu muito vinho…”


Raiva de quem se ama .2 – O que fazer?


 

A principal dificuldade para o bom gerenciamento da raiva é se estar prisioneiro do vício fodão-merda (f&m). Se qualquer injustiça que nos fazem, mesmo a de uma fechada no trânsito, é percebida como “estão querendo tirar uma de fodão pra cima de mim”, é inevitável que o desejo de vingança apareça: “vou mostrar que o merda é ele!”

Infelizmente, o vício f&m pode também estar presente nas relações de amor. Ele é a principal causa do crime passional (“ela se riu de mim com seu amante, os dois riram de mim enquanto fodiam”). Claro, não é o único fator do ciúme – que é a principal fonte de raiva de quem se ama –, há também o desprestígio, que é a principal forma de ciúmes da mulher (mas não exclusiva; apesar de os ciúmes masculinos serem principalmente sexuais, eles são misturados com desprestígio). Mas sentir-se desprestigiado é também uma forma de se sentir um merda, e isso dá muita raiva, e desejo de vingança.

Então, quando se trata de gerenciar a raiva de quem se ama, a primeira questão é o que fazer com o desejo de vingança. Por incrível que pareça, antes disso é necessário perceber a própria raiva, bem como a injustiça que a causou: se uma pessoa é muito importante para você, pode ser que o medo de perdê-la seja tão grande que nem a consciência da raiva apareça, e no lugar dela se sinta apenas mágoa, ressentimento, um mal-estar, um desânimo.

Pois esse é um bom caminho para começar: “Hum, me deu um desapontamento, uma brochada, uma tristeza com fulano… Eu suspeito que ele me magoou de alguma maneira, deixa eu ver onde foi”.

Descoberta a ofensa, o próximo passo é avaliá-la tentando ser justo. “Ah, isso não pode ficar assim, foi uma coisa grave!”. Ou então, “Eu estarei fazendo uma tempestade em copo d’água? Essa ofensa vai ser vista como uma bobagem, um problema meu?”

Vamos ao primeiro caso: qual é o seu objetivo na busca de corrigir a injustiça? É preservar o amor que vocês têm, certo? (Se não for, se o amor se perdeu por causa da ofensa, que pena, mas não há gerenciamento outro senão achar o jeito de ir embora).

Ora, se o objetivo é preservar/aumentar o amor entre vocês, isso precisa ser declarado logo de cara: “Ih, eu gosto tanto de sentir amor por você que eu preciso acertar umas coisas que estão me atrapalhando, que estão sequestrando o bom sentimento entre a gente”. Uma abertura dessas deixa o outro disposto a ouvir; ela não acusa, não supõe malícia da outra parte, não encosta contra a parede: “Eu sei que você não fez por mal, ou talvez nem tenha notado, mas…”

Dê saída ao gato: o princípio diplomático da saída honrosa faz com que vocês operem fora do jogo f&m; ninguém está querendo bancar o superior, ninguém está humilhando ou fazendo o outro de merda. Um gato encurralado avançará com as garras na sua cara, e o combate continuará. Não é esse o objetivo primeiro.

“Ah, mas isso parece D.R., e o meu marido odeia D.R. (Discutir a Relação)”. Há uma boa razão para se detestar D.R., que é não partilhar das bases/premissas em que ela é travada: se as queixas se referem ao não cumprimento de cláusulas de um acordo secreto e feito sem transparência, ao qual o outro não aderiu (o mais típico são as obrigações implícitas e não contratadas de como ser um namorado), é de se esperar que o outro não consiga avançar na conversa, pois há um problema de raiz.

Nesse sentido, um cliente passou por uma experiência muito curiosa: ele queria firmar acordos explícitos sobre o que significava namorar, desde o início da relação. A namorada se queixou: “Ah, assim nosso namoro vai ficar parecendo uma empresa. Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ao que ele perguntou: “Quantos namoros seus que ‘fluíram naturalmente’ deram certo?” Nenhum tinha dado, claro…

Bem, essas eram as propostas para mágoas graves, dessas que não se pode deixar passar. Mas… e quando a mágoa é do tipo que parece pequena, daquelas que o outro “vai achar uma bobagem”?

O que fazer nessas ocasiões dá mais trabalho. Primeiramente, porque quem sente a ofensa nunca acha que é uma bobagem, apenas acha que o outro vai achar. E por isso fica quieto: “O que deu em você?” “Nada!” E é um “nada” muito puto. Não dá para ter de pronto a consciência que um cliente desenvolveu depois de muita reflexão: “Sinto muito se eu não consigo te dar carinho quando você pede, porque isso me lembra de meus pais que viviam me pedindo carinho, mesmo quando eu estava ocupado brincando. Eu automaticamente transfiro a situação para você, e em vez de seu pedido me produzir ternura, me dá aversão. Mas eu estou ‘trabalhando isso’ na minha terapia, hahaha”.

Ele uniu humildade e humor, e isso é de desarmar qualquer briga. Claro, ele não chegou aí de um dia para o outro, mas isso nos dá um farol-guia: humildade e admissão de algo que pode ser um problema próprio, que não é culpa do outro, que ainda nem está claro, de fato é um belo começo para se lidar com raiva de quem se ama, e aumentar o amor.

