Natureza Humana: Nossa espécie está condenada a uma dança de trapaças e desencontros

“Ela apontou a pistola para ele, e disse: ‘Você vai tirar a roupa e me comer agora!’ Sem alternativas, ele obedeceu: deitou-se de costas enquanto ela o cavalgava, encaixando-se em sua ereção”.
Não é preciso entender de natureza humana para saber que a peça de ficção acima é totalmente inverossímil. Enquanto que, para os homens, o estupro é uma estratégia reprodutiva de negociação mínima, o contrário não se aplica: um homem intimidado não ficará ereto. E os temores nem precisam vir da ponta de uma arma. Conta-se que Antônio Maria foi confundido com o escritor Carlos Heitor Cony por uma estonteante loura, que se declarou sua fã. Ele confirmou. Afinal num motel, a moça chamou-o para a cama. Neste ponto, Cony, que ouvia a história, perguntou-lhe ansioso: “E aí, Maria, e aí?” “Aí, Cony, VOCÊ brochou!”
David Buss, psicólogo evolucionista, escreveu um livro chamado “Por que as mulheres fazem sexo”. Tem duzentas páginas. Elas podem se dar ao luxo de terem tantas e diferentes razões, pois não precisam de muito aparato biológico para o congresso carnal. Se o livro tratasse de homens, só teria uma linha: “Porque tiverem desejo e conseguiram uma ereção”. Ah, e teriam que escapar da ejaculação precoce, outra manifestação do desconforto psíquico frente ao sexo.
Ou seja, quer função? Não intimide, não coaja, não cobre, não culpe: nós homens somos muito frágeis nesse setor, precisamos nos sentir “por cima da situação” para funcionar.
Já que são as mulheres que escolhem quem terá acesso a elas – e toda misoginia vem do inconformismo com esse poder –, há dois softwares básicos de fazer a corte que rodam na cabeça masculina: o “papai” e o “cafajeste”.
Se pudéssemos traduzi-los, o “papai” diria: “Aceite-me, pois eu sou um bom rapaz, atencioso, respeitador, acho você o máximo, vou te ligar amanhã, quero me casar com você, cuidar de nossos filhos, nuca te abandonarei”.
E o “cafajeste”: “Humm, você é gostosa e eu vou te levar à loucura, vou soltar essa puta que existe em você e que ninguém mais vê além de mim, vamos acabar com essa babaquice de ser santa, você não nasceu pra isso, você nasceu para ser feliz no sexo, a hora é esta, sem amanhã”. Curioso é que o equivalente do programa “santa”, das mulheres de autoestima elevada, não seja o “papai”: ele roda nos homens que não se acham os maiorais. Nestes últimos roda o “cafajeste”.
Como a mãe natureza privilegia a quantidade de filhos, mas também cuida da qualidade de criação, ambos os programas têm seu apelo: uma mulher pode amar seu marido fiel e ficar transtornada com o cafajeste que lhe mostre desejo.
Finalmente, um homem tendendo a papai pode bem tentar simular um cafajeste para melhorar suas chances.
E vice-versa: na ópera “Don Giovanni”, de Mozart, o proverbial cafajeste que deu origem ao termo Don Juan canta Zerlina, noiva de um camponês, prometendo-lhe casamento nobre na ária “La ti darem la mano” (“Você não foi feita para ser camponesa”).
Não adianta: para continuar a existir, nossa espécie está condenada a uma dança cheia de trapaças e desencontros, ainda que cheia de desejo de encontro e de sinceridade.

Daudt no Facebook: Responsabilidade fiscal no dia-a-dia

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Natureza Humana: Homens e mulheres 2

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Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas (que nunca foi publicado, mas será transcrito para este site em breve).

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997