Assunto: filhos


Cura em psicanálise


Cura é um conceito especialmente precioso (e mal entendido) em psicanálise: ela fala de remoção da doença, por certo, mas fala principalmente em ser cuidado. Curar é cuidar, é o que faz o curador de menores. Esse cuidar envolve função de mãe (calor, nutrição, proteção), e envolve função de pai (cultivo da capacitação, atendimento das capacidades). Um não funciona sem o outro. Remete à metáfora do ninho/voo que explica o complexo de Édipo: o pássaro precisa de ninho para voar. Sem ninho ele morre, se magoa, fica preso ao ressentimento; mas excesso de ninho o deixa aleijado e dependente. Então, curar/cuidar é estar atento às necessidades/capacidades do outro para que ele ganhe voo próprio, autônomo e independente. O complexo de Édipo são os entraves à nossa capacidade/autonomia que restam do mau gerenciamento do ninho na nossa criação.

Como a psicanálise já pega o estrago feito, a cura se dá por ganho de terreno, nunca por extirpação (como na cirurgia).


Natureza Humana: Sonho de escola


Sergio Bernardes, o arquiteto, respondia àqueles que reclamavam de seus projetos amalucados: “Eu sei que eles não vão ser realizados mesmo, deixa eu delirar”. Pois é motivado por ver meu filho estudando como nunca (“Ah, agora que a escolaridade acabou, eu posso estudar o que quero”), e por mais um massacre feito por aluno vítima de bullying, que me valho da licença de Bernardes para delirar meu sonho de escola.

Nela, seus ensinos principais seriam cidadania e economia doméstica, com matérias subordinadas a esses aprendizados.

Sob o poder moderador da direção da escola, os alunos brincariam de aprender sobre democracia: a principal função do Estado (segurança pública com implementação das leis); a razão de haver Três Poderes separados (permanente desconfiança de vocações tirânicas, cada um vigiando o outro); respeito ao contraditório; as vantagens do parlamento; a mediação de conflitos através do judiciário (fim do bullying impune, ou da vingança pelas próprias mãos); a busca das igualdades ambicionadas pela democracia (de oportunidades, e perante às leis); aprenderiam que o voto é a última instância decisória, e só acontece depois de muito debate; liberdade de pensamento e de expressão (respeitadas as proibições de injúrias, calúnias e difamações); liberdades em geral, se respeitadas as leis; a função dos impostos e sua necessária ligação com os deveres do serviço público (“No taxation without representation”).

A lista é interminável, o que está aqui apenas abre o debate. Poderiam brincar de formar um parlamento, um executivo e um judiciário, experimentar a democracia representativa.

No aprendizado de economia doméstica, a primeira lição seria: dinheiro não cai do céu (Milton Freedman, “não existe essa coisa de almoço grátis”). “Quais são meus custos; quais são meus ganhos”; diferença entre custo fixo e custo variável; entre gasto e investimento; relações custo/ benefício; poupança ligada a planejamento de médio e longo prazo; diferenças entre regimes econômicos (capitalismo/socialismo); relação entre regimes econômicos e regimes de governo.

Como se daria a transmissão de conteúdos? Aí vem uma parte que é o meu xodó: a santa tecnologia iria realizar uma aproximação do mais caro ideal da democracia, a igualdade de oportunidades. Através de tablets e de tutoriais, os alunos de Quixeramobim teriam também os melhores professores do país. A história e a geografia servindo ao aprendizado de cidadania; a matemática e a física, ao de economia doméstica (quem quisesse ir além dos juros e da regra de três, iria fazê-lo por interesse próprio, não por imposição); a língua portuguesa aprendida durante as respostas discursivas aos testes (haveria testes ao fim de cada aula no tablet, tanto discursivas quanto de múltipla escolha), num revisor de texto que mostrasse as impropriedades da escrita.

Haveria grupos de estudos eletivos e obrigatórios, com monitores para ajudar, mas sobretudo para ensinar a estudar.

Finalmente, o recreio: aprendizado de ética na convivência e no esporte.

Algo precisa mudar: a escola atual não prepara cidadãos éticos e independentes.

 


Artigos: Eduardo e Mônica II

Eduardo e Mônica tiveram um bom aconselhamento de como criar os filhos, fizeram um bom casal e geraram dois filhinhos, Cristina e Rodrigo, com três anos de diferença. Leia Mais


Consulta: Ciúmes da Enteada

Minha nova mulher tem um ciúme doentio de minha filha do casamento anterior. Ela também tem um filho de quem eu gosto, e que gosta de mim. O contraste de tratamento que temos entre as duas crianças é gritante. Tenho medo que isto venha a nos separar.

