Natureza Humana: Infantil


“Alô, aqui fala Sinfrônio Epaminondas, acabei de ler seu artigo sobre alcoolismo, é muito bom! Você sabe quem sou eu?”

“Bem, eu conheço a fama de um cirurgião infantil com esse nome”.

Depois de um breve silêncio, ele me corrigiu: “Pediátrico”.

Tive que segurar um ataque de riso ao imaginar um cirurgião tendo um faniquito no centro cirúrgico porque a enfermeira lhe dera um instrumento errado: era o cirurgião “infantil”…

Mais tarde me dei conta de que “infantil” tem mesmo um duplo sentido, e que, se é muito desejável a preservação da criança que existe dentro de nós – afinal, a neotenia (apego à forma infantil de uma espécie) e sua consequente capacidade de invenção, criatividade e brincadeira, é das características mais preciosas do sapiens –, a infantilidade é outra coisa… e atrapalha.

Ela é um resultado pouco conhecido das doenças psíquicas, vale dizer, do complexo de Édipo. Este é o nome que Freud deu ao legado triste de nossa infância, um assunto complicado de quem nos criou em que ficamos enredados sem querer, e que arrastamos como um peso morto pela vida afora. As doenças psíquicas nos aprisionam à infantilidade, especialmente no gerenciamento de dois temas cruciais para lidar com o mundo: a raiva e o amor.

O pequeno troglodita que somos quando pequenos reage à raiva com o tacape, mas logo vem a civilização lhe ensinar que “isso é feio, não pode”. Certo, mas… o que pode, então? Não ter raiva é impossível, precisaríamos de canais competentes para que ela corrigisse as injustiças que a causaram. É muito raro que isso seja ensinado, só nos ensinam a reprimi-la. Como resultado mais comum surge a criança boazinha: uma pobre coitada que mendiga amor suprimindo a raiva, e com isso sofrerá toda a sorte de abusos durante sua vida, começando com o bullying na escola. A “bondade masoquista” é, portanto, uma infantilidade.

Mas seu oposto também o é. A criança rebelde, explosiva e violenta, prisioneira da vingança reativa, é tão infantil e despreparada para a vida de gente grande quanto a primeira.

E há o despreparo para o gerenciamento do amor – sim, completamente ligado ao primeiro, para saber amar é preciso saber gerenciar a raiva (ou alguém acha que não vai sentir raiva do ser amado?). Imagine aquele bonzinho amando! Vai se ferrar… Imagine o explosivo, então!

Quando o item “sexo” se apresenta, mais infantilidades aparecem: ter vergonha do próprio desejo leva a negá-lo, a acusar o outro de sem-vergonhice. A necessidade de afirmar o próprio desejo – ou de combater suas inseguranças – leva ao don-juanismo, à conquista compulsiva que se satisfaz em si, às perversões (quando se é prisioneiro da transgressão, do desafio às leis da cultura).

Essa face infantil das doenças neuróticas e perversas me fez ver a necessidade de o psicanalista agir numa direção insuspeitada: ele precisa exercer uma função de pai tardia para seus clientes, apresentar-lhes ferramentas úteis para o gerenciamento da raiva e do amor.

Não basta deslindar o Édipo, entender o que nos prende à infância, é também preciso deixar a infantilidade para trás.


Natureza Humana: Afeto e contabilidade

05/07/2017

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Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 340 páginas chamado “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, lançado em junho de 2017 (à venda nas livrarias da Travessa do Leblon e Ipanema, e através do site da Editora 7 Letras).

Seu penúltimo livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
  • Esquecer do Ex2017
  • Relação entre primos2017
  • Assimetria2017
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  • Pai perverso2017
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  • Paixão por ídolos2017
  • Autoestima2017
  • felicidade2017
  • Papel da avó na criação dos filhos2017
  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997