Categoria: Natureza Humana


O pior dos vícios


“You’re a loser” é o pior chingamento da língua inglesa, e sua tradução mais realista é “você é um merda” (“perdedor” e “fracassado” não fazem jus à força da expressão original). Isso se dá porque eles – sobretudo nos EUA – dividem o mundo em “winners” e “losers” (fodões e merdas, a partir de agora reconhecidos pela sigla f&m, que é para não ofender sensibilidades), as pessoas vivem na aflição de como serão classificadas.

Isso pode ter começado entre os americanos, mas agora é fenômeno mundial, e sentimos essa guerra f&m a toda hora.

Explico a guerra: o sentimento de se ver como um “m” equivale a se perceber como um pária sem perspectivas na vida. É tão insuportável, dá tanta raiva, que a pessoa fará qualquer negócio, até matar, para aliviá-lo. Mas a reação mais comum é buscar fazer alguém mais se sentir um “m” para ter um mini-triunfo como “f” (“Ora, “m” é o outro, eu sou “f”!). Vamos chamar isso de defesa-f. É um mecanismo de defesa contra a angústia e, se usado constantemente, torna-se uma doença, uma variação do jogo sadomasoquista (s&m) sem as botas e o chicote e sem o fetiche sexual, o que poderia até ter sua graça, mas esse é sutil e não tem graça nenhuma, a menos que se fale da graça do ridículo, do deboche e da humilhação, de se rir do outro, e não com o outro.

Torna-se um vício, o pior dos vícios. Vício é uma ação compulsiva que causa dano ao próprio e a outros, como é o caso. Mas por que o pior? Por não ser óbvio, e por se incorporar à cultura como uma crença, uma ideologia. Por ganhar o endosso do senso comum, ao ponto que pensamos em alguém e automaticamente já o classificamos no f&m. Listo abaixo alguns dos desdobramentos que fazem do vício f&m um gravíssimo e crescente problema de saúde pública mundial.

Criação dos filhos: os pais perderam a autoridade junto a eles, muito por medo de que eles não os amem (seriam “m” por isso). Os filhos detectam esse medo, manipulam os pais com ele, e os pais se vingam sutilmente, entrando no jogo f&m com os filhos. Ah, mas nunca lhes batem fisicamente…
Bullying: costumava ser perseguição aos diferentes. Hoje é escancaradamente jogo f&m.
Drogas e álcool: as drogas podem ao mesmo tempo consolar o sentimento de ser um “m”, e iludir momentaneamente de que você é um “f”.
Redes sociais: pareça um “f” e faça os outros se sentirem “m”, parece ser seu principal uso.
Politicamente correto: a moda de se sentir ofendido por tudo é totalmente f&m (“me chamaram de ‘m’, mas agora eu vou mostrar quem é o ‘m’”).
Relação de casais: sim, o sadomasoquismo costuma fazer mais bodas de ouro que o amor, mas veja o teor do maltrato mútuo de um casal e me diga se não é f&m?
Ciúmes: ser corno, dentro da crença, é ser “m”, e a defesa-f pode ser o assassinato.
Inveja: “tenho ódio de quem é melhor que eu, está me fazendo de ‘m’!”
Política: preciso explicar? O que é a guerra entre “nós” e “eles”?
Qual a alternativa? O cultivo da virtude: a humildade de se saber humano e frágil (e não um “m”), e a ambição de ser bom (e não “f”).

Até lá, espero que a guerra f&m entre Trump e Kim Jon-um não nos mate a todos.


A cascata


 

“É tudo mentira. Ele é um simulador, frio, calculista, ele é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”.

Pois é. Eu estava bem feliz de tratar de assuntos conceituais da natureza humana, de não ter que falar de política, desde que Madame retornou à insignificância de onde nunca deveria ter saído, mas essas frases acima… Nas palavras de Michael Corleone, “eu quero sair, mas eles me puxam de volta!”