 


Um dilema de consciência


“O Waze  disse para ir pela direita! Ele sabe melhor que você, ele tem inteligência e informação!”
“Certo, mas eu tenho inteligência e consciência, e prefiro ir pelo caminho de sempre. Não estou tão interessado em ganhar uns minutos, quero mais ver minhas paisagens… externas e internas, ok?”

As pessoas estão abrindo mão de sua autonomia e delegando cada vez mais suas decisões à inteligência artificial, aos algoritmos “sábios”. Que futuro nos aguarda? De carros autônomos e pessoas dependentes, agindo/reagindo no automático?

Segundo Yuval Harari (em “Homo Deus”), eis o dilema que o futuro nos apresenta: vamos nos entregar ao comando e à tutela cada vez mais eficiente da Inteligência Artificial, ou vamos privilegiar e cultivar a única inteligência que é exclusivamente nossa, a inteligência com consciência?

Primeiro, o que é consciência; o dicionário nos dá dois significados: o do saber-se existindo e percebendo o que se passa por dentro e por fora de si, aquilo que Descartes concluiu (“Ei, eu sei que existo, eu sei que estou pensando!” Ok, ele não disse com essas palavras, mas era esse o espírito da coisa) no século XVII; e a capacidade moral de distinguir o certo do errado.

Este segundo significado historicamente atrapalhou a minha relação com a consciência. Lembro-me de ouvir na infância “Põe a mão na consciência!”, quando nossas mães suspeitavam de alguma malfeitoria de nossa parte, e havia até piadinhas sobre a localização anatômica da tal consciência. Mais tarde aprendi que, em algumas línguas, “má consciência” significa sentimento de culpa.

Mas isso não impediu meu crescente caso de amor, minha atração fatal pela agudeza de consciência, em seu primeiro sentido. Queria muito – e continuo querendo – ter clareza cristalina do que se passa em meu pensamento, em mim, e ao meu redor. Quando aprendi com Edgar Morin sobre o pensamento complexo, foi um deslumbramento: entender que cada ato nosso, cada impulso é resultado de inúmeros fatores, muitos deles contraditórios; que era esse jogo de forças, semelhante à análise vetorial (quem disse que a física do 1° ano científico foi inútil?) desembocava numa resultante, que poderia mudar, assim que o jogo de forças mudasse também; que “ambivalência” significava forças opostas na mente que não se excluíam, mas ambas valiam!; que o ato falho poderia me tornar consciente da força ambivalente mais reprimida, tudo isso me fascinava/fascina.

Foi por causa do desejo de consciência que me apaixonei pela psicanálise. Ela nada mais é que um processo de expansão da consciência voltada para o “debugging”: imagine nossa mente como softwares, e que alguns deles têm uma contaminação atrapalhadora de seu funcionamento (os bugs). O único jeito de tirá-los (debugging) é entrar no sistema e rastreá-los, entendê-los e desmontá-los. Isso só se faz levando a consciência a lugares onde ela não podia ir antes; tornando o inconsciente… consciente.

Para mim, o resultado desse processo de expansão interminável da consciência – que se dá mesmo enquanto escrevo aqui – foi um amor à sabedoria que ele produz: é a face filosófica da psicanálise, um legado dela que enriquece lindamente a vida para quem adentra sua prática. Essa sabedoria só pode ser amada por uma inteligência consciente. Oba! Essa é só nossa!

Pelo menos por enquanto é só nossa, não creio que haja barreiras impossíveis que impeçam a criação de uma inteligência artificial com consciência de si. Mas como demandaria um investimento imenso aliado a um benefício mais que duvidoso, acredito que as chances de isso acontecer sejam mínimas.

A expansão da consciência significa escolhas melhores – por conhecimento de nossos próprios desejos –, e a expressão “voto consciente” não pretende outra coisa que escolhas melhores. Não creio que tão cedo alguém delegue a um Waze eleitoral o seu voto para escolher o presidente. Seria o passo anterior para temos um algoritmo de I.A. na presidência da república. “Oh, mas isso é tentador!” Sim, se você acredita em déspotas esclarecidos. A tentação de delegar escolhas e decisões que nossa espécie tem, seguramente é o maior atrapalhador da expansão de nossa consciência. É o “segura na mão de Deus, e vai”. Ou o “deixa a vida me levar, vida leva eu”.

Mora dentro de nós um Homer Simpson que só quer saber de cerveja, de “curtidas” nas redes sociais, e comida processada, vegetando em um sofá deformado por sua obesidade.

Mas também pode morar um ser consciente que aprecie entender a si mesmo o bastante para traçar seus caminhos na direção que mais se sintonize com seus desejos; que a partir dessa compreensão de si, seja capaz de querer compreender o outro, ter por ele empatia (colocar-se em seu lugar), ter por ele simpatia (afinidade de afetos), ter por ele compaixão (partilhar de seus sofrimentos). Tudo isso porque investiu no cultivo de sua consciência.

É uma decisão diária de cada um de nós, e será um dia uma decisão da humanidade: autônomos ou autômatos?


