Assunto: sociedade


Diversos: Resumo do livro “Sapiens – Uma Breve História da Humanidade’, de Yuval Harari, por Francisco Daudt


Resumo do livro nesse link —>  https://bit.ly/2IJ8ZRs

“Sapiens – Uma Breve História da Humanidade, Yuval Harari. Esse é o livro mais interessante que eu já li nos últimos tempos. Agora.. ele tem 470 páginas. Então eu vi muita mãe e muito pai dizendo ‘ah, meu filho não encara um livro desse tamanho’. É por causa disso que eu fiz o resumo de 20 páginas que você está recebendo agora (visualizar no link acima). Ele vai ler o resumo e vai dizer ‘poxa, ele é tão interessante que é capaz do livro ser mais’, e eu vou dizer, o livro é mais interessante!”

Entrevistas: Entrevista de Francisco Daudt para a Revista E / Sesc São Paulo


Francisco Daudt

“Meu objeto de estudo e de interesse são as pessoas.” É o que relata o psicanalista Francisco Daudt, autor de A Criação Original – A Teoria da Mente Segundo Freud (7Letras), lançado em 2017, além de A Natureza Humana Existe – E Como Manda na Gente (Casa da Palavra, 2013), entre outros livros. Foi por causa desse interesse e curiosidade que, mesmo formado pela Faculdade de Medicina da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), em 1971, e após ter exercido clínica gastrenterológica durante cinco anos, Daudt migrou para a psicanálise. E lá se vão quatro décadas dedicadas à investigação do que move e intriga o ser humano. Para falar sobre esse assunto, o psicanalista, que assinou uma coluna no caderno Cotidiano do jornal Folha de S.Paulo até dezembro passado, não se prende a jargões. De maneira simples e informal, ele expõe, nesta entrevista, reflexões acerca de relacionamentos versus tecnologia, amor romântico, intolerância e outros temas.

 

Foto: Leila Fugii

 Há certo mal-estar nesta civilização tecnológica sobre o foco dos relacionamentos?

Tenho observado bem-estar e mal-estar porque a tecnologia é mais ou menos como a faca – a faca é uma tecnologia, é low tech, mas é tecnologia. E a faca tem usos bons e maus. Ela pode salvar vidas – nas mãos de um cirurgião – ou tirá-las – nas mãos de um assassino. Com a tecnologia acontece o mesmo: vai depender de quem usá-la. Vejo pessoas que usam o WhatsApp, por exemplo, como eu uso: a meu serviço. De vez em quando – o smartphone fica na minha mesa de cabeceira – eu vou lá checar. Uso o WhatsApp da mesma forma como usava o e-mail, mas vejo gente escravizada pelo aplicativo, gente a serviço dele. Fiquei sabendo, por um cliente meu, quando eu não tinha smartphone (o primeiro que comprei foi em maio de 2017), que ele teve de pedir mil desculpas à namorada porque levou cinco minutos para responder a uma mensagem dela. Ele estava no banheiro. Eu fiquei apavorado com isso. Que escravidão é essa? Nesse caso, é um tremendo mal-estar. Mas não foi a tecnologia que o trouxe, e sim o uso triste que a pessoa faz dela. A tecnologia é uma bênção e estamos envoltos nela. Tenho uma filha que morava em Cingapura, são 24 horas de viagem para chegar lá. E falava com ela todos os dias pelo Skype. Enquanto em 1982, tinha um amigo que morava em Paris e um dia cometi a atrocidade de bater papo com ele por telefone – 14 minutos de ligação que me custaram uma fortuna na época.

 A presença forte da tecnologia tem feito com que a vida se transforme em contagem de minutos. Será que essa ansiedade que é gerada preenche nosso tempo com obrigações?

Meu objeto de estudo e de interesse são as pessoas. E tenho um desejo para mim e para meus clientes: as pessoas se sentirão mais felizes com independência e autonomia. E autonomia significa poder fazer suas próprias regras. Então, autonomia para mim é poder olhar o WhatsApp três ou quatro vezes por dia e só. Colocar a tecnologia a meu serviço. Agora, você acha que uma pessoa que se deixa escravizar pelo WhatsApp só se deixa escravizar por ele? Nada. Ela está escravizada em várias outras frentes. Não é nem aquela história bonita de [Étienne de] La Boétie em Discurso da Servidão Voluntária [obra do filósofo francês que viveu no século 16 em que afirma ser possível resistir à opressão sem recorrer à violência] em que a decisão foi da pessoa. Se ela quisesse ser escrava porque pensou bem na vida e decidiu: tenho vocação para submisso, ok. Não tenho nada a ver com isso. Agora a pessoa ser absorvida sem saber por que entrou naquele mundo e de repente se ver como escrava? Quero ajudar essa pessoa. Você que está aí do outro lado, se você se sentir escravo, você tem um problema na vida. Esse tipo de submissão provoca essa infelicidade digital, esse incômodo: a pessoa está ligada na tecnologia e não nas pessoas a sua volta.

 Nesse caso, as pessoas estão se engajando nas redes para marcar uma opinião própria ou apenas buscam reconhecimento do outro?

Foi cantada essa pedra pelo Nelson Rodrigues: o mal da atualidade é que “os idiotas perderam a modéstia”. Para qualquer coisa que a gente faça, é preciso reunir três condições básicas: motivação, meios e oportunidades. Então, essa motivação de se mostrar com pena de pavão, como alguém importante, essa motivação exibicionista, ela existe em todos nós. Por que as penas de pavão são importantes? Porque são atrativos sexuais – você está se exibindo e tornando-se mais desejável. Ok, a motivação está aí. E o que a tecnologia veio trazer? Meios e oportunidades de se exibir. As redes sociais são o local perfeito para exibir sua opinião. Daí, você vai opinar para mostrar algo para alguém. Isso serve ao vício da afirmação. Isso é compulsivo. Quem são os haters? São aqueles caras que se afirmam como superiores.

