Assunto: psicanalista


Natureza Humana: Raiva de quem se ama


 

Se você pensou em briga de casal, pensou certo. A encrenca é que há outras raivas mais complicadas ainda: raiva dos pais e raiva dos filhos, por exemplo. Por aí dá para sentir o quanto o assunto é delicado. Para começar, muitos vão dizer, “nunca senti raiva dos meus pais, que dirá dos meus filhos”.

Mas é que a raiva pode ter outros nomes, todos derivados do mesmo processo que a origina, o sentimento de estar sendo de algum modo prejudicado, ou injustiçado: mágoa, ressentimento, ciúmes, irritação, impaciência costumam ser definições mais reconhecíveis do que esse sentimento chocante que é “raiva” – quando aplicado a quem se ama.

E é chocante e delicado por lidar com consequências dolorosas: a culpa, e/ou o medo da perda do amor da pessoa querida. Imagine um pai sentindo muita raiva de um filho que se comporta igualzinho àquela mãe de quem ele se separou e que hoje despreza, ou daquele filho que dá um trabalho insano: se esse pai tiver no Superego um modelo de paternidade perfeita e imaculada, que não comporta maus sentimentos em relação aos filhos, ficará muito culpado.

Agora imagine um filho muito perturbado com uma mãe que demonstra escancarada preferência pelo irmão. Imagine o temor que sentirá em revelar sua revolta. Ora, se ele já é preterido sem fazer nada, a ameaça/risco de ser desamparado se mostrando raivoso é muito grande.

O que nos leva ao velho problema: a raiva não tem lugar social de direito entre as crianças, ela tende a ser reprimida pelos adultos como feia e má, se dirigida aos familiares; só o “puro amor” é aceitável. Sua função de reparar injustiças se perde, e um problema pior surge: a raiva passa a ser reprimida por dentro.

Mas aquela criança cresce, e vira um adulto que, se lida mais ou menos com raiva de estranhos, continua completamente desajeitado com a raiva de quem ele ama.

Que caminhos toma então essa raiva inaceitável? Alguns possíveis, que têm em comum serem totalmente incompetentes para trazer justiça as situações que a geraram:

- negação (“Raiva? Quem, eu? Nunca!”);

- formação reativa – o exagero do oposto (geralmente em consequência do primeiro: um mimo, um excesso de amorosidade descabida e imerecida);

- contenção (entuba, entuba… e explode);

- repressão (a raiva some, se desloca e se transforma em sintomas neuróticos obsessivos, fobias, síndrome do pânico e depressão);

- sadomasoquismo (do lado sádico: maltrato, bullying, humilhações, ironia/sarcasmo, e espancamento, podendo chegar a assassinato; do lado masoquista: vitimização, pena de si mesmo, silêncio e recolhimento social, encolhimento e paralização diante da vida, exposição de sua fragilidade – o que costuma ser um convite ao bullying).

É curioso, mas o sadomasoquismo entre pessoas que se amam pode ser tão sutil que passe despercebido. Estamos acostumados a pensar o s&m como uma perversão sexual que inclui chicotes e botas de couro, algemas e coisas que tais, mas ele pode funcionar em fogo brando: em vez de óleo fervente, banho-maria. Você já viu casais que soltam farpas entre si, se humilham, se menosprezam publicamente (ou um humilha e o outro se encolhe frente ao bullying) em graus variados. O problema é que isso pode fazer bodas de ouro…

O que fazer, então? Claro, é melhor previnir que remediar: a expressão verbal direta do problema precisa ter lugar social, as crianças terem o direito de expressar que estão com ciúmes do irmão; a escola precisa ter um ombudsman, uma ouvidoria para os alunos, uma espécie de judiciário para resolver pendências entre eles, assim como outros instrumentos de aprender cidadania.

Os namorados precisam poder fazer bons contratos entre si, para evitar as D.Rs. do mal, onde só rolam acusações mútuas: a namorada de um cliente lhe disse, “Mas assim o nosso namoro vai parecer uma empresa! Eu prefiro que as coisas fluam naturalmente”. Ele lhe respondeu: “O que aconteceu com os seus namoros em que ‘as coisas fluíram naturalmente’?”

O que fazer quando o problema está instalado, e quais são os canais competentes para a raiva de quem se ama é assunto tão extenso que vai ficar para a próxima. Aguardemos “Raiva de quem se ama. 2”.

 

 


Natureza Humana: O drama como instrumento de poder


Drama: p.ext. psic. estado de comoção provocado por experiência emocional penosa e desgastante.

