Natureza Humana: Por que pisamos em ovos com nossos filhos

Vejo crianças fazendo manha, gritando em restaurantes, se jogando no chão, esperneando no shopping quando contrariadas, desrespeitando professores, sendo insuportáveis…

Por que essas coisas se tornaram cada vez mais comuns, e por que eram tão raras quando eu fui criança? Lembro-me de minha mãe dizendo para meu irmão, que a olhava furibundo depois de um merecido – e literal – puxão de orelha: “Você pensa que me mete medo com esses olhos?” E não metia mesmo. Ao contrário de muitos pais da atualidade, ela não tinha medo de criança, ela não sofria de pedofobia.

Essas palavras que terminam em fobia passaram a ser entendidas mais recentemente como “ter-se ódio a”, como em “homofobia”, mas o sentido original é “medo de”. No entanto, o medo e o ódio não andam distantes quando o assunto é a homofobia, ou a pedofobia.

Supostamente, somos mais fortes que uma criança, sempre o fomos. O que as tornou tão poderosas ao ponto de temê-las, de nos sentirmos impotentes para o exercício da autoridade tão necessária para prepará-las para a vida?

Há vários fenômenos confluentes para esse resultado, mas ele resulta de duas mudanças básicas: a maneira como vemos as crianças e a maneira como vemos a autoridade.
A concepção do que é uma criança mudou drasticamente nos últimos trezentos anos: de objeto da propriedade dos pais, podendo ser vendida ou morta sem consequências legais, até virar um bibelô, coitadista, frágil, traumatizável, tutelada por leis e estatutos protecionistas, que deve ser alvo de um amor incondicional beirando a subserviência, para quem os pais devem dar “tempo de qualidade”, já que não devotam todas as horas de sua vida (“como deveriam”), e diante de quem é dever moral de quaisquer pais minimamente educados se sentir culpadíssimos por tudo o que erram em sua criação (e eles “erram muito”, espere até seu filho crescer e ir a um psicanalista para você ver a desgraça que fez nele).

Ou seja, as crianças passaram de moscas mortas a monstros poderosos diante de quem os pais morrem de medo.

Nenhuma surpresa, pois o movimento mais comum da humanidade é o pêndulo da formação reativa: ficamos com horror das barbáries cometidas contra as crianças no passado, e por isso exageramos para o lado oposto, passamos a mimá-las como se fossem quebrar com um espirro. Antes eram invisíveis; agora damos-lhes toneladas de atenção, até a brincar com elas nos impomos! Antes éramos tiranos; agora as tiranas são elas, nós lhes passamos o bastão.

É quando o medo desperta o ódio: os filhos gritam e a gente fica de saco cheio. Mas odiá-los é tabu impensável, pior que incesto, por isso nós o reprimimos, e em seu lugar surge a bondade reativa: “Meu amor, mamãe vai te explicar que gritar não é bonito”. Mais gritos; mais “bondade”. Pais bonzinhos podem ferrar a vida de seus filhos por falta de autoridade.
Autoridade: depois de anos de ditadura, passamos a confundir autoridade (a condução de quem sabe mais) com autoritarismo (imposição pela força), e com isso, perdoem a metáfora, jogamos o bebê fora junto com a água do banho.

Natureza Humana: O que acontece quando o casamento se torna uma prisão

03/08/2016

A paixão tem prazo de validade (cerca de três/quatro anos) e três destinos possíveis: a indiferença mútua, quando então há uma separação sem rancor; o amor companheiro, seu melhor resultado, quando a amizade erótica entre pessoas que se conhecem e se admiram toma o lugar [...]


Natureza Humana: Homofobia

20/07/2016

É uma palavra engraçada, sua tradução do grego é “medo de iguais”. Ora, toda a natureza humana está voltada para ter medo dos diferentes: quem não é da tribo deve ser inimigo, pensavam nossos ancestrais africanos (só eles?), de modo que a melhor palavra grega [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas (que nunca foi publicado, mas será transcrito para este site em breve).

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997