 Por que há uma intolerância, um incômodo, com aqueles que são diferentes?

Nós contra eles. O que acontece é aquilo que a gente chama de Lei de Pedro Aleixo [um civil escolhido pelos militares, para mostrar que estes ainda prezavam pela democracia e que era esse o propósito do movimento de 1964, como vice-presidente do general Costa e Silva]. Até que Costa e Silva resolveu baixar o AI-5, a assinatura de “nós agora somos uma ditadura”. O que era antes uma ditadura “envergonhada” a partir do AI-5 virou uma ditadura escancarada. Quando Costa e Silva promulgou esse ato institucional, ele rodou pela mesa dos ministros e do vice-presidente para que endossassem e assinassem embaixo do AI-5. Quando chegou a vez do Pedro Aleixo, ele disse: “Não assino”. Aí alguém perguntou: “Mas, seu vice-presidente, você acha que o presidente vai fazer mau uso deste instrumento?”. E ele disse: “Não é o presidente que eu temo, mas, quando o arbítrio e o autoritarismo se instalam no topo da cadeia, eles descem em cascata até o guarda da esquina, e a esse eu temo. Então, não assino”. Por isso, a Lei de Pedro Aleixo é quando você tem alguém no topo da cadeia capaz de contaminar os outros, foi isso o que aconteceu. Pense em dois tempos separados, sem fazer nenhuma defesa necessária: viemos de uma inflação que já foi de 80% ao mês, depois veio o Plano Real, a inflação despencou e começou um círculo virtuoso no país. As pessoas já sabem o valor das coisas, há um tipo de contaminação que desce em cascata, que respeita valores democráticos – uma espécie de orgulho de cidadania. A tecnologia entra aí como meio e oportunidade, mas a motivação principal não é a tecnologia.

Natureza e biologia são
as nossas principais influências.
Tecnologia vem lá em quinto lugar

 Essa indisposição contamina? Você observa isso dentro e fora do seu consultório?

Essas disputas sobre as quais falei ficaram mais exacerbadas. Houve uma espécie de fanatização que serve a esse processo de raiva ao qual se refere. Aquela história islâmica: morte ao cão infiel, morte a quem não acredita. Isso é o topo da raiva – matar quem não é igual a gente. Isso é da condição humana: temos horror do diferente. O ser humano tem horror de quem não é da sua família, de quem não é da sua tribo, que é uma espécie de extensão da família. Somos programados pela genética ancestral a ter 200 pessoas como tribo, caçadores-coletores. Esse negócio de andar pela rua passando por gente que você não conhece, isso é uma coisa artificiosa da grande cidade. Uma grande tolerância nossa que tem de ser garantida pelo Estado, que deve e precisa ter o monopólio da segurança. Como vemos agora o Rio de Janeiro, abandonado neste setor, espalha-se o medo. Porque a condição de barbárie de origem, de cada um por si, de mata-mata, começa a se espalhar. Vivemos nesse acordo social em que, se existe um governo em que você confia, tolera-se conviver com o diferente. Caso contrário, a gente começa a odiar.

 

Foto: Leila Fugii

 Essa nova opinião pública que se manifesta prontamente pelas redes, o que há de positivo?

O positivo, curiosamente, é uma extensão de um mal falado instituto dos relacionamentos humanos: a fofoca. A fofoca nada mais é que uma troca de informação interna: “Sabe aquele laboratório, ele faz isso e aquilo, não compre dele”. Esse ciclo de informação pode ser precioso. Mas a rede social pode funcionar para o bem e para o mal. Por isso, usar as redes para manifestar opinião pública, coisas que não vão sair no jornal, mas vão sair na rede. Isso é positivo.

Para qualquer coisa que a gente faça,
é preciso reunir três condições básicas:
motivação, meios e oportunidades

 Há uma reação conservadora às novidades trazidas pela modernidade?

Os conservadores têm reação a pessoas que se valem de uma suposta superioridade por algo que é de modismo. Então, tem alguém ali dizendo que é formidável porque é politicamente correto, formidável porque apontou o racismo no outro. Isso vai deixando, de uma maneira geral, uma raiva e quando há a oportunidade deságuam essa raiva votando em conservadores como Donald Trump, que é a coisa mais assombrosa que os Estados Unidos produziram. Computo isso como uma reação a essa onda de ofendidos politicamente corretos. O fato de as pessoas não poderem fazer nada, pois o outro se ofende com qualquer coisa, levou a uma pausa na defesa dos direitos democráticos para haver a defesa dos sentimentos. Todo mundo tem sentimentos muito suscetíveis. E aí começou uma irritação com esses ofendidos – e o resultado é o Trump. Por isso que pai careta tem filho hippie, e pai hippie tem filho careta, porque eles reagem em cadeia.

 Hoje se discute muito o novo papel do homem na sociedade e nas relações. Qual sua observação acerca desse cenário?

Mas que homem? Existe basicamente essa coisa: a negação da natureza. As mulheres continuam engravidando e os homens não. Esse é o traço biológico mais marcante. Você não disse que a tecnologia molda o homem? A biologia molda o ser humano de uma maneira mais marcante ainda. O fato de uma mulher engravidar e um homem não faz com que o comportamento sexual dos dois seja muito diferente. O homem poder engravidar e sair correndo, e a mulher engravidar e ficar prisioneira daquele ato durante anos. Isso faz toda a diferença do mundo. Sabe que nossa espécie tem uma coisa que é rara entre os mamíferos, acho que somos únicos: o investimento do macho na cria.

 O que seria esse investimento do macho na cria?