Cena 1: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela leva as costas da mão à testa, diz “Ohhhh…” e desmaia.
Cena 2: o exibicionista abre a capa e expõe sua nudez ereta para a mocinha; ela põe a mão no queixo, entorta a cabeça para o lado e diz: “É só isso que você tem para mostrar? Se toca, ô cara!”

O que difere nas duas cenas é a presença ou a ausência de drama. Como diz o dicionário, no primeiro caso a mocinha teve uma “experiência emocional penosa e desgastante”, viveu um drama. No segundo, a mocinha percebeu da coisa o ridículo, que é o desmascaramento da pretensão descabida: zero de drama!

O que levou a haver drama para a primeira moça foi seu Superego lhe dizer, a partir de tudo o que ela ouviu em sua criação, que sexo é horrível se estiver fora do contexto dos sagrados laços do amor e do matrimônio. Mesmo assim é assunto que não se fala, muito menos se exibe. Seus pais sempre fizeram o maior “drama” do tema, dizendo à filha que ela “precisava evitar um destino pior que a morte: a desonra!” Ela acreditou, comprou o drama e se tornou uma escrava de seu Superego.

Você pode pensar, “mas que moça mais neurótica!”, e terá razão: não há neurose se não houver drama, e toda pessoa muito dramática tem enormes chances de sofrer de neurose.

A menos, claro, que seja como esses políticos que usam o drama como ferramenta de manipulação de seus seguidores, pois entenderam muito bem que o drama é um poderoso instrumento de poder. Aí o diagnóstico não é de neurose, e sim de sociopatia; eles não acreditam no drama que fazem, internamente se riem de seus devotos, olham para eles como um bando de otários fáceis de enganar.

Para se ter ideia do jogo de poder que envolve a neurose, uma paciente fóbica e com síndrome do pânico teve câncer. A partir de sua luta pela vida, cirurgia, quimioterapia, os sintomas neuróticos sumiram por completo! Como nos versos de Camões, “Cesse tudo o que a antiga musa canta, que um poder mais alto se alevanta”. Uma vez curada, para sua surpresa o pânico e a fobia voltaram: o que era o drama da neurose face à ameaça da morte? O Superego se encolheu e ficou esperando sua oportunidade. Quando ele viu que a morte se distanciou, veio com tudo de novo.

Um outro exemplo, este do cancioneiro popular, está no samba “O mundo não se acabou”, de Assis Valente: “Anunciaram e garantiram que o mundo ia se acabar (…)/ Acreditei nessa conversa mole/ pensei que o mundo ia se acabar/ e fui tratando de me despedir/ e sem demora fui tratando de aproveitar/ beijei na boca de quem não devia/ peguei na mão de quem não conhecia/ dancei um samba em traje de maiô/ e o tal do mundo não se acabou”.

Claro que quando o mundo não se acabou, o Superego voltou com tudo, e a pobre criatura ficou arrasada de vergonha… Ela, que tinha se divertido a valer, agora via seu passado recente como “uma experiência emocional penosa e desgastante”. Como um drama!

Não é preciso ir tão longe, qualquer pessoa que enfiou o pé na jaca, tomou todas, pintou e bordou na véspera (diz- se que o Superego é solúvel em álcool), no dia seguinte morre de ressaca, sobretudo de ressaca moral, com a volta do drama.

Como contraste temos a comédia: o que faz a comédia de costumes senão nos fazer rir de nossos próprios dramas? O comediante americano Chris Rock faz sua plateia se dobrar de rir ao lhes perguntar: “Por que você acha que sua mulher te trata feito um cachorro? Porque você não foi a primeira escolha dela, otário!” Homens e mulheres gargalham, ao verem seu drama tornado risível naquele pequeno momento de pouca seriedade permitida. Depois, voltam ao normal…

De fato, é preciso levar-se muito a sério para acreditar em drama: em todas as novelas, os personagens se levam horrivelmente a sério. “Rodolfo Augusto, o que significa essa marca de batom?” “Não é nada disso que você está pensando, Yolanda Cristina, eu posso explicar!” Não é à toa que a arte de escrever novelas se chama “dramaturgia”.

Enfim, Espinoza nos ensinou que a liberdade consiste em conhecer os cordéis que nos manipulam. Pois se há um cordel poderoso de que o Superego usa e abusa, esse é o drama.

 


Natureza Humana: A fresta


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“Ó Manuel, a tua mulher transa contigo, é por amor ou é por interesse?”

