Artigos: Riqueza e desigualdade – Folha de S. Paulo (19/05/2019)


O senso comum brasileiro diz que o capitalismo é malvado e que o socialismo é bonzinho. Só que não é bem assim…

 

“Toda propriedade é um roubo”, disse Pierre-Joseph Proudhon, o teórico do anarquismo do século 19. A crença de que, se há ricos, é porque eles exploram os pobres tem sido a base do pensamento das esquerdas. Ela explicaria a desigualdade, e é a justificativa moral da luta por justiça social que empreendem.

 

Isso era verdade até o surgimento do capitalismo. Um senhor feudal era rico porque explorava os camponeses do feudo. Não se criavam riquezas; elas surgiam aqui por tirarem dali.

 

Então o capitalismo produz riqueza? Não é preciso roubar dos pobres? Que evidências há disso? Bem, a história é longa, mas só vamos tomar um único dado para essa demonstração: a população mundial.

 

Ela se manteve estável por séculos, em torno de 300 a 500 milhões de pessoas até 200 anos atrás, quando do surgimento da revolução industrial, a principal decorrência do capitalismo. A partir daí começou seu crescimento vertiginoso até os atuais 7,5 bilhões. Como se uma casa de dois pisos virasse subitamente um prédio de 30 andares.

 

Não haveria como isso acontecer através de roubo dos mais pobres. Criou-se a riqueza, portanto.

 

E a desigualdade? Aceitamos bem várias delas: de talento, beleza e inteligência. Aceitamos astros de rock, de TV, ou jogadores de futebol muito ricos, pois achamos que eles merecem. O que desperta a indignação das pessoas é a desigualdade de bens fruto do capitalismo: o rico empreendedor, o rico banqueiro. Não se vê o talento nem o merecimento deles. São vistos como predadores, causadores da pobreza. E o senso comum “sabe” qual é o causador dessa desigualdade: o capitalismo.

 

No entanto, ao gerar riqueza, o capitalismo fez mais pelo combate à desigualdade que qualquer outro sistema econômico, aí incluído o socialismo real, que só gerou desigualdade na miséria.

 

Um morador de “comunidade” vive hoje com mais conforto do que um senhor feudal da Idade Média, que não tinha ar condicionado nem televisão. Nunca houve uma classe média como a partir do capitalismo . Aliás, nunca houve classe média antes. A doença do capitalismo é a obesidade, não a fome.

 

Agora, o capitalismo é predador. Por ser muito sintonizado com a natureza humana, uma vez deixado solto ele explorará e dominará. Sua face mais cruel foi a escravatura. Por isso a democracia representativa põe-lhe freios, civiliza-o. Quem mais bem faz à domesticação do capitalismo foi Karl Marx: ao apontar sua face cruel, ao predizer sua queda, ele fez com que as democracias começassem a tornar o capitalismo mais civilizado, a tirar sua selvageria. Diferentemente do dogmático socialismo, o capitalismo é um sistema vivo, ele está em permanente mudança para sobreviver, em permanente adaptação.

 

E aí as esquerdas democráticas têm um papel fundamental, que é fazer com que a riqueza gerada pelo capitalismo reverta cada vez mais para a igualdade que a democracia almeja: igualdade de oportunidades e frente à lei. Educação,  infraestrutura e segurança. Confiança de que a Constituição será aplicada a todos igualmente.

 

 

 

 


Artigos: Riqueza e desigualdade

24/04/2019

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Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 340 páginas chamado “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, lançado em junho de 2017 (à venda nas livrarias da Travessa do Leblon e Ipanema, e através do site da Editora 7 Letras).

Seu penúltimo livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
  • Esquecer do Ex2017
  • Relação entre primos2017
  • Assimetria2017
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  • Paixão por ídolos2017
  • Autoestima2017
  • felicidade2017
  • Papel da avó na criação dos filhos2017
  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997