Para minha sorte, elas se referem a uma condição humana pouco entendida: a sociopatia. O sociopata é um psicopata que opera no atacado. Não se contenta em ser um assassino em série, um pequeno trapaceiro, um malfeitor de voo curto. Como o psicopata, ele não tem barreiras morais que se interponham a seus propósitos criminosos. Não há remorso, não há reconhecimento de erro, não há humildade. Ao contrário, há megalomania: a convicção de superioridade, de estar acima do bem e do mal, de ser possuidor de uma clareza mental assassina que transforma todos os demais em imbecis. E um gozo infinito em fazê-los de imbecis. Não poderia dar explicação melhor de como funciona um psicopata do que aquelas frases do início: a simulação fria do que for necessário para seus propósitos. Fazer-se de vítima? Ele será a maior vítima do mundo. Mentir descaradamente? Ele fará a mentira soar como a maior das verdades. Ignorar o que disse ontem e dizer o justo oposto? Foi você que ouviu mal, ele sempre pensou assim. Compromisso com a verdade, com a dignidade, com a honestidade? Zero. Mas se a aparência disso lhe for útil, ele se dirá a pessoa mais honesta do Brasil.

Manipulação? É fascinante assistir a ela. Televisionado na presença de um juiz, ele o usará como palanque para falar com seus seguidores, e dar-lhes argumentos – ainda que rudimentares – que mantenham sua crença nele.

Não existem psicopatas burros. O despudor, o cinismo e a leviandade retiraram-lhes as travas mentais que nos restringem. Dizem que os psicopatas não têm superego. Não é isso, pois tudo o que fazem é direcionado justamente contra aquilo que o superego manda. Eles são obcecados pela quebra das leis e da ética. É uma vida devotada à transgressão e à trapaça: seu maior gozo é chutar o superego para o alto.

O sociopata descobriu a mais eficiente das armas para manipular multidões: o sentimento de culpa. “Eu fui ferrado na vida, e os culpados são ‘eles’, e agora eu falo em nome de todos os ferrados, para nos vingar ‘deles’”. Como pastor do coitadismo, tudo lhe é desculpado, a culpa é dos outros. Não é à toa que sentir-se ofendido e culpar os outros virou uma praga em que o politicamente correto tomou carona.

O que nos leva à cascata. Quando Pedro Aleixo recusou-se a assinar o AI-5, perguntaram-lhe se ele temia que o presidente fizesse mal uso dele. “Não temo o presidente”, respondeu, “mas quando o autoritarismo se instala no alto da cadeia de comando, desce em cascata até o guarda da esquina. E este eu temo”.

É a cascata o pior legado do sociopata e seus asseclas: a corrupção moral do país, o coitadismo, a incompetência abençoada são ainda mais graves que os horrores que têm aparecido.


Esperança


“A pontualidade é a virtude sem testemunhas”, dizem os franceses em solidariedade àqueles que esperam. Esperar é muito chato, mas nossa relação com a espera é ambivalente: “Quem espera sempre alcança”; “O melhor da festa é esperar por ela”.

E há a esperança. Ela nos importa muito, ao ponto de ser a última que morre. É verdade que existe a esperança vã, e a esperança em deus, mas quando a esperança está ligada à expectativas realistas de que venham os frutos de uma boa semeadura, ela é um sentimento fundamental em nossas vidas: o momento em que avançamos para além do princípio do prazer imediatista e conseguimos investir no médio e longo prazo, levando em conta o princípio da realidade.

“Si quieres peras, planta perales, no las pida al olmo”, disse com razão um argentino famoso, estímulo para uma boa construção do sentimento de esperança. Sim, porque uma esperança de boa qualidade se constrói com atos virtuosos. É diferente da expectativa insconsciente dos mimados, de que o dinheiro – e tudo o mais que queiram – cairá do céu. Nem sei se eles têm essa esperança, acho mesmo que eles tomam a coisa como garantida (“take it for granted”) porque são mais que estragados (“spoiled”), acham-se no direito de ter isso (“entitled”).