“Ó Joaquim, deve ser por amor. Ela não mostra o menor interesse…”

De fato, a despeito de cada um de nós ser um universo complexo de dramas, desejos, memórias, sentimentos e histórias, nossa espécie não parece muito interessada em mergulhar nesse oceano, a menos que efemeramente motivada por Eros. Percebemos o outro e somos por ele percebidos como se vistos por uma fresta de porta.

Pense bem, e com cruel sinceridade: quantas pessoas te conhecem, não digo completamente que seria impossível, mas 50% de você? Se a resposta encheu os dedos de uma mão, você é um milionário.

Tudo começa, sim, pela falta de interesse, mas esse conhecimento esbarra em tropeços, como o da leitura tendenciosa. A primeira lição de psicanálise deveria ser: não tire os outros por si. Eles são diferentes!

Nessa minha curiosa – em mais de um sentido – profissão, venho me dedicando a exercícios mentais bizarros, mas necessários. Os pacientes sofrem por não compreender como funciona a cabeça de seus entes queridos. O exercício consiste em tentar entrar na pele dessas pessoas e buscar algum símile em mim que sirva de ferramenta para aquele propósito. Isso difere de tirar o outro por mim, uso aqui o princípio do romano Terêncio (190 a.C.), “nada do que é humano me é estranho”.

Dois casos: como funciona a mente de quem tem Alzheimer? Os pais idosos dos pacientes são fonte de incompreensão, impaciência e culpa. É preciso compreendê-los. Se você já tomou um porre, ou ficou chapado de maconha, sabe o que é a perda da memória de curto prazo. Não é amnésia, porque a memória não se forma. Você não saberia o que está escrito no início do artigo, nem ele que você o visitou há pouco. Há flashes de consciência, mas ela estará ligada a arquivos antigos, e deles vêm os sentimentos. De resto, a coisa é semelhante a estar dormindo, mergulhado numa névoa.
O segundo caso é como funciona a mente de um imbecil. Este tem particular importância, já que eles são a franca maioria da humanidade, foi por isso que Churchill disse: “a democracia é o pior dos regimes, com exceção de todos os outros”. Esse símile é mais fácil: todos somos imbecis em vários momentos da vida, haja vista a adolescência, quando a insegurança e o medo nos levava ao movimento imbecil típico de se agarrar em certezas extremas, o tal “segura na mão de deus e vai”, não importa o deus, se religioso ou político. É o tempo em que temos certeza de que nossos pais são imbecis…

Sim, a falta de humildade é uma das características. Outra é a incapacidade Homer Simpson de reflexão: reatividade e imediatismo. Um estímulo será categorizado como bom ou mau, e a reação vem a galope. Ah, claro, as categorias de julgamento são poucas, e o veredicto, rápido. Atualmente, a da moda é: isso me ofende? Ofende alguém? Posso acusar o outro de ofensivo?

Vem da obsessão em sentir-se superior, e defender-se de qualquer coisa que o diminua: o terror de parecer merda.

Definitivamente, interessar-se por conhecer o outro é um gosto adquirido, como o da música clássica. E tão raro quanto…

PS: Esta é a última vez que minha coluna sai na Folha, pois me dispensaram.


Natureza Humana: Os ofendidos


Parece haver uma epidemia mundial de suscetibilidades exacerbadas. Ou, em linguagem simples, o pessoal anda catando pelo em ovo para se mostrar ofendido.

Diante da complexidade que é a mente humana, cada sintoma precisa ser examinado através de seus fatores, um de cada vez, como se fosse uma cebola e suas camadas: das mais externas e óbvias para as mais inconscientes e profundas.

Um fenômeno sociológico como esse mostra fatores muito curiosos, como o da moda, por exemplo. Steven Pinker definiu-a como um instrumento de demonstração de proeminência social, tipo penas de pavão: no topo da pirâmide se desenvolve uma prática tida pelos poucos iniciados como mostra de superioridade. Ela logo começa a ser copiada pelas camadas subjacentes, na tentativa de os menores se assemelharem aos maiores. Quando ela se vulgarizar (significa “espalhar-se pelo povo”), o topo a descarta e passa a outra novidade.

No caso dos ofendidos há também o componente da moda, mas é uma moda que não copia os sofisticados do topo, como as gravatas Hermès do Collor, e sim um outro tipo de sofisticação: o politicamente correto.

Essa outra praga vem se tornando um instrumento de censura prévia e de controle do pensamento “desviante”, ao ponto de o Enen tê-lo como critério para dar zero em redação, felizmente barrado pelo STF.