Uma mulher tem um filho, o homem não vai embora, ele ajuda, põe dinheiro em casa, põe alimento, cuida daquela criança, divide com a mulher o cuidado com aquela criança, ampara os dois, defende os dois, alimenta os dois. Isso é investimento do macho em sua cria. Isso é raro na natureza. Na nossa espécie, o bebê é completamente incapaz durante anos. Agora, você pega um cavalo: quando ele nasce, não leva nem duas horas e está de pé e mamando. Então, é essa condição biológica que novamente vai moldar vários dos nossos comportamentos sociais e sexuais. A mulher vai funcionar de um jeito e o homem de outro. O homem precisa ser convencido a investir naquele filho. De que maneira? Pelo amor que o filho desperta nele. O amor, nesse caso, serve como instrumento de sobrevivência. Dentro da nossa espécie, o sentimento de ligação amorosa serve de instrumento de sobrevivência dos filhos.

Então, autonomia para mim é poder olhar
o WhatsApp três ou quatro vezes por dia e só.
Colocar a tecnologia a meu serviço

 No seu consultório ainda existe a expectativa do príncipe encantado? Do amor romântico?

Claro. Isso faz parte da nossa espécie. Tanto que estou dizendo que é o amor romântico que compromete o homem a ajudar a cria. Isso é seleção natural. O amor romântico não desaparece. Esse encantamento, essa coisa, a paixão não desaparece. É curioso se você for ver em termos de seleção natural que a paixão tem um prazo de duração de três, quatro anos. Que tempo é esse? O tempo para a cria poder se virar sozinha minimamente. Então, historicamente, a ajuda do homem se deu justamente durante o período crucial que a cria era extraordinariamente dependente e a ajuda de que a mulher precisava era imensa. Então, nossa programação foi moldada para uma ligação com uma mulher e sua cria que dura três, quatro anos. Depois disso, a criança está em pé e já pode seguir o grupo nômade e o homem já pode diminuir sua participação no negócio.

 Essa quantidade de pessoas ao redor dos 40 e 50 que moram sozinhas ou procuram morar sozinhas mesmo que estejam se relacionando: o que pensar sobre esse fenômeno?

Isso é uma coisa que a sociedade abriu como possibilidade. Mas também é algo cíclico. Na Inglaterra, o solteirão é uma instituição. Agora, o cara que se separou e agora mora sozinho, ele geralmente é uma pessoa que descobriu que morar junto é um inferno mesmo. Uma coisa é você namorar, outra coisa é morar junto. Aí a pessoa mora sozinha e toma gosto. O que vai fazer: “Cada um em sua casa”, diz para a namorada. Porque sabe que isso de morar junto não é fácil. Então, há pessoas usufruindo de uma categoria social que lhes é favorável e que é a possibilidade de morar sozinho sem ninguém torcer o nariz. Isso serve para homem e para mulher. Antes, falava-se de uma mulher morando sozinha: “Aí tem”. Olha que beleza, olha que conquista maravilhosa.

Esse tipo de submissão provoca
essa infelicidade digital, esse incômodo:
a pessoa está ligada na tecnologia e não nas pessoas a sua volta

 Você vê isso como um ganho na sociedade, não como uma disfunção?

Acredito que isso seja um ganho, mas o que estou dizendo não exclui a existência disso [da solidão]. Não é por causa da impossibilidade de relacionamento que as pessoas estão sozinhas. Há muitas categorias sociais que são bem acolhidas e aceitas, como o cara que é sozinho, mora com outro cara, ou a mulher que mora com outra mulher numa república. Graças a Deus isso existe, ainda bem, é ótimo.

 Sobre a família estendida de hoje: vários casamentos, dois pais, quatro avós… Isso é um ganho?

Por certo. Disso não temos dúvida alguma. Essa é uma reinvenção da nossa ancestralidade. Havia fazendas em que moravam cinco, seis famílias numa mesma casa. Nela, um filho se identificava muito mais com uma tia, que logo escolhia um determinado sobrinho como filho. Havia várias possibilidades de adultos como referências. Isso não é desvantajoso, nem é novidade. Não vou ficar dizendo que isso ou aquilo é o certo, mas uma das categorias sociais bem-aceitas que têm vantagens é a grande família. A redução do número de filhos é muito engraçada, pois a mãe natureza a se revolta contra isso. Você agora só tem dois filhos, aí sua filha adolescente engravida e tem mais um filho dentro de casa. Como se ela tivesse trazido um irmãozinho e não o filho dela para a mãe/avó criar. Você não luta contra a natureza, e, se luta, ela te dá uma volta a galope. Natureza e biologia são as nossas principais influências. Tecnologia vem lá em quinto lugar.

Entrevista publicada em 27/04/2018 na  Revista E / Sesc São Paulo.

 

 


 

 

 


Artigos: Drama e culpa, armas de manipular


Yuval Harari, em seu “Homo Deus”, diz que “No passado, a censura funcionava bloqueando o fluxo de informação. No século XXI, ela o faz inundando as pessoas de informação irrelevante. Passamos o tempo debatendo questões secundárias”.

Pois me parece muito relevante entender como nossas mentes podem ser manipuladas, nossa capacidade de raciocinar turvada, nossa boa fé ludibriada. Tanto quanto saber detectar vigaristas que usam esses expedientes, para nos defender deles: a democracia precisa do voto consciente. E meu trabalho de psicanalista é tornar a consciência cada vez mais aguda, em mim mesmo, no consultório ou onde me deem voz. Creio que essa questão não tem nada de secundária.

Dois dos expedientes mais eficazes de manipulação de mentes são fazer drama e nos criar sentimento de culpa. Essa manobra não podia nos ser mais familiar, e digo “familiar” stricto senso, já que muitas mães usaram e abusaram disso para nos conduzir, digamos assim, sempre com a melhor das intenções, claro.

