Assunto: virtude


Natureza Humana: Vício e virtude


Corrupção não é apenas roubo, suborno, propina, trapaça, compra e venda de autoridades, enfim, todo esse desfile de horrores a que temos assistido ultimamente. Corrupção também significa apodrecimento, deterioração, decadência, desagregação, aquilo que acontece com os cadáveres e com as casas que não recebem manutenção. Há um interessante documentário, “O mundo sem ninguém” (Life after people), que mostra o que aconteceria ao planeta se os humanos desaparecessem de uma hora para outra: em poucas décadas as construções e outros vestígios de nossa passagem estariam corrompidos pela água e pelas plantas, seguindo a lei física da entropia que tudo conduz à geleia geral.

Da mesma maneira que acontece com a corrupção, o principal significado de vício não é a adição a substâncias psicoativas, mas sim a tendência a praticar atos nocivos ou indecorosos. A tendência a corromper, a danificar, a destruir. A tendência ao mal. Em termos estéticos, o ato vicioso é deforme, decadente, feio, repugnante.

Por contraposição, a virtude é a conformidade com o bem, com a excelência moral ou de conduta, é dignidade, é construção, pois o ato virtuoso é edificante, estruturante. Em termos estéticos, o ato virtuoso é belo, admirável, inspirador.

Agora vem a pior parte: o vício é fácil e a virtude é difícil. A inércia é viciosa; a virtude é trabalhosa. Largados, enfeiamos, engordamos, amolecemos, deterioramos. E todos sabemos o investimento que significa estar em forma, cuidar-se. Destruir é infinitamente mais fácil que construir. Qualquer idiota quebra os vitrais de uma catedral e a deixa emporcalhada com pichações em dois minutos, enquanto ela levou séculos de trabalho árduo, de inteligência e de arte aplicadas para ser erguida.

Não há dor maior do que a perda de um filho jovem por acidente ou crime: em um segundo esvanecem-se anos de dedicação, noites insones, amor, zelo, carinho, milhares de pequenos atos virtuosos que investimos naquele ser.

Ou seja, o vício sempre sai em vantagem sobre a virtude, pois ele conta com a tendência natural ao menor esforço, ao enriquecimento rápido, à euforia instantânea, ao imediatismo, ao princípio do prazer barato e raso.

É como se a virtude fosse sempre resultado de uma decisão consciente e de um empenho esforçado, enquanto o vício precisa de muito pouco para prosperar. Ele é como a gravidade no castigo de Sísifo: está sempre à espreita, esperando o momento em que paramos de empurrar a pedra ladeira acima para entrar em ação.

E a virtude? Conta-se que um frade perguntou o que faziam a dois pedreiros durante a construção da Notre Dame de Paris. O primeiro disse que assentava uma fileira de tijolos. O segundo olhou em êxtase para o céu e respondeu: “Construo uma catedral!”

Para que a virtude prospere precisamos ser os dois pedreiros ao mesmo tempo: persistentes em nossos pequenos atos virtuosos de cada dia, assentando tijolo por tijolo, dente escovado e banho tomado, sabendo que amanhã tudo recomeça. E precisamos ter em mente a beleza de nossa catedral, a felicidade de nossos filhos, a integridade de nosso país.

 


Natureza Humana: Virtude premiada

Minha frase predileta de Freud é: “Enquanto a virtude não for recompensada aqui na Terra, a ética pregará em vão” (“O mal-estar na cultura”). Isso mostra o conhecimento profundo que ele tinha da natureza humana, e de sua característica mais preciosa: o altruísmo recíproco. Sei bem que fomos ensinados que “o bom comportamento se paga em si”, que o altruísta verdadeiro nada deve esperar senão o sentimento do dever cumprido. Várias modalidades de ética pregam esse ideal sublime e desinteressado, começando pela cristã e passando pelo imperativo categórico de Kant. Mas, ainda assim, se examinarmos o “ama o próximo como a ti mesmo”, já entendemos que esse altruísmo tem como base o interesse que temos por nós mesmos. Se tomarmos a oração de São Francisco de Assis, o ícone máximo do altruísmo cristão, veremos que ele nos diz que “é dando que se recebe”, “é perdoando que se é perdoado”. Ou seja, faz o bem esperando retorno, reciprocidade. Significa que o santo também intuía como a natureza humana funciona: existe em nossas mentes um contador, que, se vê falta constante de retorno, manda sinais de ressentimento.