Há uma clara ligação entre o “p.c.” e a onda de ofendidos, um é fruto do outro, foi a sua incorreção política que me ofendeu, viu? O que visa o ofendido é fazer alguém se sentir culpado para que ele se retrate, ou indenize. Neste particular, ele parece ser filho do coitadismo que assola particularmente o Brasil. Aquele que remete à divisão da sociedade em “oprimidos” (os coitados) e “opressores” (os malvados). Essa linhagem de categorias pode ter como avô o “mártir”, que na tradição católica “oferece a outra face ao agressor”, na busca de fazê-lo se sentir imensamente culpado.

Ora, o sentimento de culpa é a mais poderosa arma de manipulação inventada pela espécie humana: é quando alguém lhe agradece por ficar de joelhos diante de você. Ele também embaralha o pensamento, ao ponto de o culpado abrir mão do direito de defesa: repare que, no truque de oferecer a outra face, ninguém pergunta mais o que provocou o primeiro tapa. E olhe que poderia ter sido fruto de insulto extremo. Lembrando que entre os católicos você poderia ir para o inferno por pecado de pensamento!

Em psicanálise também se usa, para investigar, o “cui prodest” romano (“quem se beneficia do crime?”). Ora, quem ganha com a patrulha de pensamento, o medo de pensar, a “crimideia” orwelliana? Dificilmente seria a democracia. Tem todo o jeito de pensamento autoritário, de controle do povo. Eu sei, eu sei, Marcuse, Gramsci, a substituição da luta de classes pela luta opressor/oprimido, comer a democracia por dentro, aparelhamento etc. Mas quis fazer o argumento desde seu beabá. E ele aí está. Mas faço a ressalva: há ofensas reais, e elas estão no código penal (calúnia, injúria, difamação, discriminação). Há virtude no cuidado em se expressar. Digo isso antes que alguém se ofenda…
P.S. – CIÊNCIA NÃO É GASTO, CIÊNCIA É INVESTIMENTO!

 


Natureza Humana: As penas do pavão


 

“É claro que existe um componente exibicionista em eu ter aquele carro. Disse isso e ela ficou desapontada comigo, achou que eu o tinha porque gostava de carros desde pequeno. Expliquei que uma coisa não excluía a outra, que ambas são verdadeiras, e que existem também vários outros componentes para qualquer coisa que eu faça na vida”.

Duas coisas me encantam neste relato: a percepção da complexidade do que motiva nossos atos – vale dizer, de nosso desejo –, e a serena aceitação do exibicionismo como parte saudável dele.

Desejo, em psicanálise, é uma trama complexa que começa no único sentido da vida: reproduzir-se (sentido biológico, claro). Está em nosso DNA. Até nosso instinto de sobrevivência existe para servir à reprodução: depois dela somos tão descartáveis quanto as efêmeras, insetos que morrem no mesmo dia em que se reproduzem. No nosso caso a coisa é muito mais complicada: somos guiados pela busca de prazer, é ela que vai nos levar à reprodução, e é a memória dessas experiências de prazer que vai construir a trama do nosso desejo. Assim, um simples sorvete pode parecer o mesmo para duas pessoas, mas representa desejos únicos e intransferíveis, pois cada uma traz histórias diferentes com aquele sorvete. Cheio de memórias, cheio de componentes, que nem o carro.

Mas o componente exibicionista está mais ligado à reprodução do que o sorvete: ele está voltado para a seleção sexual.

É aí que entra o pavão. Quem já viu uma pavoa pode ter ficado impressionado de como ela é sem-graça, sobretudo se comparada ao macho: ele se parece uma drag queen, de tão enfeitado. Ela pode se dar ao luxo de ser assim despretensiosa porque detém o poder de escolha: é ela quem determina que macho estará à altura de ser seu par. Eles então competem por ela na base de se mostrar: “Olha como eu sou formidável!” E haja pena de pavão.

Isso está ficando vagamente familiar, não? Pois é: carros lindos, competição, poder, status, proeminência social, e até artigos publicados na Folha, têm sim um componente exibicionista que, fale-se abertamente ou não, contém a esperança de ser eroticamente escolhido.

“Êpa, mas as nossas fêmeas não têm nada de sem-graça, pelo contrário, elas também têm componentes exibicionistas”. Ah, mas isso é porque as pavoas não estão nem um pouco interessadas em se casar com os pavões, o “one night stand” lhes basta. Na nossa espécie a coisa é diferente: se as fêmeas escolhem com quem vão se deitar, os machos escolhem com quem vão se casar. A pavoa não precisa de ajuda para criar os filhos, enquanto nossa espécie é a que tem filhos mais dependentes entre todas do planeta. Não há outro mamífero com tanto investimento do pai. Ou seja, o casamento – a ajuda – é essencial, e isso põe a mulher na posição de ter que fazer marketing de si mesmo como esposa desejável.

