Natureza Humana: A homofobia como religião


Entendida geralmente como ódio aos gays, a homofobia tem como principal sentimento, tudo me convence disso, o próprio medo (fobos, em grego). O ódio é decorrência do medo, como veremos.

Mas medo a quê? Aí entra a complexidade humana, a lista é extensa: medo a ter algo de gay em si, e a consequente terceirização como defesa, e aí entra o ódio (“o gay é ele”); medo de perder cacife de sedução junto às mulheres por não ser suficientemente másculo; medo de banimento, do ostracismo, da segregação, de ser exilado de seus pares, degredado de sua tribo por mostrar que não tem qualificações para a ela pertencer, pois no fundo é “um daqueles”.

Este último medo é o mais grave de todos. Entre os medos de raiz com que nascemos (altura, escuro, répteis, grandes insetos voadores, grandes felinos), o medo do desamparo talvez seja o mais intenso. Nossa espécie é dependente de amparo desde que nasce, e sua sobrevivência supõe cooperação do grupo. Não à toa um dos castigos mais severos conhecidos é o banimento, o exílio, a rejeição social.

Mais um fator que leva à homofobia: a construção da identidade masculina. Como os pavões, nós também precisamos de penas para exibir e atrair as fêmeas, algo que mande a elas a mensagem “eu sou um macho atraente”. Força, coragem, proeminência social, ser “vencedor”, competitivo, derrotar os outros, não mostrar atributos femininos quaisquer, enfim, ser um fodão e não um merda, essas são algumas de nossas penas de pavão.

Mas já se pode notar uma equivalência entre ter atributos femininos e ser desqualificado como um merda (uma das origens da misoginia, a propósito).

É aí que a homofobia começa: em nossa infância. Desde cedo estamos treinando sem saber para adquirir essas penas, é um empurrão da mãe natureza presente em todos os mamíferos. Nenhum menino correlaciona os jogos eróticos com seus pares à identidade gay, eles não estão nem aí para isso. Seu foco é exclusivamente sobre o que parecer feminino. O xingamento entre meninos não é “viadinho”, é “mulherzinha”. Meninos bonitos de feições delicadas sofrerão bullying por se parecerem com meninas. Brincadeiras que não sejam musculares idem, imagine-se um menino a brincar de casinha… O desprezo pelas meninas (o clube do Bolinha dizia, “menina não entra”) se estenderá aos meninos que com elas se parecerem, comportamental ou fisicamente. Daí se desenvolve uma patrulha que examina atentamente gestos, maneira de andar, de falar, opiniões, gostos etc. que se une à competitividade para dizer “eu sou fodão, você é merda”.

À partir da puberdade, com a chegada dos hormônios sexuais, se conectam finalmente o “mulherzinha” e o gay: se ele é mulherzinha, então ele gosta de outros homens, e pior, gosta de ser possuído por outros homens, como se fosse uma mulher. Eis porque o homossexual passivo será mais desprezado ainda.

É esse conjunto da obra que faz com que a homofobia entre adultos possa ganhar o status de religião: uma crença supernatural que estabelece o certo e o errado sobre como um homem deve ser, se comportar e pensar, que reune adeptos, que tem práticas rituais reiteradas, que forma uma coligação poderosa à qual é interessante pertencer… e da qual é terrível ser banido.

Pense na brincadeira de implicar mais comum entre grupos masculinos: é suspeitar de, ou insinuar a falta de masculinidade em seus pares. Isso é típico ritual religioso: está reafirmado o culto a um deus (a macheza), e o repúdio aos demônios (a viadagem); existe um céu (o triunfo da fodonice) e um inferno (o banimento e a humilhação).

O terror desse banimento é tal que a mais destruidora forma de mecanismo de defesa contra a angústia – a psicose – frequentemente se dá diante do medo de se tornar gay. A pessoa se desmantela internamente, se desorienta, alucina e delira. A alucinação auditiva mais comum: o psicótico ouve vozes que o chamam de viado.

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