“Eus” eróticos


 

“Se todos conhecessem a vida sexual uns dos outros, ninguém cumprimentaria ninguém”, disse Nelson Rodrigues. O mais esquisito é que, como temos vários “eus”, pode haver desavenças e estranhamentos mesmo dentro de uma só pessoa, algum “eu” nosso pode virar a cara ao passar por outro de si mesmo que lhe pareça embaraçoso.

Isso fica claro quando dizemos, “eu não estava em mim, eu era outro”; “quando eu me lembro de mim jovem, fico até envergonhado, olho as fotos e me pergunto quem era aquele idiota”; “aquilo fez surgir um monstro dentro de mim”; “eu virei um animal!”. Um cliente de 80 anos me disse: “Sou um quando subo escadas, outro quando desço”.

Ou quando alguém muito presunçoso nos diz: “Eu não estou te reconhecendo, você não é assim!” Uma frase dessas faz de fato aparecer um monstro dentro de mim, com vontade de matar quem disse…

Mas esse negócio de ter passado os últimos quarenta anos ouvindo pacientes no consultório me fez perceber a quantidade de “eus” possíveis, quando o assunto é erotismo. É uma pena que o tema careça de palavras, tanto quanto de lugar social para ser conversado. Por falta de palavras, é pouco pensado. Por falta de pensamento, é pouco falado. As palavras do erotismo tendem ora ao engravatado, ora ao calão. Ora felação, ora boquete. Outro dia me perguntaram o que era “minete” (por causa do “Primo Basílio”), e quando eu respondi que era cunilíngua, ficaram na mesma até que expliquei: “é estímulo oral-genital feito numa mulher”. Quer coisa mais engravatada que isso?

Mas esse tema veio por conta de um cliente que descobriu um “eu” mulher em si. Ele é casado com uma moça muito ativa no sexo, que tomou a rara iniciativa de descobrir as zonas erógenas do marido. Deve-se dizer que o rapaz é abençoado pela natureza, pois de descoberta arrepiante em descoberta arrepiante (orelhas, nuca, mamilos, axilas, parte interior das coxas, períneo, glúteos, a lista é longa, acho que só os cotovelos ficaram de fora), finalmente adentraram – e o verbo não é acidental – o território do ânus/reto.

Foi quando se fez presente o poeta quinhentista português, Sá de Miranda, em seu poema mais famoso: “Comigo me desavim”. É que o rapaz tinha uma longa tradição homofóbica, e achou-se muito esquisito por ter gostado tanto das peripécias da mulher naquela… área. Teria ele descoberto que, por trás de sua macheza, no fundo (sem intenção de piada) era gay?

Deve-se registrar que o rapaz é obsessivo, e como tal, tem dificuldade com categorias intermediárias, não conhece cinquenta tons de cinza, para ele só costuma existir preto ou branco, ou isto ou aquilo, nunca ora isto, ora aquilo.

Para piorar, ele acreditava que somos indivíduos, seres (como diz o termo) indivisíveis e únicos. “Ou então o cara tem desordem de múltiplas personalidades, é uma espécie de maluco”, pensava ele. O coitado sempre viveu em busca de seu “verdadeiro eu”, para ser shakespeareanamente fiel a ele (“To thy own self be true”, um dos conselhos de Polonius a seu filho, em “Hamlet”).

É, fazia parte de sua obsessividade o valor de ser autêntico, sincero e honesto acima de tudo; qualquer coisa diferente era hipocrisia, e/ou concessão social. Não chegava a dizer para uma mãe, “Seu bebê é horroroso”, mas quase.

Pois é com esse conjunto de fatores que nosso herói enfrentou essas novidades em sua vida, e já podemos ter um vislumbre de suas mudanças de convicções, sem precisar ir aos detalhes de seu caminho (árduo) para isso. Passemos a ele a palavra:

“Não, concluí que não sou gay nem nunca serei. Nem ao menos tenho um “eu” gay, pois nunca olhei com tesão para um homem, e é isso que define o desejo homoerótico. Mas descobri que posso me sentir como uma fêmea. No começo, minha mulher só brincava com meu ânus com seus dedos, e isso me dava muito prazer. Depois ela passou a usar seu vibrador, e me penetrava com ele. Isso produz dois prazeres diferentes: o da dilatação e o da próstata, quando vai fundo. O segundo é muito estranho, pois tem alguma dor envolvida, parece a dor gostosa de massagem. O curioso é que não dá tesão nem vontade de gozar, mas leva a um quase-orgasmo muito intenso, e quando termina, a uma paz imensa, eu caio no sono dos anjos.”

“A coisa se complicou mais quando ela quis ‘brincar de homem’, e me perguntou se eu não queria experimentar ‘ser mulher’. Ela me possuiu usando uma cinta com um dildo de silicone, eu com os olhos cobertos por uma máscara de dormir… e a fantasia funcionou: eu me senti uma mulher, me entregando a ela/ele. Desta vez foi diferente, fiquei excitado com a entrega, me imaginando ora como se assistisse a um filme pornô em que eu fosse a mulher (é esquisito, mas a ‘mulher’ não se parecia comigo, era gostosa e me dava tesão, mas… era eu), ora me sentindo na pele da mulher possuída, e tive um orgasmo fantástico.”