São estratégias diferentes, o homem se vendendo como fonte de boa ajuda e de bons genes; a mulher como confiável (não fará o homem cuidar do filho dos outros), saudável e boa parideira (que os homens chamam de “gostosa”).

De qualquer jeito serão componentes exibicionistas do desejo: penas de pavão.


Entrevistas: (Folha de S. Paulo) “Freud veio para esclarecer, não nos deixar perplexos”, diz Francisco Daudt


MANUEL DA COSTA PINTO – COLUNISTA DA FOLHA

“A Criação Original”, novo livro do colunista da Folha e psicanalista Francisco Daudt, traz uma declaração de princípios: “A clareza é o ponto fundamental neste livro”. Seu desafio é apresentar de maneira ao mesmo tempo didática e consistente o conjunto dos conceitos e da prática psicanalítica, numa reação ao caráter frequentemente hermético que marca os textos dos seguidores de Freud.

“Sua escrita era tão clara e acessível, tão bem escrita, que a única honraria que lhe coube em vida foi o ‘Nobel alemão’ de literatura, o prêmio Goethe [1930]. Quis fazer jus à intenção do mestre: ele veio para esclarecer, não para deixar ninguém perplexo, muito menos reverente diante de sua obra”, afirma Daudt em entrevista à “Ilustrada”.

Há, nessa defesa da clareza, um sentido ético e uma crítica explícita à estratégia de poder embutida no serpentário retórico de muitos teóricos de psicanálise, sobretudo Lacan e seus epígonos: “Ainda somos prisioneiros do mito francês de que uma fala obscura traduz erudição e sapiência. Sou adepto de Karl Popper, o epistemólogo que afirma que uma hipótese deve ser vulnerável a críticas e à refutação, caso contrário não se terá como aferir sua condição de verdadeira ou falsa. Em outras palavras, eu não posso te enrolar se estiver escrevendo em português claro. Isto vale para a
psicanálise, a política e a economia”.

O livro não segue a evolução cronológica do pensamento de Freud. Isso significa, por exemplo, que a “teoria dos impulsos”, que o pensador vienense modificou até seus últimos escritos (com a introdução tardia da ideia de “impulso de morte”), é apresentada ao leitor nos capítulos iniciais de “A Criação Original” e já em sua forma final.

“Se alguém se dispuser a enfrentar os 24 volumes da obra completa de maneira cronológica (que é como eles se dispõem), vai demorar horrores para entender a teoria freudiana. Vai virar um contemporâneo de Freud, que era obrigado a ir ‘acompanhando a novela’. Nós estamos na posição de pegar o conjunto da obra e rastreá-la no sentido de sua maior compreensão”.

Mas, ao contrário de leituras “fundamentalistas”, que consideram intocável a letra freudiana, Daudt considera a psicanálise uma “ciência embrionária”, sujeita a correções (e o próprio autor corrige, ao longo texto, afirmaçõesque fizera em livros ou artigos anteriores): “Freud foi um cientista, um médico, e a ciência é humilde na busca da verdade. Imitei o espírito científico de Freud: ele próprio se corrigiu quando disse que afinal não era a neurose que causava angústia, mas o contrário, a angústia causava a neurose. Abordar o texto freudiano como se fosse uma bíblia, ‘a Palavra’ que requer exegese, é um insulto ao velho professor”.

Aqui mais uma vez, há um sentido ético na recusa de colocar a psicanálise num altar: “Se a psicanálise for colocada sobre um pedestal, elevada à categoria de religião, com acólitos se submetendo a instituições, o psicanalista tenderá a fazer o mesmo com seus pacientes: tenderá a subjugá-los”.

Em nome da clareza, Daudt também critica o uso de termos como “Ego” e “pulsão”, em lugar de simplesmente “Eu” ou “impulso”, que seriam traduções óbvias do estilo vernacular de Freud. “Essa praga começou com Ernest Jones, primeiro tradutor de Freud para o inglês, que resolveu envolver sua escrita numa vestimenta pomposa –e corporativa– de termos médicos em latim e grego. Começou aí a doença institucional da psicanálise: o psicanalista servindo a instituição, em vez de servir a seus pacientes. Ficou um saber envolto em mistério, somente para iniciados, intimidando o leigo (vale dizer, o paciente), dando impressão de grande saber, mas só impressão. E vai contra o propósito básico da psicanálise, que é corrigir a submissão da criança à cultura e construir um indivíduo independente e autônomo.”.

