Natureza Humana: As penas do pavão


 

“É claro que existe um componente exibicionista em eu ter aquele carro. Disse isso e ela ficou desapontada comigo, achou que eu o tinha porque gostava de carros desde pequeno. Expliquei que uma coisa não excluía a outra, que ambas são verdadeiras, e que existem também vários outros componentes para qualquer coisa que eu faça na vida”.

Duas coisas me encantam neste relato: a percepção da complexidade do que motiva nossos atos – vale dizer, de nosso desejo –, e a serena aceitação do exibicionismo como parte saudável dele.

Desejo, em psicanálise, é uma trama complexa que começa no único sentido da vida: reproduzir-se (sentido biológico, claro). Está em nosso DNA. Até nosso instinto de sobrevivência existe para servir à reprodução: depois dela somos tão descartáveis quanto as efêmeras, insetos que morrem no mesmo dia em que se reproduzem. No nosso caso a coisa é muito mais complicada: somos guiados pela busca de prazer, é ela que vai nos levar à reprodução, e é a memória dessas experiências de prazer que vai construir a trama do nosso desejo. Assim, um simples sorvete pode parecer o mesmo para duas pessoas, mas representa desejos únicos e intransferíveis, pois cada uma traz histórias diferentes com aquele sorvete. Cheio de memórias, cheio de componentes, que nem o carro.

Mas o componente exibicionista está mais ligado à reprodução do que o sorvete: ele está voltado para a seleção sexual.

É aí que entra o pavão. Quem já viu uma pavoa pode ter ficado impressionado de como ela é sem-graça, sobretudo se comparada ao macho: ele se parece uma drag queen, de tão enfeitado. Ela pode se dar ao luxo de ser assim despretensiosa porque detém o poder de escolha: é ela quem determina que macho estará à altura de ser seu par. Eles então competem por ela na base de se mostrar: “Olha como eu sou formidável!” E haja pena de pavão.

Isso está ficando vagamente familiar, não? Pois é: carros lindos, competição, poder, status, proeminência social, e até artigos publicados na Folha, têm sim um componente exibicionista que, fale-se abertamente ou não, contém a esperança de ser eroticamente escolhido.

“Êpa, mas as nossas fêmeas não têm nada de sem-graça, pelo contrário, elas também têm componentes exibicionistas”. Ah, mas isso é porque as pavoas não estão nem um pouco interessadas em se casar com os pavões, o “one night stand” lhes basta. Na nossa espécie a coisa é diferente: se as fêmeas escolhem com quem vão se deitar, os machos escolhem com quem vão se casar. A pavoa não precisa de ajuda para criar os filhos, enquanto nossa espécie é a que tem filhos mais dependentes entre todas do planeta. Não há outro mamífero com tanto investimento do pai. Ou seja, o casamento – a ajuda – é essencial, e isso põe a mulher na posição de ter que fazer marketing de si mesmo como esposa desejável.

São estratégias diferentes, o homem se vendendo como fonte de boa ajuda e de bons genes; a mulher como confiável (não fará o homem cuidar do filho dos outros), saudável e boa parideira (que os homens chamam de “gostosa”).

De qualquer jeito serão componentes exibicionistas do desejo: penas de pavão.


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