Não é de surpreender que políticos populistas tenham importado o truque para a condução das massas, transformando-as em rebanhos dóceis.

Isso me ficou gritantemente claro ao assistir à série “Hitler, o círculo do mal”, da Netflix. Como isso aconteceu no mesmo dia em que vi o Lula discursando antes de ser preso, as semelhanças me assombraram.

Senão, vejamos: a postura messiânica do führer ao discursar, cuidadosamente ensaiada frente ao espelho para transmitir a maior dose de drama possível, aliava-se à estratégia arquitetada pelo gênio da propaganda manipulativa, Josef Goebbels. Hitler sabia hipnotizar seus seguidores transmitindo-lhes a ideia de que eram vítimas: dos Aliados, que os humilharam no tratado de Versalhes, mas sobretudo da conspiração dos judeus para dominar o mundo – os judeus eram usados então como a CIA e os Estados Unidos o são atualmente na propaganda política.

Tomados pelo drama que Hitler encenava em seus discursos, cada vez mais seguidores abdicavam de pensar por conta própria, o grande homem pensava por eles, tudo o que lhes cabia era segui-lo com fervor religioso. Acima do bem e do mal, criticá-lo seria um crime de lesa-pátria: ele já não era mais um homem, “era uma ideia”.

Hitler conseguiu polarizar a Alemanha numa espécie de “nós contra eles” sem meio termo: se você não estiver do nosso lado, então você é do inimigo. De todos era exigida uma adesão incondicional. Suas milícias tinham salvo- conduto para depredar, vandalizar, pichar, desmoralizar, caluniar, espancar qualquer um, ou qualquer coisa, que fosse identificado como sendo parte desse “eles”.

Mas, e o sentimento de culpa? Ainda não foi inventado um instrumento de poder que a ele se compare: você pode manter alguém de joelhos sob a mira de um revólver, mas afastada a ameaça, o outro se levantará. Se você conseguir fazê-lo sentir-se culpado, ele lhe rogará para ficar de joelhos.

E a culpa tem dois lados: o do algoz (o culpado) e o da vítima. Hitler se identificava – e identificava seus correligionários – como vítima, e clamava por vingança contra seus algozes. Na dinâmica do sentimento de culpa, a vítima está automaticamente absolvida, não tem culpa de nada, é um perseguido. E mais, está ungida de uma espécie de nobreza, a nobreza do mártir, aquela que transforma a vítima num santo. Esse é o poder do vitimismo.

Com essas ferramentas de poder, Hitler se elegeu democraticamente na Alemanha. Tomado o poder, aparelhou com nazistas todas as instituições, inclusive o judiciário, até conseguir o poder absoluto. O resto é história.

 

 

 


Natureza Humana: O drama como instrumento de poder


Drama: p.ext. psic. estado de comoção provocado por experiência emocional penosa e desgastante.

Cena 1: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela leva as costas da mão à testa, diz “Ohhhh…” e desmaia.
Cena 2: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela põe a mão no queixo, entorta a cabeça para o lado e diz: “É só isso que você tem para mostrar? Se toca, ô cara!”

O que difere nas duas cenas é a presença ou a ausência de drama. Como diz o dicionário, no primeiro caso a mocinha teve uma “experiência emocional penosa e desgastante”, viveu um drama. No segundo, a mocinha percebeu da coisa o ridículo, que é o desmascaramento da pretensão descabida: zero de drama!

O que levou a haver drama para a primeira moça foi seu Superego lhe dizer, a partir de tudo o que ela ouviu em sua criação, que sexo é horrível se estiver fora do contexto dos sagrados laços do amor e do matrimônio. Mesmo assim é assunto que não se fala, muito menos se exibe. Seus pais sempre fizeram o maior “drama” do tema, dizendo à filha que ela “precisava evitar um destino pior que a morte: a desonra!” Ela acreditou, comprou o drama e se tornou uma escrava de seu Superego.

Você pode pensar, “mas que moça mais neurótica!”, e terá razão: não há neurose se não houver drama, e toda pessoa muito dramática tem enormes chances de sofrer de neurose.

A menos, claro, que seja como esses políticos que usam o drama como ferramenta de manipulação de seus seguidores, pois entenderam muito bem que o drama é um poderoso instrumento de poder. Aí o diagnóstico não é de neurose, e sim de sociopatia; eles não acreditam no drama que fazem, internamente se riem de seus devotos, olham para eles como um bando de otários fáceis de enganar.

Para se ter ideia do jogo de poder que envolve a neurose, uma paciente fóbica e com síndrome do pânico teve câncer. A partir de sua luta pela vida, cirurgia, quimioterapia, os sintomas neuróticos sumiram por completo! Como nos versos de Camões, “Cesse tudo o que a antiga musa canta, que um poder mais alto se alevanta”. Uma vez curada, para sua surpresa o pânico e a fobia voltaram: o que era o drama da neurose face à ameaça da morte? O Superego se encolheu e ficou esperando sua oportunidade. Quando ele viu que a morte se distanciou, veio com tudo de novo.

Um outro exemplo, este do cancioneiro popular, está no samba “O mundo não se acabou”, de Assis Valente: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar (…)/ Acreditei nessa conversa mole/ pensei que o mundo ia se acabar/ e fui tratando de me despedir/ e sem demora fui tratando de aproveitar/ beijei na boca de quem não devia/ peguei na mão de quem não conhecia/ dancei um samba em traje de maiô/ e o tal do mundo não se acabou”.

Claro que quando o mundo não se acabou, o Superego voltou com tudo, e a pobre criatura ficou arrasada de vergonha… Ela, que tinha se divertido a valer, agora via seu passado recente como “uma experiência emocional penosa e desgastante”. Como um drama!