Nesse sentido, “A Criação Original” desafia o tabu psicanalítico de que o leitor não pode e não deve ousar ler Freud com o intuito de se autonalisar: “Esse é um ponto em que divirjo completamente de meus ‘díspares’ (há muito tempo entendi que não tenho pares): quando Freud falou em análise interminável, estava falando da transferência de tecnologia que deve se dar num processo psicanalítico, de tal modo a que o paciente prossiga em um processo de autoanálise vida afora. A internet qualificou os pacientes para fazerem perguntas sobre suas doenças aos médicos, e isso os obriga a ficar mais espertos e atualizados. Quero o mesmo para os pacientes de psicanálise! Quero defender o direito do consumidor desse serviço! Quero que entendam ou tenham boas intuições sobre suas doenças, seus complexos de Édipo, que exijam entender o que o psicanalista lhe diz”.

Aliás, o capítulo sobre o complexo de Édipo (um dos pilares da criação freudiana) também traz uma contribuição teórica de Daudt, fruto das experiências clínicas relatadas pelo psicanalista carioca:

“Há no livro uma novidade: o conceito de que o complexo de Édipo não é uma fatalidade absoluta, e sim um dano de tamanho variável na vida dos filhos, causado pela incompetência dos pais em criá-los. Quanto menos incompetentes, menor o dano. Incompetentes todos seremos, pois não existe trabalho mais difícil do que atender na justa medida as capacidades e necessidades dos filhos à medida que crescem”.

Sob o intencional didatismo de “A Criação Original”, portanto, há também uma leitura não canonizadora de Freud. Ao expor a formação do aparelho psíquico desde sua fase rudimentar até suas etapas mais complexas, Francisco Daudt mostra como pode ser dinâmico, mutável, o enfrentamento de nosso aparelho psíquico com as vivências subjetivas e com o mundo exterior.

“A Criação Original – A Teoria da Mente Segundo Freud”
Francisco Daudt
Editora 7Letras
336 págs.

“A criação original – A teoria da mente segundo Freud” já está a venda. Para comprar, CLIQUE AQUI.

Release: A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud

Livro apresenta a obra de Sigmund Freud de forma didática, sem abrir mão dos detalhes de toda a teoria do mestre da Psicanálise.

 

Este é um livro para quem sempre quis conhecer a teoria de Freud sobre o funcionamento da mente, mas ainda não teve fôlego ou apetite para transitar pelos vinte e quatro volumes de sua obra. Em “A criação original”, Francisco Daudt inventa um personagem que o leitor pode acompanhar desde antes de seu nascimento até sua vida adulta para ver como sua alma se forma, passo a passo, segundo a teoria freudiana do aparelho psíquico.

“Este foi o primeiro livro que escrevi, há trinta anos, quando decidi não mais dar cursos de teoria freudiana e deixar por escrito o resumo do que achava que os alunos precisavam saber. Como não consegui publicá-lo na ocasião, fiz uma condensação dele: A criação segundo Freud – o que queremos para nossos filhos, lançado em 1992.

Seu primeiro revisor e incentivador foi Leandro Konder, que me disse na época: ‘Francisco, você escreveu A democracia como valor universal (a reverenciada obra de Carlos Nelson Coutinho) da psicanálise’.

Só fui entender a magnitude de seu elogio muitos anos depois: a psicanálise tem duas faces, a científica e a filosófica, o conhecimento da mente e a sabedoria de vida que dele se depreende. Konder se referia justamente à parte filosófica: ‘Seu livro deixa claro que a doença mental vem da tirania que a cultura impõe – via superego – sobre a pessoa, e que, portanto, é na convivência democrática entre os ‘três poderes mentais’ (Ego, Id e Superego) que a saúde prospera e a criança se desenvolve em direção à independência e à autonomia.’

E acrescentou: ‘Seu compromisso com a clareza, quando você diz que, se houver algo não compreensível no seu livro foi porque você não explicou direito, está em sintonia com sua proposta democrática: a psicanálise não pode se impor tiranicamente sobre o aprendiz com uma linguagem obscura apenas para iniciados’.