Eu também. Você usou a expressão “doentio”, que se refere a doença psíquica. Diz que seu enteado te adora e que você retribui. Que ele gosta de ficar no seu colo, mesmo aos 12 anos. Que você sofre com a “tromba” que sua mulher arma quando alguma coisa favorece sua filha. Com a disparidade de tratamentos entre você e o filho dela e ela e sua filha. Com aquilo que ela pode (viajar com o filho e os amigos) e aquilo que você não pode ao olhar dela (viajar com a filha e as amigas). Receber amigos do filho dela em sua casa (tudo bem); receber amigos delas em sua casa (tudo mal). Leia Mais


Consulta: Vingança ou Justiça?

Vejo às vezes na TV pessoas que perderam filhos dizendo que não querem vingança, só justiça. Mas se alguém matasse um filho meu, eu ia querer a pior das vinganças. Estou errado?

Não. Sinto o mesmo, só que gostaria de deixar o assassino vivo e esfacelar contra um imenso ralador de coco cada membro de sua família. Com ele assistindo.

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Consulta: Descansar Dos Pais Para Se Casar

Meu namorado aceitou morar comigo. Mas continua vivendo como solteiro, muito ligado à família. Ele é muito mais deles do que meu. Qual é o problema?

Ah, é um problema sociológico/psicológico. A faculdade americana força o filho a escolher outro estado para cursá-la. Nossa cultura acolhe o filho em casa até além dos 30 anos. Por que sair de casa, se ele tem tudo na mão, e ainda pode dormir com a namorada no quarto? Leia Mais


Consulta: Pais São Pessoas Para Os Filhos?

Sou um pai separado, e venho notando que meus filhos (um casal) não se dão conta de que eu sou uma pessoa. Eles se ressentem de que eu tenha vida própria. O que é isto?

Vá se conformando. Os filhos não nos vêem como pessoas, e sim como pais: prestadores de serviços essenciais a eles. Provimento; consolo; colo; despachantes; professores; orientadores; oponentes; caretas a serem criticados; ninguém que os incomode com uma existência própria diferente de seus interesses.

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Consulta: Filho Rebelde

Meu filho adolescente é rebelde e transgressor. Usa maconha e diz que eu sou uma reacionária, burguesa opressora dos pobres. Anda com más companhias, que ele chama de “sua tribo”. Estou com medo. Onde foi que eu errei?

Querida, não se culpe, onde os pais mais erram? Ao quererem formatar seus filhos naquilo que eles acham certo, ao invés de procurar as pessoas que eles são, desde pequenos. Ao invés de tentar lê-los e estimular o que eles têm de bom, sem criticá-los como deficientes, ou mal intencionados em seus erros. Leia Mais


Consulta: Filho Peste & Filho Bonzinho

Tenho um filho mais velho que é uma peste, e o mais novo que não me dá trabalho, é bem comportado e prestativo, estudioso e tudo o mais de bom. Por que essa diferença?

Seus dois filhos estão com problemas. Mas quero me concentrar no do caçula. Ele sofre da “síndrome do menino bonzinho”. Ambos sofrem da má leitura que você faz das pessoas deles. O primeiro deve ter um perfil reativo, e se rebela contra o molde em que você quer encaixá-lo através da transgressão. O outro deve ter uma capacidade de reflexão, observa que o primeiro não dá ibope afetivo junto a você, toma o mais velho como antimodelo e faz tudo para comprar um lugar no seu afeto se adaptando ao que você espera de um filho. Veja bem: “o que você espera de um filho” significa que você tem um ideal de filho na cabeça que menospreza a pessoa singular que cada filho seu é. Isto é o que significa “má leitura”. Leia Mais


Consulta: Doença Grave Na Família

Minha mulher está com uma doença grave de prognóstico complicado. Gostaria de estar otimista. Mas não consigo. Como não transmitir aos meus filhos pequenos ( de 6 a 9 anos) a minha angustia?

Não há jeito. Eles saberão. As crianças têm antenas parabólicas a qualquer coisa que se refira a seus interesses, de separações a morte dos pais. É um pouco parecido com o dilema “devo contar ou não que ela tem câncer?” Não adianta. Todos os pacientes de câncer sabem que estão para morrer. A ordem foi: “Não falem nada”. Mas a pessoa começa a receber parentes que não via há anos, com faces compungidas e mensagens encorajadoras. É o suficiente. Leia Mais

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