Natureza Humana: A cascata


 

“É tudo mentira. Ele é um simulador, frio, calculista, ele é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”.

Pois é. Eu estava bem feliz de tratar de assuntos conceituais da natureza humana, de não ter que falar de política, desde que Madame retornou à insignificância de onde nunca deveria ter saído, mas essas frases acima… Nas palavras de Michael Corleone, “eu quero sair, mas eles me puxam de volta!”

Para minha sorte, elas se referem a uma condição humana pouco entendida: a sociopatia. O sociopata é um psicopata que opera no atacado. Não se contenta em ser um assassino em série, um pequeno trapaceiro, um malfeitor de voo curto. Como o psicopata, ele não tem barreiras morais que se interponham a seus propósitos criminosos. Não há remorso, não há reconhecimento de erro, não há humildade. Ao contrário, há megalomania: a convicção de superioridade, de estar acima do bem e do mal, de ser possuidor de uma clareza mental assassina que transforma todos os demais em imbecis. E um gozo infinito em fazê-los de imbecis. Não poderia dar explicação melhor de como funciona um psicopata do que aquelas frases do início: a simulação fria do que for necessário para seus propósitos. Fazer-se de vítima? Ele será a maior vítima do mundo. Mentir descaradamente? Ele fará a mentira soar como a maior das verdades. Ignorar o que disse ontem e dizer o justo oposto? Foi você que ouviu mal, ele sempre pensou assim. Compromisso com a verdade, com a dignidade, com a honestidade? Zero. Mas se a aparência disso lhe for útil, ele se dirá a pessoa mais honesta do Brasil.

Manipulação? É fascinante assistir a ela. Televisionado na presença de um juiz, ele o usará como palanque para falar com seus seguidores, e dar-lhes argumentos – ainda que rudimentares – que mantenham sua crença nele.

Não existem psicopatas burros. O despudor, o cinismo e a leviandade retiraram-lhes as travas mentais que nos restringem. Dizem que os psicopatas não têm superego. Não é isso, pois tudo o que fazem é direcionado justamente contra aquilo que o superego manda. Eles são obcecados pela quebra das leis e da ética. É uma vida devotada à transgressão e à trapaça: seu maior gozo é chutar o superego para o alto.

O sociopata descobriu a mais eficiente das armas para manipular multidões: o sentimento de culpa. “Eu fui ferrado na vida, e os culpados são ‘eles’, e agora eu falo em nome de todos os ferrados, para nos vingar ‘deles’”. Como pastor do coitadismo, tudo lhe é desculpado, a culpa é dos outros. Não é à toa que sentir-se ofendido e culpar os outros virou uma praga em que o politicamente correto tomou carona.

O que nos leva à cascata. Quando Pedro Aleixo recusou-se a assinar o AI-5, perguntaram-lhe se ele temia que o presidente fizesse mal uso dele. “Não temo o presidente”, respondeu, “mas quando o autoritarismo se instala no alto da cadeia de comando, desce em cascata até o guarda da esquina. E este eu temo”.

É a cascata o pior legado do sociopata e seus asseclas: a corrupção moral do país, o coitadismo, a incompetência abençoada são ainda mais graves que os horrores que têm aparecido.


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