Era isso! Eu já me revoltava com médicos falando difícil para seus pacientes, e agora como psicanalista não iria tolerar essa repetição, nem para mim, nem para meus alunos. E mais, se a fala não é transparente, ela não se torna vulnerável a críticas. Este princípio científico de Karl Popper me é muito caro: a principal peneira que separa o verdadeiro do falso em qualquer aprendizado é a possibilidade de ele ser denunciado e criticado como tendo erros.Portanto, aí está o livro: ele contém a proposta científica de Freud sobre o funcionamento da mente, e sua decorrente proposta filosófica: como aproveitar esse saber para viver e criar os filhos na saúde mental, como construir-se e como construir indivíduos independentes e autônomos, que mandem na própria vida sem causar danos aos outros.”

“Leandro Konder me manda um bilhete divertido apresentando Francisco Daudt da Veiga, um psicanalista que escreve limpo e quer democratizar Freud. […] A explicação dele de ‘O complexo de Édipo’ não poderia ser mais clara e satisfatória, a meu ver. O livro é obrigatório para quem quer conhecer o assunto”

PAULO FRANCIS

A criação original – A teoria da mente segundo Freud

Autor: Francisco Daudt

Sbn: 9788542105650

Idioma: Português

Encadernação: Brochura

Formato: 15,5 x 22,8

Páginas: 336

Ano de edição: 2017

Ano copyright: 2017

Edição: 1ª

Editora: 7 Letras

Sobre o autor

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas, que está sendo lançado agora pela 7 Letras, intitulado “A Criação original – A teoria da mente segundo Freud” .

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei” (Casa da Palavra, 2010), “O amor companheiro” (Sextante, 2004), “ O aprendiz da liberdade” (Companhia das Letras, 2000), “O aprendiz do desejo” (7 Letras, 1997) e “A criação segundo Freud” (7 Letras, 1992).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programaEncontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.

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CONTATO

Francisco Daudt

Tel: +55 21 98482-6978

fdaudt2@gmail.com


Natureza Humana: O complexo do Édipo


Pobre Édipo, passou à história como alguém que matou o pai e se deitou com a mãe. E pior, se sentiu culpado disso tudo. Mas… a verdade é essa mesma?

Vejamos: quando ele ainda estava na barriga de Jocasta, rainha de Tebas, Laio, o rei seu pai, foi procurar o Oráculo de Delfos para saber da pitonisa o futuro de seu filho. Não é que a vidente disse que ele quando crescesse iria matar o pai e se casar com a mãe? Laio então decidiu matar o bebê antes! Deu-o a um escravo para que fizesse o trabalho sujo, mas este se apiedou do menino e o abandonou na floresta. Foi assim que o príncipe de Tebas, recolhido por um pastor, parou nas mãos dos reis de Corinto, que o adotaram como filho natural (escondendo sua condição de adotado: atenção, que isso é importante). Já crescido, alguém resolve lhe fazer mal e revela sua adoção. Ele, chocado, vai aonde? Procurar a pitonisa de Delfos para saber de sua vida! Você já imagina o que ela lhe disse: a mesma coisa que disse para Laio. Tentando fugir desse destino (de matar o rei de Corinto, que ele julgava ser seu pai), foge para… Tebas! Na estrada, é atacado pelos batedores do rei de Tebas e acaba matando – em legítima defesa – Laio, seu pai biológico (que tentava assassiná-lo pela segunda vez).

Antes de entrar em Tebas, enfrenta a esfinge (uma fera mitológica que devorava viajantes), decifra seu enigma e a mata, tornando-se herói. Como prêmio, é forçado a se casar com a rainha viúva… Jocasta!

No fim da peça de Sófocles ele descobre tudo e fica arrasado de tanta culpa, ao ponto de se cegar.

Agora eu te pergunto: Édipo merece essa fama maldita? A meu ver, ele foi colocado numa arapuca inescapável, metido num problema que não era dele, era dos pais. Não deixaram Édipo viver sua própria vida. Ele foi atrelado à vida dos pais, aos assuntos dos pais. E mesmo os reis de Corinto, seus pais de adoção, deixaram uma armadilha esperando por ele, ao sonegar-lhe sua verdadeira história.

Freud considerou que, assim como Édipo, nós não poderíamos fugir ao nosso destino: ficaríamos de algum jeito marcados pelos assuntos/problemas de nossos pais. Concordo. A nossa espécie é muito dependente de ter adultos que criem os filhos por longo tempo, nascemos muito frágeis, e é esse tempo de exposição que faz com que a criança se enrole na incompetência de quem a criou.