Não é preciso ir tão longe, qualquer pessoa que enfiou o pé na jaca, tomou todas, pintou e bordou na véspera (diz- se que o Superego é solúvel em álcool), no dia seguinte morre de ressaca, sobretudo de ressaca moral, com a volta do drama.

Como contraste temos a comédia: o que faz a comédia de costumes senão nos fazer rir de nossos próprios dramas? O comediante americano Chris Rock faz sua plateia se dobrar de rir ao lhes perguntar: “Por que você acha que sua mulher te trata feito um cachorro? Porque você não foi a primeira escolha dela, otário!” Homens e mulheres gargalham, ao verem seu drama tornado risível naquele pequeno momento de pouca seriedade permitida. Depois, voltam ao normal…

De fato, é preciso levar-se muito a sério para acreditar em drama: em todas as novelas, os personagens se levam horrivelmente a sério. “Rodolfo Augusto, o que significa essa marca de batom?” “Não é nada disso que você está pensando, Yolanda Cristina, eu posso explicar!” Não é à toa que a arte de escrever novelas se chama “dramaturgia”.

Enfim, Espinoza nos ensinou que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam. Pois se há um cordel poderoso de que o Superego usa e abusa, esse é o drama.

 


Natureza Humana: Raiva injusta


Desde que nascemos, a coisa mais difícil de se gerenciar (além do erotismo) é a raiva. A raiva nos surge em qualquer percepção de injustiça por nós sofrida, e ela é fundamental para que tenhamos força e motivação para corrigir essa injustiça. Sem indignação não há justiça, dessa forma podemos dizer que A RAIVA É MÃE DA JUSTIÇA.

A justiça, por sua vez, vem da avaliação do tipo de troca que estabelecemos com o mundo, e que o mundo estabelece conosco. Se a troca é justa, é acertada, é equivalente, sentimos paz. Se nos tiram, nos subtraem, nos abusam, sentimos raiva. E a raiva busca um acerto de contas, ou seja, justiça. Isso não é aprendido, nasce com a gente.

Uma criança opera sua raiva de forma… infantil: sai batendo, sai gritando, sai chorando, muito devido à sua impotência frente à raiva. Cedo a cultura (i.e., o Superego) lhe ensina que isso é errado. Mas não lhe ensina o que fazer para operar sua raiva de maneira civilizada em busca de justiça. A principal função do Estado, desde que foi inventado após a revolução agrícola, há uns onze mil anos, é exatamente a de mediador de conflitos e promovedor de justiça. O cidadão abre mão do uso da violência em causa própria e entrega ao Estado (a quem sustenta com seus impostos) a mediação de seus conflitos, sua segurança contra o crime e a predação,  a promoção de justiça, enfim.

Haveria dois lugares onde o gerenciamento da raiva deveria ser ensinado: a casa e a escola. Infelizmente, tal não acontece, nem em uma, nem em outra. Ambas se reúnem para reprimir a raiva, mostrá-la como algo feio e errado, algo a ser suprimido, a ser substituído pela “bondade”. O resultado é isso que vemos: doença neurótica obsessiva, ou transgressão sadomasoquista. A obsessividade funciona sobre dois eixos: pureza e controle. A principal “pureza” que o obsessivo busca é a ausência de maus sentimentos, do rancor, da vingança, da maldade. Seu ideal de controle serve aos mesmos propósitos de busca de pureza: arrumação, pontualidade, higiene e limpeza exageradas, um mundo perfeito de ordem e de paz. Quanto mais raiva a reprimir, mais rejuntes de azulejos a serem limpados com cotonete, mais quadros tortos a acertar. Mas… a injustiça que causou aquelas raivas continua sem ser corrigida.

O sadomasoquismo é também ineficiente. Primeiro porque ele é deslocado: um menino que tortura animaizinhos não está corrigindo a injustiça original, está é arranjando mais encrenca para si mesmo. Depois porque ele vicia, a criança fica apegada a seus jogos malvados (o bullying é um exemplo típico), sendo ativamente cruel, e assim repassando a crueldade que sofreu, perpetuando a injustiça. Quem não se lembra do “passa adiante, se não vira elefante”? O aluno da carteira de trás dava um cascudo no da frente, e o da frente, em vez de corrigir o malfeito, tornava-se malfeitor também.

Mas nem toda raiva é fruto de um clamor justo: há raivas injustas. A mais típica é a inveja. Se fulano tem um carro melhor do que o meu, não é justo que eu acredite que ele está me sacaneando por isso… apesar de o sentimento ser esse. Esta é a principal dificuldade para se chegar a um bom conceito de justiça social, por exemplo: ela é frequentemente concebida como uma igualdade de posses, em vez de se pensar em igualdade de oportunidades, e em igualdade frente às leis, essas sim, os pilares da democracia.

Já os ciúmes, apesar de poderem ser clamor injusto, muitas vezes são raiva justa: se uma criança é completamente negligenciada pelos pais porque nasceu um bebê novo na casa, ela está coberta de razão para sentir raiva da situação.

Meu ponto aqui é que nem toda raiva é coisa feia a ser reprimida, e pode ser olhada com a seguinte pergunta interna: “onde estou sendo injustiçado, e o que posso fazer para corrigir isso?”; mas também que nem toda raiva contém um clamor indiscutível de justiça.

 


Natureza Humana: A homofobia como religião


Entendida geralmente como ódio aos gays, a homofobia tem como principal sentimento, tudo me convence disso, o próprio medo (fobos, em grego). O ódio é decorrência do medo, como veremos.