Essas reflexões sobre a esperança me vieram por causa dos trinta anos do Instituto Superior de Educação Pró-Saber, aqui do Rio, que forma professores para comunidades carentes sob o lema da “transformação com esperança”. Pessoas pobres (e não “humildes”, nem “simples”, pois essas são qualidades que eu mesmo busco ter, sem ser pobre) encontram ali a oportunidade de se transformar em algo melhor – para si e para os outros –, investindo numa esperança bem construída, uma capacitação universitária que resulta em ações virtuosas contagiantes.

É como se a cada momento essas pessoas estivessem diante de duas portas: a da transformação com esperança, e a da vitimização coitadista, da pena de si mesmo, de esperar viver como cafetão da própria miséria. Que porta escolherão? O Pró-Saber lhes estende a mão para que escolham a primeira, e isso é muito bonito.

Estender a mão para quem queira se transformar, crescer, voar com asas próprias. Dou-me conta de que isso é um permanente alimento em minha vida, é o que faço com meus filhos, clientes, leitores. E não pense que se trata de um gesto desprendido e altruísta, não, é em interesse próprio, pois isso me transforma, me faz crescer e me dá asas para voar. Se a ética é o acordo de boa convivência, de não fazer o mal, a ética ativa vai além, acrescenta e transforma, é onde ela se encontra com a estética: constrói beleza.

Nosso pobre país está doente, carente de ética e de beleza moral. Assistimos com sentimento de impotência a um desfile de horrores, o único alento vindo da surpresa de ver o pus saindo e malfeitores poderosos entrando… na cadeia.

Mas há algo que está a nosso alcance e que todos os dias temos a chance de fazer: escolher a porta da transformação, do ato virtuoso por pequeno que seja: ele será nosso tijolo na construção de uma nova catedral, a esperança.

 

 

 


Narcisos


“Ah, cansei de falar de mim! Fala um pouco agora você, sobre mim…”

Esses narcisistas sempre me intrigaram, e isso me levou a ir entendendo uma coisa ou duas sobre eles. A primeira e mais óbvia é que seu maior interesse é a própria imagem. Na Grécia clássica seria aquela refletida na superfície do lago; atualmente se diria que eles são obcecados em sair bem na foto. É verdade que “nada do que é humano nos é estranho”, mas isso é prioridade total em suas vidas.

Tomemos o exemplo do noivo crônico: o cara está casado com a própria mãe, mas sabe que não fica bem na foto ser solteirão aos quarenta anos. Então vai arrastando o noivado, e quando a noiva rompe com ele, fica-a bajulando para que ela não o odeie: precisa sair bem na foto.

Um cliente me conta que a mulher lhe deu um presente de cinquenta anos que nada tinha a ver com ele. “Ela não tem a menor consideração por mim”. É verdade, mas o curioso é que não há maldade nisso: simplesmente ela não o considera porque ele não lhe passa pela cabeça. Ele não mora lá. O presente era caro e ela ia ir bem na foto: era o bastante.

A outra ficou impressionada com a biblioteca dele. Levou tempo para entender que ele só comprava, mas não lia, livros que o fariam… sair bem na foto, como intelectual.

Sim, porque não é a própria pessoa se admirar, apenas. É também buscar ser admirada. É como uma obsessão em seduzir, o que me fez pensar no componente histérico dos narcisistas: eles querem ser desejados, mas é frequente que quando esse desejo lhes for mostrado, pedindo retorno, eles se escandalizem dizendo que “você não entendeu bem, eu só queria ser agradável”. Isso tem ficado claro nos casos de supostos héteros seduzindo gays: eles jogam uma tonelada de charme, e ficam travados (ou indignados) quando finalmente recebem a cantada que buscaram.

Como se forma um narcisista? Em alguns casos é fácil: a pessoa sempre foi muito bonita, desde criança está acostumada a ser gostada e desejada por sua aparência; intui que seu maior capital erótico/afetivo mora nessa beleza, e portanto passa a ter por ela um zelo excessivo. Daí podem derivar dismorfia (gente magra se achando obesa) e hipocondria (que Freud classificou como neurose narcísica): demasiada atenção em si mesmo.