“Depois dessa história duas coisas aconteceram: nunca me senti tão solidário, nem tão companheiro dela como antes. E este sentimento se estendeu às mulheres em geral: eu me coloquei na pele delas, me pareceu entender suas dores e seus prazeres, seus desejos e seus desgostos, suas fragilidades e suas forças.”

“A minha homofobia me ataca ainda por essa história toda, mas arranjei um consolo ao me dizer que, ao descobrir em mim um ‘eu’ mulher, superei – de um jeito bonito – um medo/limitação que muitos homens passam a vida varrendo para debaixo do tapete. Não sabem o que estão perdendo!”

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Todos os relatos aqui narrados são ficcionais, fruto de uma colagem de várias histórias de consultório, e qualquer semelhança com pessoas ou fatos da vida real é mera coincidência.


Raiva de quem se ama


 

Se você pensou em briga de casal, pensou certo. A encrenca é que há outras raivas mais complicadas ainda: raiva dos pais e raiva dos filhos, por exemplo. Por aí dá para sentir o quanto o assunto é delicado. Para começar, muitos vão dizer, “nunca senti raiva dos meus pais, que dirá dos meus filhos”.

Mas é que a raiva pode ter outros nomes, todos derivados do mesmo processo que a origina, o sentimento de estar sendo de algum modo prejudicado, ou injustiçado: mágoa, ressentimento, ciúmes, irritação, impaciência costumam ser definições mais reconhecíveis do que esse sentimento chocante que é “raiva” – quando aplicado a quem se ama.

E é chocante e delicado por lidar com consequências dolorosas: a culpa, e/ou o medo da perda do amor da pessoa querida. Imagine um pai sentindo muita raiva de um filho que se comporta igualzinho àquela mãe de quem ele se separou e que hoje despreza, ou daquele filho que dá um trabalho insano: se esse pai tiver no Superego um modelo de paternidade perfeita e imaculada, que não comporta maus sentimentos em relação aos filhos, ficará muito culpado.

Agora imagine um filho muito perturbado com uma mãe que demonstra escancarada preferência pelo irmão. Imagine o temor que sentirá em revelar sua revolta. Ora, se ele já é preterido sem fazer nada, a ameaça/risco de ser desamparado se mostrando raivoso é muito grande.

O que nos leva ao velho problema: a raiva não tem lugar social de direito entre as crianças, ela tende a ser reprimida pelos adultos como feia e má, se dirigida aos familiares; só o “puro amor” é aceitável. Sua função de reparar injustiças se perde, e um problema pior surge: a raiva passa a ser reprimida por dentro.

Mas aquela criança cresce, e vira um adulto que, se lida mais ou menos com raiva de estranhos, continua completamente desajeitado com a raiva de quem ele ama.

Que caminhos toma então essa raiva inaceitável? Alguns possíveis, que têm em comum serem totalmente incompetentes para trazer justiça as situações que a geraram:

- negação (“Raiva? Quem, eu? Nunca!”);

- formação reativa – o exagero do oposto (geralmente em consequência do primeiro: um mimo, um excesso de amorosidade descabida e imerecida);

- contenção (entuba, entuba… e explode);

- repressão (a raiva some, se desloca e se transforma em sintomas neuróticos obsessivos, fobias, síndrome do pânico e depressão);

- sadomasoquismo (do lado sádico: maltrato, bullying, humilhações, ironia/sarcasmo, e espancamento, podendo chegar a assassinato; do lado masoquista: vitimização, pena de si mesmo, silêncio e recolhimento social, encolhimento e paralização diante da vida, exposição de sua fragilidade – o que costuma ser um convite ao bullying).

É curioso, mas o sadomasoquismo entre pessoas que se amam pode ser tão sutil que passe despercebido. Estamos acostumados a pensar o s&m como uma perversão sexual que inclui chicotes e botas de couro, algemas e coisas que tais, mas ele pode funcionar em fogo brando: em vez de óleo fervente, banho-maria. Você já viu casais que soltam farpas entre si, se humilham, se menosprezam publicamente (ou um humilha e o outro se encolhe frente ao bullying) em graus variados. O problema é que isso pode fazer bodas de ouro…

O que fazer, então? Claro, é melhor previnir que remediar: a expressão verbal direta do problema precisa ter lugar social, as crianças terem o direito de expressar que estão com ciúmes do irmão; a escola precisa ter um ombudsman, uma ouvidoria para os alunos, uma espécie de judiciário para resolver pendências entre eles, assim como outros instrumentos de aprender cidadania.

Os namorados precisam poder fazer bons contratos entre si, para evitar as D.Rs. do mal, onde só rolam acusações mútuas: a namorada de um cliente lhe disse, “Mas assim o nosso namoro vai parecer uma empresa! Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ele lhe respondeu: “O que aconteceu com os seus namoros em que ‘as coisas fluíram naturalmente’?”

