Natureza Humana: Crenças injustas


 

Meu filho só entrou em contato com os dez mandamentos aos nove anos, quando entrou num colégio católico. Diante do que mandava honrar pai e mãe, me perguntou candidamente: “Por que não tem um mandando honrar filho e filha?”

O cliente tinha doze anos, e se masturbava alegremente desde os nove, quando seu irmão mais velho veio lhe informar que aquilo era pecado mortal, e que ele podia ir para o inferno se não se confessasse. Claro que ele não parou, mas passou a sentir uma culpa enorme por fazer aquela coisa tão boa.

Um leitor me escreveu dizendo que considerava a homossexualidade uma aberração, pois o normal era homem desejar mulher, pela sobrevivência da espécie. Respondi-lhe que a natureza não produz apenas coisas funcionais, que pelo seu raciocínio o apêndice não deveria existir – só existe para causar apendicite? – e que os 10% de canhotos que sempre houve também seriam aberrações. Escreveu-me de volta dizendo que entendia meu ponto, mas que para ele já estava muito tarde para mudar, pois tinha 75 anos.

Essas histórias mostram como podemos absorver crenças injustas – e erradas – numa época em que ainda não temos como discuti-las, nem como rejeitá-las. Meu filho teve a sorte de conhecer uma delas quando já podia fazer a pergunta óbvia que expunha sua injustiça, mas a história do leitor gay me doeu no coração: uma vida inteira se considerando aberrante!

Elas não se derivam só da religião formal, ao contrário, sua maioria vem da principal religião informal que existe: o senso comum. Ele vem derramando crenças injustas e erradas em nossos ouvidos desde que nascemos, e elas se entranham num software poderoso em nosso cérebro: o superego.

Nós nos movemos por dois motores biológicos principais: o da própria sobrevivência, e o da sobrevivência da espécie. O superego cuida da primeira, dando medos inatos que salvam nossas vidas (confinamento; altura; escuro; abandono; ameaça física; répteis e grandes insetos voadores, p.ex.).

Mas depois ele vai se emprenhando pelo ouvido de crenças erradas que parecem fundamentais para sobrevivência, não só de si, mas que envolvem o segundo motor, o sexo.

Entre as piores está a que divide a humanidade em superiores e inferiores, vencedores e fracassados (“winners e losers”, em inglês), fodões e merdas (em português claro).

Oriunda da nossa necessidade de ostentar troféus que nos tornem atraentes para o sexo oposto, ela é o motor das guerras, das brigas de torcida, da busca desesperada de proeminência social (nada de errado com proeminência social em si), da ganância, do jogo sujo, da corrupção.

Exemplo incrível: Vladimir Putin, sabedor que Angela Merkel tem medo de cães, chamou seu imenso labrador para se deitar aos pés dela, em sua visita ao Kremlin. Perguntada depois, Frau Merkel disse: “Só pessoas muito inseguras se utilizam de um expediente assim. O que não faz mais que deixar à mostra suas fragilidades”.

A chanceler ganhou o meu respeito, não apenas por seu diagnóstico preciso, como por mostrar que há meio melhor de se obter proeminência social do que o injusto winner-loser: a sabedoria.


(Em breve): A CRIAÇÃO ORIGINAL – A teoria da mente segundo Freud

29/03/2017

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Natureza Humana: Os destinos do obsessivo

15/03/2017

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Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas (que nunca foi publicado, mas será transcrito para este site em breve).

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
  • Esquecer do Ex2017
  • Relação entre primos2017
  • Assimetria2017
  • Ciúmes dos pais2017
  • Pai perverso2017
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  • o humor na vida2017
  • Casamento2017
  • Paixão por ídolos2017
  • Autoestima2017
  • felicidade2017
  • Papel da avó na criação dos filhos2017
  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997