Mas medo a quê? Aí entra a complexidade humana, a lista é extensa: medo a ter algo de gay em si, e a consequente terceirização como defesa, e aí entra o ódio (“o gay é ele”); medo de perder cacife de sedução junto às mulheres por não ser suficientemente másculo; medo de banimento, do ostracismo, da segregação, de ser exilado de seus pares, degredado de sua tribo por mostrar que não tem qualificações para a ela pertencer, pois no fundo é “um daqueles”.

Este último medo é o mais grave de todos. Entre os medos de raiz com que nascemos (altura, escuro, répteis, grandes insetos voadores, grandes felinos), o medo do desamparo talvez seja o mais intenso. Nossa espécie é dependente de amparo desde que nasce, e sua sobrevivência supõe cooperação do grupo. Não à toa um dos castigos mais severos conhecidos é o banimento, o exílio, a rejeição social.

Mais um fator que leva à homofobia: a construção da identidade masculina. Como os pavões, nós também precisamos de penas para exibir e atrair as fêmeas, algo que mande a elas a mensagem “eu sou um macho atraente”. Força, coragem, proeminência social, ser “vencedor”, competitivo, derrotar os outros, não mostrar atributos femininos quaisquer, enfim, ser um fodão e não um merda, essas são algumas de nossas penas de pavão.

Mas já se pode notar uma equivalência entre ter atributos femininos e ser desqualificado como um merda (uma das origens da misoginia, a propósito).

É aí que a homofobia começa: em nossa infância. Desde cedo estamos treinando sem saber para adquirir essas penas, é um empurrão da mãe natureza presente em todos os mamíferos. Nenhum menino correlaciona os jogos eróticos com seus pares à identidade gay, eles não estão nem aí para isso. Seu foco é exclusivamente sobre o que parecer feminino. O xingamento entre meninos não é “viadinho”, é “mulherzinha”. Meninos bonitos de feições delicadas sofrerão bullying por se parecerem com meninas. Brincadeiras que não sejam musculares idem, imagine-se um menino a brincar de casinha… O desprezo pelas meninas (o clube do Bolinha dizia, “menina não entra”) se estenderá aos meninos que com elas se parecerem, comportamental ou fisicamente. Daí se desenvolve uma patrulha que examina atentamente gestos, maneira de andar, de falar, opiniões, gostos etc. que se une à competitividade para dizer “eu sou fodão, você é merda”.

À partir da puberdade, com a chegada dos hormônios sexuais, se conectam finalmente o “mulherzinha” e o gay: se ele é mulherzinha, então ele gosta de outros homens, e pior, gosta de ser possuído por outros homens, como se fosse uma mulher. Eis porque o homossexual passivo será mais desprezado ainda.

É esse conjunto da obra que faz com que a homofobia entre adultos possa ganhar o status de religião: uma crença supernatural que estabelece o certo e o errado sobre como um homem deve ser, se comportar e pensar, que reune adeptos, que tem práticas rituais reiteradas, que forma uma coligação poderosa à qual é interessante pertencer… e da qual é terrível ser banido.

Pense na brincadeira de implicar mais comum entre grupos masculinos: é suspeitar de, ou insinuar a falta de masculinidade em seus pares. Isso é típico ritual religioso: está reafirmado o culto a um deus (a macheza), e o repúdio aos demônios (a viadagem); existe um céu (o triunfo da fodonice) e um inferno (o banimento e a humilhação).

O terror desse banimento é tal que a mais destruidora forma de mecanismo de defesa contra a angústia – a psicose – frequentemente se dá diante do medo de se tornar gay. A pessoa se desmantela internamente, se desorienta, alucina e delira. A alucinação auditiva mais comum: o psicótico ouve vozes que o chamam de viado.

Preciso dizer mais?

 


Artigos: Imbecilidade: agravantes e atenuantes


[Texto especial para a Folha de S. Paulo]

“Os imbecis perderam a modéstia”; “Os idiotas vão dominar o mundo; não pela capacidade, mas pela quantidade. Eles são muitos”.

As famosas frases de Nelson Rodrigues constatam uma triste realidade da espécie. Não à toa Churchill disse que a democracia era o pior dos regimes (com exceção de todos os outros).

Mas queixar-se da imbecilidade humana é como queixar-se da chuva: é um dado da natureza e não há nada a fazer, exceto proteger-se dela.

Minha questão aqui é que a ninguém a imbecilidade é alheia, não há quem esteja imune a ela; todo Einstein tem seu momento de Eremildo, o personagem idiota do Elio Gaspari. O que quero comentar são os fatores que agravam a imbecilidade, e os que a atenuam, para que todos nós possamos lidar melhor com ela.

Você pensará que “lidar melhor com ela” visa apenas atenuá-la, mas não; eu acredito que há muita gente mal intencionada querendo aumentá-la. Se não, como explicar o descalabro da educação pública? Esta, que é o pilar da busca da igualdade de oportunidades; esta, que transformou a Coreia do Sul em potência econômica em poucas décadas, em nossa terra é entregue às baratas. Deve haver muito político temendo um povo esclarecido, preferindo pobres mendigando por uma bolsa-esmola a troco de votos…

A chave psicológica do aumento/diminuição da imbecilidade está na capacidade humana de reflexão/reação. Se somos induzidos à reatividade, nossa burrice aumenta. Se temos espaço para a reflexão, o que aumenta é a nossa inteligência.

É verdade que nossa espécie não teve muito estímulo para a reflexão em suas origens: imagine um ancestral nosso na savana africana vendo um bando de amigos em correria. Se ele parasse para refletir sobre o pânico público, provavelmente teria sido devorado por um predador, não deixando descendentes. A reatividade de sair correndo junto salvou sua vida. A filosofia teve mais chance de existir quando o grego clássico pôde tranquilamente conversar e refletir com seus pares na Ágora.