O que fazer quando o problema está instalado, e quais são os canais competentes para a raiva de quem se ama é assunto tão extenso que vai ficar para a próxima. Aguardemos “Raiva de quem se ama. 2”.

 

 


Síndrome de Groucho Marx


“Eu nunca entraria para um clube que me aceitasse como sócio!”, disse o comediante americano Groucho Marx (1890-1977). A frase remete a uma crença básica dos obsessivos: “As pessoas veem os 80% que eu produzo de bom, e por isso acham que eu sou inteligente. Mas eu ainda vou encontrar alguém mais inteligente do que eu, que perceberá os meus 20% de idiotice e de fraqueza, e me denunciará pelo que eu sou realmente: uma fraude!”

Só que os portadores da síndrome de Groucho Marx vão um passo além: só respeitarão quem os desprezar, só querem entrar no clube bom o bastante para rejeitá-los como fraudes, e com isso revelam ter ao mesmo tempo uma ideia muitíssimo elevada de si mesmos, convivendo com uma depreciação enorme… de si mesmos.

Como isso é possível? Pela especialmente difícil convivência entre Ego e Superego que os obsessivos têm em geral, e que os “Grouchos” têm, especialmente.

Explicando: o Ego sou eu, ou melhor, o software mental que me permite pensar que existo, que sou uma pessoa; uma interface que olha para o mundo e com ele negocia a partir do que vê em si. O Superego é um tanto mais complexo. Ele começa como um software de sobrevivência, algo que nasce com a gente e que, a partir dos dois anos, nos dá sentimentos aflitivos que nos mantêm vivos: repugnância de fezes e de podridão; medos de escuro; de altura; de confinamento; de grandes felinos; de répteis; de grandes insetos voadores… e de desamparo.

Este último é a chave do problema: ele rondará qualquer relação humana importante que tivermos, a começar, claro, pela relação com nossos pais, de quem nossa sobrevivência dependeu por longo tempo. “Ah, mas eu nunca me senti desamparado por meus pais”. É verdade, eles não te ameaçaram com perda de amor nem com abandono, mas como é que, na paixão, você ficou aterrorizado com a ideia de perder o amor da sua vida?

É porque, mesmo amados, nós nos tornamos sensíveis a variações de ibope. Exemplo: “Meu irmão era uma peste e brigão, mas minha mãe, mesmo se queixando, dava-lhe tremenda atenção. Foi assim que intuí a estratégia de conseguir atenção e amor através de ser o oposto dele. Fui bonzinho, prestativo, nunca dei trabalho, fui ótimo aluno, nunca raivoso, sempre aceitando tudo”.

Esse daí fez pós-graduação para se tornar obsessivo: reprimiu a raiva, o ciúme, o sentimento de injustiça através de construir um ideal de perfeição baseado no antimodelo peste que foi seu irmão. Foi assim que absorveu uma crença de um mundo sem meio-termo: ou 100%, ou zero; ou branco imaculado, ou manchado imprestável e desprezível; ou isto, ou aquilo (como no imortal poema de Cecília Meireles, uma ode à obsessão). Foi assim que seu Superego se construiu: com uma face ideal e perfeita, e outra face julgadora, que olha com desprezo e crítica para o Ego a partir dessa perfeição.

Acontece que a perfeição só existe como ideia, como ideal. A realidade – que pode ser incômoda, mas é o único lugar onde se consegue um bife decente (Woody Allen) – nunca é cem por cento.

Vai daí que o nosso obsessivo – ou seu Superego – sabe-se menor que 100%, e só dá atenção aos 20% que faltam. Ele é obcecado com a falta, com a falha, com o defeito, nunca elogia o que está bom, só comenta o que está ruim, e isso a começar por si mesmo. Às vezes ele pode se conter e não fazer essas críticas aos outros (aprendeu que é feio ser judicioso, por exemplo), mas que ele pensa isso tudo, ah, pensa. E o primeiro a ser julgado é ele mesmo.

Não é à toa que se tornou um Groucho: seu clube ideal 100% não o aceita, mas é o único que ele julga merecedor de sua aprovação. Já pensou o efeito devastador que isso tem nas relações amorosas?


O drama como instrumento de poder


Drama: p.ext. psic. estado de comoção provocado por experiência emocional penosa e desgastante.

Cena 1: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela leva as costas da mão à testa, diz “Ohhhh…” e desmaia.
Cena 2: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela põe a mão no queixo, entorta a cabeça para o lado e diz: “É só isso que você tem para mostrar? Se toca, ô cara!”

O que difere nas duas cenas é a presença ou a ausência de drama. Como diz o dicionário, no primeiro caso a mocinha teve uma “experiência emocional penosa e desgastante”, viveu um drama. No segundo, a mocinha percebeu da coisa o ridículo, que é o desmascaramento da pretensão descabida: zero de drama!

O que levou a haver drama para a primeira moça foi seu Superego lhe dizer, a partir de tudo o que ela ouviu em sua criação, que sexo é horrível se estiver fora do contexto dos sagrados laços do amor e do matrimônio. Mesmo assim é assunto que não se fala, muito menos se exibe. Seus pais sempre fizeram o maior “drama” do tema, dizendo à filha que ela “precisava evitar um destino pior que a morte: a desonra!” Ela acreditou, comprou o drama e se tornou uma escrava de seu Superego.