Outro caso clássico é o dos filhos únicos (se são lindos, então…): é muita atenção sobre eles. Mas vi um caso em que a filha mais nova, desprezada pela mãe que só tinha olhos para o primogênito, tomou o irmão como modelo, imitando-o no narcisismo, como a buscar o amor idealizado da mãe que nunca havia sido seu: passou a vida desprezando quem a amava (tornando-se com isso idêntica à mãe), pois só queria o amor de quem a desprezava.

E narcisismo tem jeito? Bem, os casos que me chegam têm em comum uma preciosidade: a pessoa se incomodou de ser assim. Se além disso ela está entre os poucos inteligentes da espécie humana (o que é uma soma de raridades, convenhamos), ela pode usar sua inteligência – e sua própria vaidade – para aprender a sair da arapuca afetiva e neurótica em que se meteu – ou foi metida.

Mas dá um trabalho…


As penas do pavão


 

“É claro que existe um componente exibicionista em eu ter aquele carro. Disse isso e ela ficou desapontada comigo, achou que eu o tinha porque gostava de carros desde pequeno. Expliquei que uma coisa não excluía a outra, que ambas são verdadeiras, e que existem também vários outros componentes para qualquer coisa que eu faça na vida”.

Duas coisas me encantam neste relato: a percepção da complexidade do que motiva nossos atos – vale dizer, de nosso desejo –, e a serena aceitação do exibicionismo como parte saudável dele.

Desejo, em psicanálise, é uma trama complexa que começa no único sentido da vida: reproduzir-se (sentido biológico, claro). Está em nosso DNA. Até nosso instinto de sobrevivência existe para servir à reprodução: depois dela somos tão descartáveis quanto as efêmeras, insetos que morrem no mesmo dia em que se reproduzem. No nosso caso a coisa é muito mais complicada: somos guiados pela busca de prazer, é ela que vai nos levar à reprodução, e é a memória dessas experiências de prazer que vai construir a trama do nosso desejo. Assim, um simples sorvete pode parecer o mesmo para duas pessoas, mas representa desejos únicos e intransferíveis, pois cada uma traz histórias diferentes com aquele sorvete. Cheio de memórias, cheio de componentes, que nem o carro.

Mas o componente exibicionista está mais ligado à reprodução do que o sorvete: ele está voltado para a seleção sexual.

É aí que entra o pavão. Quem já viu uma pavoa pode ter ficado impressionado de como ela é sem-graça, sobretudo se comparada ao macho: ele se parece uma drag queen, de tão enfeitado. Ela pode se dar ao luxo de ser assim despretensiosa porque detém o poder de escolha: é ela quem determina que macho estará à altura de ser seu par. Eles então competem por ela na base de se mostrar: “Olha como eu sou formidável!” E haja pena de pavão.

Isso está ficando vagamente familiar, não? Pois é: carros lindos, competição, poder, status, proeminência social, e até artigos publicados na Folha, têm sim um componente exibicionista que, fale-se abertamente ou não, contém a esperança de ser eroticamente escolhido.

“Êpa, mas as nossas fêmeas não têm nada de sem-graça, pelo contrário, elas também têm componentes exibicionistas”. Ah, mas isso é porque as pavoas não estão nem um pouco interessadas em se casar com os pavões, o “one night stand” lhes basta. Na nossa espécie a coisa é diferente: se as fêmeas escolhem com quem vão se deitar, os machos escolhem com quem vão se casar. A pavoa não precisa de ajuda para criar os filhos, enquanto nossa espécie é a que tem filhos mais dependentes entre todas do planeta. Não há outro mamífero com tanto investimento do pai. Ou seja, o casamento – a ajuda – é essencial, e isso põe a mulher na posição de ter que fazer marketing de si mesmo como esposa desejável.

São estratégias diferentes, o homem se vendendo como fonte de boa ajuda e de bons genes; a mulher como confiável (não fará o homem cuidar do filho dos outros), saudável e boa parideira (que os homens chamam de “gostosa”).

De qualquer jeito serão componentes exibicionistas do desejo: penas de pavão.


