Natureza Humana: Culpa corrige?


Para quem cresceu – como eu – na cultura católica, o sentimento de culpa era a maior ferramenta da correção dos erros (pecados). Nós pecávamos, infringindo um (ou mais) dos dez mandamentos, ficávamos envergonhados, íamos nos confessar, o padre endossava nossa culpa com seu perdão e sua penitência… e saíamos dali aliviados para pecar novamente. Era simples assim.

Simples, certamente; mas, eficiente para construir um indivíduo ético? Nem tanto… De fato, há no sentimento de culpa uma injustiça embutida que produz uma revolta silenciosa contra ele, o que depois se manifesta como reincidência do erro.

Senão, vejamos: o mecanismo que nos produz o sentimento de culpa é o de nos ver como pessoas horríveis. Para isso é preciso ter-se na cabeça um modelo ideal de pessoa, e sua contraparte, o antimodelo. O imaculado e o imundo. O santo e o pecador.

Em termos psicanalíticos, isso supõe que nossos valores não pertençam a nós mesmos, mas a nosso Superego. Nós  abaixo dessa instância ideal e julgadora, sempre lutando para alcançá-la, sempre intuindo que ficaremos na dívida. Desse modo, nossa relação com o ideal (vale dizer, com nosso Superego) é sadomasoquista, é uma relação fodão-merda: aos olhos dele, nós seremos sempre inferiores e horríveis. É isso que ocorre no sentimento de culpa: a gente se sente um merda.

Esta é a injustiça embutida no sentimento de culpa; a sentença é excessiva, não há direito de defesa, não há apelação a outras instâncias, ela nos causa revolta e nos faz rejeitar/vingar-se o/do tribunal que nos condenou. Ela nos faz ter uma relação de veneração e ódio ao Superego: ora somos submissos a ele, ora “pecamos” de novo tendo duas motivações (o sabor do desejo proibido e o sabor de mandar o Superego/tribunal às favas).

Quando procurei a psicanálise pela primeira vez, demorei para entender que o analista kleiniano tinha como método de cura o mesmo arsenal que a igreja católica: a culpa. Só que agora eu deveria me arrepender de meus sintomas, e prometer nunca mais tê-los. Tal como o método católico de combater o pecado, é claro que não funcionava.

Mais recentemente fui informado que a psicanálise lacaniana propõe que, em vez de culpa, a pessoa se torne responsável por seus desejos e por sua conduta. Isso me pareceu certamente um avanço, mas ainda vejo problemas: sem que se questione o tribunal do Superego, sem que se rejeite seus ideais de perfeição inatingíveis, sem que se repense uma nova maneira de implementar a ética, facilmente a responsabilidade funcionará como culpa, e tudo voltará à estaca zero.

A proposta que me surgiu a partir do conhecimento do Superego, através de Freud, foi a de acabar com ele (sei que isso não é possível, mas ter isso como meta é). Não de renegá-lo, mas de olhar para os valores desejáveis que moram nele, e de se apoderar desses valores como coisa nossa. Em palavras psicanalíticas: onde esteve o Superego, que haja o Ego! Ou seja, que ponhamos o Superego e suas leis sob um olhar crítico. Que se faça uma assembleia constituinte a partir do rompimento com a ditadura do Superego, exatamente como foi feita em 1986 entre nós, com o fim da ditadura militar. Que se aproveitem como valores nossos – de nosso Ego – as leis que servirem, e que se varram as leis autoritárias para o lixo da história.

A partir daí, a culpa pode ser bem aposentada em sua função capenga de corregedora dos costumes. Ela é substituída com vantagens imensas pelo simples reconhecimento do erro. Essa prática cultiva a humildade e nos dispensa de alternar arrogância com humilhação. Eis porque venho treinando, em vez de dizer “desculpe-me” (que endossa a culpa), dizer simplesmente “erro meu”.

Uma historinha para ilustrar esse processo. Na festa de 25 anos de formados do colégio Santo Inácio, perguntei ao nosso antigo padre prefeito de disciplina:
“Padre, ouvi dizer que masturbação não manda mais o pecador para o inferno, é verdade? Então, o que aconteceu com aqueles que morreram antes da mudança da lei?”
Ele desconversou:
“Daudt, eu acho que você já bebeu muito vinho…”


Natureza Humana: Raiva de quem se ama .2 – O que fazer?

25/06/2018

Follow @FranciscoDaudt //   A principal dificuldade para o bom gerenciamento da raiva é se estar prisioneiro do vício fodão-merda (f&m). Se qualquer injustiça que nos fazem, mesmo a de uma fechada no trânsito, é percebida como “estão querendo tirar uma de fodão pra cima de mim”, é inevitável [...]


Natureza Humana: Um dilema de consciência

11/06/2018

Follow @FranciscoDaudt // “O Waze  disse para ir pela direita! Ele sabe melhor que você, ele tem inteligência e informação!” “Certo, mas eu tenho inteligência e consciência, e prefiro ir pelo caminho de sempre. Não estou tão interessado em ganhar uns minutos, quero mais ver [...]

Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 340 páginas chamado “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, lançado em junho de 2017 (à venda nas livrarias da Travessa do Leblon e Ipanema, e através do site da Editora 7 Letras).

Seu penúltimo livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
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  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997