Natureza Humana: O pior dos vícios


“You’re a loser” é o pior chingamento da língua inglesa, e sua tradução mais realista é “você é um merda” (“perdedor” e “fracassado” não fazem jus à força da expressão original). Isso se dá porque eles – sobretudo nos EUA – dividem o mundo em “winners” e “losers” (fodões e merdas, a partir de agora reconhecidos pela sigla f&m, que é para não ofender sensibilidades), as pessoas vivem na aflição de como serão classificadas.

Isso pode ter começado entre os americanos, mas agora é fenômeno mundial, e sentimos essa guerra f&m a toda hora.

Explico a guerra: o sentimento de se ver como um “m” equivale a se perceber como um pária sem perspectivas na vida. É tão insuportável, dá tanta raiva, que a pessoa fará qualquer negócio, até matar, para aliviá-lo. Mas a reação mais comum é buscar fazer alguém mais se sentir um “m” para ter um mini-triunfo como “f” (“Ora, “m” é o outro, eu sou “f”!). Vamos chamar isso de defesa-f. É um mecanismo de defesa contra a angústia e, se usado constantemente, torna-se uma doença, uma variação do jogo sadomasoquista (s&m) sem as botas e o chicote e sem o fetiche sexual, o que poderia até ter sua graça, mas esse é sutil e não tem graça nenhuma, a menos que se fale da graça do ridículo, do deboche e da humilhação, de se rir do outro, e não com o outro.

Torna-se um vício, o pior dos vícios. Vício é uma ação compulsiva que causa dano ao próprio e a outros, como é o caso. Mas por que o pior? Por não ser óbvio, e por se incorporar à cultura como uma crença, uma ideologia. Por ganhar o endosso do senso comum, ao ponto que pensamos em alguém e automaticamente já o classificamos no f&m. Listo abaixo alguns dos desdobramentos que fazem do vício f&m um gravíssimo e crescente problema de saúde pública mundial.

Criação dos filhos: os pais perderam a autoridade junto a eles, muito por medo de que eles não os amem (seriam “m” por isso). Os filhos detectam esse medo, manipulam os pais com ele, e os pais se vingam sutilmente, entrando no jogo f&m com os filhos. Ah, mas nunca lhes batem fisicamente…
Bullying: costumava ser perseguição aos diferentes. Hoje é escancaradamente jogo f&m.
Drogas e álcool: as drogas podem ao mesmo tempo consolar o sentimento de ser um “m”, e iludir momentaneamente de que você é um “f”.
Redes sociais: pareça um “f” e faça os outros se sentirem “m”, parece ser seu principal uso.
Politicamente correto: a moda de se sentir ofendido por tudo é totalmente f&m (“me chamaram de ‘m’, mas agora eu vou mostrar quem é o ‘m’”).
Relação de casais: sim, o sadomasoquismo costuma fazer mais bodas de ouro que o amor, mas veja o teor do maltrato mútuo de um casal e me diga se não é f&m?
Ciúmes: ser corno, dentro da crença, é ser “m”, e a defesa-f pode ser o assassinato.
Inveja: “tenho ódio de quem é melhor que eu, está me fazendo de ‘m’!”
Política: preciso explicar? O que é a guerra entre “nós” e “eles”?
Qual a alternativa? O cultivo da virtude: a humildade de se saber humano e frágil (e não um “m”), e a ambição de ser bom (e não “f”).

Até lá, espero que a guerra f&m entre Trump e Kim Jon-um não nos mate a todos.


Natureza Humana: A cascata

27/09/2017

Follow @FranciscoDaudt //   “É tudo mentira. Ele é um simulador, frio, calculista, ele é capaz de simular uma mentira mais verdadeira que a verdade”. Pois é. Eu estava bem feliz de tratar de assuntos conceituais da natureza humana, de não ter que falar de política, desde que Madame [...]


Natureza Humana: Esperança

13/09/2017

Follow @FranciscoDaudt // “A pontualidade é a virtude sem testemunhas”, dizem os franceses em solidariedade àqueles que esperam. Esperar é muito chato, mas nossa relação com a espera é ambivalente: “Quem espera sempre alcança”; “O melhor da festa é esperar por ela”. E há a [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 340 páginas chamado “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, lançado em junho de 2017 (à venda nas livrarias da Travessa do Leblon e Ipanema, e através do site da Editora 7 Letras).

Seu penúltimo livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
  • Esquecer do Ex2017
  • Relação entre primos2017
  • Assimetria2017
  • Ciúmes dos pais2017
  • Pai perverso2017
  • Pessoa com traços psicóticos2017
  • o humor na vida2017
  • Casamento2017
  • Paixão por ídolos2017
  • Autoestima2017
  • felicidade2017
  • Papel da avó na criação dos filhos2017
  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997