Natureza Humana: Esperança


“A pontualidade é a virtude sem testemunhas”, dizem os franceses em solidariedade àqueles que esperam. Esperar é muito chato, mas nossa relação com a espera é ambivalente: “Quem espera sempre alcança”; “O melhor da festa é esperar por ela”.

E há a esperança. Ela nos importa muito, ao ponto de ser a última que morre. É verdade que existe a esperança vã, e a esperança em deus, mas quando a esperança está ligada à expectativas realistas de que venham os frutos de uma boa semeadura, ela é um sentimento fundamental em nossas vidas: o momento em que avançamos para além do princípio do prazer imediatista e conseguimos investir no médio e longo prazo, levando em conta o princípio da realidade.

“Si quieres peras, planta perales, no las pida al olmo”, disse com razão um argentino famoso, estímulo para uma boa construção do sentimento de esperança. Sim, porque uma esperança de boa qualidade se constrói com atos virtuosos. É diferente da expectativa insconsciente dos mimados, de que o dinheiro – e tudo o mais que queiram – cairá do céu. Nem sei se eles têm essa esperança, acho mesmo que eles tomam a coisa como garantida (“take it for granted”) porque são mais que estragados (“spoiled”), acham-se no direito de ter isso (“entitled”).

Essas reflexões sobre a esperança me vieram por causa dos trinta anos do Instituto Superior de Educação Pró-Saber, aqui do Rio, que forma professores para comunidades carentes sob o lema da “transformação com esperança”. Pessoas pobres (e não “humildes”, nem “simples”, pois essas são qualidades que eu mesmo busco ter, sem ser pobre) encontram ali a oportunidade de se transformar em algo melhor – para si e para os outros –, investindo numa esperança bem construída, uma capacitação universitária que resulta em ações virtuosas contagiantes.

É como se a cada momento essas pessoas estivessem diante de duas portas: a da transformação com esperança, e a da vitimização coitadista, da pena de si mesmo, de esperar viver como cafetão da própria miséria. Que porta escolherão? O Pró-Saber lhes estende a mão para que escolham a primeira, e isso é muito bonito.

Estender a mão para quem queira se transformar, crescer, voar com asas próprias. Dou-me conta de que isso é um permanente alimento em minha vida, é o que faço com meus filhos, clientes, leitores. E não pense que se trata de um gesto desprendido e altruísta, não, é em interesse próprio, pois isso me transforma, me faz crescer e me dá asas para voar. Se a ética é o acordo de boa convivência, de não fazer o mal, a ética ativa vai além, acrescenta e transforma, é onde ela se encontra com a estética: constrói beleza.

Nosso pobre país está doente, carente de ética e de beleza moral. Assistimos com sentimento de impotência a um desfile de horrores, o único alento vindo da surpresa de ver o pus saindo e malfeitores poderosos entrando… na cadeia.

Mas há algo que está a nosso alcance e que todos os dias temos a chance de fazer: escolher a porta da transformação, do ato virtuoso por pequeno que seja: ele será nosso tijolo na construção de uma nova catedral, a esperança.

 

 

 


Natureza Humana: Narcisos

30/08/2017

Follow @FranciscoDaudt // “Ah, cansei de falar de mim! Fala um pouco agora você, sobre mim…” Esses narcisistas sempre me intrigaram, e isso me levou a ir entendendo uma coisa ou duas sobre eles. A primeira e mais óbvia é que seu maior interesse é [...]


Natureza Humana: As penas do pavão

16/08/2017

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Francisco Daudt

Sobre mim

Francisco Daudt nasceu no Rio de janeiro. Mora e trabalha no mesmo bairro do Cosme Velho, onde sempre viveu. Formado médico pela Faculdade de Medicina da UFRJ em 1971, praticou clínica gastrenterológica (pós-graduado pela PUC-RJ) durante cinco anos, quando decidiu migrar para a psicanálise. Como médico, pôde fazer sua formação desvinculada de instituições, escolhendo seu analista didata, seu supervisor e seus professores de teoria freudiana. Pratica psicanálise clínica desde 1978, tendo lecionado teoria freudiana durante dez anos, quando resumiu seu aprendizado em um livro de 340 páginas chamado “A Criação Original – A teoria da mente segundo Freud”, lançado em junho de 2017 (à venda nas livrarias da Travessa do Leblon e Ipanema, e através do site da Editora 7 Letras).

Seu penúltimo livro, “A natureza humana existe – e como manda na gente”, foi lançado em agosto de 2013 pela Casa da Palavra, e se encontra à venda em forma de livro físico e digital, assim como “Onde foi que eu acertei – o que costuma funcionar na criação dos filhos” (C. da P.) e “O amor companheiro – a amizade dentro e fora do casamento”(Sextante).

Atualmente, além de exercer psicanálise clínica, assina uma coluna a cada duas semanas no caderno Cotidiano da Folha de São Paulo. Foi, durante um ano, consultor psicanalítico para o programa Encontro com Fátima Bernardes, da TV Globo.



Livros

  • A Natureza Humana Existe2015 / Casa da Palavra
  • Onde Foi Que Eu Acertei2010 / Casa da Palavra
  • O Amor Companheiro2004 / Sextante
  • O Aprendiz de Liberdade2000 / a confirmar
  • O Aprendiz do Desejo1997 / 7Letras
  • A Criação Segundo Freud1992 / 7Letras

Vídeos

  • Comportamento humano no BBB2017
  • Ciúmes na família2017
  • Esquecer do Ex2017
  • Relação entre primos2017
  • Assimetria2017
  • Ciúmes dos pais2017
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  • Pessoa com traços psicóticos2017
  • o humor na vida2017
  • Casamento2017
  • Paixão por ídolos2017
  • Autoestima2017
  • felicidade2017
  • Papel da avó na criação dos filhos2017
  • Exibicionismo2017
  • Ganhar a vida x profissão dos sonhos2017
  • Amizade duradoura2017
  • Rebeldia e divergência2017
  • Ciúmes entre irmãos2017
  • Raízes do medo2017
  • Resposta ao pânico2017
  • Bullying2017
  • Jô Soares2013
  • Cosme Velho Anos 702013
  • Tempos Cruzados: Autoritarismo e a morte de Freud2012
  • Arquivo N: Freud 150 Anos2006
  • Globo News – Espaço Aberto: O Autor Mente Muito2001
  • Senac TV: O Autor Mente Muito2001
  • Globo News – Espaço Aberto: O Aprendiz do Desejo1997