O Eu e o Acima-de-mim


O marquês de Sade se masturbava em seu quarto, olhos postos no crucifixo acima dele, na parede, a dizer-lhe desafiadoramente: “Me mata, me mata agora, se você existe!” Chegado o orgasmo, gritava em meio a gargalhadas: “Aha! Você não existe!”

Essa cena poderia ser uma síntese de sua produção literária, talvez de sua vida: ele sempre foi um inimigo fiel e devoto do seu Acima-de-mim. Eternamente dedicado a renegá-lo, a imaginar que insulto poderia ser pior para escarnecê-lo, que ultraje conseguiria seduzir mais seus leitores para o culto de amor e ódio a essa Nêmesis que consumiu sua existência.

O Acima-de-mim é uma tradução possível para o alemão “das Über-ich”, termo alemão criado por Freud para uma das três instâncias da mente, que conhecemos como Superego (as outras são “das Ich” e “das Es” – o Eu e o Algo-em-mim, conhecidas como o Ego e o Id).

Volto a tratar do assunto porque sua presença em nossas vidas é muito mais poderosa – e subestimada – do que se percebe, mesmo porque ele, o Acima-de-mim, é em parte insconsciente.

A parte notada nós a conhecemos desde a infância, quando nossos pais diziam: “Meu filho, ouça a voz da consciência”. De fato, lá estava ela a nos dizer o que era certo, e como nós andávamos errados. Ela funciona como uma constituição e um tribunal portáteis, paradigma da perfeição a nos criticar e a nos exigir a que sigamos seu exemplo, que nos comportemos como se fossemos ela. E volta e meia nós fazemos isso, ficamos acima-dos-outros, basta ver a atividade mais comum no facebook, o puxão de orelha – para dizer o mínimo – público, com os consequentes rancores e retaliações que essas espinafrações causam.

Vivemos um momento histórico em que há uma competição acirrada – o tal “nós contra eles” – para ver quem é o mais crítico, mais dono da verdade, mais perfeito e mais acima-dos-outros. Estamos constantemente  afiando nosso juiz interno, emitindo sentenças de morte contra nossos inimigos, acirrando nossos ódios. Tal é o legado do populismo, de dividir o país para conquistar o poder em nome de bons propósitos, que se tornam desmascarados ao mostrar sua face gananciosa.

Mas o discurso populista o é porque atinge o povo com simplorismo, e essa perda de complexidade mora dentro de nós: ela é a fala habitual do Superego. De sua posição Acima-de-mim, ele pode me ser útil, mas também pode ter se tornado um julgador cruel, um sucessor de quem me criou mal, um déspota tão odiento quanto o era para o marquês de Sade, dizendo que só há branco e preto, que se eu não sou imaculado, então eu não presto. Ou seja, um magistrado idiota a quem só me resta odiar/temer/reverenciar, tudo isso junto, numa confusão dos diabos que me emburrece pelo tumulto mental que causa. Como é mais fácil odiar do lado de fora, não há populismo sem inimigo público. Esse é seu truque mais comum. Esse é o estado a que chegamos.

Mas por que eu estou falando de política, se quero ser conceitual? Porque é de política que se trata: da política que se passa dentro de nossas cabeças. A briga principal é entre o Eu e o Acima-de-mim.


Infantil


“Alô, aqui fala Sinfrônio Epaminondas, acabei de ler seu artigo sobre alcoolismo, é muito bom! Você sabe quem sou eu?”

“Bem, eu conheço a fama de um cirurgião infantil com esse nome”.

Depois de um breve silêncio, ele me corrigiu: “Pediátrico”.

Tive que segurar um ataque de riso ao imaginar um cirurgião tendo um faniquito no centro cirúrgico porque a enfermeira lhe dera um instrumento errado: era o cirurgião “infantil”…

Mais tarde me dei conta de que “infantil” tem mesmo um duplo sentido, e que, se é muito desejável a preservação da criança que existe dentro de nós – afinal, a neotenia (apego à forma infantil de uma espécie) e sua consequente capacidade de invenção, criatividade e brincadeira, é das características mais preciosas do sapiens –, a infantilidade é outra coisa… e atrapalha.