Portanto defendo que haja lucro na prática das virtudes. Não temos a cultura da doação benemerente,  como existe nos Estados Unidos, mas sempre achei justíssimo que o milionário doador de um pavilhão de hospital, de um prédio de Universidade, de uma galeria de museu, tivesse seu nome ali registrado: por bom exemplo, sem dúvida, mas também por boa fama e prestígio, que são e devem ser a primeira paga da prática do bem.

Sim, mas isso é a ética estimulando a virtude. Sua outra face é prevenindo o crime e o vício. Claro, se a virtude se mostra recompensadora ela compete com o vício e o previne. A tradução mais divertida disso é a frase de Jorge Benjor: “se malandro soubesse como é bom ser honesto, seria honesto só por malandragem”. Mas para funcionar, a ética precisa de que nossos atos tenham conseqüências, e que nossos delitos tenham punição: a impunidade corrói a ética.

Por fim, penso em como ser ético depois do delito cometido. E sou remetido à lógica do perdão dos pecados, aprendida no Santo Inácio com os jesuítas: era preciso arrepender-se e penitenciar-se no confessionário. É certo que o arrependimento não nos livrava apenas da culpa, mas também, ou principalmente, do medo do inferno. Era, portanto, um arrependimento interessado, com retorno, como o altruísmo recíproco.

Partilho aqui as reflexões que me foram despertadas pela questão da ética das delações premiadas: elas seguem a lógica do arrependimento. A pessoa está diante do dilema: seu crime não é solitário; para que seja reparado, ela precisa deixar de ser cúmplice; ou torna-se fiel à sociedade, ou segue fiel aos outros criminosos, não há terceira hipótese. Madame disse que não respeita delatores, mas então quem ela respeitaria? Os mafiosos que se mantivessem fiéis à omertà (código de honra da Máfia)?

Se o criminoso resolve ser fiel à sociedade, ainda que seja por medo, essa sua tardia adesão à ética precisa se tornar um caso de virtude premiada.


Daudt no Facebook: Área de competência

Não gosto de comunistas em geral, e do Che Guevara em particular, mas ele disse algo uma vez com que concordo: “Si quieres peras, planta perales! No las pida al olmo!” (Algo como, “se você quer pêras, ora, trate de plantar pereiras, não as procure nas mangueiras”).

Se me convidarem para conversar sobre futebol, agradeço, mas não aceito: está fora da minha área de competência. Assim como a área de competência da pereira é dar peras.

Grande parte do que tenho feito para viver melhor – e ajudar os clientes a isso – tem sido aprender a detectar minha própria área de competência, e a dos outros. Isso ajuda e muito a zelar por minha zona de conforto, que, conforme esclareci anteriormente, prezo imensamente.

Olha quanto aborrecimento isso poupa: de discutir com quem não preza a razão e só quer ganhar a discussão, custe o que custar; de comer a comida feita por quem não sabe cozinhar; de ouvir música feita por quem não sabe tocar; de ir a festas sóbrio e achar que vai se divertir; de achar que vai mudar o/a namorado/a depois que se casar com ele/a…

Mas isso também serve para o seu lado do balcão: “Não queira ir o sapateiro além das sandálias”, diz o ditado romano. Ter noção de sua área de competência e se manter dentro dela é cultivar a virtude da humildade. Não a da falsa modéstia, mas a da rara prática de reconhecer seus erros e seus limites. Sabe aquela que a Dilma não tem nem terá?

Aliás, falando em alguém fora de sua área de competência…


Natureza Humana: Vigiar e Punir

Não é sobre Foucault, mas sobre um fato simples de nossa economia psíquica: nós nos comportamos bem em parte por convicção, e em parte pelos possíveis custos de nossos “malfeitos”.

Primeiro, um esclarecimento sobre economia psíquica. Tem me surpreendido que pessoas muito entendidas em finanças, economistas mesmo, chegam a mim desconhecendo que há uma economia própria de nossas mentes. São capazes de enormes ganhos pecuniários impondo-se enormes custos psíquicos. Vivem uma vida deplorável a despeito dos milhões que fazem. Investiram suas inteligências num jogo vicioso de ganância, pois não puderam (ou não souberam) investi-las na busca de uma vida bela (significa virtuosa, pois ética e estética fazem conjunto). Leia Mais