Eis que nesse cenário acima está o que determina a reatividade, e o que possibilita a reflexão: sentir-se – ou não – ameaçado; precisar – ou não – de se defender. De fato, todos os mecanismos de defesa psíquicos são emburrecedores. Tomemos apenas a negação como exemplo: todos nós estamos fadados a morrer. A morte e os impostos são as duas únicas certezas da vida. Agora considere a quantidade de energia que a humanidade investe na negação da morte. Considere o aluguel mental que isso traz, todas as derivações dessa negação (Galileu e a rejeição ao heliocentrismo, p.ex.), e você terá uma pálida ideia da influência emburrecedora dos mecanismos de defesa.

Para um exemplo mais recente, considere os nossos “debates” políticos. Há espaço para reflexão neles? Todos se ocupam de atacar o oponente através dos piores adjetivos, pois sabemos que “a melhor defesa é o ataque”. Claro, todos estão sob a ameaça dos rótulos horríveis que cada parte lhes lança. Eis porque só fazem reagir. É a imbecilidade desfilando em toda sua glória.

Algo em âmbito mais próximo? Pense nas D.R. (Discussões de relação). A ameaça de rompimento, de desamparo, de perda de amor está tão presente que a reatividade defensiva impera, é por isso que não se vai muito longe nelas… Se elas começassem com uma declaração apaziguadora (“eu te amo e quero me entender bem com você”), as chances de reflexão seriam maiores.

Todas as doenças psíquicas – neuroses, psicoses, perversões, depressão, psicopatia – derivam de se estar aprisionado a mecanismos de defesa contra as ameaças do mundo (i.e., do Superego), e sabemos como elas nos reduzem a capacidade de raciocinar.

Eis porque adoro a conversa calma e amigável; o ambiente que acolhe e não acusa; a amizade que não pressupõe malícia da outra parte; a autoridade do saber, e não a de mando; a democracia parlamentar, e não a tirania.

 


Natureza Humana: A fresta


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“Ó Manuel, a tua mulher transa contigo, é por amor ou é por interesse?”

“Ó Joaquim, deve ser por amor. Ela não mostra o menor interesse…”

De fato, a despeito de cada um de nós ser um universo complexo de dramas, desejos, memórias, sentimentos e histórias, nossa espécie não parece muito interessada em mergulhar nesse oceano, a menos que efemeramente motivada por Eros. Percebemos o outro e somos por ele percebidos como se vistos por uma fresta de porta.

Pense bem, e com cruel sinceridade: quantas pessoas te conhecem, não digo completamente que seria impossível, mas 50% de você? Se a resposta encheu os dedos de uma mão, você é um milionário.

Tudo começa, sim, pela falta de interesse, mas esse conhecimento esbarra em tropeços, como o da leitura tendenciosa. A primeira lição de psicanálise deveria ser: não tire os outros por si. Eles são diferentes!

Nessa minha curiosa – em mais de um sentido – profissão, venho me dedicando a exercícios mentais bizarros, mas necessários. Os pacientes sofrem por não compreender como funciona a cabeça de seus entes queridos. O exercício consiste em tentar entrar na pele dessas pessoas e buscar algum símile em mim que sirva de ferramenta para aquele propósito. Isso difere de tirar o outro por mim, uso aqui o princípio do romano Terêncio (190 a.C.), “nada do que é humano me é estranho”.

Dois casos: como funciona a mente de quem tem Alzheimer? Os pais idosos dos pacientes são fonte de incompreensão, impaciência e culpa. É preciso compreendê-los. Se você já tomou um porre, ou ficou chapado de maconha, sabe o que é a perda da memória de curto prazo. Não é amnésia, porque a memória não se forma. Você não saberia o que está escrito no início do artigo, nem ele que você o visitou há pouco. Há flashes de consciência, mas ela estará ligada a arquivos antigos, e deles vêm os sentimentos. De resto, a coisa é semelhante a estar dormindo, mergulhado numa névoa.
O segundo caso é como funciona a mente de um imbecil. Este tem particular importância, já que eles são a franca maioria da humanidade, foi por isso que Churchill disse: “a democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”. Esse símile é mais fácil: todos somos imbecis em vários momentos da vida, haja vista a adolescência, quando a insegurança e o medo nos levava ao movimento imbecil típico de se agarrar em certezas extremas, o tal “segura na mão de deus e vai”, não importa o deus, se religioso ou político. É o tempo em que temos certeza de que nossos pais são imbecis…

Sim, a falta de humildade é uma das características. Outra é a incapacidade Homer Simpson de reflexão: reatividade e imediatismo. Um estímulo será categorizado como bom ou mau, e a reação vem a galope. Ah, claro, as categorias de julgamento são poucas, e o veredicto, rápido. Atualmente, a da moda é: isso me ofende? Ofende alguém? Posso acusar o outro de ofensivo?

Vem da obsessão em sentir-se superior, e defender-se de qualquer coisa que o diminua: o terror de parecer merda.

Definitivamente, interessar-se por conhecer o outro é um gosto adquirido, como o da música clássica. E tão raro quanto…

PS: Esta é a última vez que minha coluna sai na Folha, pois me dispensaram.


Natureza Humana: Seleção adversa

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“O editor é aquele que sabe separar o joio do trigo… e publicar o joio”, diz a antiga piada jornalística. A peneira de qualquer seleção embute critérios, ora explícitos, ora despercebidos. O da seleção natural é a sobrevivência dos mais adaptados; o da seleção de futebol, a excelência (assim esperamos).

Mais sutis são os critérios da seleção adversa. Para começar, ela nunca é declarada: ninguém enuncia que vai escolher os piores. Depois, sua existência nem percebida é.

Um exemplo chocante e atual: imagine uma profissão que dê status, sustento, que imponha celibato a homens, que os coloque em posição de poder junto a muitos meninos… e você selecionará homossexuais pedófilos.

