Por que as crianças atuais são pentelhas


No artigo que vem depois do meu comentário, o Pondé arriscou um certeiro vetor. Mas não creio que seja o mais importante, que dirá o único.

Acho que Freud e as esquerdas têm culpa nessa história. Freud, pela descoberta de que a criação marca as crianças; os hoje pais que estiveram em análise botaram a culpa de seus problemas nos próprios pais, daí morreram de medo de “traumatizar” seus filhos e se sentirem culpados depois. As esquerdas, ao dividir o mundo em opressores e oprimidos, seduziu os jovens a se identificarem com os oprimidos e a seus pais como os opressores. Quando se tornaram pais, passaram a morrer de medo de serem os “opressores” e deram de paparicar os filhos, a se preocupar se os filhos os amam ou odeiam.

No Brasil, para agravar a situação, a partir da ditadura o conceito de autoridade ficou confundido com o de autoritarismo, o que só fez piorar as coisas. Os filhos ficaram pentelhos, os pais começaram a odiar isso e a operar a formação reativa de serem “bonzinhos” com os filhos. Aí é que a vaca foi pro brejo…

 

Luiz Felipe Pondé – FOLHA DE SP – 08/07/19

Os pais sentem culpa por acharem um saco tomar conta dos ‘pentelhos’

Vou descrever uma cena e depois vou perguntar o que você acha dela. Cenário: um restaurante bem frequentado da zona oeste de São Paulo.

Uma criança com cerca de cinco anos corre perto da mesa onde se encontra sua família, com uma taça de vidro de vinho vazia nas mãos. A família conversa acaloradamente. O restaurante cheio, as mesas umas ao lado das outras. Sexta-feira à noite. De repente, um ruído de vidro quebrando. A criança, o que era óbvio de se esperar, derrubou a taça no chão.

É razoável imaginar que os pais não perceberam que a criança corria de um lado para o outro com a taça de vidro nas mãos. Às vezes, ainda mais numa sexta-feira à noite, tudo o que você quer é relaxar, e não ficar vigiando o “pentelho”. Com o ruído da taça se espatifando no chão, os pais se levantam e correm até a criança. Pedaços de vidros se espalham pelo chão, caindo, inclusive, nas mesas em volta, nos pratos das pessoas, e mesmo nos cabelos das mulheres próximas ao incidente. Vou propor duas reações possíveis que os pais tiveram e você “vota”.

Reação A. Os pais correm a acudir a criança para ver se tudo estava bem com ela e, em seguida, passam a pedir desculpas às pessoas próximas, mortos de vergonha pelo ocorrido. Em seguida, buscam ajuda dos garçons para limpar a área atingida pelos cacos minúsculos de vidro.

Reação B. Os pais correm a acudir a criança para ver se tudo está bem com ela, enchem a criança de beijos, dizem que não foi nada, que a culpa não foi dela, e voltam para a sua mesa sem se dirigir às pessoas das mesas em volta e sem buscar ajuda junto aos garçons a fim de garantir que os cacos de vidro não permaneçam, colocando todo mundo ao redor em situação de risco.

Se você votou na reação A, errou. O que aconteceu foi a reação B, por incrível que pareça. Talvez, não tão incrível assim. Afinal de contas, a única preocupação dos pais foi garantir que a criança não se sentisse culpada pelo que aconteceu. A rigor, os culpados foram eles, adultos, responsáveis pelo que uma criança de cinco anos faz.

As avós sempre nos ensinaram que crianças não podem mexer em determinadas coisas.

Mesmo que, num momento de desatenção, você não veja que seu filho brincava com um objeto de vidro (todo mundo pode perder de vista uma criança de vez em quando), na sequência do incidente, após ver se tudo está bem, você deveria vestir o manto da humildade e pedir desculpas aos outros.

Mas as avós estão fora de moda. O que está na moda é uma pedagogia e psicologia da economia da autoestima das crianças. E isso está destruindo a educação, as escolas e as próprias crianças.

Os pais mais jovens hoje fazem dos seus filhos pequenos ditadores, perguntando a eles o tempo todo “o que desejam”. Num movimento de suposta instauração do “direito das crianças” não fazerem o que não querem, os pais fazem dessas crianças adultos insuportáveis, incapazes de lidar com os desafios que qualquer vida normal traz para as pessoas.

Aposto que, em poucos anos, não haverá mais avaliação alguma nas escolas, e essas existirão apenas para reforçar a autoestima dos pequenos mimados de 25 anos. Mas, afinal de contas, qual a causa disso?

Seriam muitas. Muita gente capaz está estudando o fenômeno, tentando entender por que os jovens, hoje em dia, entram na universidade com uma idade mental afetiva de uma criança de dez anos. As escolas são usinas de idiotas da autoestima. Eu arriscaria uma intuição acerca de uma das possíveis causas.

Além do conhecido narcisismo epidêmico do mundo contemporâneo (que faz dos adultos uns retardados mentais em geral), acho que uma das principais causas desse fenômeno é a culpa que os pais sentem por acharem um saco ter que tomar conta do “pentelho” —quase sempre um pentelho único.

Filhos estão fora de moda e diminuem a sensação de felicidade, autonomia e autoestima dos próprios pais (neste caso especifico porque, quando você tem filhos, você é continuamente julgado pelas
pessoas à sua volta, principalmente as mães).

O número de mentiras cresceu no mundo contemporâneo. Por exemplo: os pais morrem de medo que seus filhos venham a ser gays, lésbicas ou trans, mas quem confessar é fuzilado imediatamente.

A cultura Instagram transformou todos em idiotas de vidas posadas. A única forma de editar a criação dos filhos é fingir que está sempre tudo bem, e que tanto eles quanto os pais sempre vivem um roteiro de amor perfeito contínuo.

 


Sadomasoquismo

14/06/2019

Follow @FranciscoDaudt // O sadomasoquismo é o pior dos destinos da raiva (o melhor é conseguir que a justiça seja feita). Ele costuma ser visto como uma perversão sexual, com botas, chicotes e couro envolvidos, no entanto é muito mais comum que isso. Ele se [...]


Pensar mal

02/06/2019

Follow @FranciscoDaudt // O politicamente correto e a síndrome dos ofendidos (o excesso de sensibilidade que passa por sinal de “superioridade moral”) afetam diretamente a psicanálise. Essas modas são instrumentos de repressão do “mau pensamento”, e um psicanalista PRECISA pensar mal, precisa de liberdade de [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 340 páginas chamado “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, lançado em junho de 2017 (à venda nas livrarias da Travessa do Leblon e Ipanema, e através do site da Editora 7 Letras).

Seu penúltimo livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
  • Esquecer do Ex2017
  • Relação entre primos2017
  • Assimetria2017
  • Ciúmes dos pais2017
  • Pai perverso2017
  • Pessoa com traços psicóticos2017
  • o humor na vida2017
  • Casamento2017
  • Paixão por ídolos2017
  • Autoestima2017
  • felicidade2017
  • Papel da avó na criação dos filhos2017
  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997