Natureza Humana: Homofobia

É uma palavra engraçada, sua tradução do grego é “medo de iguais”. Ora, toda a natureza humana está voltada para ter medo dos diferentes: quem não é da tribo deve ser inimigo, pensavam nossos ancestrais africanos (só eles?), de modo que a melhor palavra grega para nós seria “heterofobia” (medo de diferentes).

Mas a acepção que ficou é de “ódio aos gays”. Se você reparar, é um sentimento quase que exclusivo de homens em relação a outros homens. O que leva a isso? Que encrenca têm os homens com o homoerotismo?

É coisa complexa, começa com a formação da identidade masculina e o horror aos diferentes. Quando um menino é pequeno, ele começa a perceber que as meninas são de fato diferentes dele: só 10% delas são “Tom boys”, sobem em árvores, jogam futebol, correm, lutam e são companheiras dele como um amigo. As outras 90% fazem coisas incompreensíveis para ele, como brincar de boneca e de casinha. São diferentes.

Ai, meu deus, já ouço os culturalistas a dizer que isso é “porque eles são ensinados assim”. Não é! Crie um menino dos 90% (os outros 10% equivalem ao Tom boy das meninas) entre tias, babados e bonecas, dentro de um quarto cor de rosa, e ele vai querer correr e transformar as bonecas em super-heróis.

Os meninos fazem uma liga entre si, e, como dizia o clube do Bolinha, “menina não entra”. É aí que começa a misoginia (aversão às mulheres), que vai ganhar adereços novos ao longo da vida dos meninos. Essa liga é fonte de identidade e de patrulha: quem se comportar “diferente” vai ser chamado de “mulerzinha”, “mariquinha”. Veja bem: não é de “viadinho”. Não, o errado é parecer menina.

Aí também começa uma característica masculina diferenciada: a amizade entre homens. Na caça e na guerra nossos ancestrais depositaram sua sobrevivência nas mãos dos amigos, e isso nos selecionou para amar o amigo e confiar nele. Em termos de fidelidade, ou mesmo de intensidade, amor de amigo é único, forte e silencioso. Exceto quando de pileque: aí seus afetos tornam-se explícitos e sentimentais. Não há correspondente entre mulheres, é coisa de homem mesmo.
Mas só no pileque essa explicitude é perdoada; no resto do tempo, os amigos vivem se patrulhando, e/ou brincando, das possíveis viadagens de seus comportamentos.

Para piorar, ágape, filia e Eros (camaradagem, amizade e amor sensual) não têm fronteiras rígidas. E pior ainda: entre um gay absoluto e um hétero absoluto existem cinqüenta tons de cinza (ou os seis graus da escala Kinsey). De modo que não é incomum um hétero entrar em crise com sua identidade masculina por ter vislumbrado em si um desejo, um olhar, uma atração “incorreta”.

Essa é a hora da ameaça, véspera do ódio. Como um islâmico inseguro de sua fé, que precisa matar os infiéis por isso, o “abalado” sai à caça do seu novo inimigo: está inaugurado o homofóbico perigoso. Ele quer matar fora algo que mora dentro de si: a suspeita de amor “errado”, capaz de destruí-lo como o “homem” que ele se concebeu ser.

É quando homofobia retorna ao seu sentido original: medo de iguais. Pois não existem homofóbicos entre héteros absolutos. Eles não estão nem aí…


Natureza Humana: Uma filosofia prática

07/07/2016

“Amor à sabedoria”: o significado original da palavra filosofia não poderia ser mais, ao mesmo tempo, compreensível e encantador. Sabedoria não é um simples saber, é o saber que ajuda na vida, é a compreensão, é o saber virtuoso. E prático. Assim era na Grécia, [...]


Natureza Humana: Independência e autonomia

23/06/2016

A psicanálise tem uma ideologia? Se ideologia for tomada na acepção de conjunto de convicções, ideais e propósitos, sim, a psicanálise inevitavelmente conterá uma ideologia. A começar pelo nome: análise, em sua origem, significa decompor, separar em partes para examinar; psique é a alma grega, [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas (que nunca foi publicado, mas será transcrito para este site em breve).

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997