Natureza Humana: Por que muitos homens desprezam as mulheres

Misoginia é magoa, é ressentimento, é inveja, é dor de cotovelo que homem tem de mulher. A palavra de origem grega significa “ódio, aversão, desprezo por mulheres”. Só se aplica a homens. Não tem correspondente feminino: misantropia é aversão a gente, não a homens. Como entender que héteros sejam os maiores misóginos, se são os que mais as desejam? Para isso precisamos entrar no imaginário do misógino, que exagera traços reais do sexo oposto e a esse exagero se agarra, criando um estereótipo preconceituoso que o consola de suas dificuldades com elas.

Atenção/“disclaimer”: tudo o que vem a seguir faz parte do pensamento misógino – é essencial para compreendê-lo:

“As mulheres têm uma commodity que interessa muitíssimo aos homens, e sobre ela têm controle: elas não precisam de ereção para fazer sexo, basta-lhes querer (a inveja começa aí, a ‘inveja da vulva’); além disso, as moças não gostam tanto de sexo quanto eles, é só ver que, quando decidem, elas lhes ‘concedem seus favores sexuais’, na melhor das hipóteses elas “dão”. Ora, se gostassem também, elas não concederiam, nem seria um favor, nem dariam, elas o desfrutariam igualmente. Pior, elas escolhem a quem vão concedê-lo (o ressentimento começa aí, e se mostra extremado no estupro, o ‘roubo da commodity’). Resulta que os homens necessitam demais de algo que elas possuem e controlam. Portanto, eles se tornam compradores desesperados que, por definição, compram mal e pagam caro. Tudo se resume então a uma questão econômica”.

Para o misógino, como se vê, todas as mulheres são prostitutas, só variando de preço: quanto mais honestas, mais caras, só compráveis com casamento e provimento. “Não é à toa que a prostituição é a profissão mais antiga do mundo, ela nasceu com a mulher”, dizem eles. Se não bastasse o desencontro de interesses (eles querem sexo; elas querem casamento), quando “aceitam pagar caro”, casam-se e têm filhos com elas, eles vivem ameaçados com a ideia de que os filhos podem não ser seus – enquanto elas têm certeza de que são as mães (e tome de inveja) – e estariam fazendo papel de otários, criando os filhos do Ricardão. Daí vem o ciúme sexual dos homens (o ciúme delas é de prestígio, de em quem ele investe: amigos, futebol etc.), que pode enlouquecer o misógino ao ponto do assassinato. “Ah, mas ela já estava separada quando começou a namorar o outro”. Sim, vai dizer isso para o misógino: ele imagina que ela já o traía antes.

A encrenca é que todas essas crenças, aqui apresentadas em forma de caricatura, moram de algum jeito na cabeça de todos os homens: o ser humano é composto das mesmas substâncias, o que varia é a quantidade relativa delas que cada um carrega. Há conflito de interesses entre os sexos: o sexo é mais importante para eles; o casamento é mais importante para elas; elas escolhem com quem se deitam; eles, com quem se casam. É daí que vem a desconfiança.

Cada um de nós vai ter que lidar com a própria misoginia, e a misoginia de nossos filhos. O melhor jeito que conheço é a pessoalidade dos relacionamentos: ver a pessoa, para além dos rótulos.

Natureza Humana: Projeto Gente Grande

09/11/2016

O pai gaúcho, camponês meio xucro, disse ao filho:   “Meu filho, na vida tu primeiro traça uma ‘meretriz’, depois tu segue essa ‘meretriz’ até o fim de teus dias, tchê!”   É certo que a vida sem diretrizes fica muito imediatista, muito da mão [...]


Psicanálise do mau-humor

27/10/2016

-“Tô puto!” -“Olha aqui a solução!” -“Eu não quero solução, quero ficar puto!” Assim é o mau-humor: ele contém uma mensagem em si. Mau-humor supõe plateia. Mal-humorado sozinho em casa? Nem pensar! Ele anuncia ao mundo uma acusação vaga, deseja que a audiência se sinta [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas (que nunca foi publicado, mas será transcrito para este site em breve).

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997