Ela é um resultado pouco conhecido das doenças psíquicas, vale dizer, do complexo de Édipo. Este é o nome que Freud deu ao legado triste de nossa infância, um assunto complicado de quem nos criou em que ficamos enredados sem querer, e que arrastamos como um peso morto pela vida afora. As doenças psíquicas nos aprisionam à infantilidade, especialmente no gerenciamento de dois temas cruciais para lidar com o mundo: a raiva e o amor.

O pequeno troglodita que somos quando pequenos reage à raiva com o tacape, mas logo vem a civilização lhe ensinar que “isso é feio, não pode”. Certo, mas… o que pode, então? Não ter raiva é impossível, precisaríamos de canais competentes para que ela corrigisse as injustiças que a causaram. É muito raro que isso seja ensinado, só nos ensinam a reprimi-la. Como resultado mais comum surge a criança boazinha: uma pobre coitada que mendiga amor suprimindo a raiva, e com isso sofrerá toda a sorte de abusos durante sua vida, começando com o bullying na escola. A “bondade masoquista” é, portanto, uma infantilidade.

Mas seu oposto também o é. A criança rebelde, explosiva e violenta, prisioneira da vingança reativa, é tão infantil e despreparada para a vida de gente grande quanto a primeira.

E há o despreparo para o gerenciamento do amor – sim, completamente ligado ao primeiro, para saber amar é preciso saber gerenciar a raiva (ou alguém acha que não vai sentir raiva do ser amado?). Imagine aquele bonzinho amando! Vai se ferrar… Imagine o explosivo, então!

Quando o item “sexo” se apresenta, mais infantilidades aparecem: ter vergonha do próprio desejo leva a negá-lo, a acusar o outro de sem-vergonhice. A necessidade de afirmar o próprio desejo – ou de combater suas inseguranças – leva ao don-juanismo, à conquista compulsiva que se satisfaz em si, às perversões (quando se é prisioneiro da transgressão, do desafio às leis da cultura).

Essa face infantil das doenças neuróticas e perversas me fez ver a necessidade de o psicanalista agir numa direção insuspeitada: ele precisa exercer uma função de pai tardia para seus clientes, apresentar-lhes ferramentas úteis para o gerenciamento da raiva e do amor.

Não basta deslindar o Édipo, entender o que nos prende à infância, é também preciso deixar a infantilidade para trás.


Afeto e contabilidade


Dentro de nossas cabeças mora um contador. Um não, vários. Todos eles zelam pela troca que achamos justa, e troca justa é um dos assuntos mais importantes da nossa vida, qualquer coisa fora dela nos causa raiva: toda raiva provém do sentimento de injustiça, e é a raiva o motor que será usado para buscar corrigi-la. A raiva é, pois, mãe da justiça.

Quanto aos contadores: os há cruéis e explícitos, que vigiam se o preço cobrado está extorsivo ou não; há os politizados, que querem derrubar autoridades que não foram fiéis aos nossos votos…

E há os gentis. Esses lidam com a contabilidade mais delicada de nossas vidas: a que envolve afeto. Quando os bons sentimentos entram em pauta, a espécie humana é capaz de mostrar sua face mais bela: a altruísta. Queremos o bem de quem amamos. Essa gente nos desperta uma generosidade insuspeitada, uma vontade de agradar, de presentear, de fazer sorrir, que a nada se compara. Damos-lhe prazer e atenção; queremos saber de suas histórias e de suas dores; ficamos até felizes com sua felicidade (habitualmente a felicidade alheia nos causa inveja, que é fruto de um sentimento de injustiça distorcido: “Por que eles, e não eu?”).

Mas não se iluda: o contador está alerta. Quietinho, disfarçado, gentil… mas alerta. Não existe em nossa espécie altruísmo que não espere nada em troca. Até mesmo São Francisco de Assis, o ícone da generosidade, dizia que “é dando que se recebe; é perdoando que se é perdoado”. Ou seja, o santo esperava troco! Aquela pessoa mais amada, que no entanto só olha para o próprio umbigo, só quer ser ouvida e nunca ouve, só fala de si mesma até se (e nos) cansar, que não se engane: sua batata está assando. Em fogo brando, mas está.