Outro exemplo: uma profissão que tenha foro privilegiado, seja capaz de livrar da cadeia seus criminosos através de voto corporativo, que tenha acesso ao dinheiro público por decisão de seus pares, e que seu lugar de trabalho seja uma estranha cidade isolada… e você terá muito mais que trezentos picaretas.

Comemorando Lutero, somos herdeiros da Contrarreforma: ela seleciona autoritários, centralistas, sebastianistas, burocratas, conchavistas, bajuladores e corporativistas, inibe empreendedores e incentiva parasitas que esperam tudo de El-Rei. Que tal?

Mas, o que estou falando? Até parece que a minha profissão escapa da seleção adversa. Se não, vejamos: ela também dá sustento e status, e parece bastar-lhe falar complicado, quase um dialeto parecido com o português, ser misterioso, parecer superior, e “não ter compromisso com a cura, mas com a busca do inefável”. Ela atrairá um bando de imbecis pomposos.

A lista não termina: cidades pobres afugentam os belos e os inteligentes (o mesmo se aplica aos bairros e aos shopping-centers pobres); profissões mal remuneradas que parecem fáceis selecionam profissionais fracos (um dos males do sistema educacional); profissões fodonas que parecem difíceis selecionam sadomasoquistas perversos; imunidade a demissões seleciona… funcionários públicos, assim como impunidade seleciona criminosos e cultiva a corrupção.

Você não imagina a minha hesitação em escrever este artigo. A epidemia de ofendidos e de politicamente corretos seleciona vasilinagem e ausência de opinião, mesmo em artigos de… opinião. E produz o seguinte “disclaimer”: claro que levo em conta os abnegados e devotados, os idealistas e os políticos corretos que conseguem furar a seleção adversa e ajudar o Brasil a andar. Mas eles nadam contra a corrente, este é o meu ponto. Se quisermos ser reformistas de fato, precisamos ter consciência dos critérios da seleção adversa: eles podem estar presentes em qualquer ato de escolha. E as eleições vêm aí…

Por fim, nossa mente também é capaz de seleção adversa: você já ouviu falar de “dedo podre” para a escolha de parceiros, não? Pois ele vem de processos inconscientes ligados ao complexo de Édipo: somos por ele levados a buscar alguém muito parecido com aqueles que nos ferraram em nossa criação, e tentar convertê-lo em alguém que corrija nosso passado, nos ame, nos perceba, nos considere e nos trate bem pelo resto da vida.

Sem comentários…

 


Natureza Humana: Os ofendidos


Parece haver uma epidemia mundial de suscetibilidades exacerbadas. Ou, em linguagem simples, o pessoal anda catando pelo em ovo para se mostrar ofendido.

Diante da complexidade que é a mente humana, cada sintoma precisa ser examinado através de seus fatores, um de cada vez, como se fosse uma cebola e suas camadas: das mais externas e óbvias para as mais inconscientes e profundas.

Um fenômeno sociológico como esse mostra fatores muito curiosos, como o da moda, por exemplo. Steven Pinker definiu-a como um instrumento de demonstração de proeminência social, tipo penas de pavão: no topo da pirâmide se desenvolve uma prática tida pelos poucos iniciados como mostra de superioridade. Ela logo começa a ser copiada pelas camadas subjacentes, na tentativa de os menores se assemelharem aos maiores. Quando ela se vulgarizar (significa “espalhar-se pelo povo”), o topo a descarta e passa a outra novidade.

No caso dos ofendidos há também o componente da moda, mas é uma moda que não copia os sofisticados do topo, como as gravatas Hermès do Collor, e sim um outro tipo de sofisticação: o politicamente correto.

Essa outra praga vem se tornando um instrumento de censura prévia e de controle do pensamento “desviante”, ao ponto de o Enen tê-lo como critério para dar zero em redação, felizmente barrado pelo STF.

Há uma clara ligação entre o “p.c.” e a onda de ofendidos, um é fruto do outro, foi a sua incorreção política que me ofendeu, viu? O que visa o ofendido é fazer alguém se sentir culpado para que ele se retrate, ou indenize. Neste particular, ele parece ser filho do coitadismo que assola particularmente o Brasil. Aquele que remete à divisão da sociedade em “oprimidos” (os coitados) e “opressores” (os malvados). Essa linhagem de categorias pode ter como avô o “mártir”, que na tradição católica “oferece a outra face ao agressor”, na busca de fazê-lo se sentir imensamente culpado.

Ora, o sentimento de culpa é a mais poderosa arma de manipulação inventada pela espécie humana: é quando alguém lhe agradece por ficar de joelhos diante de você. Ele também embaralha o pensamento, ao ponto de o culpado abrir mão do direito de defesa: repare que, no truque de oferecer a outra face, ninguém pergunta mais o que provocou o primeiro tapa. E olhe que poderia ter sido fruto de insulto extremo. Lembrando que entre os católicos você poderia ir para o inferno por pecado de pensamento!

Em psicanálise também se usa, para investigar, o “cui prodest” romano (“quem se beneficia do crime?”). Ora, quem ganha com a patrulha de pensamento, o medo de pensar, a “crimideia” orwelliana? Dificilmente seria a democracia. Tem todo o jeito de pensamento autoritário, de controle do povo. Eu sei, eu sei, Marcuse, Gramsci, a substituição da luta de classes pela luta opressor/oprimido, comer a democracia por dentro, aparelhamento etc. Mas quis fazer o argumento desde seu beabá. E ele aí está. Mas faço a ressalva: há ofensas reais, e elas estão no código penal (calúnia, injúria, difamação, discriminação). Há virtude no cuidado em se expressar. Digo isso antes que alguém se ofenda…
P.S. – CIÊNCIA NÃO É GASTO, CIÊNCIA É INVESTIMENTO!

 

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