Natureza Humana: A raiva é a mãe da justiça

“Eu sou o ar que ela respira? Isso é triste, porque ninguém dá bola para o ar, a menos que ele falte”.

A mesma coisa estranha acontece com a justiça e a saúde: se elas estão presentes, a gente nem nota. Se você não estava notando seu pé, é sinal de que ele está com saúde, caso contrário ele chamaria a sua atenção.

Temos notado a justiça, pois neste momento o país atravessa um desses transes históricos em que sua falta precisa ser aguda e amplamente corrigida. E está sendo, num “reality show” melhor que qualquer novela.
O que é justiça? Hans Kelsen que me perdoe, mas quero um sentido mais primitivo, mais da natureza humana, pois ele está presente desde nosso nascimento, num software genético voltado para a falta de justiça: o sentimento de que alguma coisa está errada, e que precisa ser corrigida. Esse sentimento pode ter o nome genérico de “irritação”, uma perda da paz, que ganhará mais tarde o nome de raiva.

Um bebê molhado ou com fome perde a paz, se irrita e chora, pois é tudo o que consegue em sua impotência. O choro dele nos irrita, e corremos para devolver sua paz, de modo a recuperar a nossa.

Uma irritação mais sofisticada: ciúme. A criança agora tem três anos e ganhou um irmãozinho. Toda a atenção da família, que era exclusiva dela, se volta para a nova cria. A criança prejudicada tem raiva; já não chora, pois tem mais potência: ela só quer matar o intruso. Dizem-lhe que isso é feio, que ela deve amar o irmão. A raiva não passa, a paz não vem, a justiça não foi feita. Ela não seria feita matando o caçula, mas também não foi feita calando a criança. Uma solução mais sofisticada se fazia necessária. A coisa está ficando mais complexa mesmo, e vai piorar.

“Eu não quero vingança, quero é justiça”. Quantas vezes ouvimos isso em entrevistas na cena do crime? Bem traduzido, daria em: “O que eu quero mesmo é vingança, mas na falta de melhor, fico com essa droga de justiça”.

A pena de Talião era mais próxima do nosso desejo (“olho por olho; dente por dente”), daí a palavra “retaliação”, mas o mundo foi se tornando cada vez mais civilizado, fomos obrigados a abrir mão da violência em favor do Estado (sim, ele tem o monopólio da força bruta, e precisa usá-la de vez em quando) para poder conviver com estranhos.

Já não podemos fazer “justiça com as próprias mãos”, mas continuamos querendo. É isso que Freud chamou de “mal-estar na civilização”.

Ora, “mal-estar” é um eufemismo para raiva. Precisamos fazer alguma coisa para diminuí-la. Precisamos aperfeiçoar a justiça, este é o único caminho para a civilização triunfar sobre a barbárie, pois ela mora dentro de nós desde pequenos, lembra?

“A justiça tarda, mas não falha”? Errado: a justiça que tarda é falha. A prisão por condenação em segunda instância é um dos meios de aliviar nossa raiva de ver uma justiça que nunca alcança poderosos endinheirados.

Seja no âmbito familiar, seja no público, não há caminho para a redução de nossa raiva que não passe pelo aperfeiçoamento da justiça.

Dentro do horror, essa é a beleza do momento que vivemos: a busca de uma justiça honrada igual para todos.


Natureza Humana: Burrice

14/09/2016

“Antes do meu primeiro casamento eu não era solteiro, era imbecil: tinha vergonha do meu desejo, pensava que apresentá-lo a uma moça seria um insulto, que elas deveriam ser tratadas como deusas em pedestais”. O relato de consultório, feito por pessoa inteligente, diz: a pessoa [...]


Natureza Humana: As razões do coração

02/09/2016

“O coração tem razões que a própria razão desconhece”. A primeira vez que ouvi essa frase foi num samba de Marino Pinto e Zé da Zilda (“Aos pés da santa cruz”), mas ela havia sido dita trezentos anos antes pelo filósofo e matemático francês Blaise [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro em 1948. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 400 páginas (que nunca foi publicado, mas será transcrito para este site em breve).

Seu último livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997