É que no caso das relações afetivas a linha de crédito é mais elástica: nossa capacidade de tolerância é muito grande. Só existe um caso que se aproxima do amor incondicional, o que temos pelos filhos. Tirando esse – que vai ficando parecido com o amor pelos amigos à medida que eles crescem –, o dia do acento de contas chega, e ele dificilmente será bem sucedido.

Por causa do problema da cobrança: quem cobra sexo, quem cobra amor, recebe no máximo favor, e esta não é a moeda de troca que queremos.

Resulta que muitos relacionamentos adoecem por encrencas contábeis: não havendo troca justa, e não se podendo acertar as contas (muitas vezes é por falta de capacidade do outro: como esperar amor e atenção da parte de um narcisista, ou como provar seu amor a um ciumento paranoico?), a melhor opção seria o afastamento. Mas pode ser tarde demais, se a amargura da injustiça das trocas já se transformou em sadomasoquismo, mesmo que sutil, o amor vira vício: um se assumindo vítima do outro (é a parte masoquista), enquanto deixa claro aos demais o monstro que o parceiro é (a parte sádica).

Portanto é melhor ter em mente como funcionamos: esse negócio de dar e não esperar nada em troca é puro autoengano. Mesmo as pessoas de baixa autoestima devotas a quem amam se ressentem do menosprezo que recebem.

Cajueiro não dá banana: é melhor avaliar bem antes de investir muito.


Identidade masculina


“A liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam”, disse Espinoza, e não há cordel mais poderoso que o da natureza humana. Seria cômico se não fosse trágico que a própria natureza humana nos iluda para menosprezá-la: nós acreditamos que ela não nos afeta, que somos apenas frutos da cultura.

A questão é que nossa identidade masculina deriva do instinto de preservação da espécie, da mesma maneira que as plumas do pavão servem ao dele: um chamariz para fazer sexo, uma propaganda de quão bom fornecedor de genes reprodutivos nós somos. Ela anuncia qualidades atraentes ao sexo oposto: “sou forte, poderoso, destemido, ativo, protetor, pegador, meio cafajeste, você estará segura a meu lado, será invejada e terá muitos filhos com os meus genes, o que significa que nossa prole gerará mais e mais descendentes”.

Exatamente a propaganda animalesca que as belas penas do pavão anunciam, e que falam diretamente ao inconsciente das fêmeas (apenas o consciente pode ser feminista), mexendo com elas, que costumam também ignorar os cordéis que as manipulam.

Fascinante é acompanhar a interação natureza/cultura que forja a identidade masculina. É claro que começa em casa, mas a família ainda é muito civilizada quando comparada com os pequenos trogloditas, os coleguinhas que encontraremos na escolaridade. É lá que a patrulha começa: o menino é apresentado ao antimodelo da “mulherzinha”. Ele aprende que ser macho é ser foda (brigão, bully, esportivo, bruto, atlético, de poucas palavras e muitos palavrões, malandro, hiperativo etc.), e que ser “mulherzinha” é ser merda (passivo, pacífico, estudioso, introspectivo, conversador, sensível, bullyed etc.).

Pois é: o primeiro movimento da identidade masculina é misógino – não é homofóbico –, é um movimento de desprezo pelas meninas que tem muita chance de durar a vida inteira. E infelizmente, o primeiro jogo fodão-merda (F/M. Em inglês, “winner-loser”, sendo “loser” o pior palavrão da língua) em que um menino se envolve é justamente o da identidade masculina (os outros serão sucessores deste).

Daí em diante o menino será frequentemente provocado a provar sua macheza. O “chiken-chiken” americano (“prove que você tem coragem”) sempre conseguia manipular o Marty McFly, em “De volta ao futuro”.