Você pode pensar, “mas que moça mais neurótica!”, e terá razão: não há neurose se não houver drama, e toda pessoa muito dramática tem enormes chances de sofrer de neurose.

A menos, claro, que seja como esses políticos que usam o drama como ferramenta de manipulação de seus seguidores, pois entenderam muito bem que o drama é um poderoso instrumento de poder. Aí o diagnóstico não é de neurose, e sim de sociopatia; eles não acreditam no drama que fazem, internamente se riem de seus devotos, olham para eles como um bando de otários fáceis de enganar.

Para se ter ideia do jogo de poder que envolve a neurose, uma paciente fóbica e com síndrome do pânico teve câncer. A partir de sua luta pela vida, cirurgia, quimioterapia, os sintomas neuróticos sumiram por completo! Como nos versos de Camões, “Cesse tudo o que a antiga musa canta, que um poder mais alto se alevanta”. Uma vez curada, para sua surpresa o pânico e a fobia voltaram: o que era o drama da neurose face à ameaça da morte? O Superego se encolheu e ficou esperando sua oportunidade. Quando ele viu que a morte se distanciou, veio com tudo de novo.

Um outro exemplo, este do cancioneiro popular, está no samba “O mundo não se acabou”, de Assis Valente: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar (…)/ Acreditei nessa conversa mole/ pensei que o mundo ia se acabar/ e fui tratando de me despedir/ e sem demora fui tratando de aproveitar/ beijei na boca de quem não devia/ peguei na mão de quem não conhecia/ dancei um samba em traje de maiô/ e o tal do mundo não se acabou”.

Claro que quando o mundo não se acabou, o Superego voltou com tudo, e a pobre criatura ficou arrasada de vergonha… Ela, que tinha se divertido a valer, agora via seu passado recente como “uma experiência emocional penosa e desgastante”. Como um drama!

Não é preciso ir tão longe, qualquer pessoa que enfiou o pé na jaca, tomou todas, pintou e bordou na véspera (diz- se que o Superego é solúvel em álcool), no dia seguinte morre de ressaca, sobretudo de ressaca moral, com a volta do drama.

Como contraste temos a comédia: o que faz a comédia de costumes senão nos fazer rir de nossos próprios dramas? O comediante americano Chris Rock faz sua plateia se dobrar de rir ao lhes perguntar: “Por que você acha que sua mulher te trata feito um cachorro? Porque você não foi a primeira escolha dela, otário!” Homens e mulheres gargalham, ao verem seu drama tornado risível naquele pequeno momento de pouca seriedade permitida. Depois, voltam ao normal…

De fato, é preciso levar-se muito a sério para acreditar em drama: em todas as novelas, os personagens se levam horrivelmente a sério. “Rodolfo Augusto, o que significa essa marca de batom?” “Não é nada disso que você está pensando, Yolanda Cristina, eu posso explicar!” Não é à toa que a arte de escrever novelas se chama “dramaturgia”.

Enfim, Espinoza nos ensinou que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam. Pois se há um cordel poderoso de que o Superego usa e abusa, esse é o drama.

 


Raiva injusta


Desde que nascemos, a coisa mais difícil de se gerenciar (além do erotismo) é a raiva. A raiva nos surge em qualquer percepção de injustiça por nós sofrida, e ela é fundamental para que tenhamos força e motivação para corrigir essa injustiça. Sem indignação não há justiça, dessa forma podemos dizer que A RAIVA É MÃE DA JUSTIÇA.

A justiça, por sua vez, vem da avaliação do tipo de troca que estabelecemos com o mundo, e que o mundo estabelece conosco. Se a troca é justa, é acertada, é equivalente, sentimos paz. Se nos tiram, nos subtraem, nos abusam, sentimos raiva. E a raiva busca um acerto de contas, ou seja, justiça. Isso não é aprendido, nasce com a gente.

Uma criança opera sua raiva de forma… infantil: sai batendo, sai gritando, sai chorando, muito devido à sua impotência frente à raiva. Cedo a cultura (i.e., o Superego) lhe ensina que isso é errado. Mas não lhe ensina o que fazer para operar sua raiva de maneira civilizada em busca de justiça. A principal função do Estado, desde que foi inventado após a revolução agrícola, há uns onze mil anos, é exatamente a de mediador de conflitos e promovedor de justiça. O cidadão abre mão do uso da violência em causa própria e entrega ao Estado (a quem sustenta com seus impostos) a mediação de seus conflitos, sua segurança contra o crime e a predação,  a promoção de justiça, enfim.