Mas não precisa ser tão grave como foi para Édipo! Esta é a tese central do livro que lanço este mês (“A Criação Original – a teoria da mente segundo Freud”): o Complexo de Édipo diminui de tamanho se os pais forem competentes, e a criança terá menos problemas em cuidar de sua vida, pois estará desalugada dos assuntos dos pais. Por exemplo: uma única consideração do rei de Corinto, a de contar para Édipo sua verdadeira origem, desarmaria toda a encrenca em que Édipo se meteu (ou foi metido). Uma simples postura, a de que os filhos não nos pertencem, que eles terão suas próprias vidas e que nossa função é ajudá-los para vivê-las, é suficiente para que seus complexos de Édipo sejam enormemente diminuídos.

Resumindo: o complexo de Édipo dos filhos está nas mãos dos pais.


(Em breve): A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud [parte 3 - Leandro Konder e Paulo Francis]


 

LEANDRO KONDER ME DISSE, SOBRE MEU LIVRO “A CRIAÇÃO ORIGINAL”:  ”Francisco, você escreveu ‘A democracia como valor universal’ (o celebrado livro de Carlos Nelson Coutinho, aqui na foto, com Leandro e comigo, 1998). Não podia ter recebido reconhecimento melhor!

PAULO FRANCIS, SOBRE “A CRIAÇÃO SEGUNDO FREUD”  (a condensação do “A Criação Original”, que será lançado em breve (Novembro de 1993). E foi assim que eu recebi um dos seis elogios que Francis emitiu na vida.


Natureza Humana: O que quer a psicanálise


 

“Que diabos esse meu analista pretende?”, me perguntei em 1969, quando pela primeira vez entrei em contato com a psicanálise. Estava no 4° ano do ensino médico, com metas claras para minha profissão: eu queria curar meus pacientes, queria a saúde, não queria a doença.

As influências que me norteavam eram neoiluministas, modernas, ordenadas, racionais e objetivas: Santo Inácio e os jesuítas; a lógica de São Tomás de Aquino; George Orwell e seu magnífico antimodelo de tudo o que eu não queria (“1984” e a tirania); valores democráticos de igualdade de direitos e deveres (estávamos em plena ditadura). Não era à toa que aquele ser misterioso atras do divã me incomodava com seu silêncio superior. Nem minhas perguntas ele respondia.

Naquele tempo a neurose e a imaturidade faziam de mim um imbecil, de modo que fiquei quieto e me “submeti” ao tratamento – com o endosso mudo do analista – sem saber que repetia minha doença em pleno consultório.

Muito tempo se passou até que eu decifrasse o que ele, e o que várias correntes psicanalíticas, afinal queriam. Os kleinianos, que as pessoas se submetessem ao superego, aceitassem os valores da cultura, não discutissem suas criações ou seus pais, entrassem na linha. Os contraculturais queriam lutar contra o superego e transgredi-lo (sendo assim comandados por ele às avessas). Os lacanianos se dividiam entre os que buscavam o inefável (seja lá isso o que for) e os que estimulavam o cliente a descobrir um sentido para sua vida e a se responsabilizar por ele (sem considerar que a neurose impede essa descoberta, mas como eles não buscam a cura…).

E havia Freud. Dez anos ensinando teoria freudiana me mostraram que o norte estava lá. Havia um conceito claro de doença: o Complexo de Édipo e a prisão que ele representa em nossa vida, alugando-nos com as incompetências de quem nos criou. Por decorrência, havia um conceito claro de saúde: entenda o que te aconteceu e deixe finalmente isso para trás, como o acidente de percurso que é. Não se aprisione, nem na obediência ao que lhe ensinaram, nem na vingança contra quem lhe fez mal. Seja independente para ter autonomia. Conheça seu desejo, limpando-o da interferência dessas invasões bárbaras da tua história.

Dito assim parece simples, mas dá um trabalho enorme: é preciso conhecer o embate interno entre o superego e os desejos reprimidos, e como esse programa foi instalado em nós. É preciso conhecer o inconsciente que nos comanda (Freud: “Onde esteve o Id, que esteja o Ego”).

Mas, ficava claro para mim, também era preciso conhecer o superego (Sun Tzu: “Conhecer o inimigo”). Nós mantemos uma relação sadomasoquista com ele desde cedo na vida, do tipo fodão-merda: ele a nos pôr para baixo; nós alugados, ora a acreditar nele (e temer que os outros nos descubram), ora a odiá-lo em transgressões. E vivendo essa guerra do lado de fora: as pessoas posam de superiores (nós inclusive) e se tornam nossos inimigos. Era entender para se libertar.

Tenho claro o que quero, então: ampliar Freud e dizer, “Onde esteve o Id – e o superego –, que esteja o Ego”.

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