É a partir desse quadro que o medo de ser mulherzinha (do qual o medo de parecer veado é sucessor) equivalerá à castração freudiana: a perda das penas do pavão, do cacife para conquistar fêmeas.

Não é à toa que o jogo F/M se torna uma praga tão comum em todos os ambientes: o homem tem suas inseguranças, ele sabe que não é tão F quanto parece, e em seu pensamento imbecil binário (o tipo de pensamento mais comum da espécie), se ele não é F, então é M, e tem que esconder isso ao máximo. Um dos jeitos é ser bully e fazer outro se sentir M, ou veado, ou loser, ou inferior: isso dá um momento de alívio em que ele se sente F.

A alternativa a essa praga é se sentir seguro de si, “na sua”, coisa difícil de construir. Mas é a mais bem sucedida das penas de pavão: não há nada tão atraente quanto uma autoestima elevada.


Claro e obscuro

“Afinal, o que você quer com seus artigos?” A resposta mais de raiz que posso dar é que quero sobreviver e ser amado. Mas essa é uma razão genérica para qualquer coisa que fizermos, já que os instintos de sobrevivência pessoal e da espécie são os dois motores de nossos atos.

Até que eles se manifestem na linguagem, um longo caminho é percorrido. Os instintos, em nossa espécie, foram chamados por Freud de “impulsos” (“trieb”, em alemão; “drive”, em inglês) por serem moldáveis pela cultura: todas as suas experiências de satisfação marcam nossa memória, e vão construindo um sucessor supercomplexo chamado “desejo inconsciente”. Este se expressa em nossas ações conscientes: vontades; repulsas; tesões; gostos e desgostos; silêncio intencional; palavra falada e escrita.

Essas duas últimas são como nós traduzimos o “mentalês”, o nome que Steven Pinker deu para a linguagem da mente. Ele não é fácil de traduzir, você certamente já ouviu alguém dizer “não tenho palavras para explicar o que sinto”.

E pensar que tudo começou com o prazer que sentíamos na boca, quando bebês… Ligado, claro, ao impulso sexual (ele segue a trilha do prazer, e não a vontade de perpetuar a espécie: se a espécie dependesse da vontade de ter filhos, já estaria extinta há muito tempo). De prazer em prazer, a oralidade vai se distanciando do sexo em si, mas não do prazer: uma das experiências prazerosas que construíram a minha escrita é ter lido na infância um anúncio de rua que dizia: “Quem não lê, mal fala, mal ouve, mal vê”. O leitor voraz aqui adorou, pois queria bem falar, bem ouvir, bem ver… e bem escrever, como consequência.

Foi a linguagem médica que despertou em mim a obsessão por clareza: quando descobri que tínhamos três palavras para esconder nossa ignorância (doença idiopática, essencial ou criptogenética, significa uma coisa só: de causa desconhecida), achei desonesto com os pacientes. Entendi que o jargão pode ser útil para comunicação entre profissionais, mas é abusivo se usado fora da tribo.

Aí veio a psicanálise, e a coisa piorou. Mas eu já estava vacinado: entrei nela sendo médico clínico, e você não imagina o quanto um médico clínico “se acha”. De modo que tive um prazer especial de dizer a meus professores, quando vinham com “Ah, porque o obsessivo quer o falo, enquanto o histérico é o falo”, que não tinha entendido, se eles poderiam se explicar em língua de gente. Quando não conseguiam, sugeriam que o burro era eu (não com essa clareza, óbvio).

McLuhan disse que o meio é a mensagem, então presto a atenção em como uma pessoa fala: se é obscura, provavelmente está querendo me enrolar. Se é lógica e transparente, a pessoa me respeita. Em ambos os casos, a mensagem é expressão de seus desejos: predador ou cooperativo.

A linguagem clara é fundamental para nossa saúde mental: pense no alívio que é a novidade de ver criminosos, por mais poderosos que sejam, indo para a cadeia em consequência de seus atos, pois esses foram postos às claras. Pense em como vimos sendo enrolados por suas “narrativas” falaciosas, e em como isso nos deixa doentes de raiva impotente.

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