Haveria dois lugares onde o gerenciamento da raiva deveria ser ensinado: a casa e a escola. Infelizmente, tal não acontece, nem em uma, nem em outra. Ambas se reúnem para reprimir a raiva, mostrá-la como algo feio e errado, algo a ser suprimido, a ser substituído pela “bondade”. O resultado é isso que vemos: doença neurótica obsessiva, ou transgressão sadomasoquista. A obsessividade funciona sobre dois eixos: pureza e controle. A principal “pureza” que o obsessivo busca é a ausência de maus sentimentos, do rancor, da vingança, da maldade. Seu ideal de controle serve aos mesmos propósitos de busca de pureza: arrumação, pontualidade, higiene e limpeza exageradas, um mundo perfeito de ordem e de paz. Quanto mais raiva a reprimir, mais rejuntes de azulejos a serem limpados com cotonete, mais quadros tortos a acertar. Mas… a injustiça que causou aquelas raivas continua sem ser corrigida.

O sadomasoquismo é também ineficiente. Primeiro porque ele é deslocado: um menino que tortura animaizinhos não está corrigindo a injustiça original, está é arranjando mais encrenca para si mesmo. Depois porque ele vicia, a criança fica apegada a seus jogos malvados (o bullying é um exemplo típico), sendo ativamente cruel, e assim repassando a crueldade que sofreu, perpetuando a injustiça. Quem não se lembra do “passa adiante, se não vira elefante”? O aluno da carteira de trás dava um cascudo no da frente, e o da frente, em vez de corrigir o malfeito, tornava-se malfeitor também.

Mas nem toda raiva é fruto de um clamor justo: há raivas injustas. A mais típica é a inveja. Se fulano tem um carro melhor do que o meu, não é justo que eu acredite que ele está me sacaneando por isso… apesar de o sentimento ser esse. Esta é a principal dificuldade para se chegar a um bom conceito de justiça social, por exemplo: ela é frequentemente concebida como uma igualdade de posses, em vez de se pensar em igualdade de oportunidades, e em igualdade frente às leis, essas sim, os pilares da democracia.

Já os ciúmes, apesar de poderem ser clamor injusto, muitas vezes são raiva justa: se uma criança é completamente negligenciada pelos pais porque nasceu um bebê novo na casa, ela está coberta de razão para sentir raiva da situação.

Meu ponto aqui é que nem toda raiva é coisa feia a ser reprimida, e pode ser olhada com a seguinte pergunta interna: “onde estou sendo injustiçado, e o que posso fazer para corrigir isso?”; mas também que nem toda raiva contém um clamor indiscutível de justiça.

 


A homofobia como religião


Entendida geralmente como ódio aos gays, a homofobia tem como principal sentimento, tudo me convence disso, o próprio medo (fobos, em grego). O ódio é decorrência do medo, como veremos.

Mas medo a quê? Aí entra a complexidade humana, a lista é extensa: medo a ter algo de gay em si, e a consequente terceirização como defesa, e aí entra o ódio (“o gay é ele”); medo de perder cacife de sedução junto às mulheres por não ser suficientemente másculo; medo de banimento, do ostracismo, da segregação, de ser exilado de seus pares, degredado de sua tribo por mostrar que não tem qualificações para a ela pertencer, pois no fundo é “um daqueles”.

Este último medo é o mais grave de todos. Entre os medos de raiz com que nascemos (altura, escuro, répteis, grandes insetos voadores, grandes felinos), o medo do desamparo talvez seja o mais intenso. Nossa espécie é dependente de amparo desde que nasce, e sua sobrevivência supõe cooperação do grupo. Não à toa um dos castigos mais severos conhecidos é o banimento, o exílio, a rejeição social.

Mais um fator que leva à homofobia: a construção da identidade masculina. Como os pavões, nós também precisamos de penas para exibir e atrair as fêmeas, algo que mande a elas a mensagem “eu sou um macho atraente”. Força, coragem, proeminência social, ser “vencedor”, competitivo, derrotar os outros, não mostrar atributos femininos quaisquer, enfim, ser um fodão e não um merda, essas são algumas de nossas penas de pavão.

Mas já se pode notar uma equivalência entre ter atributos femininos e ser desqualificado como um merda (uma das origens da misoginia, a propósito).

É aí que a homofobia começa: em nossa infância. Desde cedo estamos treinando sem saber para adquirir essas penas, é um empurrão da mãe natureza presente em todos os mamíferos. Nenhum menino correlaciona os jogos eróticos com seus pares à identidade gay, eles não estão nem aí para isso. Seu foco é exclusivamente sobre o que parecer feminino. O xingamento entre meninos não é “viadinho”, é “mulherzinha”. Meninos bonitos de feições delicadas sofrerão bullying por se parecerem com meninas. Brincadeiras que não sejam musculares idem, imagine-se um menino a brincar de casinha… O desprezo pelas meninas (o clube do Bolinha dizia, “menina não entra”) se estenderá aos meninos que com elas se parecerem, comportamental ou fisicamente. Daí se desenvolve uma patrulha que examina atentamente gestos, maneira de andar, de falar, opiniões, gostos etc. que se une à competitividade para dizer “eu sou fodão, você é merda”.

À partir da puberdade, com a chegada dos hormônios sexuais, se conectam finalmente o “mulherzinha” e o gay: se ele é mulherzinha, então ele gosta de outros homens, e pior, gosta de ser possuído por outros homens, como se fosse uma mulher. Eis porque o homossexual passivo será mais desprezado ainda.

É esse conjunto da obra que faz com que a homofobia entre adultos possa ganhar o status de religião: uma crença supernatural que estabelece o certo e o errado sobre como um homem deve ser, se comportar e pensar, que reune adeptos, que tem práticas rituais reiteradas, que forma uma coligação poderosa à qual é interessante pertencer… e da qual é terrível ser banido.

Pense na brincadeira de implicar mais comum entre grupos masculinos: é suspeitar de, ou insinuar a falta de masculinidade em seus pares. Isso é típico ritual religioso: está reafirmado o culto a um deus (a macheza), e o repúdio aos demônios (a viadagem); existe um céu (o triunfo da fodonice) e um inferno (o banimento e a humilhação).

O terror desse banimento é tal que a mais destruidora forma de mecanismo de defesa contra a angústia – a psicose – frequentemente se dá diante do medo de se tornar gay. A pessoa se desmantela internamente, se desorienta, alucina e delira. A alucinação auditiva mais comum: o psicótico ouve vozes que o chamam de viado.

Preciso dizer mais?

 


Uma proposta radical de psicanálise


“Radical” significa “de raiz”. “Psicanálise” significa “pesquisa para conhecer o funcionamento da mente”. De modo que o título acima pode ser traduzido como “Uma proposta que leva em conta as condições de raiz do funcionamento da mente, para seu conhecimento”. Não há nada mais de raiz em nossa existência que o impulso de reprodução que trazemos em nosso DNA. De fato, reprodução é o único sentido biológico da vida, e tudo decorre dele, inclusive nosso instinto de autopreservação (precisamos estar vivos para reproduzir). Em nossa espécie, a reprodução é sexuada e implica negociação entre as partes. Se imaginarmos uma negociação vantajosa para ambas as partes numa escala de zero a dez, ela irá de zero no estupro troglodita do homem das cavernas, e caminhará para dez quanto mais consensual e civilizado o sexo for.

Nossa espécie é também capaz de consciência, e tem margem crescente de liberdade de arbítrio quanto mais autônomo independente for o indivíduo.

Disso resulta que o arbítrio, a escolha, se dará sobre que tipo de sexo se almeja: estupro ou consensual? Não é uma questão de ou oito ou oitocentos, é uma questão de tendência: teremos mais ou menos consideração pelos interesses e desejos do outro? Usaremos de chantagem, ou de sedução? De força, ou de convencimento? Intimidaremos, ou encantaremos? Não há escapatória: todos nós estaremos diante desse dilema.

Mas o dilema se apresenta apenas no sexo? É evidente que não, ele está diante de nós em toda e qualquer troca humana, em toda conversa, em todo trabalho, em toda criação de filhos. Até em textos que escrevermos estaremos escolhendo: imposição ou convencimento?

A mesma questão se apresenta quando o assunto é política, quando o dilema tem a seguinte tradução: tirania ou democracia? Sim, a metáfora é: a tirania é o estupro; a democracia é o sexo consensual. O que vamos querer? Quanto a isso não há neutralidade nas relações humanas: a escolha se impõe, mesmo se não a explicitarmos. Mesmo se inconsciente, tomaremos um dos dois caminhos, seremos principalmente a favor, ou de um, ou de outro.

O que nos leva à psicanálise. Sim, ela é um método de investigação, um estudo do funcionamento da mente. Mas ela também é uma intervenção terapêutica no indivíduo, o que implica um desejo de interferir nos rumos de sua vida: ela categoriza algo que se passa nele como problema, como doença, e se propõe a ajudá-lo a sair dessa condição. Se concordamos com essa premissa, a psicanálise não pode se pretender “neutra”: ela terá que fazer face ao dilema imposição x convencimento; tirania x democracia.

Freud descreveu a mente com três instâncias, ou, já que estamos falando de política – e há uma política na mente –, “três poderes” que interagem em harmonia ou em conflito: o Id, com suas exigências ligadas à reprodução, seus desejos dela derivados; o Superego, representante do mundo externo, suas leis e suas ameaças; e o Ego, aquilo em que nos reconhecemos como identidade, em permanente conversa com os outros poderes, frequentemente esmagado por eles.

Na política da mente pode também haver tendência à tirania ou à democracia, à imposição ou à boa negociação. Cabe a nós almejar uma delas e lutar por ela.

Mas meu assunto aqui é o que cabe à psicanálise. Como vimos, o que não cabe de jeito nenhum é a neutralidade, pois a doença psíquica bem pode ser definida como a tirania reinando na política mental: ora o Ego (leia-se “nós”) é um joguete nas mãos do Id; ora é um servidor submisso do Superego; ora é como o marisco, espremido na guerra entre o mar e o rochedo.

Eis minha proposta radical de psicanálise: ela precisa se posicionar a favor da democracia e contra a tirania. Vale dizer, a favor do convencimento e contra a imposição; a favor do melhor entendimento entre os poderes psíquicos, para que o Ego possa existir em paz.

A favor do sexo consensual, e contra o estupro.

Você me perguntará como isso se implementa. Pois pretendo responder a essa pergunta de maneira extensa num livro com o mesmo título deste artigo. Este é o meu projeto para o ano de 2018.

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